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Uma proposta de Recreação e Lazer para a comunidade de Vila Santana

Uma proposta de Recreação e Lazer para a comunidade de Vila Santana

Ubatuba – SP.

                

Gizelle Maria Nogueira Martins – Licenciada em Educação Física - [1]

Luiz Fabiano Seabra Ferreira – Prof. Ms. [2]

 

Artigo publicado nos anais do XVII ENAREL – Encontro Nacional de Recreação e Lazer realizado na PUC-PR – Curitiba – PR (2006)

 

Resumo

 

Este estudo foi desenvolvido na comunidade denominada Vila Santana, no município de Ubatuba, SP, com o objetivo de construir uma relação dialética entre os pesquisadores e os membros desta comunidade. Com a intenção para a busca de possibilidades de construir uma compreensão sobre os significados atribuídos pelos participantes nas vivências (brincadeiras, jogos, oficinas de brinquedos com material reciclado e outras atividades recreativas e lúdicas), foi implantado um projeto de recreação e lazer na comunidade. Com enfoque qualitativo, foi realizada uma pesquisa participante, na qual os instrumentos utilizados para coleta de dados foram os relatos de observações das atividades desenvolvidas, entrevistas semi-estruturadas por meio de uma pergunta norteadora e a utilização de um vídeo como recurso adicional. Com base nos resultados do estudo, pode-se perceber que as atividades vivenciadas proporcionaram além da possibilidade de expressões sensíveis e prazerosas, a valorização da auto-estima, o respeito pelo outro, a cooperação, a afetividade, a socialização, a construção de conhecimento, a criatividade, a autonomia, o envolvimento e o reconhecimento da importância desse momento de lazer, vivenciado como espaço de liberdade, divertimento, prazer, recreação, entretenimento, informação e formação, educação, participação, “veículo” e “objeto” de desenvolvimento humano.

 

Palavras-Chave: Iniciação Científica, Lazer, Comunidade.

 

 

O primeiro passo de uma caminhada

 

A escolha do tema surgiu de observações e da convivência (como funcionária do Programa Saúde da Família) com uma comunidade denominada Vila Santana, situada no bairro Araribá, no município de Ubatuba, há trinta e seis kilômetros do centro da cidade.

De acordo com informações colhidas entre os moradores mais antigos, esta comunidade começou a se formar lentamente a partir do ano de 1995, por pessoas que migraram de Minas Gerais e outros estados do Nordeste acalentando o sonho de um emprego, de acesso à educação de qualidade, de bens e serviços distantes de sua realidade anterior.

Ainda em processo de formação, a vila continua crescendo, sem planejamento, ocupando áreas de proteção ambiental, sem infra-estrutura de serviços públicos, áreas de lazer, saneamento básico, habitação, água tratada, sistema de esgoto adequado, destino correto do lixo, apresentando como resultado deste processo, sinais de deformação que atingem diretamente a população: prostituição, promiscuidade, tráfico e consumo de drogas e bebidas alcoólicas, altos índices de gravidez na adolescência, desemprego, escassez material, analfabetismo, caracterizando esta comunidade como a segunda maior concentração de pobreza do município de Ubatuba.

Poder contribuir para a formação e para o desenvolvimento de seres humanos capazes de transformar a si próprios e a sua realidade é o que se pretendeu.

Segundo Brandão (1986, p.19): “O estudo e o conhecimento da realidade são também necessidades imperativas do ponto de vista dos que querem transformá-la”.

 

(…) Pensamos que a finalidade de qualquer ação educativa deva ser a produção de novos conhecimentos que aumentem a consciência e a capacidade de iniciativa transformadora dos grupos com quem trabalhamos. Por isso mesmo, o estudo da realidade vivida pelo grupo e de sua percepção desta mesma realidade constituem o ponto de partida e a matéria – prima do processo educativo. (BRANDÃO, 1986, p.19).

 

A ação educativa se concretizou por meio da implantação de um projeto de recreação e lazer na comunidade[3], com a intenção de encontrar possibilidades de construir uma compreensão sobre os significados atribuídos às vivências como brincadeiras, jogos, oficinas de brinquedos com material reciclado e outras atividades recreativas e lúdicas. Concordamos com Marcellino (1987), no que diz respeito a  utilização das potencialidades educativas do lazer como canal possível para a busca de transformações.

