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Compreensão de ética na pesquisa. Parte II

Parte II
 

 

ÉTICA E MEDICINA, A BIOÉTICA.

Palácios et al (2001) organizam vários textos que desenvolvem os fundamentos filosóficos, sociológicos, históricos, o significado de bioética e os campos de aplicação na formação dos médicos, enfermeiros e agentes de saúde. Trata da manipulação dos genes e da clonagem, trazendo opiniões diversas de especialistas brasileiros de diferentes áreas do saber. Apresenta o Código de Ética do Conselho Nacional de Saúde que, em 1996, estabeleceu as diretrizes e normas regulamentadoras das pesquisas envolvendo seres humanos. Ampliam-se as discussões acerca das questões éticas envolvendo o desenvolvimento técnico-científico na área da saúde. É um livro que traz a pluralidade de pensamentos que caracteriza o cenário nacional da bioética. Divide-se em duas partes: a bioética e as aplicações da bioética. Ética e Saúde, o primeiro texto, trata da ética de forma geral, concentra-se no caso da eutanásia, colocando a diferença entre a ética laica (que apenas utiliza a razão, desenvolvida a partir de Descartes) e a ética sacra (que parte de pressupostos imutáveis como o de Bem e o de Mal). Os demais textos desta primeira parte tratam de ciência e ética de uma ampla forma. Na segunda parte (a aplicação da ética), encontram-se textos sobre a ética – na prática médica, as informações para os usuários, a formação médica, os serviços de saúde – tratada em três textos: o primeiro anunciando como desenvolve o setor saúde, o segundo sobre a alocação de recursos em saúde e o terceiro sobre as políticas de saúde. Os dois últimos textos tratam de Ética na pesquisa, também citados no item pertinente a esse tema, a seguir.

Oliveira (1997) revela a origem da bioética, os problemas biomédicos, antes de 1980. Analisa os conflitos éticos agravados ou originados pelos avanços tecnológicos desta área. As manipulações genéticas, os direitos reprodutivos, a contracepção, as novas tecnologias, o direito ao aborto exigem ética, mostrando que a bioética é a luta pelos direitos humanos, da ampliação da cidadania e de delegação de responsabilidade e poder à sociedade. Inicia com o desafio proposto por diversas doenças: câncer, aids, os transplantes de órgãos e de genes, a saúde mental, os doentes terminais, a morte e o morrer, experiências médicas, a eutanásia, a manipulação genética, clonagem, sexualidade, a procriação, os contraceptivos, a esterilização, a fertilização extra corpórea, concepção in vitro, o bebê de proveta, políticas de população e a defesa do planeta Terra. Realiza a história das tecnologias da procriação animal e em humanos. Mostra o sucesso e os erros médicos na manipulação da técnica. Conta casos como o de um casal que, depois de realizar uma inseminação artificial gerando três embriões, um fora implantado, mas não vingou e os outros dois foram guardados. Posteriormente o casal separou-se e originou-se uma discórdia, pois a mulher queria usar os embriões e o pai não. O caso foi para na justiça e o juiz decidiu dar a posse à mãe. Outro exemplo, diz respeito a uma viúva que não obteve permissão para utilizar seus embriões, pois na época da coleta ela assinara um temo circunstancial autorizando a liberação se houvesse a presença do cônjuge. Novamente o caso foi parar na justiça e o juiz determinou a destruição dos mesmos. Há muitas outras histórias, como maternidade e paternidade post-mortem, pós-separação, erro na escolha do sêmen entregando filho branco a casal negro, médicos que doam, escondidos dos seus pacientes, seus próprios sêmens, para obterem uma prole numerosa; gravidez pós-menopausa movida a lazer, testes genéticos facilitando abortos de fetos não desejáveis, industrialização e comercialização de óvulos obtidos de mulheres recém-falecidas, proibição de filhos entre casais com doenças genéticas (eugenia) e clonagem de embriões humanos.

Martins (2001) analisa, em “Tópicos de Bioética, à luz da Doutrina Espírita”, as possibilidades de avanço científico dentro de padrões de moralidade estabelecidos pelo homem, destacando a moral de Jesus. Ser ético é ser cidadão, possibilitando o convívio harmonioso entre os povos. A bioética cuida do emprego dos conhecimentos biológicos, no contexto da vida humana, bem como suas inevitáveis implicações ético-morais. Indica que os conhecimentos da biologia datam da época de Aristóteles, mas faz referência às descobertas do século XIX. Analisa uma frase do filósofo Rousseau: o homem não é propriamente mau, mas ignorante das leis físicas e morais de Deus. Seguir essas leis é a possibilidade de felicidade. O homem conheceu a possibilidade de utilizar a energia nuclear, para o bem e para o mal. A ética encara a virtude como prática do Bem, promovendo a felicidade dos indivíduos, quer separadamente, quer em coletividade. Faz uma crítica à globalização ou à falsa denominação do capitalismo, e aos Estados Unidos, que vivem parasitando o restante do planeta, juntamente com a união européia, exaurindo os recursos naturais da biosfera – sem atacar, diretamente, o povo de lá, mas o regime e o sistema econômico imposto pelos seus líderes. A palavra bioética foi criada por um médico americano em 1971. Na Itália recebe dois tipos de classificação: bioética cotidiana (relação com problemas antigos como a fome, o racismo, a discriminação sexual, a violência, incluindo a violenta poluição da natureza, e as várias situações de aborto) e bioética de fronteira (relação com a reprodução assistida, o bebê de proveta, a doação de órgãos, a barriga de aluguel, a clonagem humana). A bioética cuida do emprego dos conhecimentos biológicos no contexto da vida, bem como suas inevitáveis implicações ético-morais. As medidas eugênicas: a palavra eugenia foi criada pelo sobrinho de Charles Darwin para designar o estudo dos agentes que, tecnicamente controlados, podem melhorar a raça, modificando as características físicas e mentais das futuras gerações; significa: eu (= bom) + genos (=descendência). São três os tipos de medidas eugênicas: negativas (medidas que impedem a procriação de indivíduos com possíveis problemas. Foram proibidos casamentos entre deficientes mentais, epilépticos, portadores de doenças venéreas, no tempo em que não havia tratamento para elas). Auxiliares (medidas que impedem o contato entre indivíduos portadores de doenças contagiosas. São os exames pré-natais, controles de natalidade, através das tabelas de fertilidade da mulher). Por fim, as medidas Positivas (favorecem o casamento entre indivíduos sadios, melhorando a prole). O espiritismo só aceita o aborto em que haverá risco para a vida da mãe. A clonagem é outro assunto tratado pelo autor, que explica detalhadamente como foi realizada a primeira clonagem, dando nascimento à ovelha Dolly. Afirma que o Espiritismo não é contrário ao progresso científico e vê com bons olhos o melhoramento das espécies. Um clone poderá, no futuro, ser conseguido, terá as mesmas características físicas, mas não morais; filhos de nascimento naturais não herdam, também, os caracteres espirituais dos pais; o clone será outra pessoa, com outras características. A eutanásia ativa (uso de medicamento) ou passiva (desligamento dos aparelhos) são práticas contra a moral, e entram em choque com a bioética. O Espiritismo não possui a mesma visão da Ciência quanto à morte (desencarne, para o Espiritismo); assim, a eutanásia implica malefícios para os espíritas, sendo imoral e contra as propostas religiosas pregadas por eles. Quanto aos transgênicos, o Espiritismo não se posiciona contra, crendo que a tecnologia pode auxiliar o desenvolvimento da humanidade. Os transplantes e a doação de órgãos podem gerar uma perturbação espiritual, segundo os espíritas, a não ser que a pessoa doadora tenha alcançado um estado evolutivo de desprendimento total da materialidade. A poluição e a ecologia também são tratadas pela bioética. O autor analisa, por fim, a reprodução assistida nos casos de infertilidade, o bebê de proveta, a barriga de aluguel e o congelamento de embriões, explicando seus processos. No caso do bebê de proveta, argumenta que não se trata de um bebê de proveta, propriamente, pois houve apenas a fecundação extra-corpórea e o embrião foi levado para o útero da dona do óvulo inicial ou para o de outra mulher (barriga de aluguel); a situação se complica se o caráter é mercenário. O Espiritismo condena a destruição dos embriões não utilizados. O autor dedica os dois últimos capítulos ao tema mudança de sexo (é favorável por ser um livre arbítrio) e ao bioterrorismo (uso de micróbios naturais, no caso, o antraz, ou carbúnculo, um microorganismo fatal e altamente resistente); aconselha a necessidade de um código de ética inspirado na moral cristã: “Amai-vos uns aos outros tanto quanto eu vos amei”.

Pegoraro (2002) escreve sobre ética e bioética, da subsistência à existência. O primeiro capítulo é sobre ética da solidariedade antropocósmica: os dois primeiros textos tratam da ciência, os demais sobre o homem e a natureza. A ética como horizonte da vida, a ética para a tecno-ciência e sua união com o antropologismo; os problemas éticos decorrentes, o lugar do homem na ciência da evolução, o imperativo tecno-científico, o retorno à natureza e a solidariedade antropológica, ontológica e ética, finalizando com a dignidade humana e a biomedicina. No segundo capítulo, desenvolve uma história da ética e centraliza no tema da pessoa, a individualidade, a existência relacional e temporal, trazendo, como base, a filosofia de Santo Agostinho. O terceiro capítulo aborda os paradigmas da ética e da bioética, expondo conceitos gerais de bioética, a bioética através dos séculos, do respeito mútuo, o pluralismo, a bioética confessional e os modelos clássicos (personalismo) e o contemporâneo (a antropologia personalista). Para finalizar, trata do principialismo, autonomia, beneficência e justiça, e a ética e bioética fenomenológica.

 

ÉTICA E PROFISSÃO

Os autores deste artigo são Educadores Físicos. Portanto, a ética, nesta seção, será discutida sob a perspectiva da profissão de Educação Física. Além disso, a Educação Física é uma profissão que fora recentemente regulamentada (o Brasil foi o primeiro país no mundo a regulamentar, oficialmente, o profissional de Educação Física). Seus ideais também se aproximam muito dos ideais gregos da felicidade e do viver bem (qualidade de vida e saúde), assim como de um ideal olímpico dentro dos esportes.

Tojal (2004) organiza vários textos apresentando os valores morais presentes no sistema que normaliza a profissão da Educação Física, ligando-o à ética do profissional de saúde. Sob este aspecto, há uma deficiência em fundamentações filosóficas, consistindo, o ensino da ética, somente na repetição de um conjunto de normas impositivas, que constituem o chamado código de ética profissional ou código deontológico. Deontologia é a adesão aos princípios filosóficos que se aplicam ao cotidiano profissional. É impossível conduzir a conduta dos profissionais de saúde apenas a partir de um código profissional. Assim, há o ideário atribuído a Hipócrates, pai da Medicina, acrescido de: prudência, temperança, coragem, fortaleza, justiça, generosidade, compaixão, humildade, tolerância, misericórdia, fidelidade, solicitude e entusiasmo, que visam fortalecer o seu caráter profissional humanista e altruísta. Há três textos, organizados por Tojal, sobre deontologia da ética da Educação Física, mostrando seus fundamentos e apresentando os desafios atuais destes profissionais. Há textos sobre o código de ética, suas considerações históricas e filosóficas e o direito com base no consenso dos comportamentos de ordem moral e o código processual: infrações, penalidades e julgamento. O autor apresenta os estudos acadêmicos sobre ética em Educação Física, a bioética, a vida profissional, o pensamento de Habermas como fundamento moral para avaliar os dilemas profissionais, a formação do esporte, a identificação dos valores para o estudo da moral no esporte, o modelo pioneiro de ética profissional da Educação Física brasileira, por Oswaldo Diniz Magalhães, finalizando com a ética da intervenção institucional em grupos sociais vulneráveis, como é o caso das missões católicas em trabalhos com índios. Acrescenta, ainda, uma reflexão sobre ética e docência. Como anexo, apresenta os códigos de ética dos profissionais da Educação Física, do educador físico, desportivo e recreativo.

