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Educação e cultura no Brasil

Mais de 680 instituições de ensino superior são ‘reprovadas’ pelo MEC; veja lista

Mais de 680 instituições são ‘reprovadas’ pelo MEC; veja lista

ANDRÉ MONTEIRO
FÁBIO TAKAHASHI
DE SÃO PAULO

Mais de 680 instituições de ensino superior foram “reprovadas” pelo Ministério da Educação, segundo dados divulgados nesta quinta-feira no “Diário Oficial da União”.

Consulte o IGC de todas as instituições
Bergamo: MEC pode suspender 30 instituições por nota baixa

O MEC publicou hoje o IGC (Índice Geral de Cursos), indicador que leva em conta a nota dos alunos no Enade (exame federal) e outros indicadores como infraestrutura e qualidade do corpo docente.

O índice tem notas que vão de 1 a 5, e são consideradas insatisfatórias as médias 1 e 2. Foram avaliadas 2.176 universidades, faculdades e centros universitários.

As 683 instituições com notas baixas vão passar por supervisão do governo federal e podem ser alvo de medidas que vão do arquivamento de pedidos de abertura de novos cursos até o descredenciamento.

Por outro lado, as 158 instituições bem avaliadas (IGC 4 ou 5) que têm algum pedido de abertura de novos cursos em tramitação no MEC poderão ter autorização automática, sem necessidade de visitas.

As medidas oficias serão anunciadas na tarde desta quinta-feira pelo ministro da Educação, Fernando Haddad.

Também foi publicado no “Diário Oficial da União” a listagem dos 422,8 mil cursos avaliados pelo Enade 2010. A cada um foi atribuído um CPC (Conceito Preliminar de Curso), que leva em conta, além do Enade, indicadores como a titulação dos professores. Os resultados 1 e 2 são considerados insatisfatórios, o 3 razoável e o 4 e o 5 bons.

Em 2010 foram avaliados os bacharelados em agronomia, biomedicina, educação física, enfermagem, farmácia, fisioterapia, fonoaudiologia, medicina, medicina veterinária, nutrição, odontologia, serviço social, terapia ocupacional e zootecnia, e os cursos superiores de tecnologia em agroindústria, agronegócios, gestão ambiental, gestão hospitalar e radiologia.

VEJA A LISTA DE ESCOLAS COM NOTAS 1 E 2

Dispoível em: http://www1.folha.uol.com.br/saber/1007973-mais-de-680-instituicoes-sao-reprovadas-pelo-mec-veja-lista.shtml


TRABALHADOR CORROMPE? PROFESSOR CORROMPE? QUEM CORROMPE?

TRABALHADOR CORROMPE? PROFESSOR CORROMPE? QUEM CORROMPE?

 Laerte Braga

Há dias o País tem assistido a um esforço desesperado de velhos golpistas (torturadores, estupradores, assassinos de 1964), aliados a grandes empresários, banqueiros e latifundiários, para mobilizar os brasileiros contra a corrupção.

 

Tentam convocar uma nova marcha da família com Deus pela liberdade arvorados em uma condição de salvadores da pátria, do mesmo jeito que fizeram em 1964 sob o comando do embaixador Lincoln Gordon dos EUA e do general Vernon Walthers, ex-diretor da CIA (o governo dos EUA, em 1964 designou um comandante militar para as forças golpistas que entre outras coisas era amigo pessoal de Castelo Branco e falava português).

 

Apoiados pela grande mídia, a mídia privada, GLOBO à frente, tecem as mentiras de sempre, criam as ilusões que sempre criaram e tentam reduzir a corrupção a deputados, governadores, senadores, prefeitos, até presidente da República.

 

Dilma repete o malabarismo de Lula, uma no cravo outra na ferradura. O diapasão desse concerto petista é a bolsa família e 45% das receitas orçamentárias para pagar juros da dívida junto a bancos privados.

 

A diferença entre Dilma e Lula é que a presidente não consegue se equilibrar sobre o fio tênue do “capitalismo a brasileira” que o ex-presidente inventou. É menor que o cargo e ainda carrega consigo alma de tecnocrata. Ou seja, o que vale são os números não o ser humano. Na cabeça dessa gente numa tragédia, digamos assim, se a primeira impressão é que morreram dez quando poderiam ter morrido vinte, houve lucro, deixaram de morrer outros dez. Enxergam o mundo desse jeito.

 

No sete de setembro a GLOBO editou as matérias sobre o Grito dos Excluídos e a marcha das elites paulistas que tentam espalhar pelo Brasil, jogando tudo no ar como se fosse protesto contra a corrupção. Canalhice bem ao estilo da rede.

 

Nasceu com a ditadura, apoiou a ditadura e é instrumento de interesses estrangeiros, de banqueiros, grandes empresários e latifundiários.

 

Trabalhador e professor, por exemplo, não corrompem ninguém. São ludibriados por políticos corrompidos por banqueiros, grandes empresários e latifundiários. Veja o caso de Minas. Quando governador do estado o ex-presidente Itamar Franco anulou um acordo feito pelo seu antecessor, Eduardo Azeredo – corrupto de carteirinha – que entregava a CEMIG a grupos estrangeiros. Aécio, agora, no final de seu governo refez o acordo e entregou a CEMIG.

 

A mídia disse alguma coisa? Nada. Está no bolso. É venal. E o povo, o trabalhador, os professores mineiros nas mãos de uma aberração política o tal Antônio Anastasia, valet de chambre de toda essa gente, está como? Mas Aécio comprou um apartamento de um milhão de reais no Rio de Janeiro.

 

Segundo outra aberração, Cid Gomes, “professor tem que dar aula por amor, se acha o salários baixo que procure outra profissão”. Sogra não. O dito leva para Paris em vôo pago pelos cofres públicos.

 

O esquema de financiamento de campanhas políticas no Brasil permite que empresas, bancos e latifundiários comprem lotes de candidatos em todos os partidos com representação na Câmara ou no Senado através de doações. Tornam-se proprietários lato senso desses deputados, senadores, de governadores, prefeitos, vereadores, atingem o Judiciário e permeiam o Executivo.

 

Mas e daí?

 

O xis da questão não está em reformas políticas ou outras, na tentativa de construir painéis coloridos de ilusão e manter uma realidade podre como querem os que se voltam apenas contra os políticos no caso da corrupção.

 

E quem corrompe? Para que exista um corrupto é necessário que exista um corruptor.

 

A corrupção está intrinsecamente ligada ao modelo político e econômico vigente. A reforma política tira José Sarney de cena e coloca na cadeia? Não. Sarney serviu a ditadura militar com subserviência e de quatro durante todo o período do regime, da mesma forma que descaradamente emergiu – com a morte de Tancredo – como guia e condutor do processo de reconstrução democrática.

 

E o povo? A participação popular? Não tivemos uma assembléia nacional constituinte, mas um congresso constituinte e tutelado pelos militares que, entre outras coisas, não permitiram, como tem criado toda a sorte de obstáculos para que sejam revelados os documentos que mostrem a covardia diária dos golpistas/torturadores enquanto durou o regime.

 

Na passeata contra a corrupção em São Paulo estava um desses generais, eram visíveis bandeiras dos Estados Unidos.

 

Não foi por outra razão que o pensador e parlamentar inglês Samuel Johnson afirmou que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.

 

O que querem? Mudar os políticos? É só olhar os antigos colaboradores do regime militar, vivos e fortes aí, exercendo mandatos e se afirmando democratas.

 

O que essa gente pretende é simples. Antônio Ermírio de Moraes compra dez tênis adidas a vista produzidos com trabalho escravo em países asiáticos, inclusive a China e o trabalhador compra um pagando em dez prestações para se sentir num dado momento como Ermírio de Moraes, na ilusão que vivemos numa democracia. O espetáculo, a “sociedade do espetáculo”.

 

Ermírio de Moraes está destruindo o Espírito Santo – o meio ambiente – com suas empresas, o tal progresso, adoecendo um povo, com aplausos de um ex-governador corrupto e assassino, Paulo Hartung, que de fato continua no covil do governo (chamam de palácio), onde um contínuo chamado Renato Casagrande faz de conta que governa.

 

Por trás da tal campanha existe a sórdida mentira capitalista, pela simples razão que os corruptos são corrompidos por eles. Não querem pagar impostos, não querem conquistas e direitos dos trabalhadores, não querem que o progresso seja algo comum a todos e sim privilégio deles. Querem professor dando aula por amor.

 

Quando se concede benefícios fiscais e tributários a uma grande empresa o custo dessa concessão é pago pelos trabalhadores, pelos pequenos empresários, pelo dinheiro que falta na saúde, na educação. É o caso da COCA COLA que financia parte dessa campanha. Ocupa terras públicas, através de uma empresa chamada CUTRALE, vende a idéia de progresso, geração de empregos, compra deputados, senadores, juízes, etc para manter as terras que repito são públicas e imputa-se a culpa aos trabalhadores rurais sem terra, aos pequenos produtores rurais.

 

E infestam a mesa do brasileiro de veneno como mostra um excelente documentário do notável Sílvio Tendler sobre agrotóxicos e coisas que tais. O veneno que comemos todos os dias produzido pelos compradores de deputados, senadores. juízes e que agora protestam contra a corrupção, biombo para disfarçar seus verdadeiros interesses.

 

Se fosse para valer não haveria um banqueiro solto. Estariam todos presos. Nem um grande empresário, ou latifundiário que até hoje se vale de trabalho escravo.

 

Por mais irônico que possa parecer, ou trágico, os que protestam contra a corrupção e tentam transformar a corrupção em único mal do Brasil são os que corrompem.  E a meia dúzia de inocentes a acreditar nesse tipo de marginal.

 

O institucional está falido. O modelo está corrompido por essa gente. O palco da luta é outro, é dos trabalhadores e é nas ruas contra a farsa de campanhas como essa.

 

São velhos gatunos tentando fazer ressurgir o golpismo que é parte da genética desse tipo de gente.

 

Deputados, senadores e juízes corruptos, governadores, são apenas figuras execráveis e compradas que carregam em seus balaios.

 

Trabalhador não corrompe ninguém. Professor, que é trabalhador, não corrompe ninguém.

 

Quem corrompe são banqueiros, grandes empresários e latifundiários.

 

É simples entender isso. A corrupção é parte inseparável do modelo político e econômico que temos.

 

Jogar por terra toda essa estrutura podre e construir um Brasil livre e soberano, sem essa gente, aí sim, essa é a luta real dos brasileiros.

 

Não há corrupto sem corruptor.

 

E por longo que fique, uma breve e real historinha. Nos idos de 2002 a GLOBO estava enfrentando sérias dificuldades de caixa. A GLOBOPAR estava levando o dinheiro da empresa. Tentaram 250 milhões de dólares junto a FHC e como o ex-presidente estivesse demorando muito a liberar o dinheiro, lançaram, inventaram, a candidatura Roseana Sarney à presidência. Chamaram o IBOPE e suas pesquisas prontas para atender o interesse do cliente, levaram Roseana às alturas e aí FHC chamou a turma na conversa.

 

O capital da GLOBOPAR era o seguinte – 90% da GLOBO, 5% do BNDES e 5% da MICROSOFT. Convocaram uma assembléia geral para aumento de capital de um jeito que esse aumento implicasse nos 250 milhões de dólares e aprovação da emenda constitucional que passava a permitir a presença de capital estrangeiro no setor de telecomunicações. A GLOBO não entrou com sua parte, lógico, estava inclusive ameaçada de falência, havia credores externos apertando os Marinhos, a MICROSOFT que já sabia da mutreta correu fora e o BNDES entrou com a sua parte, dinheiro dos brasileiros. O Congresso aprovou a emenda, o grupo MURDOCH comprou parte da GLOBOPAR. Na semana seguinte a Polícia Federal de FHC estourou o escritório do marido de Roseana achando um milhão de reais ilegais doados para a campanha. Tudo pronto, ficou acertado o apoio da rede a candidatura de Serra. O furo foi exclusivo da GLOBO.

 

E a GLOBO está na campanha contra a corrupção. Dá para entender os verdadeiros motivos desses bandidos?

 

A luta é outra. É contra bandidos compradores e comprados. Se bobear essa gente revoga a Lei Áurea e amplia os limites da escravidão contra todos os trabalhadores. Na prática, vão fazendo isso nessa mistura de populismo com capitalismo e campanhas imorais e amorais como essa. Jogo de cena de bandidos para vender imagem de santos.


Em época de muito trabalho, o ócio simboliza tempo livre para pensar

Dom, 24 de Julho de 2011 08:24

ENSAIO

Apologia da preguiça

O sequestro do nosso tempo pelo trabalho

RESUMO
Em tempos de tecnociência, permanece irrealizada a utopia da libertação do homem pelas máquinas: nunca se trabalhou tanto, e o tempo livre jamais esteve tão fora da pauta. Ora estigmatizado na ordem produtiva, ora exaltado na tradição filosófica, o preguiçoso é hoje o símbolo do tempo livre para o pensamento.

ADAUTO NOVAES

O trabalho deve ser maldito, como ensinam as lendas sobre o paraíso, enquanto a preguiça deve ser o objetivo essencial do homem. Mas foi o inverso que aconteceu. É esta inversão que gostaria de passar a limpo.
Malevitch, “A Preguiça como Verdade Definitiva do Homem”

SABE-SE QUE uma única palavra é suficiente para arruinar reputações e, entre todas, preguiça é uma das mais suspeitas e perigosas. Ao longo dos séculos, foi carregada de significações contraditórias e impressionantes variações.
Dela decorre longo cortejo de acusações bizarras, mas também sabe ser tema de obras de arte, poesia, romance, pinturas, reflexões filosóficas: o preguiçoso é indolente, improdutivo, nostálgico, melancólico, indiferente, distraído, voluptuoso, incompetente, ineficaz, lento, sonolento, silencioso. Preguiça e trabalho guardam um misterioso parentesco, quase simétrico e especular.
Para o preguiçoso, “é preciso ser distraído para viver” (Paul Valéry), afastar-se do mundo sem se perder dele; exatamente por isso, é acusado de não contribuir para o progresso.
Além de praticar crime contra a sociedade do trabalho, o preguiçoso comete pecado capital. Pela lógica do mundo do trabalho e da igreja, ele deve sentir-se culpado, pagar pelo que não faz.
Mais: pensadores como Lafargue, Stevenson, Bertrand Russell, Jerome K. Jerome, Marx e Samuel Johnson apostaram no desenvolvimento técnico como possibilidade de liberação do trabalho. Erraram: na era da tecnociência, nunca se trabalhou tanto e nunca se pensou tão pouco. Assim, o espírito tende a se tornar coisa supérflua.

O QUE FAZER Ao pensar sobre o fazer, o ocioso pode prestar um grande serviço e ajudar a responder à velha questão moral: o que devo fazer? Dependendo da resposta, teremos diferentes definições do que seja o homem, a política, as crenças, o saber, nossa relação com o mundo, e, principalmente, nossa relação com o trabalho. A resposta pode nos dizer não apenas o que fazemos mas também o que o trabalho faz em nós.
Hoje, maravilhosas máquinas “economizam” o trabalho mecânico, mas criam novos problemas: primeiro, uma espécie de intoxicação voluntária, isto é, “mais a máquina nos parece útil, mais ela nos torna incompletos” (Valéry).
A máquina governa quem a devia governar; daí decorre o segundo problema, bem mais complexo: tantas potências auxiliares mecânicas tendem a reduzir “nossas forças de atenção e de capacidade de trabalho mental”, o que se relaciona à impaciência, à rapidez e à volatilidade nunca antes vistas.
Assim escreveu Paul Valéry (1871-1945): “Adeus, trabalhos infinitamente lentos, catedrais de 300 anos cuja construção interminável acomodava curiosas variações e enriquecimentos sucessivos… Adeus, perfeições da linguagem, meditações literárias e buscas que tornavam as obras ao mesmo tempo comparáveis a objetos preciosos e a instrumentos de precisão!
[...] Eis-nos no instante, voltados aos efeitos de choque e contraste, quase obrigados a querer apenas o que ilumina uma excitação de acaso. Buscamos e apreciamos apenas o esboço, os rascunhos. A própria noção de acabamento está quase apagada”.

MONTAIGNE Valéry retoma uma tradição. Lemos em Montaigne (1533-92) que “a alma que não tem um fim estabelecido perde-se. Porque, como se diz, estar em toda parte é não estar em lugar algum”. Aqui, entendemos por alma o “trabalho teórico do espírito”, potência de transformação. O que leva a alma (espírito) a se perder é o trabalho desordenado.
Habitar o próprio eu, comenta Bernard Sève, é o projeto de Montaigne: viver em repouso, longe das agitações do mundo, retirar-se da pressa do mundo “para se conquistar, passar do negotium ao otium”, do negócio ao ócio.
É isso que podemos ler na inscrição que Montaigne mandou pintar nas paredes da sua torre: “No ano de Cristo de 1571, aos 38 anos, vésperas das calendas de março, dia de aniversário de seu nascimento, depois de exercer longamente serviços na Corte (Parlamento de Bordeaux) e nos negócios públicos [...] Michel de Montaigne consagrou este domicílio, este tranquilo lugar vindo de seus ancestrais, à sua própria liberdade, à sua tranquilidade, ao seu ‘loisir’ (otium)”.
Eis que Montaigne recolhe-se ao ócio reflexivo, com um espírito criativo leve e vagabundo. Como escreve Sève, um Montaigne distante das pressões políticas e das injunções do trabalho burocrático, com o espírito já amadurecido, “construído pela vida, espírito prestes ao fecundo exercício de uma ociosidade inteligente e feliz”. Mas interpretemos com cuidado esse afastamento do mundo.
Se a vida teórica aparece mais compensadora, é porque Montaigne não encontrou na vida prática -social e política-, no Parlamento de Bordeaux, aquilo que buscava. À diferença dos comuns, Montaigne não procurava satisfação no reconhecimento social e político. No ócio, preferiu a busca da verdade às coisas da política.
Sua “contemplação” teórica é discursiva, isto é, transforma-se em atos de pensamento e, portanto, em atividade prática. Nascem aí os monumentais “Ensaios”.

FOUCAULT A aliança entre capital, igreja e disciplina militar para regular o trabalho tem história. Em um curso de 1973, ainda não publicado, Michel Foucault (1926-84) narra a institucionalização do trabalho através da “fábrica-caserna-convento” no final do século 19. Ele descreve as regras de uma comunidade fechada de até 400 trabalhadores: acordar às 5h, 50 minutos para toalete e café, trabalho nas oficinas das 6h10 às 20h15, com uma hora para as refeições. À noite, jantar, reza e cama às 21h. Só no sul da França, 40 mil operárias trabalhavam nessas condições.
O trabalhador é fixado no aparelho produtivo, no qual “o tempo da vida está submetido ao tempo da produção”. Vemos nessa experiência uma mudança essencial que nos interessa porque se torna mais aguda e determinante no trabalho hoje: “da fixação local a um sequestro temporal”. Ou melhor, da ideia de controle do espaço no trabalho à ideia de controle do tempo.
O trabalho sequestrou o tempo. Se, no século 19, o controle do tempo era apresentado ao operário como um “aprendizado de qualidades morais” que, na realidade, significava a integração da vida operária ao processo de produção, hoje o controle é aceito com naturalidade, e até mesmo desejado.
O homem se integra voluntariamente “a um tempo que não é mais o da existência, de seus prazeres, de seus desejos e de seu corpo, mas a um tempo que é o da continuidade da produção, do lucro”.
A reivindicação de tempo livre tornou-se quase que palavra de ordem subversiva: “Preciso tanto de nada fazer que não me resta tempo para trabalhar”, conclama Pierre Reverdy, citado no prefácio ao livro de Denis Grozdanovitch “A Difícil Arte de Quase Nada Fazer”.

TRABALHO CEGO A mobilização veloz e incessante do trabalho cego não permite ao homem dizer qual é o seu destino e muito menos o que acontece. Ele não dispõe de tempo para pensar e muito menos tem consciência de que seus gestos, no trabalho, produzem muito mais do que os objetos que fabrica.
Há um excedente invisível, entendendo-se por “excedente” tudo o que não é mensurável, que produz catástrofes através do trabalho “normal e produtivo” e se manifesta na poluição, nos desastres ecológicos, no esquecimento e na desconstrução de si.
Como nos lembra Robert Musil em “O Homem sem Qualidades”, foi preciso muita virtude, engenho e trabalho para tornar possíveis as grandes descobertas científicas e técnicas, graças aos sucessos dos “homens de guerra, caçadores e mercadores”. Tudo isso fundado na disciplina, no senso de organização e na eficácia do trabalho, o que talvez pudesse ser resumido assim: o trabalho mecânico da produção de mercadorias pretende tomar o mundo de assalto, produzindo agitação social e frenesi econômico e consumista, dada a multiplicação de objetos “não naturais e não necessários”.
Já o preguiçoso põe-se na escuta de si e do mundo que o cerca.