Brandão (1986, p.19) citando Paulo Freire diz que:

 

educação não é sinônimo de transferência de conhecimento pela simples razão de que não existe um saber feito e acabado, suscestível de ser captado e compreendido pelo educador e, em seguida, depositado nos educandos. O saber não é uma simples cópia ou descrição de uma realidade estática. A realidade deve ser decifrada e reinventada a cada momento, Neste sentido, a verdadeira educação é um ato dinâmico e permanente de conhecimento centrado na descoberta, análise e transformação da realidade pelos que a vivem.

 

De acordo com Chizzotti (1991), a pesquisa abri novas perspectivas para o conhecimento humano. As descobertas e invenções, a explicação e a previsão, as análises e a compreensão renovaram todos os campos do saber. Pesquisar tornou-se uma atividade indispensável ao saber e a vida, uma das prioridades nacionais e um pré-requisito do desenvolvimeto.

Neste estudo, a metodologia empregada foi a pesquisa participante (Brandão, 1986; Chizzotti, 1991) buscando adentrar, compartilhar e compreender o universo de significados relacionados ao tema enfocado. A abordagem qualitativa se fez necessária, pois trabalhou-se:

 

um nível de realidade que não pode ser quantificado; trabalhando com um universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações dos processos dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. (MINAYO, 1994, p.21)

 

Adotou-se o que Roger (1999) chama de Antropologia Complexa[4]. Vale destacar que, mesmo tendo adotado um olhar antropológico sobre os dados desta pesquisa, não se desprezará a possibilidade de outros enfoques (fenomenológico e sociológico), pois a pesquisa qualitativa possibilita uma variedade de opções quanto à forma de compreender o tema investigado.

Segundo Morin (2000, p.207):

 

O pensamento complexo é, pois, essencialmente o pensamento que trata com a incerteza e que é capaz de conceber a organização. É o pensamento capaz de reunir (complexus: aquilo que é tecido conjuntamente), de contextualizar, de globalizar, mas, ao mesmo tempo, capaz de reconhecer o singular, o individual, o concreto.

 

Os conceitos e teorias utilizados neste estudo, referentes ao lazer, ao esporte, ao espaço e ao tempo foram obtidos na Educação Física, Antropologia e Sociologia.

A interpretação dos dados (analise de conteúdo) foi realizada por meio de relatos de observações das atividades desenvolvidas, uma entrevista semi-estruturada com os participantes, e a filmagem de um vídeo que auxiliou e enriqueceu a interpretação e compreensão dos significados construídos no decorrer das vivências.

 

Os dados são colhidos, iterativamente, num processo de idas e voltas, nas diversas etapas da pesquisa e na interação com seus sujeitos. Em geral, a finalidade de uma pesquisa qualitativa é intervir em uma situação insatisfatória, mudar condições percebidas como transformáveis, onde pesquisador e pesquisados assumem voluntariamente, uma posição reativa. (CHIZZOTTI, 1991, p.89).

 

Privilegiou-se a discussão dos diálogos (entrevistas com os sujeitos) com a teoria fornecida pelos autores, “entrecruzando” sua idéias e conceitos formando uma espiral e construindo-se uma totalidade, na qual não há cisão entre teoria e pesquisa de campo, mas sim um entrelaçamento constituindo uma teia, onde a compreensão dos significados está conectada.

Brandão (1986) argumenta que o objetivo da pesquisa social e da ação educativa é motivar e instrumentar grupos populares para que assumam sua experiência cotidiana de vida e trabalho, como fonte de conhecimento e de ação de transformação.

 

O lazer e seus desdobramentos

 

A proposta de um projeto de recreação e lazer para a Vila Santana foi o instrumento de intervenção prática utilizado, contemplando o lazer como canal educativo, rico em potencialidades e possibilidades, compreendido e vivenciado como espaço de liberdade, divertimento, prazer, recreação, entretenimento, informação e formação, educação e participação.

Segundo Marcellino (1987), o lazer entendido como um veículo de educação, deve possibilitar o desenvolvimento das potencialidades pessoais e sociais dos indivíduos.