 

ÉTICA E JUSTIÇA

            Pegoraro (1995) divide seu livro em duas partes. Na primeira, defende a tese que coloca, no centro de qualquer discussão ética, a justiça, que ilumina a subjetividade humana e a ordem jurídico-social. Inicia como quase todos os estudos sobre ética, recordando Aristóteles que coloca a justiça como o centro animador de todas as virtudes: somos éticos em relação aos outros. Encerra esta discussão com um elogio à justiça feito por Aristóteles e Tomás de Aquino. Na segunda parte, apresenta a justiça como princípio ordenador da sociedade política: a justiça consiste em construir uma sociedade como sistema eqüitativo entre cidadãos livres e iguais. Responde às perguntas: o que é uma sociedade justa? E como construí-la? A justiça é uma virtude da cidadania. Trata da aplicação da ética a uma série de questões da vida: quando a sociedade é justa, a impossibilidade da sua construção, saúde possui um contexto político e ecologia abrange as formas de vida, a realidade cósmica e os produtos técnico-científicos. A ecologia é, antes de tudo, um problema ético. O eixo principal desta obra é a virtude, onde a justiça encontra alma e impulso.

 

ÉTICA E ECOLOGIA

Bursztyn (2001) organiza textos sobre ciência, ética e sustentabilidade, mostrando o desafio do novo século para um desenvolvimento sustentável, como uma utopia possível e de construção viável, frente à atual crise dos paradigmas que movem o progresso industrial. Ainda não há uma fórmula pronta. A Ciência possui um importante papel importante nesse sentido. Sua obra apresenta textos de vários autores que versam sobre o que é ser um intelectual, o que é a solidão, liberdade, Ciência e Educação como tendências opostas, o dilema e o desafio da Educação, segurança humana, sustentabilidade, tecnologia. Os textos revelam que o caminho para a sustentabilidade é a educação.

 

ÉTICA E O USO ANIMAL

Guimarães et. al. (2004) escrevem sobre a ética na experimentação animal e os princípios éticos do uso de animais, apresentando um histórico e a regulamentação da pesquisa com animais no Brasil.  No segundo capítulo, indica os cuidados e a manutenção que se devem aplicar no uso de animais de laboratório: as gaiolas, a ventilação, a umidade e temperatura, a iluminação, o ruído, o transporte, a nutrição, a hidratação e a manipulação. No terceiro capítulo, expõe como deve ser o cuidado com a saúde dos animais em laboratórios: temperatura, peso, olhos, orelhas, dentes, aparelhos circulatório, respiratório, geniturinário, nervoso. O quarto capítulo trata dos procedimentos experimentais. No quinto capítulo, discute a eutanásia. No sexto capítulo, trata do uso de ratos na pesquisa, na seleção genética, a manipulação, a coleta de material, sangue, urina e fezes.

Levai (2001) escreve sobre as vítimas da ciência, os limites éticos da experimentação animal. É uma denúncia aos maustratos sofridos pelos animais nas pesquisas experimentais, consideradas, por ele, como desrespeito e crueldade para com os animais. Pesquisadores ilustres acadêmicos nem sequer atentam para o sofrimento dos seres vivos utilizados nos laboratórios. O autor não só denuncia a situação, como propõe, com rigor científico e jurídico, maneiras como isso pode ser mudado.

Levai (2004), em outra obra, propõe um tratado de direito dos animais, fazendo uma busca na história da filosofia para determinar as causas filosóficas para a atual situação dos animais. Estabelece, assim, um retrospecto no tempo e comenta as doutrinas judaico-cristãs, os filósofos gregos, a escola naturalista, a doutrina antropocêntrica, o direito romano, a idade média e escolástica, o humanismo na renascença, a teoria do animal máquina, o evolucionismo de Darwin, os defensores dos animais, a não violência budista, a religião do jainismo e a mensagem de Gandhi solicitando a paz. Faz uma retrospectiva histórico-legislativa desde o tempo colonial. Dedica um capítulo sobre os crimes ambientais, apresenta a declaração Universal dos Direitos do Animal, relaciona cultura e violência, critica o uso de animais no circo, as touradas, a farra do boi, os rodeios, as vaquejadas, a briga de galo, a caça como uma licença para matar. Ainda discute o silêncio frente à experimentação animal e a vivisseção e sua lei, a tortura legitimada nos laboratórios, os testes, e oferece recursos alternativos, um aprendizado sem violência, a clonagem de animais, a engenharia genética e a bioética. Finaliza com o lado perverso dos agronegócios, os animais mortos servindo de alimento. Além disso, ressalta diversas questões práticas, como: a quem recorrer, providências policiais, justiças federal e estadual, a atuação do IBAMA, as ONGs. Por outro lado, denuncia as posturas tão antiquadas como a das “carrocinhas”, a eutanásia, os centros de controle de zoonoses, a indústria do “pedigree”, as mutilações estéticas, animais em condomínios, os bichos exóticos, a legislação vigente e os aspectos éticos.

Brügger (2004) trabalha com reflexões interdisciplinares sobre educação, meio ambiente, animais, ética, dieta e saúde. Ecóloga e educadora ambiental, coordena o projeto de extensão “Amigo Animal”, oferecido em escolas da rede. Aborda três dos aspectos mais controvertidos e nevrálgicos em que se trava a relação entre homens e animais: a relação com os animais urbanos, os animais utilizados para servirem de alimento e os animais utilizados pela ciência em experimentos científicos, fazendo uma crítica severa à ciência em termos dos resultados atingidos em pesquisas que usam animais, ressaltando diversas fraudes.

           

ÉTICA, EDUCAÇÃO E UNIVERSIDADE

Kourganoff (1990) revela a face oculta da universidade, uma radiografia das práticas universitárias instituídas e uma denúncia sobre seus elos frágeis e seus equívocos. Apesar de ser uma análise da universidade da França, sua similaridade com outros países, como, por exemplo, o Brasil, é visível. Discute as relações entre ensino e pesquisa, os carreirismos universitários e certos mitos acadêmicos. O centro de atenção desta obra reside sobre as diferenças entre ensino e pesquisa, levantando questões que envolvem desde a falta de recursos aos problemas pedagógicos, o docente pesquisador, as origens e os efeitos do primado da pesquisa, os “pseudo professores” e a ênfase na pesquisa, trazendo, em debate, questões do professor universitário, se deve ser um pesquisador, ou se todo pesquisador está capacitado para um bom desempenho no ensino. Coloca a questão: “todo pesquisador deve ensinar?”. É um livro preocupado com a ação educativa, o ensino e o professor, e revela, no seu todo e em suas partes, a íntima relação entre ética, educação, ensino, avaliação e universidade.
 
Texto publicado na revista Educação e Filosofia da UFU – Vol. 22, número 43 jan./jun. 2008

Dietas vegetarianas e desempenho esportivo

Dietas vegetarianas e desempenho esportivo

 

Vegetarian diets and sports performance

 

 

Lucas Guimarães FerreiraI; Roberto Carlos BuriniII; Adriano Fortes MaiaI, III, 1

IGrupo de Estudos e Pesquisas em Nutrição e Metabolismo do Exercício, Centro de Educação Física e Desportos, Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória, ES,Brasil
IICentro de Metabolismo em Exercício e Nutrição, Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista. Botucatu, SP, Brasil
IIIDepartamento de Desportos, Centro de Educação Física e Desportos, Universidade Federal do Espírito Santo. Av. Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, 29075-910, Vitória, ES, Brasil

 

 


RESUMO

As evidências atuais apontam benefícios da dieta vegetariana para a saúde humana. Contudo, a partir da adoção de práticas vegetarianas mais restritivas, confirmam-se os riscos à saúde. As dietas vegetarianas são caracterizadas pelo elevado consumo de carboidratos, fibras, magnésio, potássio, folato e antioxidantes, podendo apresentar deficiências em aminoácidos e ácidos graxos essenciais, cálcio, zinco, ferro e cobalamina. Pesquisas experimentais em humanos indicam que vegetarianos e não-vegetarianos apresentam capacidade aeróbica semelhante. Em relação ao desempenho em atividades de força e potência muscular, as pesquisas são escassas, mas as existentes não apontam diferenças significativas. Situações de risco cardiovascular têm sido confirmadas, devido ao provável quadro de hiperhomocisteinemia, em decorrência da baixa ingestão de cobalamina. As dietas vegetarianas são isentas de creatina, o que resulta em estoques musculares mais baixos nessa população. Possivelmente ocorrem alterações hormonais e metabólicas em resposta às dietas vegetarianas, como baixos níveis de testosterona e androstenediona. A função imune parece não ser prejudicada. Dessa forma, a prática de dietas vegetarianas apresenta-se compatível com a prática esportiva cotidiana, desde que bem planejada para evitar deficiências nutricionais.

Termos de indexação: creatina; exercício; dieta vegetariana.


ABSTRACT

Current evidences show benefits of a vegetarian diet for human health. However, when a stricter vegetarian diet is adopted, health risks are confirmed. Vegetarian diets are characterized by a high intake of carbohydrates, fibers, magnesium, potassium, folate and antioxidants and may result in a low intake of amino acids, essential fatty acids, calcium, zinc, iron and cobalamin. Experimental human researches indicate that both vegetarians and non-vegetarians present similar aerobic capacity. Regarding muscular strength and power, researches are scarce but the existent ones do not report significant differences. Cardiovascular risk situations have been confirmed, due to the possible hyperhomocysteinemia given the low ingestion of cobalamin. Vegetarian diets do not contain creatine, resulting in lower muscle reserves of this nutrient among this population. Hormonal and metabolic changes are a possibility in response to vegetarian diets, as well as low levels of testosterone and androstenedione. The immune function does not seem to be affected. Thus, a vegetarian diet is compatible with daily exercising as long as it is well planned in order to avoid nutritional deficiencies.

Indexing terms: creatine; exercise; diet, vegetarian.


 

 

INTRODUÇÃO

O vegetarianismo abrange ampla variedade de práticas dietéticas com diferentes implicações para a saúde1. Assim, há diferentes definições e fundamentações das práticas vegetarianas, como, por exemplo: a dieta vegan, que não contém nenhum produto de origem animal; a lactoovovegetariana (LOV), que inclui produtos lácteos e ovos; e a semivegetariana, que ainda inclui pequenas quantidades ou consumo esporádico de determinados tipos de carne, como peixes e aves2. As dietas não-vegetarianas, nas quais o consumo de carne é freqüente, são denominadas dietas onívoras.

A adoção de dieta vegetariana tem sido associada a diversos benefícios para a saúde da população humana, como baixas concentrações de lipídios séricos, baixos níveis de adiposidade corporal e baixa incidência de mortes por isquemia do miocárdio, diabetes mellitus e certos tipos de câncer3-5, além de uma maior expectativa de vida6. Entretanto, também tem sido objeto de preocupação, na medida em que novos estudos realçam possíveis aspectos prejudiciais à saúde com a prática do vegetarianismo. De acordo com a American Dietetic Association7, dietas vegetarianas oferecem determinados benefícios nutricionais, como a baixa ingestão de gordura saturada e colesterol – ou mesmo a não elevação desses marcadores, quando observados em relação ao envelhecimento8 – a alta ingestão de carboidratos, fibras dietéticas, magnésio, potássio, folato, antioxidantes (como as vitaminas C e E) e fitoquímicos. Em contrapartida, Sabate9 cita que a dieta vegetariana desbalanceada ou restritiva, particularmente em situações de altas demandas metabólicas (como durante o exercício), pode provocar deficiências nutricionais.

Algumas pesquisas experimentais foram realizadas no intuito de investigar a relação entre a dieta vegetariana e o desempenho esportivo. Discute-se se tal dieta pode afetar, positiva ou negativamente, o desempenho de atletas de resistência e força.

Para a realização deste artigo, foram coletadas todas as pesquisas disponíveis no banco de dados Medline, que tinham por objetivo verificar a influência das dietas vegetarianas sobre variáveis do desempenho atlético, como a capacidade aeróbica e de força muscular. No total, foram analisadas onze pesquisas experimentais publicadas em periódicos internacionais, disponíveis nesse banco de dados. Com base nos resultados encontrados, discutiram-se as necessidades e carências nutricionais dos atletas vegetarianos, assim como alterações fisiológicas em resposta à dieta e suas possíveis implicações no desempenho atlético.