PENSAMENTO Talvez o mais danoso de todo esse legado para o espírito humano seja a criação de um mundo vazio de pensamento que o ocioso procura preencher. Guardo uma imagem que o poeta e filósofo Michel Deguy me fez ver à janela de seu apartamento, em Paris: um mendigo que dormia 20 horas por dia na escadaria da igreja Saint-Jacques.
Deguy narra essa experiência em um pequeno ensaio com o título “Do Paradoxo”: em imagem semelhante, diz ele, também nas escadarias de uma igreja, “a ‘Derelitta’ de Botticelli está pelo menos sentada, parecendo meditar. Hoje, ninguém medita, como dizia Valéry na figura de M. Teste. Portanto, o mendigo talvez não esteja errado, uma vez que o fato de estar deitado nada muda [...] E quando lembro que Pascal era o pároco da igreja e cuidava dos abandonados, a comparação me perturba: os ‘pobres’ não são mais como eram -mas os pensadores também não. Portanto, o ‘despertar do pensamento’? Nós, você e eu, não queremos dormir. Mas estamos acordados?”
O trabalho técnico, mecânico e acelerado abole o tempo do pensamento, que exige virtudes atribuídas ao preguiçoso: paciência, lentidão, devaneio, acaso -o imprevisto. Em um texto célebre, Valéry nota: “O futuro não é mais como era”. Isto é, não há mais o tempo lento do pensamento, momento em que o tempo não contava. Sabemos que é na vida meditativa e lenta que o homem toma consciência da sua condição.

SERES OCULTOS Ora, como escreveu ainda Valéry, o amanhã é uma potência oculta, e o homem age muitas vezes sem o objeto visível de sua ação, como se outro mundo estivesse presente, “como se ele obedecesse a ações de coisas invisíveis ou de seres ocultos”.
Essa poderia ser uma boa definição do ocioso. Coisas invisíveis e seres ocultos participando do mundo do devaneio e do pensamento. Mundo do trabalho do espírito, em contraposição ao trabalho mecânico.
As ideias e os valores, lembra-nos Maurice Merleau-Ponty (1908-61), não faltam a quem soube, na sua vida meditativa, liberar a fonte espontânea, não deliberadamente, em direção a fins predeterminados por cálculos técnicos e produtivos. Todo trabalho finito e alienado é pura perda.
Através de uma admirável reversão, o meditativo transforma a desrazão do mundo do trabalho alienado em fonte de razão. Isso porque o trabalho meditativo do ocioso é um trabalho sem finalidade, sem “telos”, um trabalho sem fim. O trabalho meditante do ocioso exige muito mais trabalho do que o trabalho mecânico. O trabalho da obra de arte e da obra de pensamento pede um tempo que não pode ser medido pelo relógio.

PREGUIÇOSO Como se pode, então, pensar essa figura que sempre teve péssima reputação? Talvez uma boa definição seja a de um autor inglês, Jerome K. Jerome (1859-1927), em seu livro “Pensamentos Preguiçosos de um Preguiçoso” (1886): “O que melhor caracteriza um verdadeiro preguiçoso é o fato de ele estar sempre intensamente ocupado. De início, é impossível apreciar a preguiça se não há uma massa de trabalho diante de si. Não é nada interessante nada fazer quando não se tem nada a fazer! [...] Perder seu tempo é uma verdadeira ocupação, e uma das mais fatigantes. A preguiça, como um beijo, para ser agradável, deve ser roubada”.
Jerome K. Jerome leva-nos a pensar que a preguiça não é coisa passiva. Perder o tempo mecânico dá trabalho e exige enorme atividade do espírito.
O egípcio Albert Cossery é apresentado pela revista francesa “Magazine Littéraire” como o escritor contemporâneo que celebra a preguiça como uma arma de subversão política e como um modo de resistir à impostura das potências. Para Cossery, o exercício da preguiça tem o valor da arte de viver. Mas ele distingue dois tipos de preguiçosos: os idiotas e os reflexivos.
“Um idiota preguiçoso permanece idiota!”, escreve. “E um preguiçoso inteligente é quem reflete sobre o mundo no qual vive. Mais você é ocioso, mais tempo você tem tempo para refletir… Esses são os valores da preguiça, que supõe, pois, dupla recusa: nosso mundo imediato e a triste realidade.”
Mas o mais radical dos libelos contra o trabalho alienado continua a ser o pequeno ensaio de Paul Lafargue (1842-1911), “O Direito à Preguiça” (1880). “Trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a fortuna social e suas misérias individuais; trabalhem, trabalhem, para que, tornados mais pobres, tenham mais razões ainda para trabalhar e tornarem-se miseráveis. Essa é a lei inexorável da produção capitalista”.
Para Lafargue, o trabalho é invenção relativamente recente, uma vez que os antigos gregos desprezavam o trabalho e deliciavam-se com os “exercícios corporais” e os “jogos de inteligência”. Ele critica a moral cristã ao proclamar o “ganharás o pão com o suor do rosto” e ao lembrar que Jeová, “depois de seis dias de trabalho, repousou por toda a eternidade”.
Robert Louis Stevenson (1850-94), na “Apologia dos Ociosos” (1877), mostra que o ócio “não consiste em nada fazer, mas em fazer muitas coisas que escapem aos dogmas da classe dominante”.

MELANCOLIA A tradição relaciona a melancolia e o devaneio à preguiça. Nisso, mais uma vez, igreja e capital estão juntos. O trabalho é o grande meio que a igreja encontrou para lutar contra a melancolia e a vertigem do tempo livre. Seu lema sempre foi “Rezai e trabalhai”, ou seja, só abandonar a oração quando as mãos estiverem ocupadas.
Lemos em um ensaio de Jean Starobinski sobre a melancolia -”A Erupção do Diabo-” que o trabalho tem por efeito ocupar inteiramente o tempo que não pode ser dado à oração e aos atos de devoção: “Sua função”, escreve ele, “consiste em fechar as brechas por onde o demônio poderia entrar, por onde também o pensamento preguiçoso poderia escapar”. Assim, o trabalho interrompe o “vertiginoso diálogo da consciência com seu próprio vazio”.
A crítica que Jean-Jacques Rousseau (1712-78) faz ao trabalho não é diferente. Na sétima caminhada dos “Devaneios de um Caminhante Solitário” (1782), ele busca a solidão, mas procura trabalhar tudo o que o cerca, escolhendo o mais agradável. Não escolhe os minerais porque, escondidos no fundo da terra “para não tentar a cupidez”, exigem indústria, trabalho, pena e exploração dos miseráveis nas minas.
As plantas não. A botânica é o estudo de um “ocioso e preguiçoso solitário”: “Ele passeia, erra livremente de um objeto a outro, passa em revista cada flor… Há, nesta ociosa ocupação, um charme que só se sente na plena calma das paixões, o que basta para tornar a vida feliz e tranquila. Mas, quando se mistura aí um motivo de interesse ou vaidade, seja para ocupar espaços, seja para escrever livros, ou quando se quer aprender apenas para se instruir ou pesquisar as plantas apenas para se tornar professor, todo o charme da tranquilidade se desfaz; [...] no lugar de observar os vegetais na natureza, ocupa-se apenas com sistemas e métodos”.
O que importa hoje, talvez, é propor a luta do progresso contra o progresso; isto é, a valorização do progresso do espírito, a valorização dos valores contra o progresso técnico, esta “ilusão que nos cega”. Eleger a quietude, o silêncio e a paciência para conhecer e aprofundar indefinidamente as coisas dadas.
Eis o ócio que Karl Kraus (1874-1936) nos propõe: “Se o lugar aonde quero chegar só puder ser alcançado subindo uma escada, eu me recusarei a fazê-lo. Porque lá aonde eu quero realmente ir, na realidade já devo estar nele. Aquilo que devo alcançar servindo-me de uma escada não me interessa”.

“O que importa hoje, talvez, é propor a luta do progresso contra o progresso; isto é, a valorização do progresso do espírito, a valorização dos valores”

“Além de praticar crime contra a sociedade do trabalho, o preguiçoso comete pecado capital. Pela lógica do mundo do trabalho e da igreja, deve sentir-se culpado”

“O trabalho meditativo do ocioso é sem finalidade, sem “telos”, um trabalho sem fim; exige muito mais trabalho do que o trabalho mecânico”

“O trabalhador é fixado no aparelho produtivo, no qual “o tempo da vida está submetido ao tempo da produção”. O trabalho sequestrou o tempo”

Retirado de:  Folha de S. Paulo – http://click.uol.com.br/?rf=home-jornais&u=http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il2407201105.htm

Para aprofundar está reflexão consulte – http://pt.scribd.com/doc/33126105/Pesquisas-em-fenomenologia-compreendem-o-lazer-o-ocio-e-o-trabalho?in_collection=2714181


Todo o poder da ioga.

A técnica ganha o respeito da medicina e é usada para ajudar no tratamento de câncer, obesidade, dor crônica e doenças cardíacas, respiratórias e psiquiátricas

Cilene Pereira e Mônica Tarantino

Assista ao vídeo e saiba o que pensam dois especialistas em terapias complementares :

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Nesta semana, o mundo acompanha, como de costume, as novidades divulgadas durante o congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, conhecido como Asco, o maior e mais importante encontro mundial sobre câncer. Neste ano, entre os destaques mostrados no centro de convenções, em Chicago, um, especialmente, chama a atenção não só pela importância de seus resultados como também pelo simbolismo que carrega. Pesquisadores do MD Anderson Cancer Center – uma das principais instituições do planeta para o tratamento da doença – apresentarão um trabalho no qual relatam como a ioga ajuda a tratar o câncer.

No estudo, realizado com portadoras de tumor de mama submetidas a sessões de radioterapia, ficou comprovado que o método, além de reduzir os níveis de cortisol (hormônio liberado em situações de estresse), melhora o funcionamento do corpo em geral. Entre outros ganhos, as participantes demonstraram maior capacidade de execução de tarefas cotidianas, mas difíceis de ser efetuadas por causa da doença, como subir escadas ou dar uma volta no quarteirão. Também sentiram menos cansaço, dormiam melhor e ainda encontraram uma forma menos doída de lidar com seu drama particular. “Elas dão mais foco à espiritualidade, na conexão consigo mesmas e com as outras pessoas”, disse à ISTOÉ Lorenzo Cohen, diretor do Programa de Medicina Integrativa do MD Anderson e responsável pela pesquisa. “Dessa maneira, fica mais fácil perceber o que realmente precisam e como alcançar essa meta.”

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HOSPITAL
Na Clínica Mayo (EUA), há aulas para pacientes
com insuficiência cardíaca e doenças respiratórias

A apresentação de uma pesquisa sobre ioga em um evento mundial no qual a tônica, historicamente, sempre foi a divulgação de novidades que giram em torno da medicina tradicional – novos remédios ou aparelhos, por exemplo – é emblemática. O fato é a evidência mais concreta de que a medicina ocidental está incluindo a ioga na sua lista de recursos contra as doenças. Criada há cerca de cinco mil anos no lugar onde hoje é a Índia, a ioga é uma filosofia de vida (leia mais no quadro à pág. 107). Seu princípio fundamental é o de facilitar a conexão do corpo com a mente, entendidos como uma coisa única, indissociável. Não é por outra razão que, em sânscrito, a língua usada em rituais do hinduísmo, a palavra ioga remete ao significado de atrelar. Para que isso seja possível, ela se apoia em recursos como a meditação, a respiração profunda e a execução dos ásanas, posturas corporais inspiradas em animais ou em outras referências da natureza.

Depois de desembarcar no Ocidente como mais uma excentricidade do Oriente, a prática hoje ganhou o respeito da ciência e recebeu o direito de entrar pela porta da frente em alguns dos mais renomados serviços de saúde do planeta. O método figura entre as terapias complementares disponíveis no MD Anderson, no Massachusetts General Hospital, em Boston, e no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, por exemplo.

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PRÁTICA
Adepto, o cientista Krystal estuda
como o método ajuda a emagrecer

Na Clínica Mayo, outro respeitado serviço de saúde, localizado também nos EUA, ela é ofertada a portadores de doenças diversas. O pneumologista Roberto Benzo, por exemplo, a aplica no tratamento de insuficiência cardíaca (o coração perde a capacidade de bombear o sangue para o corpo) e de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), mal caracterizado pela destruição progressiva dos alvéolos pulmonares. “Os principais benefícios são a redução da dificuldade respiratória e a melhora do condicionamento físico”, explicou Benzo à ISTOÉ.

No Brasil, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, um dos mais importantes da rede privada do País, prepara-se para oferecer a prática como mais uma opção de seu departamento de terapias complementares. No Hospital A. C. Camargo, também na capital paulista e especializado no atendimento a pacientes com câncer, aulas de ioga começaram a ser adotadas recentemente. “Elas ocorrem uma vez por semana”, informa a professora Aline Chrispan. “As participantes controlam melhor a ansiedade que aparece durante o tratamento.”

O mesmo movimento de incorporação da ioga pela medicina vem sendo registrado nos consultórios. “Indico para alguns pacientes, como os portadores de artrose”, diz o médico Mário Sérgio Rossi, coordenador do comitê de terapias complementares do Hospital Albert Einstein. “A prática ajuda na lubrificação das articulações, sem causar traumatismo”, diz. Doença inflamatória crônica, a artrose se caracteriza pela ocorrência de dor e deformações nas articulações. Por isso, além dos remédios específicos, é importante que os pacientes mantenham a funcionalidade das articulações por meio de exercícios corretos, que não agridam ainda mais essas estruturas. Por isso a ioga, com seus movimentos suaves e alongados, é uma boa opção.

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APOIO
O médico Rossi (à esq.) indica para tratar artrose.
À dir. aulas no Hospital A. C. Camargo (SP)

Na clínica do dentista Fausto Ito, especialista em apneia do sono e ronco, do Rio de Janeiro, os pacientes são orientados a praticá-la, de preferência, em ambientes com pouca ou nenhuma iluminação. “A ausência da luz ajuda na produção da melatonina, um indutor natural do sono”, explica. “Os efeitos da ioga são potencializados e o resultado é a melhora na qualidade do sono.”
Uma pesquisa que acaba de ser publicada no Archives of Internal Medicine dá uma ideia da importância que a terapia vem ganhando. De acordo com o trabalho, 30% dos americanos fazem uso do método, assim como de outros do gênero, como acupuntura e meditação. E um em cada 30 pacientes recebeu a recomendação da prática de seus próprios médicos. “Há boas evidências da eficácia dessas técnicas, mas não esperávamos que o índice de aceitação pelos médicos fosse tão alto”, afirmou Aditi Nerurkar, da Harvard Medical School (EUA), autor do levantamento.

Ao mesmo tempo que sua indicação se consolida, proliferam pelos centros de pesquisas estudos para investigar o alcance de seus benefícios. Aqui no Brasil, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) atestaram o efeito do método contra a hipertensão após a realização de um trabalho que acompanhou executivos com o perfil clássico desses profissionais: estressados, ansiosos e com pressão fora de controle. “Após oito meses, houve mudanças no estilo de vida e resgate da saúde”, contou o médico Fernando Bignardi. “E deixaram de ser hipertensos.”

Nos EUA, na Boston University School of Medicine, verificou-se que a ioga apresenta resultados mais eficazes no controle de distúrbios de humor, depressão e ansiedade em comparação a outros exercícios, como a caminhada. “Em exames posteriores à realização dos exercícios, os participantes exibiam taxas mais elevadas do Gaba, uma substância cerebral cujo nível, se estiver baixo, está associado a desequilíbrios de ordem emocional”, disse à ISTOÉ Chris Streeter, professora de psiquiatria e coordenadora do trabalho.

Essa característica – a de ajudar a lidar com os sentimentos – também está fazendo da ioga uma aliada contra a obesidade. É verdade que a própria execução dos exercícios já auxilia na queima de calorias. No entanto, a ciência está constatando que o impacto é mais profundo. Um claro indicativo foi registrado em uma pesquisa da Fred Hutchinson Cancer Research Center (EUA). Os cientistas acompanharam as respostas de mulheres que estavam magras ou com sobrepeso. “Em dez anos, as praticantes ganharam menos peso do que aquelas que não faziam ioga”, explicou à ISTOÉ Alan Krystal, responsável pela pesquisa. “E isso ocorreu independentemente do nível de atividade física e dos padrões de alimentação de cada uma”, disse. Na avaliação do cientista, o que está por trás do resultado é a consciência, despertada pela ioga, do tamanho real do apetite. O método ajuda o indivíduo a perceber por que está comendo e a parar quando satisfeito.

De fato, quando usada em doenças permeadas por forte conteúdo emocional – caso da obesidade –, a ioga manifesta uma particular eficácia. Pacientes com fibromialgia, por exemplo, estão entre os mais beneficiados. A enfermidade manifesta-se pela ocorrência de dor crônica e generalizada pelo corpo. Com o passar do tempo, torna-se um inferno na vida do portador. Debilitado pela dor constante, aos poucos ele se isola, deprime-se.

Uma iniciativa da Oregon Health & Science University (EUA) revelou como o método pode ajudar. Foram recrutadas 53 mulheres com fibromialgia. As voluntárias foram avaliadas depois de ser submetidas a um programa de ioga desenhado para suas necessidades – contemplando mais fortemente aspectos como dor, fadiga, problemas com o sono e dificuldades emocionais acarretadas pela doença. Todos os pontos apresentaram melhora. Um deles chamou a atenção. “Elas ficaram mais dispostas para a vida, apesar do sofrimento”, disse James Carson, coordenador do trabalho. “E aprenderam a não dar tanto espaço a tendências ruins, como a de supervalorizar a dor.”
Na opinião de Marcos Rojo, professor e pesquisador da técnica na Universidade de São Paulo, uma das explicações para modificações como essa é justamente o estabelecimento da conexão mente-corpo perseguida pela ioga. “Ela trabalha mecanismos que têm alguma relação um com o outro. Por exemplo, se você passa por um período de muita ansiedade, pode ter alterações no sistema digestivo ou cardiorrespiratório”, diz. “Um dos objetivos da ioga é fazer o caminho inverso: trabalhar o corpo para interferir nas emoções”, afirma.

É sabido que a atuação também se dá no nível físico propriamente dito. Um exemplo é o que proporciona no caso da dor. “Quando a pessoa sente o sintoma, se contrai. Com a ioga, aprende a relaxar profundamente”, explica Luciana Brandão, do Estúdio Ioga na Cidade, de São Paulo, e pós-graduanda na Unifesp em terapias complementares. “O sangue circula mais, ajudando a reduzir a sensação”, complementa.

No caso das doenças respiratórias, o efeito produzido pelos exercícios de respiração aumenta a eficiência dos músculos que integram o sistema responsável pela oxigenação do organismo. Em uma análise realizada por médicos da Chicago Medical School (EUA), o benefício foi constatado após acompanhamento de 22 pacientes que fizeram aulas de uma hora, três vezes por semana, durante um mês e meio.

Há dois pontos ainda não completamente esclarecidos no que se refere ao uso terapêutico da ioga. O primeiro diz respeito ao formato das aulas. O segundo, à frequência com que devem ser feitas. Em relação ao tipo de aula, a tendência é criá-las para ser mais específicas. Na Escola Narayana, uma das mais tradicionais de São Paulo, os responsáveis recebem alunos interessados no auxílio que a ioga pode trazer para males distintos. “Desenvolvemos aulas de acordo com a questão de saúde de cada um”, afirma Luzia Rodrigues, coordenadora da escola. Quanto à frequência ideal, restam dúvidas. “Ninguém ainda sabe dizer ao certo”, disse à ISTOÉ Brent Bauer, da Clínica Mayo. O médico orienta seus pacientes a praticar pelo menos 30 minutos todos os dias.

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Pressão sob controle
Foi um caso grave de aneurisma da aorta, há cinco anos, que fez o compositor e guitarrista Yvo Ursini, 33 anos, repensar sua vida e encontrar a ioga. Embora o problema de saúde lhe imponha algumas limitações – como não realizar exercícios que alterem o fluxo sanguíneo para a cabeça –, ele comemora os avanços. “Melhorei muito minha consciência corporal e minha pressão arterial está mais controlada.”

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Postura contra a dor
Durante uma aula de ioga, é preciso capacidade de alongamento e força nos músculos de todo o corpo. Um dos resultados dessa combinação de esforços é o alívio da dor. “Tenho uma alteração na coluna lombar e a ioga me ajuda a aliviar a tensão que causa dor”, conta a administradora na área médica Carla Hellner, 42 anos.