Uma moradora de Vila Santana, mãe de dois filhos e participante do projeto afirma:

Quando mudei para o Araribá, sempre tive vontade de participar de atividades com meus filhos e as crianças da rua, mas nunca tinha nada para se fazer nos finais de semana.

 

 As atividades do projeto foram realizadas nas tardes de sábado em uma das ruelas mais populosas da vila, chamada de Rua da Rocha. A falta de espaço e de estrutura física não foram empecilhos para a realização das práticas. Mesmo com as dificuldades enfrentadas como o declive da rua, os buracos, a terra, as pedras, a vontade de participar e vivenciar as atividades superou todos os obstáculos.

 

Eu tenho um sonho e peço a Deus que um dia possamos juntos realizar: é o de ter um lugar certo para as atividades com as crianças, pois para mim foi muito bom, um momento especial, uma coisa que eu nunca tive. (Marizete é moradora, mãe e participante do projeto).

 

A partir dos relatos das observações e da interpretação dos dados, foi possível privilegiar alguns temas que serão descritos a seguir, e que contribuirão para mais reflexões.

O tema meio ambiente foi abordado como atividade vivenciada pelas crianças por meio de uma dramatização realizada no dia mundial do meio ambiente, cuja proposta foi a de representar com o corpo o nascer de uma árvore, seu desenvolvimento, sua importância, e a sua luta pela sobrevivência diante da envolvente narração, que conduzia as crianças durante as expressões corporais, utilizando “pom-pons” feitos de papel crepom para incrementar a representação das folhas das árvores.

Assuntos como preservação, conservação e a recuperação do meio ambiente, limpeza das ruas e reciclagem do lixo também foram abordados durante a atividade.

Segundo Schwartz (2000), atividades lúdicas e de sensibilização favorecem a curiosidade, a aproximação natural, a criatividade, a sensibilidade e a afetividade, componentes imprescindíveis para mudanças de atitudes. Essas transformações buscam construir um equilíbrio consciente entre o interno (corpo) e o externo (ambiente) caracterizando uma ressignificação do próprio corpo, bem como do ambiente natural no qual as atividades se desenvolvem.

Ilustrando essas idéias, a participante do projeto afirma:

 

Desde que o projeto começou, minha vida e a vida de todas as crianças melhorou muito, até mesmo das mães. O projeto ensinava por meio de brincadeiras a preservar o meio ambiente e a reciclar também. (Evellyn, adolescente e participante do projeto).

 

Segundo o PCN, Meio Ambiente e Saúde (1997, p.48):

 

O trabalho com a realidade local possui a qualidade de oferecer um universo acessível e conhecido e, por isso, passível de ser campo de aplicação do conhecimento. Grande parte dos assuntos mais significativos para os alunos estão circunscritos à realidade mais próxima, ou seja, sua comunidade, sua região, E isso faz com que, para a Educação Ambiental, o trabalho com a realidade local seja de importância vital.

 

Um outro momento que merece destaque vivenciado pelas crianças e por algumas mães e diz respeito ao tema enfocado, foi uma caminhada realizada até uma área verde arborizada e gramada, com espaços naturais que permitiram o desenvolvimento de inúmeras atividades além de um piquenique, privilegiando o contato com a natureza.

Nota-se aquilo que Brandão (1994, p.29) chama de:

 

afirmação generosa da gratuidade, referindo-se à gratuidade para com os elementos da natureza; da ociosidade sadia, onde há a possibilidade de reversão do esforço físico para a própria pessoa. A realização prazerosa de algo que tem valor em si e não para outro fim.

 

        Ainda sobre o assunto o mesmo autor afirma:

 

Trata-se, portanto, da passagem de “um agir sobre a natureza a um trocar gestos recíprocos com a natureza”. (BRANDÃO, op, cit., p.76).

 

         Vale ressaltar que embora Vila Santana tenha como limites geográficos a Mata Atlântica, a bagagem cultural da população e a falta de espaço físico não privilegiam os ambientes naturais em vários aspectos. Mas para a participante do projeto citada a seguir, a vivência deste contato significou possibilidades de uma nova visão. A esse respeito ela diz:

 

Num desses sábados, combinamos de fazer um piquenique (…) porque o lugar era espaçoso. Eu e outras mães fizemos bolos, sucos e levamos. Foi tão divertido… as crianças adoraram e passaram uma tarde animada.  (Vera é moradora, mãe de dois filhos e participante do projeto). 