Vegetarianismo e desempenho

Observaram-se, na literatura, diversos estudos avaliando a influência das dietas vegetarianas sobre o desempenho de esportes de endurance e força. Um resumo dos resultados das pesquisas analisadas encontra-se no Quadro 1.

 

 

O volume de pesquisas que testaram a capacidade aeróbica é superior ao daquelas que testaram a força muscular dos vegetarianos. No experimento de Cotes et al.10, não foram encontradas diferenças na função pulmonar e na resposta cardiorrespiratória no exercício submáximo em ciclo-ergômetro, entre vegans e não-vegetarianos. Hanne et al.11 também não encontraram diferenças no desempenho de atletas israelenses de ambos os sexos. Diversas outras pesquisas encontraram resultados semelhantes12-18.

Campbell et al.19 não encontraram diferenças significativas na força muscular dinâmica entre grupos de homens vegetarianos e não-vegetarianos. Ambos os grupos demonstraram aumento similar na força, após 12 semanas de treinamento contra resistência. Esses resultados estão de acordo com os encontrados por Hanne et al.11, em pesquisa anterior.

Dos dez estudos analisados, apenas um encontrou diferenças na capacidade aeróbica e em testes de potência18. Crianças, adolescentes e adultos vegetarianos foram testados. Os adolescentes e adultos mostraram melhores resultados no teste cardiorrespiratório, mas os adolescentes obtiveram valores mais baixos nos testes de força e potência. Esse experimento não contou com grupo controle não-vegetariano, sendo os resultados comparados a valores de referência indicados por pesquisas anteriores. Talvez a falta de grupo controle possa ter ocasionado resultados divergentes dos demais estudos citados.

Com base nesses resultados, conclui-se que a capacidade aeróbica não parece ser afetada pela adoção de uma dieta vegetariana, desde que esta atenda às necessidades nutricionais do atleta. Dessa forma, uma dieta vegetariana variada e balanceada parece compatível com o desempenho atlético vencedor em modalidades esportivas com predominância no sistema oxidativo. Com relação à força muscular são necessários maiores estudos, dada pouca produção científica que investigou essa questão.

Necessidades nutricionais

Energia

De acordo com o posicionamento do American College of Sports Medicine (ACSM)20, a baixa ingestão energética pode resultar em perda de massa muscular, distúrbios no ciclo menstrual das atletas, perda de massa óssea e aumento do risco de desenvolverem fadiga e lesões. Ainda segundo o ACSM, a ingestão energética de atletas de endurance deve ser de 3 000 a 5 000kcal/dia. Atletas de força usualmen-te necessitam, minimamente, de 50kcal/kg/dia, que representa 3 500kcal/dia para um indivíduo de 70kg. Segundo Williams21, a deficiência energética não representa grande preocupação para os vegetarianos, mas é necessária atenção especial para que se alcance uma ingestão adequada de energia, caso contrário o desempenho pode ser prejudicado.

Na pesquisa de Eisinger et al.17, atletas lactoovovegetarianos e não-vegetarianos, consumindo uma dieta de 4 500kcal (60% advindas de carboidratos, 30% de proteínas e 10% de gorduras), não mostraram diferenças na performance em uma maratona. Isso confirma que, desde que as necessidades energéticas sejam alcançadas, independentemente do tipo de dieta, o rendimento não é afetado.

Macronutrientes

Atletas de endurance necessitam de dieta rica em carboidratos para otimizar os estoques de glicogênio muscular e hepático. Para esses indivíduos, a ingestão diária de carboidratos deve ficar na faixa de 500g a 800g (8 a 10g/kg/dia), e representar 60% a 70% da ingestão energética diária total4. Segundo Fogelholm22, a exclusão de carne da dieta não prejudica o desempenho em exercícios repetidos de curta duração. Já a redução da ingestão de proteínas e o aumento de car-boidratos durante 3 a 5 dias podem resultar em uma melhoria de desempenho em exercício anaeróbico com duração de 2 a 7 minutos. As dietas vegetarianas, freqüentemente, possuem altas taxas de carboidratos, disponibilizando substrato para uma melhor síntese de glicogênio.

Quanto à ingestão protéica, vegetarianos normalmente apresentam valores mais baixos, quando comparados a indivíduos não-vegetarianos18,23. Além disso, a qualidade das proteínas de origem vegetal é considerada de baixo valor biológico, visto que são incompletas quanto à composição de aminoácidos. Apesar de necessárias novas investigações, a dieta composta somente por fontes protéicas vegetais parece capaz de satisfazer as necessidades de adultos e crianças saudáveis1.

A quota dietética recomendada (RDA) de proteínas é de 0,8g/kg de peso por dia24. Sabe-se, porém, que atletas de força e endurance necessitam de uma maior ingestão protéica, quando comparados à população saudável sedentária4,25. Lemon26 sugere que atletas de força, potência ou velocidade aumentem a ingestão para 1,7 a 1,8g/kg/dia, e atletas de endurance para 1,2 a 1,4g/kg/dia. Quantidades superiores não parecem exercer um efeito adicional na performance. Alcançar a adequação de proteínas, em termos quantitativos, a partir de fontes vegetais, é possível, mesmo em uma dieta vegan4,22, principalmente quando se faz a combinação de diferentes fontes dietéticas1. Ainda assim, há a possibilidade de menor ingestão de aminoácidos essenciais ou mesmo do aminoácido derivado carnitina27.

Micronutrientes

Segundo estudo realizado por Janelle & Barr28, as mulheres que seguiam dieta vegetariana apresentavam menor ingestão de riboflavina, niacina, vitamina B12 e sódio que as não-vegetarianas e maior ingestão de ácido fólico, vitamina C e cobre. Em pesquisa com jovens vegans de ambos os sexos29, foram encontradas baixas ingestões de riboflavina, cobalamina, vitamina D, cálcio e selênio. As ingestões de cálcio e selênio permaneceram abaixo do desejável, mesmo após a inclusão de suplementos dietéticos. Pesquisa recente mostrou ingestão deficiente de iodo por indivíduos de ambos os sexos que adotavam dietas vegan e LOV30.

O ferro não-heme, proveniente de fontes vegetais e de parte do conteúdo total das carnes, é menos biodisponível que o ferro-heme, encontrado em fontes animais. A eliminação de carnes e o aumento de legumes e grãos integrais na dieta podem resultar na menor ingestão deste mineral, assim como de zinco31. Inúmeros efeitos adversos à saúde, vinculados à menor biodisponibilidade de ferro e zinco, têm sido demonstrados pela adoção de dietas vegetarianas. Sabe-se que essa prática alimentar pode, até mesmo, conter mais ferro do que em dietas não vegetarianas, mas o mineral encontra-se menos disponível para absorção32, dados as diferenças na forma química e os fatores inibidores presentes33,34. Apesar dos alimentos vegetais possuírem substâncias que aumentam a captação de ferro, a adoção de dietas vegetarianas precisa ser bem planejada para evitar a deficiência deste mineral23. Assim, a recomendação para ingestão de ferro por parte dos vegetarianos é aumentada em 80% além da RDA32. A baixa ingestão de ferro pode levar ao quadro de anemia, interferindo de forma negativa no desempenho, à medida que limita o transporte de oxigênio para os músculos em atividade35.

Algumas pesquisas indicam que vegetarianos, especialmente vegans, apresentam ingestão e concentração sérica de vitamina B12 (cobalamina) inferiores aos não vegetarianos17,29,36,37. Mas, de acordo com Johnston1, casos de deficiência desta vitamina são incomuns, mesmo entre os vegans. As razões para tal seriam a baixa necessidade da vitamina, as reservas relativamente grandes e uma circulação enteroepática eficiente, que recupera a maior parte da cobalamina excretada na bile. Ainda assim, a redução na ingestão dessa vitamina tem sido associada, nas dietas vegetarianas (principalmente vegan), ao quadro de hiperhomocisteinemia38,39, sendo esse considerado um fator de risco independente para o desenvolvimento de cardiopatias. Janelle & Barr28 sugerem atenção para que quantidades necessárias da vitamina sejam ingeridas. Suplementos orais, ou consumo de produtos enriquecidos com cianocobalamina (forma farmacológica do nutriente), como extrato hidrossolúvel de soja e cereais matinais, são opções que podem auxiliar o atendimento às recomendações.

São menos freqüentes as baixas ingestões de cálcio, zinco, cobalamina e vitamina D entre os lactoovovegetarianos, por consumirem leite e derivados na dieta, fontes significativas desses minerais. Vegans necessitam maior atenção para que não desenvolvam deficiências nutricionais, o que resultaria em efeitos negativos para a saúde e, conseqüentemente, para o desempenho atlético.

Creatina muscular

A creatina é um composto que contém carbono, hidrogênio e nitrogênio, sintetizada nos rins, pâncreas e fígado (este último principalmente) a partir de três aminoácidos: glicina, arginina e metionina. Apresentando-se na forma fosforilada (CP), atua na refosforilação de ADP (adenosina difosfato), mediante a enzima creatina quinase, mantendo a concentração de ATP (adenosina trifosfato) mais ou menos constante durante esforços de curtíssima duração e alta intensidade. Os estoques intracelulares de creatina total giram em torno de 120-125mmol/kg de peso seco, resultando em cerca de 120g para um indivíduo de 70kg, sendo que 95% desse valor é encontrado nos músculos. Aproximadamente 2g (em torno de 1,6% do total) por dia de creatina é catabolizado em creatinina e excretado pelos rins40. A necessidade de creatina é suprida tanto pela ingestão alimentar, quanto pela síntese endógena4,41. Em torno de 1g é obtido, normalmente, em dietas não-vegetarianas, enquanto que o restante é sintetizado endogenamente.

Especulava-se que indivíduos vegetarianos apresentariam concentração total de creatina menor que aqueles que seguem uma dieta onívora4,41,42. Assim, apresentariam melhor resposta à suplementação, devido ao maior aumento de creatina no organismo, pois um maior efeito ergogênico é encontrado nos indivíduos que apresentam, antes da suplementação, baixos níveis musculares do composto4,41.

Algumas investigações foram realizadas para elucidar essa questão. Lukaszuk et al.43 verificaram que indivíduos que retiraram produtos cárneos da dieta por 21 dias apresentaram diminuição nos níveis musculares de creatina. Entretanto, após a suplementação, seus níveis de creatina não apresentaram diferença significativa em relação aos dos indivíduos que continuaram com o consumo de carnes e também receberam suplementação (148,6mmol kg-1 e. 141,7mmol kg-1, respectivamente). Em estudo posterior44, por meio de biópsia muscular do músculo vasto lateral, foram encontrados níveis mais baixos de creatina total intramuscular nos vegetarianos (117mmol.kg-1 contra 130mmol.kg-1 nos onívoros). Além disso, estes apresentaram maiores aumentos nos níveis de fosfocreatina e creatina total e massa muscular, além de melhor desempenho em exercícios de força após a suplementação. Watt et al.45 confirmaram esses achados (106,6mmol.kg-1 contra 124,8mmol.kg-1), mas não encontraram diferenças significativas na expressão gênica do transportador de creatina (CreaT) entre os grupos, tanto pré como pós-suplementação. Contudo, Shomrat et al.46, após a realização de protocolo experimental com vegetarianos e onívoros, verificaram que ambos os grupos apresentaram aumentos similares na potência, após período de suplementação de creatina de uma semana, no teste modificado de Wingate em ciclo-ergômetro.