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Alívio depoisdo câncer
Após a retirada dos seios devido a um câncer, a auxiliar administrativa Adriana Ferreira Lima, 34 anos, encontrou na ioga uma forma de acelerar sua reabilitação. “Faço posturas mais lentas para recuperar a mobilidade do braço e da mão, prejudicados pela cirurgia”, fala. “Comecei há seis meses, mas já sinto que meus movimentos e minha respiração melhoraram.”

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De aluno a professor
Primeiro ele se interessou como aluno. “Procurei a ioga em busca de mais sintonia entre corpo e mente”, conta o professor de educação física Isaías Lemos, 31 anos. Alguns anos depois, contente com os resultados, ele resolveu fazer um curso de especialização. “Acabei trocando a ginástica artística, modalidade da qual era treinador, pela ioga.” Hoje ele dá aula e é referência para os outros professores da modalidade, na academia Bio Ritmo, em São Paulo.

A história da filosofia

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INÍCIO
O deus Shiva teria passado os ensinamentos aos hindus

Uma aura de mistério envolve as origens da ioga. Acredita-se que a filosofia tenha surgido há cerca de cinco mil anos, no território onde atualmente se localiza a Índia. Para os hindus, os ensinamentos foram dados por Shiva – deus da transformação. Durante muitos séculos não houve registro escrito da técnica: os mestres passavam os conhecimentos aos seus discípulos por meio da tradição oral. O primeiro registro data de pouco mais de dois mil anos, com o livro que ficou conhecido como “Yoga Sutra”.

A produção científica em torno do tema é ainda mais recente. Começou na década de 1920, com a criação de um instituto governamental na Índia para pesquisar os efeitos da ioga sobre o corpo. “À época essa iniciativa não foi vista com muita felicidade pelos indianos, pois a eles a tradição bastava, não era necessária a preocupação científica”, diz Marcos Rojo, professor e pesquisador de ioga na Universidade de São Paulo.

Foi, todavia, a busca pelo cientificismo que impulsionou a vinda da prática para o Ocidente. Deste lado do mundo, a ioga ganhou também outros ares, com foco maior na parte física. “A visão original da ioga entende o corpo como um meio para se experimentar sensações importantes para a evolução espiritual”, fala Rojo. A filosofia inclui princípios, como o respeito à natureza, a não violência, o controle dos impulsos e dos sentidos e o desapego de pessoas e objetos. A preocupação com o alinhamento e o tônus muscular – questões relacionadas com a parte física – foram acrescentadas após a ocidentalização da prática.

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Colaborou Rachel Costa

Retirado de: http://www.istoe.com.br/reportagens/140391_TODO+O+PODER+DA+IOGA


Professores não acreditam que alunos irão concluir ensino médio

Professores não acreditam que alunos irão concluir ensino médio

Segundo pesquisa feita a partir do questionário Prova Brasil, somente 38% dos professores de escolas mais pobres do ensino fundamental público no Brasil acreditam que quase todos os alunos concluirão o ensino médio. Preconceito prejudica desempenho de aluno na sala de aula A reportagem completa de Antônio Gois publicada na edição desta segunda-feira da Folha está disponível para assinantes do jornal e do UOL (empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha).

Se por um lado, os professores podem estar sendo realistas. Por outro, há a possibilidade que essa seja uma profecia autorrealizadora, pois pesquisadores norte-americanos afirmam que a expectativa dos professores tem impacto no desempenho dos alunos.

Retirado de: http://www1.folha.uol.com.br/saber/924706-professores-nao-acreditam-que-alunos-irao-concluir-ensino-medio.shtml

Para refletir: – para os depressivos/niilistas de plantão – “Qual o esforço realizado por um educador(a)/professor(a) para atingir o objetivo “educar/ensinar/compartilhar” sendo “descrente” dos resultados de seu trabalho? Muito mais do que transmitir, educar é um ato de doação ao outro, e se doar aos “pobres” não é para qualquer um – visto que os preconceitos e os julgamentos de valor reinam na mentalidade humana!!!!


Pesquisa sobre população com diploma universitário deixa o Brasil em último lugar entre os emergentes

Pesquisa sobre população com diploma universitário

deixa o Brasil em último lugar entre os emergentes

Amanda Cieglinski
Da Agência Brasil
Em Brasília
Atualizado às 20h27

  • Carlos Cecconello/Folhapress11% dos brasileiros com idade entre 25 e 64 anos têm ensino superior

Para concorrer em pé de igualdade com as potências mundiais, o Brasil terá que fazer um grande esforço para aumentar o percentual da população com formação acadêmica superior. Levantamento feito pelo especialista em análise de dados educacionais Ernesto Faria, a partir de relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), coloca o Brasil no último lugar em um grupo de 36 países ao avaliar o percentual de graduados na população de 25 a 64 anos.

Os números se referem a 2008 e indicam que apenas 11% dos brasileiros nessa faixa etária têm diploma universitário. Entre os países da OCDE, a média (28%) é mais do que o dobro da brasileira. O Chile, por exemplo, tem 24%, e a Rússia, 54%. O secretário de Ensino Superior do MEC (Ministério da Educação), Luiz Cláudio Costa, disse que já houve uma evolução dessa taxa desde 2008 e destacou que o número anual de formandos triplicou no país na ultima década.

“Como saímos de um patamar muito baixo, a nossa evolução, apesar de ser significativa, ainda está distante da meta que um país como o nosso precisa ter”, avalia. Para Costa, esse cenário é fruto de um gargalo que existe entre os ensinos médio e o superior. A inclusão dos jovens na escola cresceu, mas não foi acompanhada pelo aumento de vagas nas universidades, especialmente as públicas. “ Isso [acabar com o gargalo] se faz com ampliação de vagas e nós começamos a acabar com esse funil que existia”, afirmou ele.

Costa lembra que o próximo PNE (Plano Nacional de Educação) estabelece como meta chegar a 33% da população de 18 a 24 anos matriculados no ensino superior até 2020. Segundo ele, esse patamar está, atualmente, próximo de 17%. Para isso será preciso ampliar os atuais programas de acesso ao ensino superior, como o Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), que aumentou o número de vagas nessas instituições, o Prouni (Programa Universidade para Todos), que oferece aos alunos de baixa renda bolsas de estudo em instituições de ensino privadas e o Fies (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior), que permite aos estudantes financiar as mensalidades do curso e só começar a quitar a dívida depois da formatura.

“O importante é que o ensino superior, hoje, está na agenda do brasileiro, das famílias de todas as classes. Antes, isso se restringia a poucos. Observamos que as pessoas desejam e sabem que o ensino superior está ao seu alcance por diversos mecanismos”, disse o secretário.

Os números da OCDE mostram que, na maioria dos países, é entre os jovens de 25 a 34 anos que se verifica os maiores percentuais de pessoas com formação superior. Na Coreia do Sul, por exemplo, 58% da população nessa faixa etária concluiu pelo menos um curso universitário, enquanto entre os mais velhos, de 55 a 64 anos, esse patamar cai para 12%. No Brasil, quase não há variação entre as diferentes faixas etárias.

O diagnóstico da pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo) e especialista no tema Elizabeth Balbachevsky é que essa situação é reflexo dos resultados ruins do ensino médio. Menos da metade dos jovens de 15 a 17 anos está cursando o ensino médio. A maioria ou ainda não saiu do ensino fundamental ou abandonou os estudos. “Ao contrário desses países emergentes, a população jovem que consegue terminar o ensino médio no Brasil [e que teria condições de avançar para o ensino superior] é muito pequena”.

Como 75% das vagas em cursos superiores estão nas instituições privadas, Elizabeth defende que a questão financeira ainda influencia o acesso. “Na China, as vagas do ensino superior são todas particulares. Na Rússia, uma parte importante das matrículas é paga, mas esses países desenvolveram um esquema sofisticado de financiamento e apoio ao estudante. O modelo de ensinos superior público e gratuito para todos, independentemente das condições da família, é um modelo que tem se mostrado inviável em muitos países”, comparou ela.

A defasagem em relação outros países é um indicador de que os programas de inclusão terão que ser ampliados. Segundo Costa, ainda há espaço – e demanda – para esse crescimento. Na última edição do ProUni, por exemplo, 1 milhão de candidatos se inscreveram para disputar as 123 mil bolsas ofertadas. Elizabeth sugere que os critérios de renda para participação no programa sejam menos limitadores, para incluir outros segmentos da sociedade.

“Os dados mostram que vamos ter que ser muito mais ágeis, como estamos sendo, fazer esse movimento com muita rapidez porque, infelizmente, nós perdemos quase um século de investimento em educação. A história nos mostra que a Europa e outras nações como os Estados Unidos e, mais recentemente, os países asiáticos avançaram porque apostaram decididamente na educação. O Brasil decidiu isso nos últimos anos e agora trabalha para saldar essa dívida”, disse a pesquisadora.

Retirado de http://educacao.uol.com.br/ultnot/2011/04/21/pesquisa-sobre-populacao-com-diploma-universitario-deixa-o-brasil-em-ultimo-lugar-entre-os-emergentes.jhtm


Dislexia, verdade ou invenção da psiquiatria?


Competição exarcebada!!

Giles (1975, p. 16), explorando as idéias de Max Scheler, diz que o pensamento burguês é caracterizado principalmente por uma certa disposição em se medir e comparar os valores (morais e econômicos) e qualidades manifestadas pelos sujeitos.

 O burguês é obcecado pelos outros, ou melhor, é através deles que ele se descobre e se percebe a si mesmo. No homem vulgar a estrutura ‘relação do valor próprio com o valor do outro’ torna-se a condição seletiva de sua apreensão dos valores em geral. [...] Assim ele não vê nos bens e nos valores objetos capazes de satisfazer o desejo e, sim, a ocasião de uma luta para conseguir prestígio.

            Guerrieri (2002, p. 52), ao fazer uma discussão sobre a sociedade capitalista, diz que

o eixo central da racionalidade burguesa, que é o princípio determinante das relações entre os seres humanos e entre estes e a natureza, é a troca. [...] O tipo de troca que caracteriza essa racionalidade não é a troca solidária e complementaria, mas sim a troca interesseira e individualista que visa a obtenção de vantagens apenas para um dos lados (troca competitiva).

A racionalidade burguesa tem suas raízes teóricas ancoradas no liberalismo representado por John Locke, Adam Smith e Augusto Comte, entre outros. O pensamento liberal determina que o indivíduo é responsável por sua autonomia. Cada sujeito deve lutar (competir com o outro) com suas próprias forças (meios) pela conquista de um espaço na sociedade. Esse pensamento deu origem ao “individualismo”, que é outro conceito inerente à estrutura da burguesia.

Hoje, vivemos sob a égide do neoliberalismo, uma espécie de racionalidade, excessivamente competitiva e excludente, segundo a qual o mercado seria responsável pelo controle de todas as trocas realizadas entre os indivíduos na sociedade.

A troca competitiva, que, inicialmente, estava inserida apenas nas relações econômicas (mercantilismo), passou a ser incorporada em todas as instâncias da vida. Portanto, essa lógica competitiva tornou-se uma espécie de lei que rege todas as atividades humanas e engendra todo tipo de discurso, tornando-se um referencial inabalável na atual sociedade capitalista. Inclusive as relações afetivas tornaram-se competitivas, pois emergem a partir dessa lógica excludente.

A idéia de obter vantagem sobre o outro está inserida na troca competitiva. Para alcançar a vitória (lucro), os indivíduos utilizam diversas táticas, mesmo sabendo que, para isso, terão que subjugar outras pessoas. A lógica da competição é, portanto excludente, pois privilegia os que possuem os melhores rendimentos, as mais altas taxas de produtividade, os que detém o poder, em detrimento dos que não conseguem atingir tais metas, ou objetivos, ou mesmo aqueles que não estão dispostos a levar a competição ao extremo.

A competição também é vista como forma de obter prestígio e status, pois a imagem de vencedor é valorizada na nossa sociedade. Podemos citar os atletas que constroem essa imagem a partir das conquistas realizadas no âmbito esportivo.

A competição está presente nos esportes tradicionais (futebol, voleibol, basquetebol, ginástica, entre outros) e nas corridas de aventura, porém, ultrapassando os aspectos competitivos, as corridas de aventura apresentam determinadas características que possibilitam um processo de interação entre os indivíduos que compartilham determinados espaços para a prática dessas atividades.

Retirado de http://www.scribd.com/doc/49776751/CORRIDAS-DE-AVENTURA-CRIANDO-NOVOS-ESPACOS-PARA-A-SOCIABILIZACAO-E-A-INTERACAO-ENTRE-OS-INDIVIDUOS


Acredite se quiser!!! MEC propõe alterações para tornar a escola mais atraente

Os dados chocam: metade dos jovens de 15 a 17 anos estão fora do ensino médio, informa reportagem de Fabiana Rewald, publicada na Folha desta segunda-feira (íntegra disponível para assinantes do jornal e do UOL). Parte desse contingente estuda, com atraso, no ensino fundamental. Mas outra parte, a face mais preocupante dessa estatística, deixou os bancos escolares para trás.

“[Os alunos] encontram um ensino [médio] organizado em torno de um número muito grande de disciplinas, sobrecarregadas de conteúdos mais voltados para vestibulares, muitos deles sem significado para suas vidas”, diz Francisco Aparecido Cordão, presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação.

O CNE discute atualmente uma atualização das diretrizes curriculares do ensino médio. Um dos programas que tem servido de base para a discussão é o Ensino Médio Inovador, criado e financiado pelo Ministério da Educação e já implementado em 357 escolas do país em 2010 –São Paulo não participa, mas estuda entrar.

O programa se baseia em quatro eixos: trabalho, ciência, tecnologia e cultura. Cada escola cria seu plano de ação pedagógica, que pode eleger um desses eixos como principal ou misturá-los, em atividades complementares, que podem acontecer até fora da sala de aula.

Para isso, a carga horária passa das 2.400 horas anuais obrigatórias para 3.000. Outros focos são leitura, artes e atividades em laboratórios, além da dedicação integral dos professores.

O governo do Rio já planeja estender o modelo para mais escolas em 2013. Hoje, 16 participam. Antonio Paiva Neto, subsecretário de Gestão da Rede e de Ensino, cita como exemplo uma escola que integrou todos os conteúdos dados em aula ao mundo do trabalho.

“O programa acaba mexendo com a prática pedagógica do professor e o aluno começa a questionar. Ele vê que é possível que aquela disciplina seja ministrada de uma outra forma”, diz Letícia Ramos, coordenadora do programa em Pernambuco.

Leia a reportagem completa na Folha desta segunda-feira, que já está nas bancas.

Retirado de http://www1.folha.uol.com.br/saber/881332-mec-propoe-alteracoes-para-tornar-a-escola-mais-atraente.shtml


Está feliz com a zona de conforto estabelecida!?


Drogadicção em massa! Ritalina, usos e abusos – O remédio para hiperativos ganha adeptos entre executivos, estudantes e moças que querem emagrecer

Anna Paula Buchalla

Utilizado em larga escala nos Estados Unidos, o remédio Ritalina experimenta um aumento de consumo surpreendente no Brasil. O número de prescrições do medicamento, um estimulante para o tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, mais que dobrou nos últimos dois anos. Só neste ano, estima-se que será vendido 1 milhão de caixas de Ritalina, fabricado pelo laboratório Novartis (veja quadro). A principal razão desse aumento é o fato de que o diagnóstico do distúrbio se tornou mais comum. Antes considerado um mal predominantemente infantil, a hiperatividade passou a ser detectada também em muitos adultos. Além disso, há quem use o medicamento simplesmente para se manter desperto durante longas jornadas de trabalho ou estudo. E, como acontece com boa parte dos remédios da família das anfetaminas, a Ritalina entrou na ilegalidade. Jovens em busca de euforia química e meninas ávidas por emagrecer estão usando o remédio sem dispor de receita médica.

Caracterizada por quadros de agitação, impulsividade e dificuldade de concentração, a hiperatividade, nos últimos dez anos, ganhou maior atenção de médicos, psicólogos e pedagogos – principalmente porque se passou a creditar ao distúrbio boa parte dos casos de mau desempenho escolar. Dispor de um remédio como a Ritalina é um avanço inegável. Mas o “sossega leão” tem um lado perverso: o dos excessos. Pais acusam escolas de rotular suas crianças de hiperativas indiscriminadamente, antes mesmo de obter um diagnóstico médico. Tudo porque os professores, segundo esses pais, não teriam paciência, nem disposição, para controlar crianças irrequietas – mas não necessariamente com desequilíbrio na química cerebral – na sala de aula. Tais escolas, por sua vez, alegam que seus professores são suficientemente treinados para identificar o problema. Há que levar em conta, ainda, que pais impacientes andam utilizando o diagnóstico de hiperatividade como desculpa para entupir seus filhos de remédio e mantê-los, dessa forma, sossegados. Tanto é assim que o medicamento foi batizado de “droga da obediência”. “É freqüente que os pais peçam aos médicos que aumentem a dose de Ritalina ou não a interrompam durante as férias”, diz a psicóloga carioca Marise Corrêa Netto.

A hiperatividade infantil costuma aparecer entre os 3 e os 5 anos. O distúrbio é três vezes mais comum em meninos. Pesquisas feitas nos Estados Unidos mostraram que até um terço dos garotos em idade escolar naquele país usa Ritalina, embora muitos deles não precisem. Um estudo recente da Universidade Estadual de Campinas revelou que, de um grupo de crianças diagnosticadas com hiperatividade, 23% não exibiam problemas de aprendizado. Ou seja, provavelmente estavam sendo tratadas de um distúrbio do qual não sofriam. Vários educadores acreditam que se rotulam muitas crianças de hiperativas só porque elas são bagunceiras. “É preciso tomar muito cuidado com a medicalização da educação”, diz a psicanalista carioca Christiane Vilhena, especialista em desenvolvimento infantil.

Enquanto a polêmica segue no universo infantil, a Ritalina vai conquistando de maneira silenciosa adeptos nas universidades. Pressionados por provas, exames e trabalhos de faculdade, estudantes estão trocando o tradicional café com cigarro pelo remédio. A Ritalina, nesses casos, teria o objetivo de melhorar a concentração e diminuir o cansaço. Seria uma espécie de anabolizante para o cérebro, que conseguiria assim acumular mais informação em menos tempo. Um levantamento feito na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, mostrou que um em cada cinco estudantes da instituição já havia experimentado a Ritalina com esse único propósito. No mercado de trabalho, ela também entrou para o cardápio: executivos passaram a procurar no medicamento uma forma de suportar batentes que costumam ultrapassar dez horas.

Um dos aspectos mais preocupantes do uso da Ritalina é o recreacional. Alguns adolescentes trituram as drágeas e cheiram o pó. Outros diluem o comprimido em água, para injetá-lo na veia. Essas injeções, no entanto, podem causar complicações sérias. Pequenos pedaços da pílula podem obstruir vasos sanguíneos e levar a distúrbios pulmonares e cardiovasculares graves. Por último, há garotas que lançam mão do remédio para emagrecer – um dos efeitos colaterais da Ritalina, descrito na bula.

A Ritalina, nome comercial do metilfenidato, foi lançada em 1956. O efeito paradoxal do remédio é que, embora seja um estimulante, em doses muito precisas ele acaba por acalmar seus usuários, ao torná-los mais concentrados – daí seu uso em crianças hiperativas. O mecanismo de ação da Ritalina ainda não foi completamente desvendado. Recentemente, com o auxílio de um exame de última geração, a tomografia por emissão de pósitrons, pesquisadores conseguiram identificar um aumento nos níveis de dopamina em homens saudáveis que tomavam o remédio. A dopamina é uma substância produzida no cérebro, associada à sensação de bem-estar, euforia e estado de alerta.

Retirado de http://veja.abril.com.br/271004/p_068.html


Pra fazer a cabeça da galera vale quase tudo, educação ou lavagem cerebral?

Metade das escolas do país tem ensino religioso

DE SÃO PAULO

“O que são as histórias da Bíblia? Fábulas, contos de fadas?”, pergunta a professora do 3º ano do ensino fundamental. “Não”, respondem os alunos. “São reais!”

Casal de ateus faz acordo e escola libera filhos de aula

A cena, numa escola pública de Samambaia, cidade-satélite de Brasília, precede aula sobre a criação do universo por Deus em sete dias. O colégio é um dos 98 mil do país (entre públicos e particulares) que ensinam religião. As informações são de reportagem de Angela Pinho publicada na edição deste domingo da Folha (íntegra disponível para assinantes do jornal e do UOL).

O número começou a ser levantado em 2009, no censo da educação básica feito pelo Inep (instituto ligado ao MEC). Ao todo, metade das escolas do país tem ensino religioso na grade curricular.

O fundamento está na Constituição, que determina que a disciplina deve ser oferecida no horário normal da rede pública, embora seja opcional aos estudantes. Escolas particulares não precisam oferecê-la, mas, se assim decidirem, podem obrigar os alunos a assistirem às aulas.