 

                        Sobre a relação entre o homem e a natureza, Bruhns (1997, p.12) afirma que:

 

O tema do corpo visitando a natureza requer a compreensão da corporeidade como presença no mundo, sendo o movimento humano a expressão dessa corporeidade. O movimento humano representa portanto, uma forma de comunicação, um diálogo entre o homem e o mundo.

 

Segundo o PCN, Meio Ambiente e Saúde (1997, p.74), para que se desenvolva valores e atitudes de respeito ao meio ambiente, é necessário que se conheça a natureza que se quer defender, por que as pessoas protegem aquilo que amam e valorizam:

 

O que mais mobiliza tanto as crianças quanto os adultos a respeitar e conservar o meio ambiente é o conhecimento das características, das qualidades da natureza, é perceber o quanto ela é interessante, rica e pródiga, podendo ser ao mesmo tempo muito forte e muito frágil; e saber-se parte dela, como os demais seres habitantes da Terra, dependendo todos – inclusive sua descendência – da manutenção de condições que permitam a continuidade desse fenômeno que é a vida em toda a sua grandiosidade.

 

        Além das visitas realizadas em ambientes naturais os participantes desenvolveram brincadeiras populares, brincadeiras com cordas, jogo de queimada e taco, pique – pega, pique – bandeira, pega – corrente, futebol, brincadeiras de vôlei e de basquete, peteca, danças, foram alguma das principais atividades escolhidas e vivenciadas pelas crianças durante o projeto.

         A esse respeito, Freire e Scaglia, (2003, p.9) afirmam:

 

Queremos que o jogo seja um componente privilegiado da educação (…) pretendemos demonstrar que o ambiente lúdico, além de facilitar o ensino de diversos conteúdos, cria condições para que o aluno trabalhe com a criatividade, a moralidade e a sociabilidade.

 

         É importante ressaltar que o lazer utilizado como canal educativo proporcionou contemplar o jogo como instrumento pedagógico em muitos momentos. Houve a preocupação em lançar desafios, problematizar situações, privilegiando tomadas de consciência e aprendizagens significativas.

         Sobre os jogos e brincadeiras, uma participante afirma:

 

A gente não via a hora de chegar o final de semana para participar do projeto, com nossas brincadeiras. Brincávamos de corda, bola, vôlei, e outras coisas, mas o que as crianças gostavam, era de corda e futebol.  (Vera é moradora, mãe de dois filhos e participante do projeto).

 

         Percebe-se essa importância do jogo, na fala de outra participante:

 

Foi quando pedi ao meu esposo Valter que jogasse futebol com meu filho Jonas, aí foram chegando os coleguinhas e meu quintal chegou a ter por volta de quinze crianças brincando com muita alegria e eu fui para a rua jogar vôlei com outras crianças e minha vizinha Vera. Eu me diverti tanto que nem vi o tempo passar. (Cláudia é moradora, mãe de dois filhos e participante do projeto).

 

         Em geral, as atividades vivenciadas como jogos proporcionaram às crianças o desenvolvimento das habilidades de deslocamento, manipulação, estabilização, desportivas, sociais, afetivas, intelectuais, perceptivas, simbólicas e de cooperação.

         Atividades privilegiando a expressão corporal também foram vivenciadas. Numa das tardes de sábado, quatro adolescentes voluntárias uniram-se para ensaiar uma coreografia para apresentá-la na vila, com a intenção de ensinar e despertar nas crianças movimentos expressivos, integração, participação e outros elementos peculires que só a música proporciona. O grupo se apresentou e as crianças logo se uniram para aprender os passos, outros adolescentes sentiram-se à vontade para demonstrar suas próprias coreografias houve uma troca e uma integração.

         Para Freire e Scaglia (op. cit., p.77):

 

Essas atividades mobilizam, acima de qualquer outro componente, as coordenações espaciais e temporais. Do ponto de vista social, são inegavelmente integradores e, além disso, constituem recursos excelentes para lidar com questões emocionais e sexuais.