Alterações fisiológicas

Alterações hormonais

A manipulação de variáveis do treinamento, como intensidade, volume e recuperação, pode afetar a resposta hormonal ao exercício. Já a influência da dieta sobre a concentração hormonal é menos compreendida47. Raben et al.16 verificaram a concentração de testosterona em indivíduos com diferentes dietas. Valores mais baixos foram encontrados em homens que consumiam dieta vegetariana rica em proteína, quando comparados aos que consumiam dieta não-vegetariana, também rica no nutriente. Além disso, os fitoestrógenos da soja, alimento muito consumido por vegetarianos, podem ocasionar concentrações mais baixas de testosterona e androstenediona48. Em relação ao IGF-1, um fator de crescimento liberado pelo fígado em resposta ao hormônio do crescimento, estudo realizado com mulheres vegetarianas relata redução em suas concentrações plasmáticas49, que pode estar relacionada à baixa ingestão de lipídios, principalmente nos que adotam dieta vegan50,51. Os baixos níveis de testosterona sérica e de IGF-1 têm sugerido efeito negativo sobre a hipertrofia muscular e o desenvolvimento da força, visto que são hormônios anabólicos e influenciam na expressão da força, por meio de mecanismos neurais e da síntese protéica52,53. Apesar disso, a suplementação protéica à base de vegetal (proteína de soja) mostrou-se capaz de proporcionar um aumento significativamente maior dos níveis de IGF-1, quando comparada à suplementação com proteína do leite, à base de caseína e proteínas do soro54.

Função imunológica

Especulou-se se a dieta vegetariana poderia ocasionar impacto negativo sobre a função imunológica, mas, segundo Fogelholm22, a retirada da carne da dieta não parece ocasionar efeitos adversos sobre essa função. Quanto à influência da dieta LOV na função imunológica de atletas de endurance, não foram encontradas diferenças significativas na quantidade e atividade das células do sistema imune entre os grupos14. Entretanto, sabe-se que o treinamento exaustivo pode causar impacto negativo sobre a função imunológica em atletas, independentemente do tipo de dieta, aumentando a suscetibilidade a infecções, como do trato respiratório superior. Afirma-se que a suplementação de glutamina exerça efeito positivo nesse sentido, atenuando o quadro de imunossupressão pós-exercício21.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com as publicações científicas atuais, a prática vegetariana pode proporcionar diversos benefícios à saúde humana, desde que bem planejada para atender às necessidades nutricionais. Algumas conclusões puderam ser levantadas, apesar de haver ainda muitas questões a serem elucidadas:

- De acordo com a literatura, não foram encontradas diferenças significativas na capacidade aeróbica e de força em indivíduos que seguiram diferentes dietas. As pesquisas que relacionaram o tipo de dieta com o desempenho de força ou atividades supramáximas são escassas, havendo a necessidade de mais investigações a fim de elucidar a questão.

- Vegetarianos ingerem freqüentemente grandes quantidades de carboidratos, fibras dietéticas, magnésio, potássio, folato, antioxidantes e fitoquímicos. É necessária maior atenção na dieta desses indivíduos, no que diz respeito à ingestão de cálcio, zinco, ferro e vitamina B12. A ocorrência de anemia por deficiência de ferro pode ser mais comum na mulher atleta, o que interfere negativamente no rendimento. A baixa ingestão de vitamina B12 pode levar ao quadro de hiper-homocisteinemia, aumentando o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

- O conteúdo protéico dos alimentos de origem vegetal é freqüentemente menor, além de apresentarem menor valor biológico, pois possuem aminoácidos limitantes. Ainda assim, os pesquisadores sugerem que a ingestão protéica nas dietas vegetarianas pode cumprir a cota de fornecimento adequada, mesmo para atletas que necessitam de maior ingestão protéica.

- Uma dieta vegetariana necessita ser bem planejada e equilibrada em termos nutricionais, sendo, assim, apropriada a todos os estágios do desenvolvimento humano, incluindo a gestação, lactação, infância e adolescência, além de proporcionar suporte adequado ao desempenho esportivo.

- Os níveis de creatina intramusculares dos vegetarianos são mais baixos, o que pode afetar o rendimento em exercícios supramáximos. Em contrapartida, a suplementação de creatina mono-hidratada pode proporcionar maior efeito ergogênico nesses indivíduos.

- Vegans e vegetarianos podem apresentar níveis mais baixos de hormônios anabólicos, como a testosterona, androstenediona e IGF-1, o que, talvez, interfira diretamente no desenvolvimento da força e hipertrofia musculares. A função imunológica não parece ser afetada.

Embora com qualidade nutricional diferente da onívora, a dieta vegetariana, desde que supra as adequações nutricionais do atleta, não prejudica o seu desempenho aeróbio. No que se refere ao desempenho hipertrófico ou de força e potência muscular, os resultados não são conclusivos.

 

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Recebido em: 19/7/2005
Versão final reapresentada em: 1/2/2006
Aprovado em: 19/4/2006

 

 

1 Correspondência para/Correspondence to: A.F. MAIA. E-mail: <adriano@cefd.ufes.br>.

 
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Uma proposta de Recreação e Lazer para a comunidade de Vila Santana

Uma proposta de Recreação e Lazer para a comunidade de Vila Santana

Ubatuba – SP.

                

Gizelle Maria Nogueira Martins – Licenciada em Educação Física - [1]

Luiz Fabiano Seabra Ferreira – Prof. Ms. [2]

 

Artigo publicado nos anais do XVII ENAREL – Encontro Nacional de Recreação e Lazer realizado na PUC-PR – Curitiba – PR (2006)

 

Resumo

 

Este estudo foi desenvolvido na comunidade denominada Vila Santana, no município de Ubatuba, SP, com o objetivo de construir uma relação dialética entre os pesquisadores e os membros desta comunidade. Com a intenção para a busca de possibilidades de construir uma compreensão sobre os significados atribuídos pelos participantes nas vivências (brincadeiras, jogos, oficinas de brinquedos com material reciclado e outras atividades recreativas e lúdicas), foi implantado um projeto de recreação e lazer na comunidade. Com enfoque qualitativo, foi realizada uma pesquisa participante, na qual os instrumentos utilizados para coleta de dados foram os relatos de observações das atividades desenvolvidas, entrevistas semi-estruturadas por meio de uma pergunta norteadora e a utilização de um vídeo como recurso adicional. Com base nos resultados do estudo, pode-se perceber que as atividades vivenciadas proporcionaram além da possibilidade de expressões sensíveis e prazerosas, a valorização da auto-estima, o respeito pelo outro, a cooperação, a afetividade, a socialização, a construção de conhecimento, a criatividade, a autonomia, o envolvimento e o reconhecimento da importância desse momento de lazer, vivenciado como espaço de liberdade, divertimento, prazer, recreação, entretenimento, informação e formação, educação, participação, “veículo” e “objeto” de desenvolvimento humano.

 

Palavras-Chave: Iniciação Científica, Lazer, Comunidade.

 

 

O primeiro passo de uma caminhada

 

A escolha do tema surgiu de observações e da convivência (como funcionária do Programa Saúde da Família) com uma comunidade denominada Vila Santana, situada no bairro Araribá, no município de Ubatuba, há trinta e seis kilômetros do centro da cidade.

De acordo com informações colhidas entre os moradores mais antigos, esta comunidade começou a se formar lentamente a partir do ano de 1995, por pessoas que migraram de Minas Gerais e outros estados do Nordeste acalentando o sonho de um emprego, de acesso à educação de qualidade, de bens e serviços distantes de sua realidade anterior.

Ainda em processo de formação, a vila continua crescendo, sem planejamento, ocupando áreas de proteção ambiental, sem infra-estrutura de serviços públicos, áreas de lazer, saneamento básico, habitação, água tratada, sistema de esgoto adequado, destino correto do lixo, apresentando como resultado deste processo, sinais de deformação que atingem diretamente a população: prostituição, promiscuidade, tráfico e consumo de drogas e bebidas alcoólicas, altos índices de gravidez na adolescência, desemprego, escassez material, analfabetismo, caracterizando esta comunidade como a segunda maior concentração de pobreza do município de Ubatuba.

Poder contribuir para a formação e para o desenvolvimento de seres humanos capazes de transformar a si próprios e a sua realidade é o que se pretendeu.

Segundo Brandão (1986, p.19): “O estudo e o conhecimento da realidade são também necessidades imperativas do ponto de vista dos que querem transformá-la”.

 

(…) Pensamos que a finalidade de qualquer ação educativa deva ser a produção de novos conhecimentos que aumentem a consciência e a capacidade de iniciativa transformadora dos grupos com quem trabalhamos. Por isso mesmo, o estudo da realidade vivida pelo grupo e de sua percepção desta mesma realidade constituem o ponto de partida e a matéria – prima do processo educativo. (BRANDÃO, 1986, p.19).

 

A ação educativa se concretizou por meio da implantação de um projeto de recreação e lazer na comunidade[3], com a intenção de encontrar possibilidades de construir uma compreensão sobre os significados atribuídos às vivências como brincadeiras, jogos, oficinas de brinquedos com material reciclado e outras atividades recreativas e lúdicas. Concordamos com Marcellino (1987), no que diz respeito a  utilização das potencialidades educativas do lazer como canal possível para a busca de transformações.

Brandão (1986, p.19) citando Paulo Freire diz que:

 

educação não é sinônimo de transferência de conhecimento pela simples razão de que não existe um saber feito e acabado, suscestível de ser captado e compreendido pelo educador e, em seguida, depositado nos educandos. O saber não é uma simples cópia ou descrição de uma realidade estática. A realidade deve ser decifrada e reinventada a cada momento, Neste sentido, a verdadeira educação é um ato dinâmico e permanente de conhecimento centrado na descoberta, análise e transformação da realidade pelos que a vivem.

 

De acordo com Chizzotti (1991), a pesquisa abri novas perspectivas para o conhecimento humano. As descobertas e invenções, a explicação e a previsão, as análises e a compreensão renovaram todos os campos do saber. Pesquisar tornou-se uma atividade indispensável ao saber e a vida, uma das prioridades nacionais e um pré-requisito do desenvolvimeto.

Neste estudo, a metodologia empregada foi a pesquisa participante (Brandão, 1986; Chizzotti, 1991) buscando adentrar, compartilhar e compreender o universo de significados relacionados ao tema enfocado. A abordagem qualitativa se fez necessária, pois trabalhou-se:

 

um nível de realidade que não pode ser quantificado; trabalhando com um universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações dos processos dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. (MINAYO, 1994, p.21)

 

Adotou-se o que Roger (1999) chama de Antropologia Complexa[4]. Vale destacar que, mesmo tendo adotado um olhar antropológico sobre os dados desta pesquisa, não se desprezará a possibilidade de outros enfoques (fenomenológico e sociológico), pois a pesquisa qualitativa possibilita uma variedade de opções quanto à forma de compreender o tema investigado.

Segundo Morin (2000, p.207):

 

O pensamento complexo é, pois, essencialmente o pensamento que trata com a incerteza e que é capaz de conceber a organização. É o pensamento capaz de reunir (complexus: aquilo que é tecido conjuntamente), de contextualizar, de globalizar, mas, ao mesmo tempo, capaz de reconhecer o singular, o individual, o concreto.

 

Os conceitos e teorias utilizados neste estudo, referentes ao lazer, ao esporte, ao espaço e ao tempo foram obtidos na Educação Física, Antropologia e Sociologia.

A interpretação dos dados (analise de conteúdo) foi realizada por meio de relatos de observações das atividades desenvolvidas, uma entrevista semi-estruturada com os participantes, e a filmagem de um vídeo que auxiliou e enriqueceu a interpretação e compreensão dos significados construídos no decorrer das vivências.

 

Os dados são colhidos, iterativamente, num processo de idas e voltas, nas diversas etapas da pesquisa e na interação com seus sujeitos. Em geral, a finalidade de uma pesquisa qualitativa é intervir em uma situação insatisfatória, mudar condições percebidas como transformáveis, onde pesquisador e pesquisados assumem voluntariamente, uma posição reativa. (CHIZZOTTI, 1991, p.89).

 

Privilegiou-se a discussão dos diálogos (entrevistas com os sujeitos) com a teoria fornecida pelos autores, “entrecruzando” sua idéias e conceitos formando uma espiral e construindo-se uma totalidade, na qual não há cisão entre teoria e pesquisa de campo, mas sim um entrelaçamento constituindo uma teia, onde a compreensão dos significados está conectada.