Não há, porém, uma diretriz nacional sobre o conteúdo –a lei proíbe só que seja feita propaganda religiosa e queixas devem ser feitas aos conselhos de educação.

Assim, Estados e municípios adotam formatos diversos. Uns põem religiosos para dar as aulas; outros, professores formados em história, pedagogia e ciências sociais.

É o caso do DF, onde a orientação é que não haja privilégio a um credo -embora a aula em Samambaia possa ser considerada controversa.

Retirado de http://www1.folha.uol.com.br/saber/881711-metade-das-escolas-do-pais-tem-ensino-religioso.shtml


Vivo ganhando nota 6,0 pelos avaliadores educacionais!!!

Eu consegui ganhar uma nota 6,29 numa avaliação escrita dissertativa sobre formação profissional em educação física para prof. substituto no curso de educação física – UNESP – Rio Claro.

Gostaria de saber quem já tirou 6,29 numa avaliação dissertativa com uma única questão, na verdade uma redação? 6,29 – nem 6,25 – nem 6,30…..  6,29 = Reprovado!!!!! É o que me dão como nota – 6,0, desde sempre….   rsrsrrsrsrs

A primeira e única aprovada no processo seletivo ganhou 7,11 – como pode?! nem 7,10 – nem 7,15 – 7,11 = Aprovada!!!

É o que temos para hoje!!! Educador desempregado!!!!

Brasil, país do futuro!


Vergonha nacional! 17% dos professores não têm formação ideal para dar aula

No Brasil, 16,8% dos professores da rede pública não têm formação suficiente para exercer a profissão e estão em situação irregular, informa reportagem de Marília Rocha e Natalia Cancian publicada na Folha deste sábado (íntegra disponível para assinantes do jornal e do UOL).

A LDB (Lei de Diretrizes e Bases) exige que os docentes do sexto ano do ensino fundamental ao terceiro ano do ensino médio tenham formação superior, mas 208 mil professores dessas séries concluíram apenas o fundamental ou o médio.

Por Estado, a pior situação é na Bahia, onde 50,8% dos 96,5 mil docentes dessas séries não completaram o ensino superior. Já São Paulo tem a melhor taxa nacional: 2,25% dos 238.667 professores dessa fase do ensino não terminaram a faculdade.

O levantamento, feito com base em dados do Inep (instituto ligado ao MEC) reunidos em 2009 e atualizados em janeiro deste ano, abarca o total de 1,2 milhão de professores que dão aulas nas séries em que há essa exigência.

OUTRO LADO

A secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Almeida e Silva, admite que a situação dos professores sem formação suficiente ‘fere a lei’ e pode comprometer a aprendizagem.

Segundo ela, estão em curso políticas articuladas com governos locais para sanar a questão. ‘Nunca temos resultados rápidos em educação, mas as políticas atuais estão bem estruturadas.’

Retirado de http://www1.folha.uol.com.br/saber/878127-17-dos-professores-nao-tem-formacao-ideal-para-dar-aula.shtml


Nicolelis lança manifesto da Ciência Tropical: “Ela vai ditar a agenda mundial do século XXI”

por Conceição Lemes

Ao pensar  o futuro da ciência no Brasil, boa parte dos pesquisadores brasileiros volta os olhos, automaticamente, sem pestanejar,  para Estados Unidos, Europa e Ásia. Miguel Nicolelis, um dos mais respeitados neurocientistas do mundo, não.

Formado em Medicina pela USP, ele está há 20 anos nos Estados Unidos, onde é professor e pesquisador na Universidade Duke. Já ganhou 38 prêmios internacionais por suas pesquisas. Dois deles, em 2010, dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos.

Desde 2003 vive na “ponte aérea” Durham, Carolina do Norte (campus da Duke University) – Macaíba, Rio Grande do Norte, onde implantou o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lilly Safra.

Em 11 de outubro, em entrevista a Luiz Carlos Azenha, Nicolelis afirmou ser desejável o desenvolvimento de uma “ciência tropical”. De lá para cá amadureu a ideia. Colocou “no papel” o que tem pensado sobre o tema nesses anos.

O resultado é o manifesto em defesa de um novo paradigma científico, que o Viomundo publica em primeira mão (abaixo da entrevista). Chama-se Manifesto da Ciência Tropical: Uso democrático da ciência para transformação social e econômica do Brasil.

“Optei por chamar o novo modelo de Ciência Tropical não por razões geográficas ou provincianas, mas porque é necessário caracterizarmos desde já o famoso onde, como e porque que permitiram a sua gestão”, explica o professor Miguel Nicolelis. “Afinal, esse novo modelo só teve condições de dar os primeiros passos e realizar as primeiras experiências nesses trópicos, que hoje oferecem à humanidade a mais fascinante esperança de preservar a própria espécie e o planeta.”

“É essa Ciência Tropical que vai possibilitar à humanidade manter e ampliar suas fontes de energia limpa, produzir alimentos e água potável necessários para bilhões de seres humanos”, traduz Nicolelis. “Também cultivar biomas naturais, de onde extrairemos novos medicamentos e curas para inúmeras doenças, preservar os serviços climáticos e ecológicos que manterão em cheque o aquecimento global e identificar novos agentes infecciosos capazes de destruir, numa única epidemia, toda a raça humana.”

De saída, esse novo modelo implica libertar a ciência brasileira da subserviência acrítica aos modelos importados e massificar a educação científica, observa Nicolelis nesta parte da entrevista que me concedeu. Ouçam.

É indispensável também investir pesado em ciência e tecnologia. “O investimento maciço em novas formas de explorar petróleo em alta profundidade foi que capacitou a Petrobras a ser o que ela é hoje”, exemplifica Nicolelis. “E isso é apenas a ponta do iceberg. A Ciência Tropical vai ditar a agenda mundial neste século XXI.”

Aqui, Nicolelis sugere como e por quê.

“Ninguém constrói uma nação com 10 mil pessoas de um bairro da cidade de São Paulo. Você precisa de todo o país”, assegura Nicolelis. “É esse casamento da saúde pública, particularmente a da mulher e a da primeira infância, com o projeto educacional brasileiro, público, que precisa ser feito”.

Para implementar essa revolução educacional, Nicolelis defende que o ideal seria unir a filosofia do educador Paulo Freire (1921-1997) com a de Alberto Santos-Dumont (1873-1932), inventor do voo controlado. Também que, do ponto de vista científico, os nossos parceiros estratégicos não são mais os Estados Unidos, Europa ou Ásia, mas a África e a América Latina. “Pode parecer paradoxal, mas é a pura verdade”, sustenta na última parte da nossa entrevista.

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Manifesto da Ciência Tropical: um novo paradigma para o uso democrático da ciência como agente efetivo de transformação social e econômica no Brasil

por Miguel Nicolelis

É hora da ciência brasileira assumir definitivamente um compromisso mais central perante toda a sociedade e oferecer o seu poder criativo e capacidade de inovação para erradicar a miséria, revolucionar a educação e construir uma sociedade justa e verdadeiramente inclusiva.

É hora de agarrar com todas as forças a oportunidade de contribuir para a construção da nação que sonhamos um dia ter, mas que por muitas décadas pareceu escapar pelos vãos dos nossos dedos.

É hora de aproveitar este momento histórico e transformar o Brasil, por meio da prática cotidiana do sonho, da democracia e da criação científica, num exemplo de nação e sociedade, capaz de prover a felicidade de todos os seus cidadãos e contribuir para o futuro da humanidade.

No intuito de contribuir para o início desse processo de libertação da energia potencial de criação e inovação acumulada há séculos no capital humano do genoma brasileiro, eu gostaria de propor 15 metas centrais para a capacitação do Programa Brasileiro de Ciência Tropical.

A implementação delas nos permitirá acelerar exponencialmente o processo de inclusão social e crescimento econômico, que culminará, na próxima década, com o banimento da miséria, a maior revolução educacional e ambiental da nossa história e a decolagem irrevogável e irrestrita da indústria brasileira do conhecimento.

Estas 15 metas visam a desencadear a massificação e a democratização dos meios e mecanismos de geração, disseminação, consumo e comercialização de conhecimento de ponta por todo o Brasil.

1) Massificação da educação científica infanto-juvenil por todo o território nacional

O objetivo é proporcionar a 1 milhão de crianças, nos próximos 4 anos,  acesso a um programa de educação científica pública, protagonista e cidadã de alto nível. Esse programa utilizará o método científico como ferramenta pedagógica essencial, combinando a filosofia de vida de dois grandes brasileiros: Paulo Freire e Alberto Santos-Dumont.

Ao unir a educação como forma de alcançar a cidadania plena com a visão de que ciência se aprende e se faz “pondo a mão na massa”, sugiro a criação do Programa Educação para Toda a Vida, do qual faria parte o Programa Nacional de Educação Científica Alberto Santos -Dumont (veja abaixo). A porta de entrada se daria nos serviços de pré-natal para as mães dos futuros alunos do programa. Após o nascimento, essas crianças seriam atendidas no berçário e na creche, depois na escola de educação científica que os serviria dos 4-17 anos, para que esses brasileiros e brasileiras possam desenvolver toda a sua potencialidade intelectual e criativa nas duas próximas décadas de suas vidas.

O programa de educação científica seria implementado no turno oposto ao da escola pública regular, criando um regime de educação em tempo integral para crianças de 4-17 anos, por meio de parceria do governo federal com governos estaduais e municipais. Cada unidade da rede de universidades federais poderia ser responsável pela gestão de um núcleo do Programa Educação para Toda Vida, voltado para a população do entorno de cada campus.

O governo federal poderia ainda incentivar a participação da iniciativa privada, oferecendo estímulos fiscais e tributários para as empresas que estabelecessem unidades de educação científica infanto-juvenil, ao longo do território nacional. Por exemplo, o novo centro de pesquisas da Petrobras poderia criar uma das maiores unidades do Educação para Toda Vida.

2) Criação de centros nacionais de formação de professores de Ciência

A implementação do Programa Educação para Toda Vida geraria uma demanda inédita para professores especializados no ensino de ciência e tecnologia. Para supri-la, o governo federal poderia estabelecer o Programa Nacional de Educação Científica Alberto Santos -Dumont, que seria o responsável pela gestão dos centros nacionais de formação de professores de ciências, espalhados por todo território nacional. As universidades federais, os Institutos Federais de Tecnologia (antigos CEFETs) e uma futura cadeia de Institutos Brasileiros de Tecnologia (veja abaixo) poderiam estabelecer programas de formação de professores de ciências e tecnologia em todo o país.

Esses novos programas capacitariam uma nova geração de professores a ensinar conceitos fundamentais da ciência, através de aulas práticas em laboratórios especializados, tecnologia da informação e utilização de métodos, processos e novas ferramentas para investigação científica. Os alunos que se graduassem no programa Educação para Toda Vida teriam capacitação, antes mesmo do ingresso na universidade, para se integrar ao trabalho de laboratórios de pesquisa profissionais, tanto públicos como privados, através do Programa Nacional de Iniciação Científica e do Bolsa Ciência (veja abaixo).

3) Criação da carreira de pesquisador científico em tempo integral nas universidades federais

Seria em paralelo à tradicional carreira de docente. Ela nos permitiria recrutar uma nova geração de cientistas que se dedicaria exclusivamente à pesquisa científica, com carga horária de aulas correspondente a 10% do seu esforço total. Sem essa mudança não há como esperar que pesquisadores das universidades federais possam dar o salto científico qualitativo necessário para o desenvolvimento da ciência de ponta do país.

4) Criação de 16 Institutos Brasileiros de Tecnologia espalhados pelo país

Eles serviriam para suprir a demanda de engenheiros, tecnólogos e cientistas de alto nível e promover a inclusão social por meio do desenvolvimento da indústria brasileira do conhecimento. Atualmente o Brasil apresenta um déficit imenso desses profissionais.

Para sanar essa situação, o Brasil poderia reproduzir o modelo criado pela Índia, que, desde a década de 1950, construiu uma das melhores redes de formação de engenheiros e cientistas do mundo, constituída pela cadeia de Institutos Indianos de Tecnologia.

Para tanto, o governo federal deveria criar nos próximos oito anos uma rede de 16 Institutos Brasileiros de Tecnologia (IBT) e espalhá-los em bolsões de miséria do território nacional, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Cada IBT poderia admitir até 5.000 alunos por ano.

5) Criação de 16 Cidades da Ciência

Localizadas nas regiões com baixo índice de desenvolvimento humano, como o Vale do Ribeira, Jequitinhonha, interior do Nordeste, Amazônia, as Cidades da Ciência ficariam no entorno dos novos IBTs.

As Cidades da Ciência seriam, na prática, o componente final da nova cadeia de produção do conhecimento de ponta no Brasil. Acopladas aos novos IBTs e à rede de universidades federais, criariam o ambiente necessário para a transformação do conhecimento de ponta, gerado por cientistas brasileiros, em tecnologias e produtos de alto valor agregado que dariam sustentação à indústria brasileira do conhecimento.

Nas Cidades da Ciência seriam criadas e estabelecidas as grandes empresas do conhecimento nacional, onde o potencial científico do povo brasileiro poderia se transformar em novas fontes de riqueza a serem aplicadas na gênese de um sistema nacional autossustentável. Tal iniciativa permitiria a inserção do Brasil na era da economia do conhecimento que dominará o século XXI.

6) Criação de um arco contínuo de Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia

Esse verdadeiro cinturão de defesa, formado por um arco contínuo de Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia, seria disposto em paralelo ao chamado “Arco de Fogo”, formado em decorrência do agronegócio predatório e da indústria madeireira ilegal, responsáveis pelo desmatamento da região. Essa iniciativa visa a fincar uma linha de defesa permanente contra o avanço do desmatamento ilegal, modificando a estratégia das unidades de conservação a fim de colocá-las a serviço de um Programa Nacional de Mapeamento dos Biomas Brasileiros.

Uma série de unidades de conservação poderia ser transformada em unidades híbridas. Assim, além da conservação, poderiam incluir grandes projetos de pesquisa que possibilitem ao Brasil mapear a riqueza e a magnitude dos serviços ecológicos e climáticos encontrados nos diversos biomas nacionais.

Para incentivar a participação de populações autóctones nesse esforço, o governo federal poderia criar o programa Bolsa Ciência Cidadã. Homens, mulheres e adolescentes, que vivem na floresta amazônica e conhecem seus segredos melhor do que qualquer professor doutor, receberiam uma bolsa, similar ao bolsa família, para integrarem as equipes de pesquisadores e responsáveis pela implementação das leis ambientais na região. Esse exército de cidadãos, devotado à investigação científica e à proteção da Amazônia, mostraria ao mundo o quão determinado o Brasil está em preservar uma das maiores maravilhas biológicas do planeta.

Evidentemente tal iniciativa poderia ser replicada em outras áreas críticas, também ameaçadas pela indústria predatória, como o Pantanal, a caatinga, o cerrado, a Mata Atlântica e os Pampas.

7) Criação de oito “Cidades Marítimas” ao longo da costa brasileira

A descoberta do pré-sal demonstra claramente que uma das maiores fontes potenciais de riqueza futura da sociedade brasileira reside no vasto e diverso bioma marítimo da nossa costa.

Apesar disso, os esforços nacionais para estudo científico desse vasto ambiente são muito incipientes. Aqui também o Brasil pode inovar de forma revolucionária. Em parceria com a Petrobras, o governo federal poderia estabelecer, no limite das 350 milhas marinhas, oito plataformas voltadas para a pesquisa oceanográfica e climática, visando ao mapeamento das riquezas no mar tropical brasileiro.

Essas verdadeiras “Cidades Marítimas”, dispostas a cada mil quilômetros da costa brasileira, seriam interligadas por serviço de transporte marítimo e aéreo (helicópteros) e se valeriam de incentivos à renascente indústria naval brasileira, para o desenvolvimento, por exemplo, de veículos de exploração a grandes profundidades.

Cada “Cidade Marítima” seria autossuficiente, contando com laboratórios, equipamentos e equipe própria de pesquisadores. Tais edificações serviriam também como postos mais avançados de observação dos limites marítimos do Brasil. Com o crescente desenvolvimento da exploração do pré-sal, essa rede de “Cidades Marítimas” poderia assumir papel fundamental na defesa da nossa soberania marítima dentro das águas territoriais.

8) Retomada e Expansão do Programa Espacial Brasileiro

Embora subestimado pela sociedade e a mídia brasileiras, o fortalecimento do programa espacial brasileiro oferece outro exemplo emblemático de como o futuro do desenvolvimento científico no Brasil é questão de soberania nacional.

Dos países pertencentes ao BRIC, o Brasil é o que possui o mais tímido e subdesenvolvido programa espacial. Apesar da sua situação geográfica altamente favorável, a Base de Alcântara não tem correspondido às altas expectativas geradas com a sua construção.

Essa situação é inaceitável, uma vez que, a longo prazo, pode levar o Brasil a uma dependência irreversível no que tange a novas tecnologias e novas formas de comunicação, colocando a nossa soberania em risco. Dessa forma, urge reativar os investimentos nessa área vital, definir novas e ambiciosas metas para o programa espacial brasileiro e esclarecer o papel da sociedade civil na operação dos programas da Base de Alcântara, cujo controle deveria estar nas mãos de uma equipe civil de pesquisadores e não das forças armadas.

9) Criação de um Programa Nacional de Iniciação Científica

Com a criação do Programa Educação para Toda Vida, seria necessário implementar novas ferramentas para que os adolescentes egressos desses programas pudessem dar vazão a seus anseios de criação, invenção e inovação através da continuidade do processo de educação científica, mesmo antes do ingresso na universidade e depois dele.

Na realidade, é extremamente factível que grande número desses jovens possa começar a contribuir efetivamente para o processo de geração de conhecimento de ponta antes do ingresso na universidade.

O governo federal poderia criar um Programa Nacional de Iniciação Científica que leve ao estabelecimento de 1 milhão de Bolsas Ciência. Uma experiência preliminar desse programa já existe no CNPQ, através do recém-criado programa dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. Bastaria ampliá-lo e remover certas amarras burocráticas que dificultam a sua implementação neste momento. Esse programa poderia também ser usado pelo governo federal para eliminar uma porcentagem significativa (30%) da evasão do ensino médio, decorrente da necessidade dos alunos em contribuir para a renda familiar.

Jovens de talento científico reconhecido deveriam também ter a opção de seguir carreira de inventor ou pesquisador sem necessitar de doutorado ou outro curso de pós-graduação. Tal alternativa contribuiria decisivamente para a diminuição do período de treinamento necessário para que talentos científicos pudessem participar efetivamente do desenvolvimento científico do Brasil.

10) Investimento de 4-5% do PIB em ações de ciência e tecnologia na próxima década

Tendo proposto novas ações, é fundamental que essas sejam devidamente financiadas. Para tanto e, ainda, para assegurar a ascensão da ciência brasileira aos patamares de excelência dos países líderes mundiais, o governo brasileiro teria de tomar a decisão estratégica de destinar, nas próximas décadas, algo em torno de 4-5% do PIB nacional à ciência e tecnologia.

Em vários países, como os EUA, essa conta é dividida em partes iguais entre o poder público e privado. No Brasil, todavia, não existem condições para que isso ocorra de imediato. Dessa forma, não restaria outra alternativa ao governo federal senão assumir a responsabilidade desse investimento estratégico, usando novas fontes de receita, como a gerada pela exploração do pré-sal.

11) Reorganização das agências federais de fomento à pesquisa

Reformulação de normas de procedimento e processo para agilizar a distribuição eficiente de recursos ao pesquisador e empreendedor científico, bem como criar um novo modelo de gestão e prestação de contas.

A ciência e o cientista brasileiro não podem mais ser regidos pelas mesmas normas de 30-40 anos atrás, utilizadas na prestação de contas de recursos públicos para construção de rodovias e hidrelétricas.

Urge, portanto, reformular completamente todos os protocolos de cooperação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) com outros ministérios estratégicos para execução de projetos multiministeriais.

Na lista de cooperação estratégica do MCT, incluem-se os ministérios da Educação, Saúde, Meio Ambiente, Minas e Energia, Indústria e Comércio, Agricultura, Defesa e Relações Exteriores. Normas comuns de operação dos departamentos jurídicos e dos processos de prestação de contas devem ser produzidas entre o MCT e esses ministérios, de sorte a incentivar a realização de projetos estratégicos interministerais, como o Educação para Toda Vida.

O cenário atual cria inúmeros empecilhos para ratificação de projetos estratégicos aprovados no mérito científico (o principal quesito), mas que, via de regra, passam meses e até anos prisioneiros dos desconhecidos meandros e procedimentos conflitantes com que operam os diferentes departamentos jurídicos dos diferentes ministérios.