 

         Outro momento envolvendo a dança aconteceu durante uma brincadeira de roda, com a participação das crianças menores, na qual foi possível vivenciar e trabalhar as habilidades perceptivas, o ritmo, habilidades sociais, afetivas e simbólicas, As brincadeiras com cordas também estiveram presentes nas vivências destas crianças menores.

         Pôde-se perceber que a convivência entre os participantes durante o projeto produziu novos significados referentes à amizade, sociabilidade e cooperação:

 

Exercitando no jogo e no esporte a reflexão criativa, a comunicação sincera, a tomada de decisão por consenso e a abertura para expe-rimentar o novo, todos podem descobrir que são capazes de intervir positivamente na construção, transformação e emancipação de si mesmos, do grupo e da comunidade onde convivem. (BROTTO, 2001, p.63).

 

         As oficinas de brinquedos proporcionaram os momentos mais marcantes do projeto, traduzidos pela satisfação, prazer, alegria, liberdade, contemplação, participação, vivenciados pelas crianças.

         Em vários momentos durante a produção dos brinquedos, assuntos como lixo, reciclagem, meio ambiente foram abordados de forma significativa.

         A primeira oficina apresentou como conteúdo a produção do brinquedo barangandâo. Momentos de completa alegria e valorização da auto-estima foram registrados.

         Para Oliveira (1984, p.49), a criança aprende a se expressar no mundo, criando e recriando novos brinquedos pois:

 

Em cada brinquedo sempre se esconde uma relação educativa. Ao fazer seu próprio brinquedo, a criança aprende a trabalhar e a transformar elementos fornecidos pela natureza ou materiais já elaborados, constituindo um novo objeto, seu instrumento para brincar.

 

         Sobre o assunto, Santos (2001, p.159) afirma:

 

Com a ajuda do brinquedo ela pode desenvolver a imaginação a confiança, a auto-estima e a cooperação. O modo como a criança brinca revela seu mundo interior. O brinquedo contribui, assim, para a unificação e integração da personalidade e permite à criança entrar em contato com outras crianças.

 

         A construção de pipas representou outro momento vivenciado pelas crianças e por alguns adolescentes que se envolveram voluntariamente para ensinar as menores.         

         A última oficina de brinquedos realizada como atividade do projeto, privilegiou a sucata como material utilizado na fabricação dos brinquedos.

         Garrafas de plástico, revistas velhas, tampinhas, cabos de vassoura, barbante, cordas, entre outras, foram as matérias primas que acopladas à criatividade, se transformaram em brinquedos.

         As crianças puderam contemplar e brincar com alguns brinquedos fabricados a partir de material reciclável, levados como amostra, na intenção de motivar à criação e transformação da sucata, nas mais diversas formas possíveis e imagináveis de brinquedos.

         E nesse momento, algo muito significativo aconteceu. Observou-se que as crianças conseguiram compreender que aquilo que era lixo poderia ser transformado em algo que proporcionasse prazer e satisfação: – o brinquedo e também o momento que antecede essa transformação, envolvendo a criatividade, a autonomia, a socialização, a cooperação, a produção de conhecimento significativo e de expressões sensíveis e prazerosas.

         Sobre a oficina e brinquedo, a participante relata:

O meu irmão aprendeu a fazer brinquedos de material reciclável, eu acho que ele aprendeu muito desde que o projeto começou. (Evellyn adolescente e participante do projeto).

 

         O envolvimento e a colaboração de algumas mães durante as oficinas foram bem significativos, conforme afirma uma delas:

 

Outra coisa que gostei foi do trabalho reciclável que teve no meu quintal com todas as crianças. Foi muito legal. (Cláudia, moradora mãe de dois filhos e participante do projeto).

 

         Sobre a importância desse momento a professora completa:

 

Foi muito gratificante ter participado desta oficina. Eu me senti parte daquela comunidade, fui envolvida pela alegria das crianças e das mães que estavam presentes naquele momento. (Dilma, professora e voluntária do projeto).

 

         Considerações Finais

 

         Percebe-se que um “mundo novo” se abriu diante daquelas crianças. O olhar e a contemplação transcenderam a realidade. Houve esperança e confiança, e um novo processo de construção se iniciou. A construção de uma nova identidade, da auto-estima, com possibilidades de transformação de si mesmos, das pessoas ao redor e da própria comunidade como um todo.