Brandão (1986) argumenta que o objetivo da pesquisa social e da ação educativa é motivar e instrumentar grupos populares para que assumam sua experiência cotidiana de vida e trabalho, como fonte de conhecimento e de ação de transformação.

 

O lazer e seus desdobramentos

 

A proposta de um projeto de recreação e lazer para a Vila Santana foi o instrumento de intervenção prática utilizado, contemplando o lazer como canal educativo, rico em potencialidades e possibilidades, compreendido e vivenciado como espaço de liberdade, divertimento, prazer, recreação, entretenimento, informação e formação, educação e participação.

Segundo Marcellino (1987), o lazer entendido como um veículo de educação, deve possibilitar o desenvolvimento das potencialidades pessoais e sociais dos indivíduos.

Uma moradora de Vila Santana, mãe de dois filhos e participante do projeto afirma:

Quando mudei para o Araribá, sempre tive vontade de participar de atividades com meus filhos e as crianças da rua, mas nunca tinha nada para se fazer nos finais de semana.

 

 As atividades do projeto foram realizadas nas tardes de sábado em uma das ruelas mais populosas da vila, chamada de Rua da Rocha. A falta de espaço e de estrutura física não foram empecilhos para a realização das práticas. Mesmo com as dificuldades enfrentadas como o declive da rua, os buracos, a terra, as pedras, a vontade de participar e vivenciar as atividades superou todos os obstáculos.

 

Eu tenho um sonho e peço a Deus que um dia possamos juntos realizar: é o de ter um lugar certo para as atividades com as crianças, pois para mim foi muito bom, um momento especial, uma coisa que eu nunca tive. (Marizete é moradora, mãe e participante do projeto).

 

A partir dos relatos das observações e da interpretação dos dados, foi possível privilegiar alguns temas que serão descritos a seguir, e que contribuirão para mais reflexões.

O tema meio ambiente foi abordado como atividade vivenciada pelas crianças por meio de uma dramatização realizada no dia mundial do meio ambiente, cuja proposta foi a de representar com o corpo o nascer de uma árvore, seu desenvolvimento, sua importância, e a sua luta pela sobrevivência diante da envolvente narração, que conduzia as crianças durante as expressões corporais, utilizando “pom-pons” feitos de papel crepom para incrementar a representação das folhas das árvores.

Assuntos como preservação, conservação e a recuperação do meio ambiente, limpeza das ruas e reciclagem do lixo também foram abordados durante a atividade.

Segundo Schwartz (2000), atividades lúdicas e de sensibilização favorecem a curiosidade, a aproximação natural, a criatividade, a sensibilidade e a afetividade, componentes imprescindíveis para mudanças de atitudes. Essas transformações buscam construir um equilíbrio consciente entre o interno (corpo) e o externo (ambiente) caracterizando uma ressignificação do próprio corpo, bem como do ambiente natural no qual as atividades se desenvolvem.

Ilustrando essas idéias, a participante do projeto afirma:

 

Desde que o projeto começou, minha vida e a vida de todas as crianças melhorou muito, até mesmo das mães. O projeto ensinava por meio de brincadeiras a preservar o meio ambiente e a reciclar também. (Evellyn, adolescente e participante do projeto).

 

Segundo o PCN, Meio Ambiente e Saúde (1997, p.48):

 

O trabalho com a realidade local possui a qualidade de oferecer um universo acessível e conhecido e, por isso, passível de ser campo de aplicação do conhecimento. Grande parte dos assuntos mais significativos para os alunos estão circunscritos à realidade mais próxima, ou seja, sua comunidade, sua região, E isso faz com que, para a Educação Ambiental, o trabalho com a realidade local seja de importância vital.

 

Um outro momento que merece destaque vivenciado pelas crianças e por algumas mães e diz respeito ao tema enfocado, foi uma caminhada realizada até uma área verde arborizada e gramada, com espaços naturais que permitiram o desenvolvimento de inúmeras atividades além de um piquenique, privilegiando o contato com a natureza.

Nota-se aquilo que Brandão (1994, p.29) chama de:

 

afirmação generosa da gratuidade, referindo-se à gratuidade para com os elementos da natureza; da ociosidade sadia, onde há a possibilidade de reversão do esforço físico para a própria pessoa. A realização prazerosa de algo que tem valor em si e não para outro fim.

 

        Ainda sobre o assunto o mesmo autor afirma:

 

Trata-se, portanto, da passagem de “um agir sobre a natureza a um trocar gestos recíprocos com a natureza”. (BRANDÃO, op, cit., p.76).

 

         Vale ressaltar que embora Vila Santana tenha como limites geográficos a Mata Atlântica, a bagagem cultural da população e a falta de espaço físico não privilegiam os ambientes naturais em vários aspectos. Mas para a participante do projeto citada a seguir, a vivência deste contato significou possibilidades de uma nova visão. A esse respeito ela diz:

 

Num desses sábados, combinamos de fazer um piquenique (…) porque o lugar era espaçoso. Eu e outras mães fizemos bolos, sucos e levamos. Foi tão divertido… as crianças adoraram e passaram uma tarde animada.  (Vera é moradora, mãe de dois filhos e participante do projeto). 

 

                        Sobre a relação entre o homem e a natureza, Bruhns (1997, p.12) afirma que:

 

O tema do corpo visitando a natureza requer a compreensão da corporeidade como presença no mundo, sendo o movimento humano a expressão dessa corporeidade. O movimento humano representa portanto, uma forma de comunicação, um diálogo entre o homem e o mundo.

 

Segundo o PCN, Meio Ambiente e Saúde (1997, p.74), para que se desenvolva valores e atitudes de respeito ao meio ambiente, é necessário que se conheça a natureza que se quer defender, por que as pessoas protegem aquilo que amam e valorizam:

 

O que mais mobiliza tanto as crianças quanto os adultos a respeitar e conservar o meio ambiente é o conhecimento das características, das qualidades da natureza, é perceber o quanto ela é interessante, rica e pródiga, podendo ser ao mesmo tempo muito forte e muito frágil; e saber-se parte dela, como os demais seres habitantes da Terra, dependendo todos – inclusive sua descendência – da manutenção de condições que permitam a continuidade desse fenômeno que é a vida em toda a sua grandiosidade.

 

        Além das visitas realizadas em ambientes naturais os participantes desenvolveram brincadeiras populares, brincadeiras com cordas, jogo de queimada e taco, pique – pega, pique – bandeira, pega – corrente, futebol, brincadeiras de vôlei e de basquete, peteca, danças, foram alguma das principais atividades escolhidas e vivenciadas pelas crianças durante o projeto.

         A esse respeito, Freire e Scaglia, (2003, p.9) afirmam:

 

Queremos que o jogo seja um componente privilegiado da educação (…) pretendemos demonstrar que o ambiente lúdico, além de facilitar o ensino de diversos conteúdos, cria condições para que o aluno trabalhe com a criatividade, a moralidade e a sociabilidade.

 

         É importante ressaltar que o lazer utilizado como canal educativo proporcionou contemplar o jogo como instrumento pedagógico em muitos momentos. Houve a preocupação em lançar desafios, problematizar situações, privilegiando tomadas de consciência e aprendizagens significativas.

         Sobre os jogos e brincadeiras, uma participante afirma:

 

A gente não via a hora de chegar o final de semana para participar do projeto, com nossas brincadeiras. Brincávamos de corda, bola, vôlei, e outras coisas, mas o que as crianças gostavam, era de corda e futebol.  (Vera é moradora, mãe de dois filhos e participante do projeto).

 

         Percebe-se essa importância do jogo, na fala de outra participante:

 

Foi quando pedi ao meu esposo Valter que jogasse futebol com meu filho Jonas, aí foram chegando os coleguinhas e meu quintal chegou a ter por volta de quinze crianças brincando com muita alegria e eu fui para a rua jogar vôlei com outras crianças e minha vizinha Vera. Eu me diverti tanto que nem vi o tempo passar. (Cláudia é moradora, mãe de dois filhos e participante do projeto).

 

         Em geral, as atividades vivenciadas como jogos proporcionaram às crianças o desenvolvimento das habilidades de deslocamento, manipulação, estabilização, desportivas, sociais, afetivas, intelectuais, perceptivas, simbólicas e de cooperação.

         Atividades privilegiando a expressão corporal também foram vivenciadas. Numa das tardes de sábado, quatro adolescentes voluntárias uniram-se para ensaiar uma coreografia para apresentá-la na vila, com a intenção de ensinar e despertar nas crianças movimentos expressivos, integração, participação e outros elementos peculires que só a música proporciona. O grupo se apresentou e as crianças logo se uniram para aprender os passos, outros adolescentes sentiram-se à vontade para demonstrar suas próprias coreografias houve uma troca e uma integração.

         Para Freire e Scaglia (op. cit., p.77):

 

Essas atividades mobilizam, acima de qualquer outro componente, as coordenações espaciais e temporais. Do ponto de vista social, são inegavelmente integradores e, além disso, constituem recursos excelentes para lidar com questões emocionais e sexuais.

 

         Outro momento envolvendo a dança aconteceu durante uma brincadeira de roda, com a participação das crianças menores, na qual foi possível vivenciar e trabalhar as habilidades perceptivas, o ritmo, habilidades sociais, afetivas e simbólicas, As brincadeiras com cordas também estiveram presentes nas vivências destas crianças menores.

         Pôde-se perceber que a convivência entre os participantes durante o projeto produziu novos significados referentes à amizade, sociabilidade e cooperação:

 

Exercitando no jogo e no esporte a reflexão criativa, a comunicação sincera, a tomada de decisão por consenso e a abertura para expe-rimentar o novo, todos podem descobrir que são capazes de intervir positivamente na construção, transformação e emancipação de si mesmos, do grupo e da comunidade onde convivem. (BROTTO, 2001, p.63).

 

         As oficinas de brinquedos proporcionaram os momentos mais marcantes do projeto, traduzidos pela satisfação, prazer, alegria, liberdade, contemplação, participação, vivenciados pelas crianças.

         Em vários momentos durante a produção dos brinquedos, assuntos como lixo, reciclagem, meio ambiente foram abordados de forma significativa.

         A primeira oficina apresentou como conteúdo a produção do brinquedo barangandâo. Momentos de completa alegria e valorização da auto-estima foram registrados.

         Para Oliveira (1984, p.49), a criança aprende a se expressar no mundo, criando e recriando novos brinquedos pois:

 

Em cada brinquedo sempre se esconde uma relação educativa. Ao fazer seu próprio brinquedo, a criança aprende a trabalhar e a transformar elementos fornecidos pela natureza ou materiais já elaborados, constituindo um novo objeto, seu instrumento para brincar.

 

         Sobre o assunto, Santos (2001, p.159) afirma:

 

Com a ajuda do brinquedo ela pode desenvolver a imaginação a confiança, a auto-estima e a cooperação. O modo como a criança brinca revela seu mundo interior. O brinquedo contribui, assim, para a unificação e integração da personalidade e permite à criança entrar em contato com outras crianças.

 

         A construção de pipas representou outro momento vivenciado pelas crianças e por alguns adolescentes que se envolveram voluntariamente para ensinar as menores.         

         A última oficina de brinquedos realizada como atividade do projeto, privilegiou a sucata como material utilizado na fabricação dos brinquedos.

         Garrafas de plástico, revistas velhas, tampinhas, cabos de vassoura, barbante, cordas, entre outras, foram as matérias primas que acopladas à criatividade, se transformaram em brinquedos.

         As crianças puderam contemplar e brincar com alguns brinquedos fabricados a partir de material reciclável, levados como amostra, na intenção de motivar à criação e transformação da sucata, nas mais diversas formas possíveis e imagináveis de brinquedos.

         E nesse momento, algo muito significativo aconteceu. Observou-se que as crianças conseguiram compreender que aquilo que era lixo poderia ser transformado em algo que proporcionasse prazer e satisfação: – o brinquedo e também o momento que antecede essa transformação, envolvendo a criatividade, a autonomia, a socialização, a cooperação, a produção de conhecimento significativo e de expressões sensíveis e prazerosas.