Urge eliminar tal barreira kafkaniana e transferir o poder de decisão, atualmente nas catacumbas jurídicas dos ministérios onde volta e meia processos desaparecem, para as mãos dos gestores de ciência treinados para implementar uma visão estratégica do projeto nacional de ciência e tecnologia.

12) Criação de joint ventures para produção de insumos e materiais de consumo para prática científica dentro do Brasil

É’ fundamental investir numa redução verdadeira dos trâmites burocráticos “medievais” que ainda existem para aquisição de materiais de consumo e equipamentos de pesquisa importados. Para tanto, é importante definir políticas de incentivo ao estabelecimento de empresas nacionais dispostas a suprir o mercado nacional com insumos e equipamentos científicos.

13) Criação do Banco do Cérebro

Um dos maiores gargalos para o crescimento da área de ciência e tecnologia no Brasil é a dificuldade que cientistas e empreendedores científicos enfrentam para ter acesso ao capital necessário para desenvolver novas empresas baseadas na sua propriedade intelectual.

Na maioria das vezes, esses inventores e microempreendedores científicos ficam à mercê da ação de venture capitalists, que oferecem capital em troca de boa parte do controle acionário da empresa em que desejam investir.

Para reverter esse cenário, o governo federal poderia criar o Banco do Cérebro, uma instituição financeira destinada a implementar vários mecanismos financeiros para fomento do empreendedorismo científico nacional.

Essas ferramentas financeiras incluiriam desde programa de microcrédito científico até formas de financiamento de novas empresas nacionais voltadas para produtos de alto valor agregado, fundamentais ao desenvolvimento da ciência brasileira e da economia do conhecimento.

Para isso, o governo federal deverá exigir que esses novos empreendimentos científicos sejam localizados numa das novas Cidades da Ciência. Joint ventures entre empreendedores brasileiros e estrangeiros também deverão ser estimuladas pelo Banco do Cérebro, seguindo o mesmo critério social.

14) Ampliação e incentivo a bolsas de doutorado e pós-doutorado dentro e fora do Brasil

À primeira vista pode parecer contraditório propor metas para o desenvolvimento da Ciência Tropical e, ao mesmo tempo, reivindicar aumento significativo de bolsas de doutorado e pós-doutorado para alunos brasileiros no exterior.

Novamente, a proposta da Ciência Tropical é, antes de tudo, um nova proposta para o desenvolvimento de excelência na prática da pesquisa e educação científica. Dessa forma, ela tem de incentivar todas as formas que permitam aos melhores e mais promissores cientistas brasileiros complementarem sua formação fora do território nacional.

Como bem disse a presidente-eleita Dilma Rousseff durante a campanha: “ O Brasil precisa de seus cientistas porque eles iluminam o nosso país”.

Pois que os futuros jovens cientistas brasileiros tenham a oportunidade de se transformar em genuínos embaixadores da ciência brasileira e complementar seus estudos em universidades e institutos de pesquisa estrangeiros, líderes em suas respectivas áreas.

Esse processo de intercâmbio e “oxigenação” de idéias é essencial à prática da ciência de alto nível. Mesmo os cientistas brasileiros que optarem por ficar no exterior depois desse e treinamento poderão trazer dividendos fundamentais para o desenvolvimento da Ciência Tropical.

15) Recrutamento de pesquisadores e professores estrangeiros dispostos a se radicar no Brasil

Com a crise financeira, verdadeiros exércitos de cientistas americanos e europeus estarão procurando novas posições nos próximos anos. Cabe ao Brasil tirar vantagem dessa situação e passar a ser um importador de cérebros e não um exportador de talentos.

Historicamente, a academia brasileira tem inúmeros exemplos excepcionais de pesquisadores estrangeiros de alto nível que alavancaram grandes avanços científicos no Brasil. O Programa Brasileiro de Ciência Tropical só teria a ganhar com uma política mais abrangente, audaciosa e sistêmica de importação de talentos.

 

Retirado de http://www.viomundo.com.br/entrevistas/nicolelis-lanca-manifesto-da-ciencia-tropical-vai-ditar-a-agenda-mundial-do-seculo-xxi.html


Essa doeu….foi na cabeça!!! não na minha, mas naquelas que estão burocratizando a vida neste país… “Einstein não seria pesquisador A1 do CNPq”

“Einstein não seria pesquisador A1 do CNPq”
 
*Alexandre Gonçalves*, de *O Estado de S. Paulo*,
  
Miguel Nicolelis é um dos pesquisadores brasileiros de maior prestígio.
Pioneiro nos estudos sobre interface cérebro-máquina, suas descobertas
aparecem na lista das dez tecnologias que devem mudar o mundo, divulgada em
2001 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em
inglês). Em 2009, tornou-se o primeiro brasileiro a merecer uma capa da
Science. Na quarta-feira, foi nomeado membro da Pontifícia Academia de
Ciências, no Vaticano. Ao Estado, Nicolelis falou sobre o impacto da
neurociência no futuro da humanidade. Criticou de forma contundente a gestão
científica no País, especialmente em São Paulo. Também questionou os
critérios – marcadamente políticos – que teriam norteado a escolha do
ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante.
  
*O que você acha da política científica brasileira?*
 
**
Está ultrapassada. Principalmente, a gestão científica. Foi por isso que eu
escrevi o Manifesto da Ciência Tropical (*PS do Viomundo: *publicado
primeiro *aqui mesmo, neste
espaço*<http://www.viomundo.com.br/entrevistas/nicolelis-lanca-manifesto-da-ciencia-tropical-vai-ditar-a-agenda-mundial-do-seculo-xxi.html>).
O mais importante nós temos: o talento humano. Mas ele é rapidamente
sufocado por normas absurdas dentro das universidades. Não podemos mais
fazer pesquisa de forma amadora. Devemos ter uma carreira para pesquisadores
em tempo integral e oferecer um suporte administrativo profissional aos
cientistas.
 
Visitei um dos melhores institutos de física do País, na Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE), e o pessoal não tem suporte nenhum. Se um
americano do Instituto de Física da Universidade Duke visitar os
pesquisadores brasileiros, não vai acreditar. Eles tomam conta do auditório,
fazem os cheques e compram as coisas, porque não é permitido ter gestores
científicos com formação específica para este trabalho. Nós preferimos tirar
cientistas que despontaram da academia. Aqui no Brasil há a cultura de que,
subindo na carreira científica, o último passo de glória é virar um
administrador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ou da
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É uma
tragédia. Esses caras não tem formação para administrar nada. Nem a casa
deles. Não temos quadros de gestores. A gente gasta muito dinheiro e presta
muita atenção em besteira e não investe naquilo que é fundamental.
*
Qual é a diferença nos mecanismos de financiamento e gestão científica nos
EUA e no Brasil?*
 
O investimento privado e público americano – sem contar os gastos do
Pentágono que, em parte, são sigilosos – é equiparável: cerca de US$ 250
bilhões anuais cada um (o equivalente a R$ 425 bilhões). Eles também
enfrentam o problema de que as empresas privadas não costumam investir em
pesquisa pura, meio de cultura de onde saem as ideias aplicadas. Contudo, o
governo não investe só em universidades. Ele também coloca dinheiro em
empresas e em institutos de pesquisa privados. Este é o segredo.
 
No Brasil, a grande maioria dos mecanismos públicos de financiamento está
voltado para universidades públicas. Sendo assim, você não contrata
cientistas e técnicos para um projeto, pois depende dos quadros da
universidade. Mas esses quadros estão dando 300 horas de aula por semestre.
Não dá para competir com um chinês que está em Berkeley pesquisando o dia
inteiro e recebendo milhões de dólares para contratar quem ele quiser. Como
fazer ciência sem gente?
 
Na realidade, os americanos não contam com pessoas mais capazes lá. O que
eles têm de diferente é um número muito maior de pesquisadores, processos
eficientes, gestão científica profissional – a melhor jamais inventada – e
dinheiro. Nos Estados Unidos, sou visto como um pequeno empreendedor. Recebo
dinheiro do governo americano e uma parcela menor de investimento privado.
Tenho assim uma “padaria” que faz ciência: posso contratar o padeiro, o
faxineiro e a atendente de acordo com as necessidades do projeto. Esse
empreendedorismo não é permitido pelas leis brasileiras. As mesmas regras
que regem o gasto de quaisquer dez mil réis que um cientista ganha do
governo federal servem para controlar licitações de centenas de milhões de
reais para a construção de estradas, hidrelétricas…
 
Achar que um cientista vai desviar dinheiro para fazer fortuna pessoal é
absurdo. O processo de financiamento deve ser mais aberto, com mecanismos
simples de auditoria. Além disso, deveria ser mais fácil importar insumos e,
com o tempo, precisaríamos atrair empresas para produzi-los aqui. É um
absurdo ver anticorpos apodrecerem no aeroporto de Guarulhos por causa da
burocracia. Alguém no topo da pirâmide – o presidente da República ou o
ministro da Ciência e Tecnologia – precisa dizer: “Chega. Acabou a
brincadeira.”
 
É um desperdício gigantesco de talento e de dinheiro. A China está
recuperando pesquisadores que emigraram para os EUA oferecendo condições de
trabalho ainda melhores que as americanas. Milhares de brasileiros voltariam
ao Brasil se tivessem melhores condições para trabalhar. Mas o sujeito vem
para uma universidade federal e é obrigado a dar 300 horas de aula por
semestre. Perdemos o talento. Além disso, ele conquista a estabilidade de
forma quase automática. Que motivação vai ter para crescer? Há talentos, mas
os processos são medievais. E o cientista brasileiro tem muito receito de
bater de frente com as autoridades para reivindicar o que ele realmente
precisa.
 
*Quanto o Brasil deveria investir em ciência?*
 
**
O Brasil precisa investir de 4% a 5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em
ciência e tecnologia para encarar a China, a Índia, a Rússia, os Estados
Unidos, a Coreia do Sul… esses são os jogadores com quem devemos nos
equiparar. É o mesmo porcentual que já investimos em educação. É essencial
realizar os dois investimentos: por um lado, para formar gente e iniciar a
revolução educacional que o País precisa; por outro, para usar o potencial
intelectual dessas pessoas na produção de algo para o País. Atualmente,
investimos 1,3% do PIB. No Japão, é quase 4%. Isso explica muita coisa.
 
*Você afirmou diversas vezes que a ciência precisa ser democratizada no
País.*
 
**
Sem dúvida. É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a penetração
popular adequada nas universidades. Quantos doutores são índios ou negros? A
ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira. Essa foi uma das razões
que me motivaram a escrever o manifesto. Até bem pouco tempo, a ciência era
uma atividade da aristocracia brasileira. Há 30 ou 40 anos só a classe mais
alta tinha acesso à universidade. Não precisavam de financiamento porque
tinham dinheiro próprio.
 
Hoje, nós precisamos de cientista que joga futebol na praia de Boa Viagem.
Precisamos do moleque que está na escola pública. As crianças precisam ter
acesso à educação científica, à iniciação científica. O que também implica
uma democratização na distribuição de oportunidades e recursos em todo o
País. Estamos trabalhando com 21 crianças da periferia de Natal. Elas nem
mesmo entraram no ensino médio e já estão sendo incorporadas às linhas de
produção de ciência do nosso instituto. Quatro participaram de um projeto
piloto em que aprenderam a usar ressonância nuclear magnética de bancada
para medir o volume de óleo nas sementes do pinhão-manso do semi-árido
nordestino. E classificaram as diferentes sementes de acordo com a
quantidade de óleo. Duvido que exista algum técnico na Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária (Embrapa) melhor do que essas crianças.
 
Não precisamos mais de caciques. Precisamos de índios. Devemos investir na
massificação dos talentos. Esses moleques vão decidir o que vai ser a nossa
ciência. Se chega um jovem muito talentoso que quer investigar besouro,
devemos responder: “Está bom, filho. Vai pesquisar besouro.” Eu não
investiria em tópicos, em áreas específicas. Eu investiria primordialmente
em gente. Porque se você investir em pessoas talentosas, elas encontrarão
nichos em que o Brasil terá benefícios tremendos. Nós temos uma das maiores
olimpíadas de matemática do mundo, o que comprova que nosso talento
matemático é enorme. Mas não dá frutos porque faltam caminhos,
oportunidades, veículos…
 
Acreditamos que devemos escolher o melhor menino. Mas e os outros cem mil
que quase ganharam? Precisam de incentivo para continuar. Por isso, eu
proponho o bolsa-ciência. É um bolsa-família para garoto que tem talento
científico. Não precisa ser gênio. Estou fazendo isso com esses 21 meninos.
Os quatro garotos do pinhão-manso recebem mais dinheiro do que o pai e a
mãe: uma bolsa de R$ 520 paga por doadores privados. Precisamos investir no
caos que é o sistema nervoso. Desta forma, encontraremos caminhos
imprevistos, surpresas agradáveis.

Como avaliar mérito na academia?*
 
**
Nós publicamos mais do que a Suíça. Mas o impacto da ciência suíça é muito
maior. Basta ver o número de prêmios Nobel lá. E eles têm apenas cinco
milhões de habitantes. Na academia brasileira, as recompensas dependem do
que eu chamo de “índice gravitacional de publicação”: quanto mais pesado o
currículo, melhor. Ou seja, o cientista precisa colecionar o maior número de
publicações – sem importar tanto seu conteúdo. Não pode ser assim. O mérito
tem de ser julgado pelo impacto nacional ou internacional de uma pesquisa.
Não podemos dizer: quem publica mais, leva o bolo. Porque aí o sujeito
começa a publicar em qualquer revista. Não é difícil. A publicação
científica é um negócio como qualquer outro. Mesmo se você considerar as
revistas de maior impacto. Também não adianta criar e usar um índice
numérico de citações (que mede o número de citações dos artigos de um
determinado cientista).
 
Talento não está no número de citações: é imponderável. Meu departamento na
Universidade Duke nunca pediu meu índice de citação. Também nunca calculei.
Quando sai do Brasil, achei que estava deixando um mundo de lordes da
ciência. Fui perguntando nome por nome lá fora. Ninguém conhecia. Ninguém
sabia quem era. Críamos uma bolha provinciana que deve ser estourada agora
se o Brasil quer dar um salto quântico. Mas as pessoas têm receio de falar
com medo de perder o financiamento. Há outras formas de medir o impacto
científico: ver o que cara está fazendo e consultar a opinião de pessoas que
importam no mundo, dos líderes de cada área. Sob este ponto de vista, o
impacto da ciência brasileira é muito baixo. E precisamos dizer isso sem
medo. Não dá para esconder o sol com a peneira.
 
Quando decidem criar um Instituto Nacional (de Ciência e Tecnologia), em vez
de dividir o dinheiro entre 30 ou 40 pesquisadores promissores, preferem
pulverizar o dinheiro entre 120 cientistas, muitos deles com propostas que
não vão chegar a lugar nenhum. Cada um recebe um R$ 1 milhão, uma quantia
considerável na opinião de muita gente mas que não paga nem a conta de luz
de um projeto bem feito. Não podemos ter receio de selecionar os melhores.
Você precisa escolher os bons jogadores, não os pernas-de-pau. Outra coisa:
só o Brasil ainda admite cientista por concurso público. Cientista tem de
ser admitido por mérito, por julgamento de pares, por entrevista, por
compromisso, por plano de trabalho.
 
*Como você se vê na Academia?*
 
**
Sou um pária. Não tenho o menor receio de falar isso. Sou tolerado. Ninguém
chega para mim de frente e fala qualquer coisa. Mas, nos bastidores, é
inacreditável a sabotagem de que fomos vítimas aqui em Natal nos últimos
oito anos. Mas sobrevivemos. O Brasil é uma obsessão para mim. Há muita
gente que não faz e não quer que ninguém faça, pois o status quo está bem.
Tenho excelentes amigos na academia do País, respeito profundamente a
ciência brasileira. Sou cria de um dos fundadores da neurociência no Brasil,
o professor César Timo-Iaria, e neto científico de um prêmio Nobel argentino
– Bernardo Alberto Houssay.
 
Por isso, foi uma triste surpresa os anticorpos que senti quando eu voltei.
Algumas pessoas ficaram ofendidas porque não fiz o beija-mão pedindo
permissão para fazer ciência na periferia de Natal. Este ano, na avaliação
dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), tivemos um dos
melhores pareceres técnicos da área de biomedicina. E o nosso orçamento foi
misteriosamente cortado em 75%. Pedi R$ 7 milhões. Recebemos R$ 1,5 milhão.
 
Operamos com um sexto do nosso orçamento. As pessoas têm medo de abrir a
boca, porque você é engolido pelos pares. Então, eu fico imaginando um
pesquisador que volta para o Brasil depois de estudar lá fora. De qualquer
forma, o pessoal precisa entender que voltar para o Brasil é assumir um tipo
especial de compromisso. Não é ir para Harvard, Yale… Você deve estar
disposto a dar seu quinhão para o País porque ele ainda está em construção.
Nem tudo vai funcionar como a gente quer. Vejo muita gente egoísta voltando
para o Brasil. Os jovens precisam olhar menos para o umbigo e mais para a
sociedade.
 
*Qual é o futuro dos jovens pesquisadores no País?*
 
**
Atualmente, eles têm uma dificuldade tremenda de conseguir dinheiro porque
não são pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da academia
para conseguir dinheiro e sobressair. Com um físico da UFPE, cheguei à
conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq, porque
ele não preenche todos os pré-requisitos – número de orientandos de
mestrado, de doutorado…
 
Se Einstein não poderia estar no topo, há algo errado. Minha esperança é que
o futuro ministro ataque isso de frente pois, até agora, ninguém teve
coragem de bater de frente com o establishment da ciência brasileira.
Ninguém teve coragem de chegar lá e dizer: “Chega! Não é assim! A ciência
não está devolvendo ao povo brasileiro o investimento do povo na ciência.”
Os cientistas brilhantes jovens não têm acesso às benesses que os grandes
cardeais – pesquisadores A1 do CNPq – têm, muitos deles sem ter feito muita
coisa que valha.
 
Além disso, veja a situação do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia
(CCT, que assessora o presidente da República nas decisões relacionadas à
política científica). O presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC)
– agora, um grande matemático – me perdoe, mas ele não deveria ter cadeira
cativa nesse conselho. O Brasil deveria ter um conselho de gente que está
fazendo ciência mundo afora. E não pessoas que ocupam cargos burocráticos em
associações de classe. Deveria ser gente com impacto no mundo. E pessoas
jovens com a cabeça aberta. Mas as pessoas têm muita dificuldade de quebrar
esses rituais.
 
Para entender a que me refiro, basta participar de reuniões científicas e
acompanhar a composição de uma mesa. Não há nada semelhante em lugar nenhum
do mundo: perder três minutos anunciando autoridades e nomeando quem está na
mesa. É coisa de cartório português da Idade Média. Cientista é um cidadão
comum. Ele não tem de fazer toda essa firula para apresentar o que está
fazendo. É um desperdício de energia, uma pompa completamente desnecessária.
Muitas vezes, os pesquisadores jovens não podem abrir a boca diante dos
cientistas mais velhos. Eu ouço isso em todo o Brasil.
 
No meu departamento nos Estados Unidos, sou professor titular há quase doze
anos. Minha voz não vale mais que a de qualquer outro que acabou de chegar.
Qualquer um pode me interpelar a qualquer momento. Qualquer um pode reclamar
de qualquer coisa. Qualquer um pode fazer qualquer pergunta. E ninguém me
chama de professor Nicolelis. Meu nome lá é Miguel. Por quê? Porque o
cientista é algo comum na sociedade. O meu estado (a Carolina do Norte)
possui uma das maiores densidades de PhD na população dos EUA. Se você se
comportar como um pavão lá, vai se dar mal. Todo mundo tem pelo menos um
PhD.
 
Aqui, precisamos colocar a molecada da periferia de Natal, de Rio Branco e
de Macapá na ABC, por mérito. Às vezes, parece que existe uma igreja chamada
Ciência no País. Se você não é um membro certificado, ela é impenetrável.
Minhas críticas não são pessoais. Quero que o Brasil seja uma potência
científica para o bem da humanidade. As pessoas precisam ver que a juventude
científica brasileira está de mãos atadas. Precisamos libertar este povo. Já
estou no terço final da minha carreira científica. O que me resta é ajudar
essa molecada a fazer o melhor.

Você tem uma opinião bastante crítica sobre a política científica no País.
Mas, na eleição, manifestou apoio publicamente à Dilma. Por quê?*
 
**
Porque a outra opção era trágica. Basta olhar para o Estado de São Paulo:
para a educação, a saúde e as universidades públicas. Não preciso falar mais
nada. Eu adoro a USP, onde me formei. Mas a liderança que temos hoje na USP
é terrível. O reitor da USP (João Grandino Rodas) é uma pessoa de pouca
visão. Não chega nem perto da tradição das pessoas que passaram por aquele
lugar. São Paulo acabou de perder um investimento de 150 milhões de francos
suíços (cerca de R$ 270 milhões) porque o reitor da USP não tinha tempo para
receber a delegação de mais alto nível já enviada pelo governo suíço ao
Brasil. Mandaram o pró-reitor de pesquisa da universidade (Marco Antônio
Zago) fazer uma apresentação para eles. Ninguém agradeceu a visita.
Manifestei oficialmente ao professor Zago minha indignação como ex-aluno da
USP.
 