         De acordo com Brandão (1986, p.33):

 

Motivar e instrumentar grupos populares para que assumam sua experiência cotidiana de vida e de trabalho como fonte de conhecimento de ação de transformação acreditamos ser o objetivo da pesquisa social e da ação educativa numa perspectiva libertadora.

 

         Testificando a citação acima, uma moradora, mãe e participante afirma:

 

(…) antes do projeto começar não pensávamos em parar para brincar com nossos filhos, sempre trabalhando, cuidando do dia – a – dia, e nossos filhos crescendo e precisando de mais atenção. Aí o projeto chegou e nos mostrou que nós podemos dividir nosso tempo. (Cláudia).

 

           Em resumo, tais indicadores sinalizam que a pesquisa científica representa uma importante ferramenta capaz de intervir na realidade para auxiliar na resolução de problemas, superar obstáculos, criar novas perspectivas, modificar comportamentos, motivar grupos a fim de que se tornem auto – suficientes, com autonomia para agir e interagir com toda a comunidade, transformando-a, fazendo com que uma situação opressiva se torne ação coletiva capaz de proporcionar mudanças em todos os aspectos.

           

 

 

 

 

Referências

 

BRANDÃO, C. R. Pesquisa Participante. 6ª ed., São Paulo: Brasiliense S.A. ,1986.

BRANDÃO, C. R. “Espaços públicos de lazer e cidadania”. Porto Alegre: Revista A paixão de aprender, n. 6, 1994.

BROTTO, F. Jogos Cooperativos: O jogo e os esportes como um exercício de convivência. Santos, SP: Projeto Cooperação, 2001.

BRUHNS, H. T. Lazer e Meio Ambiente: Corpos Buscando o Verde e a Aventura. Revista Brasileira de Ciência do Esporte, v 8, n. 2, 1997.

CHIZZOTTI, A. Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais. São Paulo: Cortez, 1991.

FREIRE, J. B. & SCAGLIA, A. J. Educação como Prática Corporal. São Paulo: Scipione, 2003.

KISHIMOTO, T. M. (org), Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 1996.

MARCELLINO, N. C. Lazer e Educação. Campinas, São Paulo: Papirus, 1987.

MINAYO, C. S, (Org) Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1994.

MORIN, E. & LE MOIGNE, J. L. A inteligência da complexidade. São Paulo: Peirópolis, 2000.

OLIVEIRA, P. S. O que é brinquedo. São Paulo: Brasiliense, 1984.

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS: Meio Ambiente e Saúde, v.9, Brasília: 1997.

ROGER, E. Uma antropologia complexa para entrar no século XXI: chaves de compreensão. In: PENA – VEJA, A. & DO NASCIMENTO, E. P. (Orgs) O pensar complexo: Edgar Morin e a crise da modernidade, 2ª ed. Rio de Janeiro: Garamond, 1999.

SANTOS, S. M. P. Brinquedoteca: a criança, o adulto e o lúdico, Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

SCHWARTZ, G. M. O corpo sensível como espaço ecológico. Motus Corporis, v 8, n. 2, p. 49-54, 2000.

                                                                                         


[1] gijo_santos@yahoo.com.br

[2] seabrafabiano@hotmail.com.br

[3] As atividades do projeto foram realizadas aos sábados totalizando 18 dias de práticas recreativas.

[4] Os escritos de Roger (1999, p.89) enfatizam a necessidade de uma “antropologia complexa” que possibilite um nova visão sobre o fenômeno humano. Nesse sentido, o autor expõe que a “velha antropologia” operava a partir de uma visão simplista, reducionista e dicotomizada sobre o humano. A antropologia complexa baseia-se no método proposto por Edgar Morin, no qual se delineia um novo caminho epistemólogico, a partir de uma abordagem “complexa” sobre o fenômeno humano. A idéia de uma epistemologia da complexidade diz respeito a todos os níveis do real: físico, biológico, antropológico, sociopolítico. “As complexidades antropológica, sociológica, ética, política, histórica – pois estes são os níveis mais importantes em que o homem encontra o seu modo de estar no mundo – devem ser entendidas como diferentes faces de um mesmo fenômeno: o fenômeno humano”.

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