         Sobre a oficina e brinquedo, a participante relata:

O meu irmão aprendeu a fazer brinquedos de material reciclável, eu acho que ele aprendeu muito desde que o projeto começou. (Evellyn adolescente e participante do projeto).

 

         O envolvimento e a colaboração de algumas mães durante as oficinas foram bem significativos, conforme afirma uma delas:

 

Outra coisa que gostei foi do trabalho reciclável que teve no meu quintal com todas as crianças. Foi muito legal. (Cláudia, moradora mãe de dois filhos e participante do projeto).

 

         Sobre a importância desse momento a professora completa:

 

Foi muito gratificante ter participado desta oficina. Eu me senti parte daquela comunidade, fui envolvida pela alegria das crianças e das mães que estavam presentes naquele momento. (Dilma, professora e voluntária do projeto).

 

         Considerações Finais

 

         Percebe-se que um “mundo novo” se abriu diante daquelas crianças. O olhar e a contemplação transcenderam a realidade. Houve esperança e confiança, e um novo processo de construção se iniciou. A construção de uma nova identidade, da auto-estima, com possibilidades de transformação de si mesmos, das pessoas ao redor e da própria comunidade como um todo.

         De acordo com Brandão (1986, p.33):

 

Motivar e instrumentar grupos populares para que assumam sua experiência cotidiana de vida e de trabalho como fonte de conhecimento de ação de transformação acreditamos ser o objetivo da pesquisa social e da ação educativa numa perspectiva libertadora.

 

         Testificando a citação acima, uma moradora, mãe e participante afirma:

 

(…) antes do projeto começar não pensávamos em parar para brincar com nossos filhos, sempre trabalhando, cuidando do dia – a – dia, e nossos filhos crescendo e precisando de mais atenção. Aí o projeto chegou e nos mostrou que nós podemos dividir nosso tempo. (Cláudia).

 

           Em resumo, tais indicadores sinalizam que a pesquisa científica representa uma importante ferramenta capaz de intervir na realidade para auxiliar na resolução de problemas, superar obstáculos, criar novas perspectivas, modificar comportamentos, motivar grupos a fim de que se tornem auto – suficientes, com autonomia para agir e interagir com toda a comunidade, transformando-a, fazendo com que uma situação opressiva se torne ação coletiva capaz de proporcionar mudanças em todos os aspectos.

           

 

 

 

 

Referências

 

BRANDÃO, C. R. Pesquisa Participante. 6ª ed., São Paulo: Brasiliense S.A. ,1986.

BRANDÃO, C. R. “Espaços públicos de lazer e cidadania”. Porto Alegre: Revista A paixão de aprender, n. 6, 1994.

BROTTO, F. Jogos Cooperativos: O jogo e os esportes como um exercício de convivência. Santos, SP: Projeto Cooperação, 2001.

BRUHNS, H. T. Lazer e Meio Ambiente: Corpos Buscando o Verde e a Aventura. Revista Brasileira de Ciência do Esporte, v 8, n. 2, 1997.

CHIZZOTTI, A. Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais. São Paulo: Cortez, 1991.

FREIRE, J. B. & SCAGLIA, A. J. Educação como Prática Corporal. São Paulo: Scipione, 2003.

KISHIMOTO, T. M. (org), Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 1996.

MARCELLINO, N. C. Lazer e Educação. Campinas, São Paulo: Papirus, 1987.

MINAYO, C. S, (Org) Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1994.

MORIN, E. & LE MOIGNE, J. L. A inteligência da complexidade. São Paulo: Peirópolis, 2000.

OLIVEIRA, P. S. O que é brinquedo. São Paulo: Brasiliense, 1984.

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS: Meio Ambiente e Saúde, v.9, Brasília: 1997.

ROGER, E. Uma antropologia complexa para entrar no século XXI: chaves de compreensão. In: PENA – VEJA, A. & DO NASCIMENTO, E. P. (Orgs) O pensar complexo: Edgar Morin e a crise da modernidade, 2ª ed. Rio de Janeiro: Garamond, 1999.

SANTOS, S. M. P. Brinquedoteca: a criança, o adulto e o lúdico, Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

SCHWARTZ, G. M. O corpo sensível como espaço ecológico. Motus Corporis, v 8, n. 2, p. 49-54, 2000.

                                                                                         


[1] gijo_santos@yahoo.com.br

[2] seabrafabiano@hotmail.com.br

[3] As atividades do projeto foram realizadas aos sábados totalizando 18 dias de práticas recreativas.

[4] Os escritos de Roger (1999, p.89) enfatizam a necessidade de uma “antropologia complexa” que possibilite um nova visão sobre o fenômeno humano. Nesse sentido, o autor expõe que a “velha antropologia” operava a partir de uma visão simplista, reducionista e dicotomizada sobre o humano. A antropologia complexa baseia-se no método proposto por Edgar Morin, no qual se delineia um novo caminho epistemólogico, a partir de uma abordagem “complexa” sobre o fenômeno humano. A idéia de uma epistemologia da complexidade diz respeito a todos os níveis do real: físico, biológico, antropológico, sociopolítico. “As complexidades antropológica, sociológica, ética, política, histórica – pois estes são os níveis mais importantes em que o homem encontra o seu modo de estar no mundo – devem ser entendidas como diferentes faces de um mesmo fenômeno: o fenômeno humano”.


Pesquisas em fenomenologia compreendem o lazer, o ócio e o trabalho.

1

Lima, Luiz Augusto Normanha – Prof. Dr. Depto. Educação Física da Universidade Estadual Paulista – Unesp – Rio Claro – SP. e-mail:

lanlima@rc.unesp.br .

Ferreira, Luiz Fabiano Seabra – Prof. Ms. Faculdades Integradas Módulo – Caraguatatuba – SP. e-mail: seabrafabiano@hotmail.com

Fragoso, Rafael Santos – Graduando em Licenciatura em Educação Física pela Universidade Estadual Paulista – Unesp – Rio Claro – SP.

Revista Teoria e prática da educação, Maringá – PR, v. 8, n. 2, 2005. p. 25 a 41.

Artigo disponível em http://www.boletimef.org/?canal=12&p=luiz+fabiano+seabra&c=1

Pesquisas em fenomenologia compreendem o lazer, o ócio e o trabalho.

Resumo

A partir de duas pesquisas utilizando-se do método da Análise do Fenômeno Situado, a primeira intitulada “O prazer do trabalho, o momento de

poíesis: uma forma de lazer, uma nova visão do trabalho pela fenomenologia”, e a segunda “Compreensão de lazer para quem não trabalha”,

possibilitam reflexões mais detalhistas, uma compreensão não sintética, uma dialética aberta entre trabalho e lazer evidenciando outras perspectivas.

Foram analisados discursos de trabalhadores que revelam seus prazeres no trabalho, e o que são esses prazeres. Os resultados da primeira pesquisa

apontam que há um momento em que o trabalho torna-se prazer: é o momento de criação, um momento de “poíesis”, de recriar, inventar,

possibilitar a imaginação, com liberdade para atingir o próprio fazer do trabalho. Por outro viés, a segunda pesquisa, o lazer para quem não trabalha

(neste caso os aposentados e os desempregados) mostra que o trabalho é uma forma de fazer algo, transcendendo o fazer nada. O trabalho para o

aposentado é uma forma de se detrair, um passa tempo e uma possibilidade de obter algum rendimento para completar sua renda. Para o

desempregado o trabalho é compreendido como um “bico”, uma possibilidade de sobrevivência diante das necessidades materiais. A partir das

pesquisas acima mencionadas e de autores da área do lazer, é possível perceber que o seu significado, na atualidade, distancia-se da compreensão

grega sobre ócio. Nesse sentido, este artigo procura evidenciar novas compreensões sobre o lazer, o ócio e o trabalho a partir de uma perspectiva

fenomenológica.

PALAVRAS-CHAVES: Lazer – Ócio – Trabalho – Fenomenologia.

2

Abstract

Having the goal of establishing a new comprehension of entertainment and work, two researches bewere accomplished with the method of the

Analysis of the located Phenomenon. The first entitled: “The pleasure of the work, the moment of poíesis: a entertainment from, a new work vision

for the phenomenology”. The second research entitled: “Comprehension of entertainment for who doesn’t work”. This article is an open dialectical,

in which entertainment and work configure together, they happen at the same time, in that sense we tried to propose a new no synthetic

comprehension on the researched themes, evidencing new reflection perspectives concerning these thematic ones. We don’t have the pretense of

establishing truths, but we intend to place in prominence other ways to understand the entertainment and the work. Worker’ speeches were analyzed

that reveal its pleasures in the work, and what is this pleasure. The results of the first research aim that there is one moment that the work becomes

pleasure, it is the moment of creation, a moment of “poíesis”, of creating again, to invent, to facilitate the imagination, freedom to reach the own to

do of the work. On the other hand, the second research, the entertainment of who doesn’t work, for example the retired ones and the unemployed, it

shows that entertainment and work aren’t associated with the free time anymore. From these researches on is possible to notice that the

entertainment meaning at the present time, it’s far from the greek comprehension of leisure.

KEY WORDS: Leisure – Work – Phenomenology.

Introdução

Este artigo pretende trazer em discussão os resultados atingidos em duas pesquisas: “O prazer do trabalho, o momento de poíesis: uma forma

de lazer, uma nova visão de trabalho pela fenomenologia” e “A compreensão de lazer para quem não trabalha”. O objetivo dessas reflexões foi

desvelar a compreensão sobre temáticas que fazem parte do nosso cotidiano e que muitas vezes são tratadas a partir de um pensamento

dicotomizado e maniqueísta.

A pré-reflexão concentra-se em transcender as visões dicotômicas entre esses dois temas, acrescentando o ócio como um terceiro elemento

imbricado nessa temática. No senso comum o lazer é uma atividade diferente do trabalho, que não podem ocorrer ao mesmo tempo, já o ócio é visto

como “coisa de preguiçoso, vagabundo” ou de quem não tem nada para fazer. Faz-se necessário superar o pensamento fragmentado em relação ao

lazer e o trabalho, isso se estabelece ao refletirmos como estes temas não podem ser separados nas suas essencialidades.

3

Pré-reflexão

As discussões sobre lazer e trabalho fazem parte da Educação Física, principalmente no que diz respeito à visão de corpo e ao uso do corpo

que se instauraram na história da humanidade. Os autores que tratam desses assuntos, muitos com formação em Sociologia, têm destacado, no

centro de seus pensamentos, o trabalho como uma relação entre explorados e exploradores e o lazer como terapia para curar ou compensar os

malefícios do trabalho em excesso. Souza et all (2001, p. 124) expõem:

O trabalho é um dos elementos mais expressivos da vida e da maioria das pessoas. O lazer, dessa forma, fica relegado a segundo plano e

assume outras funções, como compensar as frustrações vivenciadas no trabalho e recarregar as forças produtivas.

De acordo com as idéias de Russell (s. d., p. 31), “os homens encaram o trabalho como deve ser encarado, uma forma de ganhar a vida, e é o

lazer que retiram, aí sim, a felicidade que a vida lhes permite desfrutar”.

Os autores acima expõem o trabalho como um campo de frustrações, quando dependendo do momento o trabalho pode ser uma forma de

compensar alguma frustração vivida. O momento, a situação, define o que é lazer e trabalho, assim como, há momentos, há situações em que

trabalho e lazer estão ocorrendo ao mesmo tempo, é nestes momentos, nestas situações, que se pode pensar o quanto de satisfação pode haver em

um trabalho, evidentemente se o mesmo não for alienante, ou se caso o ser não se deixe alienar pelo trabalho numa perspectiva de que é uma fonte

de sobrevivência, algo desgastante e penoso, muitas vezes insatisfatório, assim como pensar no lazer como uma válvula de escape, uma

compensação para as frustrações do trabalho. As questões de valorização são muito complexas e dependerão, sempre, especificamente, de que tipo

de trabalho está em questão. Pode existir um trabalho não alienante, como também pode o lazer ser, ou não, crítico e criativo.