Um dos integrantes da delegação suíça doou um super-computador de US$ 20
milhões de dólares (cerca de R$ 34 milhões) para nosso instituto em Natal.
Chegou na semana passada e será um dos mais velozes do Brasil. Não pagamos
um centavo. Não há mais espaço para provincianismo na ciência mundial. Nas
reuniões que eu presenciei com comitês e comissões de outros países, a
tônica da Fapesp sempre foi assim: “Fora de São Paulo não existe ciência que
valha a pena investir”. Esse tipo de coisa é muito mal visto pelos
estrangeiros. Não há mais lugar para regionalismo, preconceito… É ótimo para
São Paulo ser responsável por 70% da produção científica do País, mas é
muito ruim para o País, que precisa democratizar o acesso à ciência. Não
adianta dizer em reuniões com emissários internacionais que São Paulo tem
uma “relação amistosa” com o Brasil, este outro País fora das fronteiras do
Estado. Este bairrismo não ajuda em nada.
 
A Fapesp é uma jóia, um ícone nacional, reconhecida no mundo inteiro. Mas
isso não quer dizer que as últimas administrações foram boas. Temos de ser
críticos. Esta última administração, em especial, foi muito ruim. A Fapesp
está perdendo importância. Veja só: a Science (no artigo publicado há
algumas semanas sobre a ciência no Brasil) não dedicou uma linha à Fapesp.
Que surpresas você vê saindo da ciência de São Paulo? Acho que a matéria da
Science foi uma boa chamada para acordar, para sair dos louros, descer do
salto alto e ver o que podemos fazer com os R$ 500 milhões anuais da Fapesp.
Ah, se eu tivesse um orçamento assim! Temos muito menos e posso dizer para o
diretor-científico da Fapesp (Carlos Henrique de Brito Cruz) que nós saímos
na Science. E ele tem condição de investir nos melhores centros de pesquisa
do País.
 
*Como você avalia o governo Lula?*
 
**
Apoiei e apoio incondicionalmente Lula porque vivemos hoje o melhor momento
da história do País. A proposta global de inclusão do governo Lula – e
espero que será a mesma com a Dilma – é aquela que eu acredito. Contudo, os
detalhes devem ser corrigidos. Admiro profundamente o ministro da Ciência e
Tecnologia, Sérgio Rezende. Tivemos grandes avanços como a criação dos INCTs
e dos fundos setoriais. Mas o ministro não enfrentou a estrutura.
 
Talvez não pudesse… por não ter condições práticas ou por fazer parte dela,
por ter crescido nela. Em oito anos, nunca fui chamado para dar uma opinião
no MCT ou para apresentar os resultados do projeto de Natal. Sei que outros
cientistas, melhores do que eu, também não foram chamados. É curioso. Mas
fui chamado pelo Ministério da Educação. O ministro (Fernando Haddad) é o
melhor já tivemos na história da República. Ele criou a infraestrutura que
será lembrada daqui a 50 anos como a reviravolta da educação brasileira. Com
o Haddad eu consigo conversar e nossa parceria está dando resultados.
*
O que você achou da escolha de Aloizio Mercadante para o MCT?*
 
Estou curioso para saber qual é o currículo dele para gestão científica.
Fiquei surpreso com a indicação, mas não o conheço. Não tenho a mínima ideia
do seu grau de competência. Mas não fica bem para a ciência brasileira – um
ministério tão importante – virar prêmio de consolação para quem perdeu a
eleição. Não é uma boa mensagem. Mas talvez seja bom que o futuro ministro
não seja um cientista de bancada, alguém ligado à comunidade científica.
Assim, se ele tiver determinação política, poderá quebrar os vícios.
 
O primeiro ministro da Ciência e Tecnologia (Renato Archer, que permaneceu
no cargo de 1985 a 1987) não era cientista e foi talvez um dos melhores
gestores que já tivemos. Ele tinha consciência de que seu ministério era
estratégico. O MCT estabelece parcerias e tem impacto na ação de outros
ministérios: Educação, Saúde, Indústria e Comércio, Relações Exteriores,
Agricultura, Meio Ambiente… Hoje, boa parte do orçamento do ministério não é
nem executado. As agências de financiamento não têm uma rotina de chamadas.
Não podemos continuar como está!

Retirado de http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/nicolelis-diz-que-sofreu-sabotagem-nos-bastidores.html


Nível das escolas no Brasil passa ‘de desastroso a muito ruim’, diz ‘Economist’

Nível das escolas no Brasil passa ‘de desastroso a muito ruim’, diz ‘Economist’

Brasil ficou em 53º lugar entre 65 países no último ranking do Pisa Em edição publicada nesta quinta-feira, a revista britânica The Economist diz que dados recém-divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que a educação brasileira teve “ganhos sólidos” na última década.

Ainda assim, a revista afirma que “o progresso recente meramente elevou o nível das escolas de desastroso para muito ruim”.

A Economist se referia à divulgação, na última terça-feira, do 4º Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que mediu o nível da educação em 65 países. O Brasil ficou na 53º colocação, tendo obtido 412 pontos em leitura, 386 em matemática e 405 pontos em ciência.

O desempenho do país em cada uma das três áreas foi, em média, 20 pontos superior ao registrado no último teste, em 2006. O resultado fez com que a OCDE considerasse que o caso brasileiro revelava “lições encorajadoras”.

Em entrevista à Economist, a pesquisadora Barbara Bruns, do Banco Mundial, cita entre os motivos para a melhoria o sistema brasileiro de avaliação escolar, criado há 15 anos.

“De um ponto de partida em que não havia nenhuma informação sobre o aprendizado do estudante, as duas (últimas) presidências construíram um dos sistemas de medição de resultados educacionais mais impressionantes do mundo”, disse ela.

Apesar do avanço, a revista diz que dois terços dos jovens de 15 anos são incapazes de fazer qualquer coisa além de aritmética básica.

“Mesmo escolas privadas e pagas são medíocres. Seus pupilos vêm das casas mais ricas, mas eles se tornam jovens de 15 anos que não se saem melhor que um adolescente médio da OCDE”, afirma a publicação.

Segundo a Economist, uma das razões para a má qualidade do ensino é o desperdício de dinheiro. “Como os professores se aposentam com salários integrais após 25 anos para mulheres e 30 para homens, até a metade dos orçamentos da escola vai para as aposentadorias”, diz a revista.

A publicação afirma ainda que, exceto em poucos locais, professores podem faltar em 40 dos 200 dias escolares sem ter o salário descontado.

A Economist diz que o país estabeleceu a meta de alcançar a média da OCDE na próxima década, mas alerta que, “no ritmo atual, chegará só até a metade do caminho”.

A solução, aponta a revista, é propagar iniciativas como a da cidade do Rio (que combate a falta de professores dando pagando bônus às escolas que atingirem metas) e a do Estado de São Paulo (que criou plano de carreira a professores que vão bem em testes de conhecimento).

“Se o Brasil alcançar a nota, será porque conseguiu espalhar essas práticas inovadoras por todos os cantos”, conclui a revista.

Retirado de http://noticias.uol.com.br/bbc/2010/12/10/nivel-das-escolas-no-brasil-passa-de-desastroso-a-muito-ruim-diz-economist.jhtm


“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.” (Fernando Pessoa)


O controle da Sociedade Disciplinar

O controle da Sociedade Disciplinar
Na
sociedade disciplinar, somos marionetes da opressão do poder
estabelecido, que nos manipula politicamente conforme as suas
conveniências. A opressão dessas sociedades foi descrita nas narrativas
literárias de Aldous Huxley e George Orwell

Renato Nunes Bittencourt

Shutterstock

Na sociedade disciplinar, somos
marionetes da opressão do poder estabelecido, que nos manipula
politicamente conforme as suas conveniências. A opressão dessas
sociedades foi descrita nas narrativas literárias de Aldous Huxley e
George Orwell

Divulgação
Imagem do reality show de grande apelo
popular, Big Brother, uma adaptação inglória da obra de Orwell,
distorcendo o efeito repressor da sociedade de controle sobre a
subjetividade humana

Pensemos numa sociedade na qual todos nós fossemos vigiados
intermitentemente por um grande olhar onisciente, o Panóptico, que não
deixaria escapar nenhum detalhe das nossas ações. Nesse sistema, sequer
existiria o termo ‘privacidade’, pois todas as informações seriam
consideradas de domínio público. O Panóptico representa analogamente a
manifestação social do olhar onisciente de Deus, que conhece de antemão o
íntimo de todas as coisas. Trata-se da manifestação mais pura do
controle exercido pela sociedade disciplinar, regulamentando as ações,
determinando padrões de gosto e modelos de conduta que devem ser
seguidos pela massa social. Os organizadores desse dispositivo
acreditariam que pela instauração desse grande sistema de observação das
ações individuais os grandes problemas sociais seriam banidos
definitivamente do âmbito "civilizado".

A definição do Panóptico como um instrumento direcionado para o
controle das ações individuais fora adotada por Jeremy Bentham, no seu
projeto de inserção dessa cadeia de controle social sobre as
instituições europeias do período incipiente da Revolução Industrial,
como forma de obter o máximo domínio sobre as disposições individuais,
evitando-se a criminalidade e as revoltas contra a ordem estabelecida. A
formulação do Panóptico é um pretenso projeto utópico, cuja instauração
resolveria definitivamente o problema da segurança da sociedade urbana,
exigindo assim a supressão da intimidade de cada indivíduo. Analisado
criticamente, o Panóptico representa uma distopia social, pois o seu
objetivo se realizaria mediante o controle intrínseco do comportamento
humano, gerando em cada indivíduo o florescimento do medo pela ameaça de
punição.

A crítica sobre a natureza opressora do foi retomada
contemporaneamente por Foucault em Vigiar e punir, através da
explicitação dos mecanismos de imposição de poder que se encontram
subjacentes na prática de controle social por meio da observação
contínua dos indivíduos. Esse sistema coercitivo de fiscalização social
pelo olhar se dá nos presídios, nas fábricas, nos espaços religiosos e
nas escolas, preconizando a adequação e submissão incondicional do
indivíduo às regras imperativas estabelecidas, tornando os corpos dóceis
(Vigiar e punir, p. 127). A sociedade de controle exerce a
domesticação dos impulsos singulares humanos, desmobilizando qualquer
projeto de revolta. Para Foucault, ao enfraquecer as resistências
individuais, o poder legal suprime pela raiz toda voz de dissensão
diante das manifestações de arbitrariedade (A verdade e as formas jurídicas, p. 103).

A educação disciplinar do corpo individual é o meio que favorece a
transformação da vida humana em força produtiva canalizada para
objetivos práticos que proporcionam resultados concretos e úteis para a
sua sociedade. O sistema Panóptico coíbe intimamente toda inclinação
destoante das individualidades em relação às normas rigorosamente
impostas, estabelecendo a adoção de comportamentos uniformes aos que se
encontram imersos nessa realidade vigiada. A estrutura do Panóptico,
conforme esclarece Zygmunt Bauman, seria, segundo os critérios
coercitivos da ordem política estabelecida, uma arma eficaz contra a
diferença, a opção e a variedade dos comportamentos e dos valores
(Globalização, p. 58). O controle social gera o nivelamento dos
indivíduos, calando o desenvolvimento criativo das suas singularidades.
Quanto mais medíocre, tanto melhor para a "paz pública".

O elemento mais absurdo desse mecanismo de controle reside na
ideia de que o bem-estar que o indivíduo deseja obter somente pode ser
conquistado através da supressão de sua liberdade pessoal, pois é a
flexibilidade das suas ações que motivam as circunstâncias que
prejudicam a estabilidade social. A aspiração utópica pela estabilidade
social corre o risco de se tornar uma distopia. Como Erich Fromm
expressa em texto que serve de ‘Posfácio’ para 1984, de George Orwell,
as utopias negativas expressam o sentimento de impotência e desesperança
do homem moderno assim como as utopias antigas expressavam o sentimento
de autoconfiança e esperança do homem pós-medieval (p. 369). Pode a
natureza humana ser modificada de tal maneira que o homem esqueça seu
desejo de liberdade, dignidade, integridade; pode o homem esquecer que é
humano? (p. 370).

Arquivo Ciência & Vida
Jeremy Bentham (1748-1832), o idealizador do Panóptico

O advento dos grandes regimes totalitários no séc. XX responde de
forma afirmativa tal indagação, e esse problema foi retratado pelas
distopias literárias de Aldous Huxley e George Orwell, que descrevem o
embate entre a aspiração existencial pela liberdade em suas inúmeras
expressões, e o uso desmedido do controle disciplinar da sociedade. Para
Huxley, a organização é indispensável, pois a liberdade só surge e tem
sentido dentro de uma comunidade auto-regulamentada de indivíduos que
colaboram livremente. Porém, mesmo que seja indispensável, a organização
pode também ser fatal. A organização em excesso transforma em autômatos
homens e mulheres, suprimindo o espírito criador e elimina a própria
possibilidade de liberdade (Regresso ao admirável mundo novo, 38-39).

Orwell, por sua vez, em 1984 retrata uma sociedade rigidamente
controlada por câmeras onipresentes que monitoram as ações individuais
da população, reprimindo ações consideradas impróprias para a manutenção
da ordem estabelecida. As relações sexuais entre os indivíduos das
castas superiores são prescritas. A única abertura para a sexualidade
residia na prostituição dos "proletas" que o Partido permitia
tacitamente, pois era uma forma de dar vazão aos impulsos que não eram
adequadamente reprimidos, circunstância similar ao projeto civilizatório
da sociedade cristã, em que o sexo com prostitutas preservava a ordem
familiar. O projeto do Partido era eliminar todo prazer no ato sexual. A
pulsão sexual era perigosa para o Partido, que a utilizava em interesse
próprio (1984, p. 161). Tal dispositivo é um grande mecanismo para a
ampliação do grau de tensão psíquica da massa, que, impedida de gozar e
satisfazer os seus desejos, reprime os seus instintos e se aliena das
suas capacidades transformadoras, tornando-se infeliz e submissa diante
da autoridade de uma ideologia política vazia, que usa palavras de ordem
e da manipulação de informações para concretizar o seu poder
totalitário. "Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força" (1984, p. 14).

 

Para Huxley, em sua propaganda, os ditadores atuais limitam-se,
na maioria das vezes, à repetição, supressão e racionalização -
repetição de estribilhos que devem ser aceitos como verdades, supressão
de fatos que eles pretendem sejam ignorados, desencadeando e
racionalizando paixões que podem ser aplicadas aos interesses do partido
e do Estado (Regresso ao admirável mundo novo, p. 57). Mantendo-se em
constante tensão, a população se deixa controlar por discursos retóricos
de grande impacto afetivo, e os líderes adquirem sobre a massa uma
autoridade paternal. Orwell destacou tal dispositivo em 1984, ao
representar em diversos momentos da narrativa a dedicação diária aos
minutos de ódio contra os inimigos públicos, seções cotidianas em que
havia a catarse de todos os afetos reprimidos. A figura de Goldstein
servia de bode expiatório simbólico para o descarregamento das emoções
odiosas contidas na subjetividade de cada indivíduo. Por outro lado, a
onipresente imagem carismática do "Grande Irmão" servia de amparo
existencial e psicológico para a massa, que lhe devotava sentimentos
análogos ao da devoção religiosa. Orwell, ao elaborar essa visão
angustiante da era do controle individual através do registro onisciente
de todas as ações, enunciou importantes questões sobre o mecanismo
ideológico da sociedade de controle, e de que maneira ela exerceria uma
profunda modificação na forma pela qual o indivíduo constitui a sua
existência.

Arquivo Ciência & Vida
Planta da estrutura do Panóptico projetado
por Bentham permitiria a um vigilante observar a todos sem que estes
possam saber se estão sendo observados. Tal dispositivo se aplicaria nos
presídios, nas escolas, nos hospitais, nas fábricas, nos quartéis, em
todas as estruturas sociais seguidoras de rigorosos regimes de
disciplina

A OUTRA VERDADE

Outra circunstância que demonstra o projeto político de se
aproveitar ideologicamente da ignorância das massas consiste no
empobrecimento do vocabulário: a criação da "Novilíngua", em que a
literatura clássica estava a ser retraduzida e adaptada à filosofia do
Partido, e da "Novafala", que visava eliminar todas as palavras
consideradas ambíguas e "excessivas", numa espécie de mecanização dos
discursos, sendo a única no mundo cujo vocabulário encolhe a cada dia, e
sua finalidade é estreitar o âmbito do pensamento (1984, p. 68). Quanto
menor a quantidade de palavras de um vocabulário, menor a possibilidade
discursiva dos indivíduos e, por conseguinte, mais pobre se torna o
campo semântico da coletividade social. "O Grande Irmão está de olho em
você" (1984, p. 12).

Tal palavra de ordem é uma espécie de secularização da crença na
onisciência divina, que conhece todas as nossas ações melhor do que nós
mesmos. Com o desenvolvimento da televisão e o avanço técnico que
possibilitava a recepção e a transmissão simultâneas por intermédio do
mesmo aparelho, a vida privada chegou ao fim. A distopia de 1984
problematiza uma questão crucial para a compreensão do direito legal
pela liberdade de opinião e expressão: torna-se ato criminoso mesmo a
disposição de resistência e contrariedade ao regime ditatorial, ainda
que não haja uma manifestação pública de tal comportamento. Pensar
contra a ideologia do regime é passível de punição, o que na obra de
Orwell recebe o nome de "crime de pensamento", e o perigo mais letal era
se falar algo subversivo enquanto dormia (1984, p. 82).

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O sistema de vigilância de nossa sociedade disciplinar é uma espécie de secularização da tradicional noção de onisciência divina

Quando Winston é torturado pela elite do Partido, há uma situação
paradigmática do modelo de opressão que é imposta pela ideologia
ditatorial: a noção de verdade se modifica de acordo com os interesses
do poder. O’Brien faz um sinal com a mão e indaga a Winston quantos
dedos ele vê, e a resposta, baseada na evidência, é "quatro".
Entretanto, não é essa a resposta que o Partido deseja ouvir, e assim o
protagonista recebe uma nova dose de tortura. A realidade existe apenas
na mente do Partido, que é coletiva e imortal. Tudo o que o Partido
reconhece como verdade é a verdade. É impossível ver a verdade se não
for pelo olhar do Partido. Se o Partido quiser que 2 mais 2 sejam 5,
assim o será. A mensagem transmitida é que, se convir ao ideário da
opressão, mesmo as evidências mais indubitáveis se tornam passiveis de
falsificabilidade. É a dominação total da vida individual, em que o
agir, o pensar e o viver devem ser submetidos aos parâmetros heterônomos
do poder dominante. Só interessa o poder em si, o poder pelo poder, o
poder puro (1984, p. 307-308).

O consumo de drogas e a sexualidade desenfreada são
instrumentos utilizados de forma perspicaz pelos mantenedores dos
regimes autoritários, minando a capacidade política de contestação. A
ingestão de drogas e as práticas do "sexo líquido" são talvez
manifestações modernas da antiga política do "Pão e Circo"

Uma vez que tudo pode ser falsificado, a questão da manipulação
das informações adquire importância primordial para a consolidação da
tirania. Dominada pela ditadura da informação, a população perde a
capacidade de se mobilizar politicamente, agindo conforme a autoridade
moral da publicidade e seus recortes na realidade. Orwell destaca tal
tema em decorrência do uso político da propaganda, e como ela pode mudar
os rumos dos acontecimentos históricos. O maior grau da manipulação dos
fatos em 1984 se ocorre ao se fazer acreditar que a Oceânia estava em
guerra contra a Eurásia, quando em verdade era contra a Lestásia. Tal
procedimento não é um sinal de desorganização política e militar da
ditadura em vigor, mas justamente a capacidade de desestabilizar
radicalmente toda a compreensão das massas acerca da realidade.

A sociedade distópica do controle total sobre a individualidade
transmite, mediante os seus manipulados meios de comunicação, apenas
simulacros informativos para a população, fazendo com que esta creia que
as informações transmitidas são "reais". No Admirável mundo novo,
constatamos uma negação da verdade e a possibilidade de se manipulá-la,
conforme a sentença solene: "a história é uma farsa". A distopia de
Huxley apresenta outra faceta da sociedade de controle/disciplinar, mas
surpreendentemente complementar aos traços terríveis apresentados por
Orwell em 1984; se nesta obra existe a repressão aos impulsos sexuais
com uma finalidade política, na sociedade distópica de Huxley as
práticas sexuais são incentivadas pelo Estado, em preferencial as
casuais, pois todo vínculo duradouro entre os parceiros é compre-endido
como algo tolo e prejudicial. Sexo para procriação é algo perigoso para o
bem-estar social, pois o risco de nascerem crianças biologicamente
indesejáveis é imenso. O sexo é um fim em si mesmo, e deve-se obter o
máximo de relações sexuais, numa espécie de mega hedonismo moralmente
legitimado. "Nunca deixe para amanhã o prazer que pode ter
hoje"(Admirável mundo novo, p. 153).

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Cena do filme V de Vingança, que retrata uma
Inglaterra governada por um regime totalitário controlador do sistema
de informações. A obra enuncia o paradoxo existente entre a efetivação
da estabilidade social à custa das liberdades pessoais dos indivíduos

Poderíamos pensar que tal liberalismo sexual seria exemplo de uma
sociedade progressista, onde cada indivíduo teria a possibilidade de
dar vazão aos seus impulsos libidinais. Porém, o controle social
garantido por tal mecanismo ideológico é tão rigoroso como o descrito em
1984, especificamente pela sutileza em que o domínio sobre a
subjetividade é exercido. Não existe a repressão violenta do estado
policial, mas a população é mantida alienada pela classe dirigente pelo
poderoso estímulo sexual e pelo consumo de soma, um narcótico do prazer
sem efeitos colaterais. Seu efeito mágico é apregoado pelo slogan: "Com
um centímetro cúbico de Soma esvai-se o sentimento lúgubre" (Admirável mundo novo, p. 148).
Nesse mecanismo de libertação dos tormentos existenciais se oculta um
potente mecanismo de controle social. Como argumenta Huxley: "Um ditador
poderia, se assim o desejasse, empreender essa droga para fins
políticos. Poderia evitar a agitação política transformando a química
cerebral dos súditos, e fazer, dessa maneira, que se contentassem com a
sua condição social" (Regresso ao admirável mundo novo, p. 109).

Trata-se de uma sociedade obscurantista que vive à base de
entorpecentes e de uma sexualidade desenfreada como meio de se fugir do
vazio existencial. O excesso de situações prazerosas, proporcionada pelo
Estado, enfraquece a capacidade de resistência dos indivíduos, criando
neles uma dependência psicofisiológica em relação aos recursos
propiciadores de prazer. Toda infelicidade pode ser solucionada pelo ato
sexual e pelo consumo de drogas, e quando a tristeza voltar a aflorar
no ânimo, basta tomar novas doses dos dois "entorpecentes".
Os valores dessa sociedade são inversos aos da conservadora era
vitoriana. O verdadeiro ato imoral é o de se permanecer com o mesmo
parceiro, e não a troca constante de parceiros. A explicação é que os
sentimentos de exclusividade e de família são prejudiciais para a
sociedade, gerando uma estreita canalização dos impulsos e da energia
(Admirável mundo novo p. 79). Cada indivíduo pertence a todos, e essa
ruptura com o milenar modelo familiar exclui da subjetividade a ideia de
apego a um ente querido, gerando então uma ausência de laços duradouros
entre os indivíduos.

Arquivo Ciência & Vida
Redação da Rádio Canadá, em Montreal, 1944.
Existe a "verdade" enunciada pelo discurso jornalístico? De que modo a
mídia manipula informações de interesse público em favor da manutenção
da sociedade disciplinar?

Outra situação distópica imaginada por Huxley consiste na
transmissão de informações para as crianças durante o sono (hipnopedia),
em especial a educação moral, que jamais deve ser racional (Admirável
mundo novo p. 60). Para a casta diretora, tal técnica favoreceu a
criação da maior força moralizante e socializante de todos os tempos
(Admirável mundo novo, p. 63). Não há civilização sem estabilidade
social, não há estabilidade social sem estabilidade individual
(Admirável mundo novo, p. 82).
Outro grande ponto em comum que podemos encontrar nas grandes
distopias literárias de Huxley e Orwell consiste na demonização da
leitura e dos livros. No Admirável mundo novo são proibidos os livros,
poesias, textos sagrados. O problema ideológico consiste na antiguidade
de tais obras, e de que maneira elas tratam de um mundo ainda
desorganizado, decadente. Nada é pior para o "bem-estar" social do que a
literatura tradicional, pois esta apresenta um caráter sujo, corruptor
da condição humana e do status quo da elite no poder. A motivação de
repressão aos livros é nítida: a leitura favorece a reflexão, logo, a
politização do indivíduo e sua capacidade de transformar a sociedade,
questionando a arbitrariedade do poder. O projeto iluminista de a
racionalidade conduzir o homem cai por terra na era da insana sociedade
disciplinar, com o seu porvir distópico ameaçando a sanidade de nossa
controlada "paz" social.

Tanto Huxley como Orwell terminam as suas obras descrevendo a
derrota do projeto libertário do homem diante da máquina opressiva da
ordem estabelecida. John, o "Selvagem", se suicida ao constatar
amargamente a perdição desse insano mundo disciplinar, e Winston, que
intimamente odiava o "Grande Irmão" e tudo aquilo que ele representa,
passa a amá-lo após ser "reeducado" pelo Partido. Apesar do desfecho
terrível dessas obras, o que os autores pretendem demonstrar é a ideia
de que toda pretensa "estabilidade social" não substitui a aspiração
humana pela singularidade e pela sua capacidade de viver intensamente
conforme os seus próprios projetos, mesmo que isso resulte na decadência
individual. Com efeito, destruição pior está na vida humana se tornar
fantoche de interesses políticos alheios.

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Globalização – As conseqüências humanas. Trad. de Marcus Penchel. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 1999
BENTHAM, Jeremy. O Panóptico. Trad. Tomas Tadeu da Silva. Belo Horizonte. Ed. Autêntica, 2000
FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Trad. de Eduardo Jardim e Roberto Machado. Rio de Janeiro. Nau Editora, 1999
_________. Vigiar e punir. Trad. de Ligia M. Pondé Vassalo. Petrópolis.
Ed. Vozes, 1984 HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Trad. de Lino
Vallandro e Vidal Serrano. Rio de Janeiro. Ed. Globo, 2009
________. Regresso ao admirável mundo novo. Trad. de Eduardo Nunes
Fonseca. Belo Horizonte. Itatiaia, 2000 ORWELL, George. 1984. Trad. de
Alexandre Hubner e Heloisa Jahn. São Paulo. Companhia das Letras, 2009
[Incluído ainda o Posfácio de 1961 de Erich Fromm para a obra.]

Renato Nunes Bittencourt é Doutorando em Filosofia do PPGF-UFRJ/Bolsista do CNPq

Retirado de http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESFI/edicoes/42/artigo160007-5.asp


Comissão aprova projeto que exige nível superior para professores da educação básica

Comissão aprova projeto que exige nível superior para professores da
educação básica

GABRIELA GUERREIRO
DE BRASÍLIA

A Comissão de Educação do Senado aprovou nesta terça-feira projeto de
lei que torna obrigatório o diploma de nível superior para professores
da educação básica que inclui a educação infantil, ensino fundamental e
médio. Atualmente, a exigência ocorre apenas para docentes do ensino
médio.

O projeto estabelece que os professores que têm licenciatura em
magistério, sem curso superior, poderão ministrar aulas somente na
educação infantil (creches e pré-escolas) e nas cinco primeiras séries
do ensino fundamental. Os professores com formação em magistério vão ter
o prazo de seis anos para graduarem-se no nível superior. Do contrário,
ficarão inabilitados para prosseguir no exercício do amplo magistério
no ensino fundamental.

Relatora do projeto na Comissão de Educação, a senadora Fátima Cleide
(PT-RO) disse que o texto vai estimular os docentes a ampliarem sua
formação educacional. "Ninguém vai querer ficar estancado na sua
carreira, por isso vai procurar um curso superior", afirmou.

A senadora disse acreditar que a mudança não reduzirá a procura pelos
cursos de magistério uma vez que os professores continuarão habilitados a
trabalhar com a educação infantil e as primeiras séries do ensino
fundamental.

A relatora incorporou ainda ao seu substitutivo algumas sugestões feitas
pelo Ministério da Educação, que prevê a exigência de avaliação
qualificada de nota mínima no Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) para
os candidatos aos cursos superiores de formação docente.

Também foi incorporado ao projeto a concessão de bolsas de iniciação à
docência para universitários de cursos de licenciatura.

O texto segue para votação no plenário do Senado. Se aprovado, volta
para uma nova votação na Câmara já que o texto aprovado pelos deputados
sofreu mudanças durante sua tramitação no Senado.

retirado de: http://www1.folha.uol.com.br/saber/762659-comissao-aprova-projeto-que-exige-nivel-superior-para-professores-da-educacao-basica.shtmldo de


O que é o Desejo? É mais fácil explicar sua origem e como se manifesta do que conceituar o que é. Há várias respostas, talvez mais de uma correta. A maioria está ligada ao que nos movimenta e dá vida

O que é o Desejo?
É mais fácil explicar sua origem e como se manifesta do que
conceituar o que é. Há várias respostas, talvez mais de uma correta. A
maioria está ligada ao que nos movimenta e dá vida


POR LÚCIO PACKTER

Durante seis meses
acompanhei Adhelia, uma mulher de quase 40 anos, quase dois filhos,
quase dois casamentos. Ela se definia assim. Ainda que no início ela
estivesse confusa quanto a uma gama de fenômenos que lhe habitavam, sua
confusão se aprofundou quando chegou à conclusão de que não desejava
estar bem em algo, não desejava possuir uma nova casa (como afinal
acabou desejando e tendo), não desejava que o filho menor resolvesse o
problema com os dentes, não desejava as coisas para de algum modo ter
essas coisas. Adhelia encontrou algo em si mesma que lhe chamou a
atenção: ela desejava pelo próprio gosto de desejar.

"Eu gosto de sentir dentro de mim a sensação de querer algo. É
estimulante viver em mim quando surge o movimento de desejar. Não
interessa o que estou desejando. Interessa somente o desejo. O desejar."
– disse-me ela mais de uma vez, em mais de um modo.

Semelhante a alguém que aprecia ler, mais do que o conteúdo da
leitura; semelhante a quem se compraz em ser, mais do que o conteúdo do
que o que é, Adhelia era basicamente um ser de desejo.

Ao se interessar por Filosofia, certo dia começou um
questionamento que a levou a outros e que ainda hoje tem seus
desdobramentos. Ela começou a questionar o que era, de fato, o desejo.
No caso dela, surgia então mais um desejo.

Lúcio Packter é
filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica.
Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS), é
coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da
Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto (SP), e da Faculdade
de
Filosofia São Miguel Arcanjo, em Anápolis (GO). luciopackter@uol.com.br.

SHUTTERSTOCK
Eros – conhecido
como cupido na tradição romana – é o deus grego do desejo, do amor.
Pela beleza irresistível, rouba o bomsenso. Mas também tem um papel
unificador


ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Édipo, na mitologia, matou o pai e
casou-se com a mãe. Os mitos estão povoados de desejos. Freud, por
exemplo, interpretou que em Édipo existia o desejo de superar o pai

O que é o desejo? Quando os romanos, que tinham elementos
helenísticos em sua engenharia, buscaram fazer as cidades melhor
ocupáveis como morada e então construíram uma rede complexa de
encanamentos, isso foi um movimento a partir de uma necessidade? O
desejo seria uma decorrência de uma necessidade? Desejamos a água porque
temos sede?

Ou talvez devemos considerar o desejo como algo nocivo? O desejo
pode ser um sintoma de que algo não vai bem, assim como um estado febril
indica às vezes uma condição infecciosa no organismo. Neste caso, o
ascetismo do hinduísmo, por exemplo, seria correto em sua interpretação
do desejo como algo que deve ser observado e cuidado? Penso em Diógenes e
sua repulsa por desejar coisas materiais.

Desejar não desejar pode ser uma armadilha conceitual, na qual a
pessoa passará a vida tentando não desejar aquilo que deseja. Ou seja,
desejando, de qualquer modo.

Para
Platão, a alma tem natureza tripartida. em seu nível inferior, está a
alma sensível, que é habitada por desejos e por paixões

O anseio de Descartes de entender e distinguir o verdadeiro do
falso, o que era? Poderia ser somente uma resposta aos conceitos da
escolástica medieval? Causa e efeito, algo assim?

O estudo da natureza do desejo não é recente e remonta a textos
muito antigos. Podemos recuar até o Antigo Testamento e ali
encontraremos 49ao menos dois mandamentos ligados diretamente à
proibição dos desejos. Mas muito antes do escrito sagrado, encontramos
considerações importantes sobre o assunto.

O OLHAR
DO OUTRO SE TORNA UM DESEJO

Ser visto, observado, já foi considerado
indesejável na Modernidade, por representar controle externo sobre si,
vigilância e possibilidade de punição das pessoas com comportamento
desviante, como explicou Foucault ao desenvolver sua teoria a respeito
dos mecanismos de vigilância e controle sob os quais se organizavam as
sociedades modernas, onde o olhar era centralizado (modelo do
Panóptico), dirigido de poucos sobre muitos, e tinha um caráter
coercitivo.

Mas este quadro mudou. O sucesso de reality
shows
, como o Big Brother, são indícios de um novo
panorama cultural: o desejo pelo olhar do outro. Olhar que, na sociedade
contemporânea, mais do que aceito, tornou-se desejável. Tudo começou
com a proliferação dos meios de comunicação de massa, em especial da TV,
que pôs o indivíduo, no caso as celebridades, no centro dos olhares e
lhe deu um caráter sedutor. Aos poucos, os indivíduos comuns migraram
para o reino televisivo, com os programas que expõem a vida privada de
pessoas comuns. E o desenvolvimento de novas tecnologias da comunicação,
como a internet, facilitou a exposição de si por meio de ferramentas
como blogs e webcams – um novo campo de visibilidade para o
indivíduo comum. Ao contrário do que ocorria na Modernidade, o olhar do
outro não mais tem caráter disciplinar e coercitivo. Não há um olhar
vigilante central, de poucos sobre muitos, com o intuito de vigiar e
punir, como ocorria. Agora, todos estão visíveis a todos. É o próprio
indivíduo quem agora expõe sua intimidade, dá visibilidade a ela e
deseja o olhar alheio. A pesquisadora de comunicação, Fernanda Bruno, no
artigo Máquinas de ver, modos de ser: visibilidade e
subjetividade
nas novas tecnologias de informação e de
comunicação
(2004), arrisca a hipótese de que "o olhar do outro
deixa de ser dado pelo coletivo, pela sociedade, e passa a ser
demandado, conquistado pelo próprio indivíduo" (p.14).

Segundo Fernanda Bruno, houve uma privatização
das trajetórias individuais, com o declínio das grandes instituições
sociais, que fez que o que era público (como saúde, formação, trabalho)
se tornasse cada vez mais responsabilidade particular. Para ela, até o
que parecia público quase que "por natureza" – o olhar do outro -
tornou-se uma responsabilidade do próprio indivíduo (2004, p.16). Daí o
desejo por visibilidade.

Complemento da redação.

Em muitos momentos, muitos escritos nos orientam nesta questão.

Alguns filósofos são evidentes em suas considerações sobre o
tema. Platão, quando trata da alma, que para ele é anterior ao corpo,
descreve sua natureza tripartida. No nível inferior, está a alma
sensível, que é habitada por desejos e por paixões. Platão une-se a uma
longa tradição que alcança os nossos dias segundo a qual o desejo não
goza de boa reputação. Parece existir alguma questão ligada a erros,
entraves, dor, relacionando os desejos à existência em geral.

Os mitos estão povoados do elemento desejo. Eles ganharam maior
relevância com os adventos das psicologias, pois a carga natural de
desejo recebeu o aporte de outras que anteriormente não conhecíamos.
Assim, Freud pensou que em Édipo existe o desejo de superação do pai.

Consideremos Eros, que afinal era o deus grego do desejo, do
amor. Na antiga tradição grega, Eros trazia uma força de unificação, uma
força ordenadora. Se o temos como apresentado em Hesíodo e em
Empédocles, Eros tinha o poder de unir os elementos levando-os do caos
ao cosmos. Na prática, uma combinação cujo final era a chegada a um
mundo organizado.

CONSUMISMO
E DESEJO

Hoje nos parece normal o desejo incessante de
consumir. Mas nem sempre foi assim. A sociedade de consumo é uma
construção social, um modo de viver baseado em valores que alteraram a
relação que temos com as mercadorias e, mais do que isso, a relação que
temos com os outros e com nós mesmos. O consumo determina modos de ser e
interfere na construção de identidades.

A raiz disso vem do pensamento filosófico liberal,
que enalteceu o indivíduo e seus desejos e fez prevalecer o livre
interesse pessoal. Cada um passou a desejar consumir os bens que
considerasse útil para si. E o valor de utilidade só pode ser dado na
esfera do juízo individual particular. O consumo vai surgir como uma
ação que indica a livre preferência. O homem ganha autoridade sobre seus
desejos e quer satisfazê-los, não precisando justificar o que é ou não
necessário a uma vida boa. Cada um determina para si o que precisa para
se satisfazer, é uma decisão privada, fora do alcance do julgamento
externo. Prazeres e apetites mundanos passam a ser o centro do consumo.

Desejamos o que nos falta. O desejo de consumo vem
para suprir nossa incompletude. Mas na esquizofrenia da sociedade de
consumo, nossos desejos não partem de nossas necessidades e, sim, são
construídos pelo mercado. Não são desejos singulares e autênticos, mas
massificados.

Com o desenvolvimento tecnológico e a aceleração da
produção de bens e do surgimento de novos produtos, surgiu a lógica da
descartabilidade. Como as mercadorias são substituídas de forma
incessante, o desejo desvincula-se do objeto a ser consumido e passa a
estar ligado ao próprio ato de consumir. Deseja-se consumir por
consumir. Altera-se a relação que se tem com as coisas, o modo como o
indivíduo percebe a si mesmo e aos outros. Tudo passa a ser mediado pela
dimensão simbólica que os objetos passam a ocupar.

Complemento da redação

Mas o que é o desejo?

O desejo seria, entre outras composições, a tentativa de uma
organização entre fatores em conflitos ou entre fatores perdidos em
mares infinitos?

Santo Agostinho e Descartes ligam a vontade
à liberdade. Por termos vontade, somos responsáveis por nossas decisões
e ações. A vontade estaria ligada à questão moral. Quando conduz a
práticas erradas é o pecado, em Santo Agostinho; ou o erro, em Descartes

Analogamente ao curso de um sinuoso rio que flui entre montanhas,
despenhadeiros, planícies, poderíamos seguir a trajetória dos desejos
em seus percursos cartesianos, mesmo perdendo parte de suas linhas nas
áreas de lagos, intercurso com outros rios, pântanos, baixadas alagadas.
Isso nos exibiria a trajetória dos desejos, mas a trajetória de algo
não necessariamente nos mostra o que este algo é. Ficamos com a
manifestação dos desejos e não com o que eles são. Ou seriam estes
caminhos a própria identidade dos desejos?

Se, de outro modo, nos ocupamos do nascimento dos desejos, da
fonte de onde partem os rios, segundo nossa analogia, podemos chegar, em
muitos casos, à origem deles, o que não quer dizer que chegamos
propriamente ao que eles são.

Em meu trabalho como filósofo clínico, identifiquei que algumas
vezes esta origem está relacionada a necessidades, como resolver uma
questão pendente; a associações de movimentos na malha intelectiva, como
quando um prazer sensorial e uma interrogação se associam em uma
composição cujo resultado é o aparecimento de um desejo; a diletantismos
da existência, como em casos do exercício existencial de fazer algo com
a energia disponível, feito uma criança que, diante de uma bola,
inventa de brincar com ela; a um elemento predisponente na estruturação
da pessoa, próximo ao que acontece com os outros dados existentes em nós
e que possibilitam a aparição e o desenvolvimento do sono, da alegria,
da poesia, conforme as possibilidades que são vivenciadas e permitem
tais manifestações.

"A libertação do
desejo conduz à paz interior" LAO-TSÉE,

Mas este breve dicionário de sinônimos filosóficos em forma de
possibilidades, de fato, pode nos levar a entender a natureza dos
desejos?

Por que diante de uma visão de um mar suave, por exemplo, advém o
desejo de nadar, em vez da indiferença, do desvio de foco, de uma
pergunta ou outra manifestação? Isso é, provavelmente, oriundo dos
fatores determinantes, mais fortes (por assim dizer) na malha
intelectiva da pessoa diante dos contextos naquele momento.
Provavelmente.

Mas o desejo, o querer, a vontade, o movimento em direção a algo
que se vai ocupar, ter, ser… O que é isso?