Decter (1964, p. 19) esclareceu que a solidificação da teoria da luta de classes se deu através da história:

4

A história de toda a sociedade humana, isto é, toda a história escrita, passada e presente, como declara o Manifesto Comunista, tem sido

a história da luta de classe. A luta de classe é a guerra perpétua, uma guerra às vezes encoberta, e às vezes aberta e reconhecida entre

opressor e oprimido, entre classe exploradora e explorada.

O trabalho nesta perspectiva equivale-se a uma forma dúbia, ou se explora ou se é explorado, neste sentido não se pode sair da idéia de que

trabalho é trabalho e lazer é lazer. Um aliena e o outro liberta, todavia isso não se aplica a todas as situações, em todos os momentos da vida.

A forma materialista de colocar o problema define uma forma de percebê-lo e, portanto, de compreensão que estipula uma forma dicotômica

de observar a sociedade, ou as pessoas. A intersubjetividade inerente aos significados de lazer e trabalho espelha uma dialética sintética entre

opressores e oprimidos. Entretanto, lazer e trabalho são fenômenos complexos, que se fundem em múltiplas alternativas de compreensão. A visão

imediatista estabelecida entre o trabalho e o lazer como oposições dificulta outras estruturas de compreensão que possam revelar, de forma

diferente, os significados atribuídos aos fenômenos, as experiências vividas entre o trabalhando e o realizando o lazer.

A visão que se instaurou na Educação Física acadêmica de que trabalho e lazer são oposições advém dos estudos que tomam a modernidade

e a Revolução Industrial como ponto de partida, somados a forte tendência dos estudiosos destes assuntos utilizarem-se dos métodos dialéticomaterialista

e histórico-dialético. O trabalho, sob esta perspectiva, ganha a dimensão de luta de classes, é uma opressão imposta pelo Capital e pelo

patrão, e, como conseqüência, surge a necessidade da conquista da liberdade, que seria entendida como tempo livre ou sem trabalho. O lazer, por

outro lado, torna-se uma das poucas possibilidades de conquista da felicidade e da humanização do homem. Munné (1999, p. 24 – 25) expõe a

concepção marxista dizendo que:

O processo de divisão do trabalho levou o homem a uma situação em que reina a necessidade, impedindo-lhe a auto-expressão e o

desenvolvimento pessoal (…) Nesse contexto, o lazer seria uma das condições para o desenvolvimento das faculdades intelectuais e

universais do homem.

5

Apesar de trabalho ser algo oposto a lazer, é possível que ocorram numa mesma situação, num mesmo momento, ou seja, ao mesmo tempo.

Por outro lado é mais complexo se dizer, por exemplo, que em um trabalho possa haver um momento de libertação, o da realização do trabalho, o de

criar, inventar, mesmo nos trabalhos mais mecânicos, as descobertas constantes das formas diferentes de se realizar a mesma função, ou as

descobertas nos progressos de cada trabalho. Sem dúvida, trabalhos que necessitem um alto nível de criatividade podem produzir prazeres, às vezes

até transformando a vida da pessoa passando a fazer do seu trabalho o seu lazer, são pessoas que gostam do que fazem e por isso trabalham demais,

sustentam a situação do trabalho mais que outras que logo se entediam e necessitam mudar a situação, sair do que estão fazendo.

Mascarenhas (2001) expõe a imbricada relação construída pela ciência entre lazer, trabalho e ócio, tratadas pelo autor como relações mal

entendidas. A noção de ócio é confundida com a de lazer em várias abordagens.

Amplia-se na Educação Física acadêmica, a compreensão de tempo livre utilizando principalmente a concepção marxista como referencial

teórico.

De acordo com Munné (1999), Marx concebia o tempo livre como o tempo disponível para gozar os produtos, distrair-se, vivenciar o lazer e

para desenvolver-se livremente. Nesse sentido, tempo livre seria como um fenômeno transformador do trabalho, e do homem, criando a

possibilidade de um trabalhador livre.

Russel (s. d.) ressalta a necessidade de uma redução na jornada de trabalho (quatro horas por dia) visando disponibilizar mais tempo livre

para os trabalhadores. Ele diz que o desenvolvimento tecnológico possibilitará a liberação da mão de obra humana. Porém, na atualidade percebe-se

que o desenvolvimento tecnológico resultou em um agravo nos índices de desemprego e que ao invés das máquinas liberarem o homem para

vivenciar o lazer e o ócio, transformaram-no em escravos das tecnologias.

Bruhns (2002) ao analisar o cientista político Sebastian De Grazia, volta-se para o ideal clássico de ócio apontando os equívocos da

denominação “tempo livre”; realiza uma dialética entre tempo livre e o tempo em que se têm obrigações. Propõe, desta forma, uma questão

filosófica ao perguntar às pessoas o que é lazer, quando poucas se atrevem a defini-lo. Porém, se a palavra lazer significar tempo, todos saberão

responder. “Temos agora duas palavras, em vez de uma, as quais têm produzido a insônia de muitos filósofos: livre e tempo”. (p. 32).

6

De Grazia (1966) recorre a Aristóteles expondo que o ócio era uma condição, ou estado de estar livre da necessidade de trabalhar (isenção de

obrigações). O ócio estaria relacionado à contemplação da natureza, do belo e dos valores supremos daquela época, bem como a busca da verdade e

o cultivo da mente, pois só vivenciando o ócio o homem atingiria a felicidade plena. Tanto Aristóteles como Platão concebiam a contemplação

como a melhor maneira para atingir a verdade e se aproximar dos deuses. O ideal grego de ócio chegou a Roma principalmente pelas obras de

Aristóteles, Platão e Epicuro. Um dos primeiros romanos a se dedicar ao estudo do ócio foi Sêneca.

Esse filósofo ressalta que a simplicidade é uma virtude, pois a vida deve ter poucas agitações criando possibilidades para uma vida tranqüila

e contemplativa. A serenidade deve ser cultivada como uma aspiração da alma, uma ausência de inquietação próxima do ser divino. O cultivo da

mente por meio da meditação deve ser um dos objetivos para se viver em harmonia. Ele dizia que os gregos chamavam este equilíbrio da alma de

euthymia” mas sua interpretação se aproximava do que chamamos “tranqüilidade”, pois segundo ele; “é inútil pedir palavras emprestadas para

nosso vocabulário e imitar a forma de um termo que tenha a significação da palavra grega, sem, no entanto reproduzir a forma”. (SÊNECA, 1961, p.

100).

Alguns filósofos da modernidade também refletiram sobre a necessidade do ócio.

Nietzsche (1988, p. 13) inicia o prefácio de Crepúsculo dos Ídolos ressaltando a serenidade como um meio para se atingir o êxito na vida e

diz que “o ócio é o começo de toda a psicologia”. Em outra obra, Nietzsche (2001, p. 192) declara a necessidade de vivenciar o ócio, pois estaria

relacionado a uma vida contemplativa. O filósofo da martelada faz uma denúncia afirmando que “por falta de tranqüilidade a nossa civilização se

transformou numa nova barbárie”. Além disso, há uma valorização excessiva das atividades em detrimento de momentos contemplativos, “em

nenhum outro tempo os ativos, isto é, os intranqüilos, valeram tanto”. Nesse contexto, muitos eruditos se igualam aos “homens ativos”, pois

valorizam essa espécie de fruição precipitada; “os eruditos se envergonham do otium (ócio)” O autor prossegue fazendo uma ressalva:

Se o ócio é realmente o começo de todos os vícios, então ao menos está bem próximo de todas as virtudes; o ocioso é sempre um

homem melhor do que o ativo – Mas não pensem que, ao falar de ócio e lazer estou me referindo a vocês, preguiçosos.

7

A visão nietzscheniana sobre os excessos de uma vida atribulada pode servir como indícios para uma reflexão profunda sobre as condições

humanas na atualidade.

Os homens ativos rolam como pedra, conforme a estupidez da mecânica – Todos os homens se dividem, em todos os tempos e também

hoje, em escravos e livres; pois aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista, comerciante,

funcionário ou erudito”. (NIETZSCHE, 2001, p. 191).

Outro filósofo da modernidade que se aproximou do ócio é Bertrand Russell (s.d., p. 23), ele diz que foi educado segundo os “preceitos do

provérbio alemão que diz que o ócio é o pai de todos os vícios. O filósofo revela que passou a vida inteira trabalhando duro por ter acreditado nesse

preceito. Contudo, ele faz um “elogio ao ócio”, pois este é necessário para o equilíbrio humano.

A partir desses ideais pode-se perceber o distanciamento (pelo menos no campo conceptual ou teórico) entre o ócio e os conceitos modernos

sobre lazer.

Nesse sentido, o lazer (como falta de trabalho ou isenção de obrigações) não pode ser mesmo entendido como oposição ao trabalho, mas

como um momento de realização e prazer. Bruhns (2002, p. 37), apoiando-se nas idéias de Epicuro, diz: “o prazer real e permanente é a serenidade.

Nada produz tanta tranqüilidade como fazer poucas coisas, não se meter em ações desagradáveis e não ir além das próprias forças”.

Na atualidade o lazer aparece como dependente de tempo livre e muitas vezes atrelado às questões de consumo. Nesse contexto, a liberdade,

entendida pela dialética materialista, prevê que os ricos têm mais oportunidades de lazer e tempo livre. Bruhns (2002) realiza uma grande

contribuição ao revelar que o lazer se converteu em tempo, afastando-se da vida de contemplação do belo, do refinamento das idéias e do cultivo da

mente e divorciando-o de todo significado político e religioso. Além disso, o tempo livre se transformou em um tempo político. Ela também

questiona como o tempo pode ser “livre” se ele é cronometrado e regido pelo relógio.

Como é possível perceber, o tema lazer é imbricado aos temas, tempo e trabalho.

8

Na Educação Física, lazer e trabalho aparecem, às vezes, na mesma situação; em outras ocasiões, em situações opostas. Por exemplo: o

fazer, ou seja, o trabalho do professor de Educação Física é quase sempre visto como um “trabalhar com as atividades lúdicas”, pensando no

trabalho do professor que aplica as técnicas aos alunos e isso lhe oferece, também, prazer; mas isso ainda pode não ser o lazer desse professor.

O lazer na discussão acadêmica, na atualidade transformou-se em mercadoria. O trabalho sempre foi tomado como escravização humana, e o

lazer, então, seria uma forma de se utilizar o tempo com atividades que se contraponham ao trabalho produtivo. Mas essa idéia logo se desfaz ao se

pensar o lazer como uma possibilidade de trabalho, ou pensar nas pessoas que fazem do lazer um trabalho. O lazer é uma possibilidade de trabalho.

Fica mais clara a idéia de ócio, contemplação do belo, do refinamento das idéias, do cultivo da mente. O trabalho tem este momento, de ócio,

criação e imaginação.

Revers (1966, p. 78) ressalta que pode haver momentos de ócio no trabalho. “O trabalhador dedicado a certas ocupações tem freqüentemente

tempo e ócio”.

Levensten apud (REVERS, 1966, p. 78) oferece uma descrição que um operário têxtil faz de si mesmo ao vivenciar o ócio:

Como eu deveria fazer durante horas e dias as mesmas operações, elas se converteram para mim numa coisa tão usual que eu não sentia

necessidade de lhes dedicar todo interesse, eu até me permitia pensar noutras coisas: assim cheguei a ponto de sentir satisfação no

trabalho uniforme do tear. Quando a lançadeira corria quase invisível de um lado para o outro e realizava o seu percurso costumeiro;

quando o surdo choque do batedor impunha um ritmo ao fragor das máquinas, aí eu freqüentemente como que sentia o rápido

movimento das máquinas a se me comunicar e a me dar uma adaptação íntima.

O autor supra citado denuncia que na atualidade grande parte dos homens modernos que teriam tempo para a ociosidade, não conhecem o

ócio.

Além da escassez de ócio, hoje em dia o trabalho é regido pela idéia de produtividade e qualidade total, buscando maximizar os lucros, pois,

“tempo é dinheiro”.

9

A pré-reflexão até aqui desenvolvida apontou o caminho na decisão de se buscar realizar duas pesquisas de campo, para compreender as

difíceis relações que se constroem entre ter momentos de trabalho e de ócio, ou de lazer. As pesquisas a seguir apresentadas são: a compreensão da

poiésis do trabalho, e a complexa é a situação do desempregado, ou do aposentado, que, figurativamente, não possui um trabalho. Atualmente, é

mais razoável pensar nos que não trabalham como sendo os oprimidos pelo sistema. Não produzir é uma situação diferente daquela dos que

produzem algo: de início, a subjetividade do tempo modifica-se, o tempo livre passa a ser o maior tempo, ou o tempo todo.

Situando o Fenômeno

De acordo com os escritos de Merleau Ponty (1971, p. 373):

O mundo está aí antes que dele eu possa fazer qualquer análise e seria artificial fazer uma derivação. Os aspectos perspectivos do

objeto, quando uns e outros são justamente produtos da análise, não devem ser forjados antes dela. A análise reflexiva segue, num

sentido inverso, o caminho de uma constituição pré-falada; a reflexão localiza-se numa subjetividade invulnerável e além do ser e do

tempo.

Nesta citação o filósofo mostra que há um tempo anterior a toda reflexão, o tempo do mundo vivido, as experiências do trabalhando, e do

estando sem trabalho, os desempregados e aposentados, que possuem uma outra vivência no lazer e no trabalho.

Para Martins e Bicudo (1989, p. 75):

Ao optar por realizar pesquisa qualitativa segundo a modalidade estrutura do fenômeno situado, alguns cuidados precisam ser tomados.

Não é possível falar em pesquisar aprendizagem, ansiedade, solidão, etc., considerados genericamente, como ocorre na pesquisa

empírica positivista. Na modalidade aqui considerada não se pode, de modo algum, considerar os acontecimentos “em si”, como se

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fossem realidades objetivas. A ciência contemporânea entende que as realidades fogem a toda determinação objetiva no espaço e no

tempo de modo que, em última instância, o pesquisador só pode tomar como objeto de análise a experiência que tem dos

acontecimentos que deseja estudar. As divisões vulgares do universo em sujeito-objeto, mundo exterior-mundo interior, corpo-alma

servem apenas para suscitarem equívocos. Dessa maneira, hoje, na análise científica, o objeto de investigação não é o acontecimento

em si, mas a natureza subordinada à maneira humana de pôr o problema. O homem se encontra só frente a si próprio. A pesquisa

qualitativa, segundo esta abordagem, precisa, de início, situar o fenômeno. Isso quer dizer que só há fenômeno psicológico enquanto

houver um sujeito no qual ele se situa.

O Fenômeno Situado, aqui, é a compreensão dos que estão vivenciando e experienciando o trabalho, assim como a experiência de lazer para

quem não trabalha, no caso, aposentados e desempregados.

Interrogações

Na primeira pesquisa, foi proposta, aos trabalhadores, a seguinte interrogação: “O que é o prazer do seu trabalho?”. Esta forma de abordar o

sujeito remete-o a um discurso de trabalho como aquisição de contentamento e satisfação, a motivação. O momento de criação em um trabalho a

poiésis, o criar é um momento de contemplação, imaginação e cultivo da mente, o ócio. Na segunda, foram interrogados aposentados e

desempregados: “O que é lazer para você?”. Numa perspectiva de entender o tempo livre por aqueles que estão o tempo todo criando o que fazer e

as vezes isso se torna um trabalho.

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Metodologia

Os estudos ora apresentados têm, como método, a análise do Fenômeno Situado, ou seja, uma análise do trabalho não como fato ou causa,

mas os fenômenos do “trabalhando” e do “vivenciando o lazer” como possuidores de qualidades essenciais que podem ser reveladas.

Os dados são os significados expressos nas experiências vividas de pessoas que têm obtido muito sucesso profissional e gostam do que

fazem e por outro viés as que fazem do seu tempo uma forma para sobreviver, um tempo de produzir. Os discursos, gravados e transcritos, serviram

para delinear o caminho da compreensão do trabalho como prazer, ou o lazer como trabalho, além do lazer para quem não trabalha, no caso dos

aposentados e desempregados.

Foram realizadas as análises Ideográficas e Nomotéticas nas duas pesquisas. Para a pesquisa intitulada “Compreensão de lazer para quem

não trabalha”, os entrevistados se caracterizaram por ter universos definidos como os que não possuem emprego ou emprego formalizado. Para a

outra pesquisa, “O prazer do trabalho, o momento de poíesis: uma forma de lazer, uma nova visão de trabalho pela fenomenologia”, os sujeitos se

caracterizaram por gostarem do que fazem ao trabalhar.

Construção dos Resultados

A partir das análises dos discursos de sujeitos que não trabalham e de sujeitos que trabalham e gostam do que fazem, foi estipulada uma

comparação entre essas experiências vividas e autores que fundamentam os estudos sobre lazer e trabalho. Assim foi possível construir os

resultados. O prazer no trabalho é visível mesmo em profissões mais sacrificantes, nelas, ao ter que manter a atividade de trabalho o momento de

descontração se dá ao resolver algo imprescindível. Portanto, o prazer está em conseguir realizar tarefas altamente confiáveis ao sujeito, não apenas

como forma de servir ao sistema, mas como resultado de uma missão cumprida, uma confiança que se estabelece por ser um bom profissional e

saber fazer algo, poder resolver um problema e tornar-se importante, “sair do fazer nada”. O nada é o não-ente, para a Fenomenologia, de modo que

o ser se configura na angústia. Quem gosta do que faz, trabalha e realiza com prazer, revigora-se com o fruto do trabalho, se tornando lazer,

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descontração, quando o pensamento nele está voltado para fazer com cuidado, pensando em adquirir mais saber, ou mesmo fugir das rotinas do

cotidiano. Na beleza do que se faz, na sua finalidade, o trabalho tem possibilidade de ser lazer, pelo prazer que possibilita. Os usos da criatividade e

da imaginação configuram um sentido de liberdade no trabalho, uma forma de produção, criação, um prazer.

No trabalho, é possível haver momentos livres, de descontração. Isso está ligado ao prazer de se conviver com os outros, construindo um

ambiente de intercâmbio. Agora mais difícil é associar se há algum momento de criação e de contemplação ou de prazer em um trabalho alienante.

Toda a dificuldade está associada à questão do tempo e a liberdade de obrigações. Será necessário, primeiro, recorrer a filosofia, para

entender o que é liberdade.

Em seus escritos Merleau Ponty (1971, p. 439) diz que:

Se, com efeito, a liberdade é igual em todas as nossas ações e até em nossas paixões, se está sem medida comum com a nossa conduta,

se o escravo testemunha tanta liberdade ao viver no medo do que ao quebrar seu ferro, não se pode dizer que haja nenhuma ação livre; a

liberdade está além de todas as ações, em nenhum caso se poderá declarar: “Aqui aparece a liberdade”, pois a ação livre, para ser

revelada, deveria destacar-se num fundamento de vida que não o foi ou que o foi menos. Ela está em toda parte se quiser, mas também

em lugar nenhum.

A liberdade é algo que está sempre por vir. Na mesma medida, “a liberdade é correr risco”, mas, o que isso tem a ver com o trabalho e o

lazer? Liberdade, atualmente, no trabalho e no lazer, é o que se configura na busca de prazer ao extremo, tal como, por exemplo, em algumas

experiências de lazer em que pode haver o risco de perder a vida (atividades de aventura ou esportes radicais). Estas são, na verdade, uma forma de

atividade não totalmente livre, pois, os que se arriscam detém um conhecimento de que praticam a atividade com segurança; portanto, o resultado da

atividade executada com sucesso é a potencialização do prazer.

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O trabalho pode gerar prazer quando se busca a conquista pela liberdade por meio de uma resistência contínua às forças que limitam e

condicionam os sujeitos. Para se transcender os limites na busca pela liberdade, porém, essas pessoas devem compartilhar idéias e ações com seus

pares, não na privacidade, mas nos espaços públicos. Veja-se o que é essa liberdade para o filósofo Merleau Ponty (1971, p. 458):

Arriscarei minha vida por tão pouco? Darei minha liberdade para salvar a liberdade? Não há respostas teóricas para essas perguntas.

Mas há essas coisas que se apresentam, irrecusáveis, há esta pessoa amada diante de você, há esses homens que existem escravos em

torno de você e sua liberdade pode existir sem sair de sua singularidade e sem querer a liberdade. Que se trate de coisas ou situações

históricas, a única função da filosofia é de nos reaprender a vê-las bem, e é verdade dizer que ela se realiza destruindo-se como filosofia

separada. Mas é aqui que é necessário calar-se, porque só o herói vive até o fim sua relação com os homens e o mundo, e não convém

que um outro fale em seu nome.

Vivenciar a liberdade seria a meta final de estar trabalhando ou realizando o lazer.

Considerações finais

Percebe-se, pelos resultados das pesquisas, que as pessoas desempregadas apresentam, como lazer, o procurar trabalho.

Tarefas cotidianas como cuidar da casa podem ser expressões de prazer. Para o desempregado, o tempo livre é percebido diferentemente das

pessoas que possuem vínculos empregatícios. Nesse sentido, as tarefas do cotidiano tornam-se mais agradáveis e prazerosas de serem realizadas,

pois representam uma possibilidade de sair do “fazer nada”.

Já os aposentados mostraram que o momento de lazer é diversão, descontração, um momento de contato com a natureza (contemplação) e

uma possibilidade de aproximação entre as pessoas. Isso permite perceber que o lazer é um momento de humanização e de aproximação com a sua

existência. O aposentado compreende o lazer e o trabalho diferentemente dos que ainda estão vinculados aos meios de produção (empregados). Para

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alguns o trabalho se torna uma possibilidade de obter um ganho extra como complemento da aposentadoria, “uma forma de ocupar o tempo com

coisas úteis”. O lazer, em todos os sentidos, possui relações com o trabalho. O lazer pode estar no trabalho e este pode produzir lazer.

O lazer para quem não trabalha passa a não estar mais vinculado ao tempo livre, mas a uma forma de sair do “fazer nada”. O lazer, neste

caso, passa a ser o “bico”, o trabalho provisório para se obter ganho.

Na atualidade, os significados de lazer e ócio misturam-se. Por um lado, o lazer está voltado para o consumo de mercadorias; por outro, o

não fazer nada (isenção de obrigações), atualmente, pode tornar-se facilmente angustiante, o que gera a vontade de se ocupar com algo. No caso dos

desempregados, a busca por um trabalho passa a ser o essencial e a realização de conseguir o emprego é o prazer.

Em todos os casos é melhor sair de questões que envolvam o que é lazer e o que é trabalho para discussões do que é liberdade e o que é o

tempo.

Viu-se, em Merleau Ponty, o significado de liberdade, e, quanto ao tempo, sabe-se que existem duas categorias. De acordo com Martins e

Espósito (1992, p. 70), o tempo pode ser compreendido a partir de duas possibilidades: o Cronos e o Kairós.

Tempo: que não é apenas Cronos, mas também Kairós. Cronos significa um tempo delimitado por mensurações que são provenientes

das pesquisas científicas essencialmente ônticas, que se esquecem do Ser e de suas possibilidades. Somos Kairós, isto é, um tempo

vivido numa determinação consciente e efetiva de nossa existência. Uma consciência que é tempo e indica direções.

O lazer e o trabalho são tempos cronológicos e, além disso, há o tempo de cada ser no lazer e no trabalho, o que configura uma infinidade de

possibilidades em que lazer pode ser trabalho e trabalho pode ser lazer. O trabalho pode ser gratificante e, nele, pode estar o lazer. O lazer, por outro

lado, não pode ser só ocupação do tempo com o que não é trabalho, pois tal ocupação pode tornar-se um novo trabalho, ou possuir as mesmas

características de um trabalho. Lazer e trabalho são sempre encontros sociais, e aí está envolvido o tempo cronológico que as pessoas possuem. Da

mesma forma se revelam os Kairós, que determinam o que é trabalho, o que é lazer e como se mostra à liberdade no trabalhar e no desfrutar um

lazer. Assim, o que vale para lazer e trabalho depende de qual experiência vivida está em questão.

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