Os
manuais e dicionários de Filosofia nos trazem Aaristóteles, Ddescartes,
Heidegger relacionando o desejo a apetites, à falta, ao ser projetivo
que somos


WGA.HU
Para Empédocles, o
mundo é formado por água, fogo, terra e ar. Amor e ódio são as forças
que unem e separam tais elementos. Eros aparece como unificador e
organizador

O desejo é uma característica humana de ocupar espaços
existenciais?

O desejo é a conseqüência de uma forma de ordenação mental na
qual o movimento se dá pela busca, necessidade, procura, expansão,
apropriação, associação de elementos mediante um querer? O desejo
constitutivo do ser humano como a pele, os ossos? O que é o desejo?

Os manuais e dicionários de Filosofia nos trazem Aristóteles,
Descartes, Heidegger ligando a resposta a apetites, à falta, ao ser
projetivo que somos. TSÉE, nesta pesquisa, perguntei a alguns alunos de
Filosofia no curso de formação de Filosofia do Instituto Packter, do
qual sou coordenador, sobre o que é o desejo. Também no site SóFilosofia,
o tema foi motivo de enquete entre milhares de leitores, estudantes de
Filosofia, filósofos e professores de Filosofia.

"A propósito de cada desejo
deve-se colocar a questão: ‘Que vantagem resultará se eu não o
satisfizer?’" EPICURO

Múltiplas respostas

A maioria das respostas apontou para poucas direções: o desejo é
uma resposta à necessidade, um desenvolvimento, um elemento espiritual
para o projeto humano, o modo como fazemos o movimento do existir (assim
como para andar colocamos uma perna diante da outra sucessivamente).

A Filosofia acadêmica segue nos advertindo sobre os cuidados com a
vontade, o desejo, o sonho, em Schopenhauer, Lévinas e em outros
filósofos.

Múltiplas respostas

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Uma das hipóteses acerca da natureza
do desejo é de que ela parte de uma necessidade. Os romanos, por
exemplo, teriam sido movidos por desejo ao reconstruir sobre as cidades
gregas espaços melhor habitáveis

Temos mais de uma resposta para o que é o desejo e,
possivelmente, mais de uma está correta. Em Filosofia Clínica, ao
examinar profundamente a existência de uma pessoa, às vezes a resposta
aponta para a natureza do desejo como sendo um movimento natural de
conceitos como bolas sobre uma mesa de bilhar que, quando se chocam,
acabam afetando uma bola azul que descansava indiferente a um canto da
mesa; às vezes, o desejo é a tentativa de suprir uma falta; às vezes, o
desejo é a falta; em muitas ocasiões, o desejo é uma inflamação da alma
na qual uma associação de pensamentos gerou uma busca; o desejo é,
muitas vezes, também o exercício livre do pensamento, um espreguiçar
rumo a algo; o desejo se apresenta várias vezes como renúncia, como
possibilidade, como morte, o que não lhe impede de ser outras vezes vida
e impossibilidade.

E todas essas respostas, às quais poderia ainda agregar mais
algumas, estão diretamente relacionadas ao sentido do querer, do ir em
direção a, da volição, da vontade de.

Pressupor que devemos combater ou acolher os desejos sem examinar
o que são, as funções que exercem, como estão posicionados e como
interagem com outros elementos na estrutura do pensamento da pessoa, é
indefensável do ponto de vista da Filosofia Clínica.

Pressupor
que devemos combater ou acolher os desejos sem examinar o que são, as
funções que exercem e como estão posicionados é indefensável

Pregar abertamente a privação ou o incremento dos desejos sem
pesquisar a historicidade e a estruturação de cada pessoa é como pregar
abertamente a privação ou a exacerbação do uso da visão, da audição, do
tato. Para um filósofo que trabalha em clínica isso se torna grotesco e
provavelmente algo a ser submetido a exame minucioso.

DESEJOS
IRREALIZADOS

Todo querer se origina da necessidade, portanto,
da carência, do sofrimento. A satisfação lhe põe um termo; mas para cada
desejo satisfeito, dez permanecem irrealizados.

Além disto, o desejo é duradouro, as exigências se
prolongam ao infinito; a satisfação é curta e de medida escassa. O
contentamento finito, inclusive, é somente aparente: o desejo satisfeito
imediatamente dá lugar a outro; aquele já é uma ilusão conhecida, este
ainda não. Satisfação duradoura e permanente objeto algum do querer pode
fornecer; é como uma caridade oferecida a um mendigo, a lhe garantir a
vida hoje e prolongar sua miséria ao amanhã.

Por isto, enquanto nossa consciência é preenchida
por nossa vontade, enquanto submetidos à pressão dos desejos, com suas
esperanças e temores, enquanto somos sujeitos do querer, não possuiremos
bem-estar nem repouso permanente. Caçar ou fugir, temer desgraças ou
perseguir o prazer, é essencialmente a mesma coisa; a preocupação quanto
à vontade sempre exigente, sejaqual for a forma em que o faz, preenche e
impulsiona constantemente a consciência; sem repouso, porém, não é
possível nenhum bem-estar.

Destarte, o sujeito da vontade está constantemente
preso à roda de Ixion, colhe continuamente pelas peneiras das Danaides,
constitui o eternamente supliciado Tântalo. Contudo, quando um estímulo
exterior, ou uma disposição interior, nos arranca da torrente infinita
do querer, libertando o conhecimento do serviço da vontade, a atenção
não é mais dirigida para os motivos do querer, compreendendo as coisas
livres de sua relação com a vontade, examinando-as sem interesse, sem
subjetividade, de modo estritamente objetivo, abandonando-se a elas como
representações e não como motivos; então se apresenta de um golpe
aquele repouso, que tanto se buscou por aquela primeira via, instituindo
um bem-estar total.

É o estado sem sofrimento, estimado por Epicuro
como o mais elevado dos bens e como o estado dos deuses. Pois estamos a
todo o momento livres do impertinente jugo da vontade, festejamos o
sábado do trabalho forçado do querer, a roda de Ixion está em repouso.

Schopenhauer, O mundo como
vontade e representação

A última vez em que encontrei Adhelia foi no verão. Um verão
muito quente, mesmo para os padrões do sul. Ela usava óculos de sol
coloridos que achei muito engraçados. Ela me disse que tinha escolhido
aqueles óculos porque havia encontrado respostas para determinadas
questões que há muito lhe incomodavam. Enquanto eu acendia o cachimbo e a
olhava em silêncio, ela me falou jovialmente:

- Comprei uma pequena máquina que faz pães. Ela tem um manual de
instruções. Eu coloco os ingredientes, faço regular o relógio, acompanho
tudo pelo pequeno vidro. Em poucos minutos tenho pães integrais, de
chocolate, de batata. Tenho uma pequena padaria em casa.

Aparentemente, o que Adhelia falava nada tinha a ver com qualquer
coisa que fazia parte das consultas anteriores. Ela olhou para algum
ponto ao longe e disse:

- …Aqueles ingredientes, farinha, ovos, água, leite, o assar da
massa, a própria panificação, não são o pão. Achar que as primeiras
coisas têm a ver com a segunda é um novo problema.

E depois de um silêncio, passamos a falar do verão. Os verões no
sul ultimamente têm sido rigorosos.

Retirado de http://portalcienciaevida.uol.com.br/esfi/edicoes/33/artigo130332-1.asp


Genealogia da Malandragem – O brasileiro sempre tem um “jeitinho” para tudo. Saiba que relação existe entre a peculiar malandragem do brasileiro e a construção da Ética e da moral na visão de nietzsche

Genealogia da Malandragem
O brasileiro sempre tem um "jeitinho" para tudo. Saiba que
relação existe entre a peculiar malandragem do brasileiro e a construção
da Ética e da moral na visão de nietzsche


Por João E. Neto


Costuma-se apontar a corrupção como uma das maiores mazelas da
sociedade brasileira. Geralmente, quando questionada acerca desse
assunto, a opinião pública tem como alvo favorito de críticas a classe
política. É curioso, no entanto, que boa parte dessas pessoas que
avaliam negativamente seus representantes costuma recorrer,
cotidianamente, a pequenos artifícios que burlam o costume ético e,
muitas vezes, até a lei. Estamos nos referindo ao nosso jeitinho
brasileiro
, à malandragem e ao jogo de cintura,
"categorias" que, já incorporadas à nossa cultura, convivem lado a
lado com os valores ético-morais mais tradicionais. A "ética" do jeitinho
e da malandragem coexiste, paralelamente, com a ética
oficial. O cidadão que cobra dos políticos o cumprimento dos preceitos
da ética tradicional é o mesmo que usa o expediente do jeitinho e
da malandragem.

TV GLOBO/JOÃO MIGUEL JUNIOR
Ao contrário dos personagens
malandros de nossa história, geralmente matutos desprivilegiados, Zeca,
de Caminho das Índias (Globo), é um garoto de classe média
que, apoiado por seus pais, usa sua malandragem não por sobrevivência,
mas para perturbar os outros e com a certeza de impunidade

Claro que a desonestidade não é uma exclusividade nacional.
Mas é interessante ressaltar a peculiaridade brasileira na admissão das
"categorias" jeitinho e malandragem como elementos
paradigmáticos à ação "moral". No nosso país, curiosamente, exaltam-se,
ao mesmo tempo, dois tipos aparentemente incompatíveis: o honesto e o
malandro. Nesse sentido, como bem observou o antropólogo Renato da
Silva Queiroz, a cultura brasileira é permeada por uma ambiguidade
ética em que termos como "honesto", "corrupto", "esperto", "otário",
"malandro" e "mané" se misturam num confuso caldeirão moral. Esse
caráter peculiar de nossa sociedade exige-nos alguns questionamentos: o
que levou a cultura brasileira a essa ambiguidade moral? O que fez que
nossa sociedade cultivasse certa glorificação da malandragem? E mais:
será que essa exaltação do tipo "malandro" tem sido proveitosa para o
Brasil? Ela tem contribuído para o engrandecimento de nossa cultura ou
para sua degeneração?

No final do século XIX, o filósofo Friedrich Nietzsche se propõe
a realizar uma crítica dos valores morais
e, com isso, inaugura o seu procedimento genealógico.
Rompendo com a tradição metafísico-religiosa que considera os valores
como sendo eternos, universais e imutáveis, o pensador alemão passa a
pensá-los por um viés histórico. Ou seja, no entender de Nietzsche, os
juízos de valor, antes concebidos como absolutos, teriam sido, na
verdade, criados numa determinada época e a partir de uma cultura
específica. Tomando como
ponto de partida essa perspectiva, o pensador alemão enxergou a
necessidade de realizar um exame acerca das condições históricas por
meio das quais os valores foram engendrados. E coloca as seguintes
questões: de que forma esses paradigmas morais teriam sido gerados? Por
quais povos e em que época? Em que condições se desenvolveram e se
modificaram? Para efetivar essa investigação, Nietzsche põe a seu
serviço os recursos da História, da Filologia, e da Fisiologia. Apesar
disso, ao recorrer a essas disciplinas, o filósofo não assume o papel
de um cientista positivista, que busca fatos históricos,
fisiológicos ou antropológicos. Nietzsche está longe de ser um
pensador, que se pretende
isento e "objetivo". Para ele, a investigação genealógica já é um
procedimento que se realiza a partir de uma determinada perspectiva
valorativa. Sua análise deve ser entendida como uma hipótese
interpretativa que tem como pano de fundo o referencial das ciências,
mas não como um método científico que se embasa em fatos.

Essa
exaltação do tipo "malandro" tem sido proveitosa para o Brasil? Ela tem
contribuído para engrandecer nossa cultura ou para degenerá-la?


A
DIALÉTICA DA MALANDRAGEM

Em 1970, o crítico literário Antônio Candido publicou Dialética
da malandragem
, uma referência obrigatória para qualquer estudo
filosófico que aborde o tema da malandragem brasileira. O
trabalho, um ensaio sobre Memórias de um Sargento de Milícias -
romance publicado em 1854 por manuel Antônio de Almeida (1831-1861)
-, toma o personagem principal do livro, Leonardo Pataca Filho,
como o primeiro malandro da literatura brasileira. mostrando que Leonardo
transita, cotidianamente, entre a ordem estabelecida e as
condutas transgressivas, Cândido afirma que esse romance, já no século
XiX, retrata – retrospectivamente – a ambiguidade ética da sociedade
brasileira, na
época de Dom joão Vi. A desarmonia entre as instituições
ético-legais e as práticas sociais efetivas não seria novidade: "Há um
traço saboroso que funde no terreno do símbolo essas confusões de
hemisférios e esta subversão final de valores. (…) É burla e é sério,
porque a sociedade que formiga nas Memórias é sugestiva.
(…) manifesta (…) o jogo dialético da ordem e da desordem". (A
título de curiosidade, é bom lembrar que, em 1946, época em que a
difamação de Nietzsche estava em seu apogeu, o mesmo Antônio Cândido
publicou o ensaio O Portador, um dos primeiros textos a
apontar a necessidade de se recuperar o pensa-mento nietzschiano).

SUSPENSÃO DOS VALORES

TV GLOBO/JOÃO MIGUEL JÚNIOR
Bezerra da Silva, autor da letra da
música Malandro é Malandro e Mané é Mané. No Brasil, a
malandragem ganhou valor positivo como traço de personalidade. É como
se de um lado estivessem os malandros e, de outro, os "manés"

O procedimento genealógico, no entanto, não se restringe apenas a
essa pesquisa das origens dos valores, pois, com o seu "método", o
filósofo propõe, simultaneamente, uma avaliação desses mesmos juízos de
valores. Assim, ele nos interroga, também, acerca do "valor desses
valores". Em Para a genealogia da moral, livro publicado em
1887, Nietzsche usa seu procedimento, por exemplo, para examinar a
dicotomia ocidental entre os valores "bem x mal". Considerando esses
referenciais como fruto da criação humana, o filósofo questiona até que
ponto eles têm sido benéficos à nossa
civilização: "Sob que condições o homem inventou para si os
juízos de valor ‘bom’ e ‘mau’? Que valor têm eles? Obstruíram ou
promoveram até agora o crescimento do homem? São indícios de miséria,
empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revela-se neles a
plenitude, a força, a vontade de vida? (…) O próprio valor destes
valores deverá ser colocado em questão" a partir do critério vida.

Se, por um lado, Nietzsche considera que os referenciais éticos
são sempre relativos a uma cultura específica e, por essa razão, não
podem constituir um critério absoluto de avaliação, por outro lado, ele
necessitou de um novo critério pelo qual pudesse avaliar os valores.
Nietzsche precisava de um valor que estivesse além de toda perspectiva
moral e que servisse, ao mesmo tempo, como referência para julgar
qualquer moral.


"Jeitinho brasileiro" e "malandragem" na Política

Brasileiro, que é
malandro, sempre dá um jeitinho de lucrar. Quem está no poder, rondado
pelas oportunidades de usar a influência do cargo para ganhar algo por
fora, tem usado e abusado desta

"ética frouxa" que nossa cultura da malandragem estimula. A
seguir, alguns escândalos políticos brasileiros, do presente e do
passado, que bem ilustram esse hábito de tentar levar vantagem.

IMAGENS: AGÊNCIA BRASIL
O deputado
Fernando Gabeira, (PV) que admitiu ter usado sua cota de passagens
aéreas de forma irregular

Farra das passagens aéreas

O escândalo das passagens aéreas explodiu quando um site
tornou público que parlamentares estavam usando suas cotas mensais de
passagens aéreas cedidas pelo estado para promover viagens de turismo -
até ao exterior – a familiares e amigos.

Nada no regimento especificava que era proibido doar as
passagens a terceiros, apenas o bom-senso e a Ética. Como brasileiro
sempre dá um jeitinho de sair lucrando, os parlamentares, aproveitando a
brecha na lei, estavam financiando viagens de familiares e amigos,
viajando a passeio, etc.

O esquema foi além da simples malandragem e virou desvio de
verba: assessores passaram a repassar a sobra do mês para agências de
viagem, que
vendiam bilhetes para pessoas comuns, pagavam com o crédito
da Câmara e dividiam com os assessores o dinheiro dado por quem
adquiriu a passagem.

O escândalo fez muitos parlamentares devolverem o dinheiro
gasto em passagens não usadas a trabalho e o Congresso rever o
regimento a respeito das viagens aéreas.

IMAGENS: AGÊNCIA BRASIL
O deputado
João Paulo Cunha (PT), interrogado por acusações de pertencer ao
esquema do mensalão

Compra de votos pelo
"mensalão"

A maior crise política sofrida pelo governo do presidente
Lula ficou conhecida como "mensalão" e está ligada a um suposto esquema
de compra de votos de parlamentares. Deputados receberiam uma espécie
de mesada para votar a favor de projetos de interesse do Poder
executivo. no governo, o jeitinho era o seguinte: pagar para ganhar
votos favoráveis e evitar problemas.

A suposta venda de voto, que deu origem à crise foi só o
estopim para a descoberta de uma série de outros escândalos de
corrupção relacionados ao "mensalão", como o caso Celso Daniel,
o escândalo dos Correios, o dos Bingos e do banco
Opportunity, que acabou associado ao esquema do "valerioduto".

IMAGENS: AGÊNCIA BRASIL
Matilde
Ribeiro (PT)

Cartão corporativo

Que tal um cartão em que a fatura no final do mês fica por
conta do Governo? O escândalo dos cartões corporativos foi motivado
pelo uso indevido de um cartão criado para pagar despesas pequenas e
urgentes de funcionários do governo em missões de trabalho,
mas foram descobertas compras de ursos de pelúcia, reformas
de mesa de sinuca e até pagamentos de diárias no hotel Copacabana
Palace. Alguns mais malandros, usavam a estratégia de sacar o dinheiro e
pagar em espécie, assim não deixavam vestígios da ilegalidade, a
menos que fossem investigados – e foram. As primeiras denúncias levaram
à demissão da Ministra da Promoção da Igualdade Racial, Matilde
Ribeiro, do PT, a pessoa que mais realizou gastos com o cartão em 2007.

IMAGENS: AGÊNCIA BRASIL
Ex-presidente Fernando Collor
de Mello

Impeachment de Collor

A renúncia, em 29 de dezembro de 1992, do então presidente
Fernando Collor de mello para evitar seu impeachment faz
parte daquele que talvez tenha sido o maior escândalo político
brasileiro. Apesar de ter renunciado, o processo teve seguimento e
Collor foi condenado à perda do mandato e à inelegibilidade por oito
anos. Nunca antes um político da América Latina havia sido deposto do
cargo por impeachment.

Foi aberta uma Comissão Parlamentar de inquérito (CPI)
que descobriu que o presidente e familiares haviam tido despesas
pessoais pagas com o dinheiro recolhido ilegalmente pelo "esquema PC",
que envolvia uma rede de "laranjas" e de "contas fantasmas". A reforma
da Casa da Dinda (residência de Collor em Brasília) e um carro Fiat
Eelba foram tidos como exemplos de bens e serviços pagos com dinheiro do
esquema ilícito. Tais descobertas serviram de base para a abertura do
processo de impeachment.

"Mordomia"
quase oficial

No governo militar de ernesto Geisel (1974-1979),
quando a censura e a repressão apenas começavam a arrefecer, o
jornalista ricardo Kotscho escreveu uma matéria descrendo as
"mordomias" de que desfrutavam tecnocratas e militares no governo. A
certeza de impunidade era tanta que tais mordomias, como longas listas
de comes e bebes para residências oficiais, compras de flores e de
peças de decoração, distribuição de dividendos em empresas estatais
deficitárias e salários astronômicos, eram publicadas no Diário
Oficial
, conta o próprio jornalista, no livro Do golpe ao
planalto
.

IMAGENS: AGÊNCIA BRASIL
  Ernesto
Geisel, durante jantar oferecido a Jimmy Carter, em1978

 

No entender de Nietzsche, esse paradigma seria a vida.
Vejamos como argumenta o pensador em Crepúsculo dos ídolos:
"É preciso estender ao máximo as mãos e fazer uma tentativa de
apreender essa espantosa finesse [finura], a de que o valor da
vida não pode ser estimado. Não por um vivente, pois ele é parte
interessada, até mesmo um objeto da disputa, e não juiz; e não por um
morto, por outro motivo". Nesse sentido, a vida seria um critério de
avaliação impossível de ser avaliado, pois qualquer avaliação sempre se
dá por meio de uma determinada perspectiva inserida na vida.

Ao examinar o desenvolvimento histórico da civilização ocidental,
Nietzsche chega à conclusão de que os fundamentos morais que têm
norteado o Ocidente foram engendrados a partir de uma perspectiva
negadora
da vida e do mundo terreno. Isso porque a Ética ocidental -
fundada nos pilares do cristianismo e platonismo – teria como
referência moral os valores concebidos a partir de um além. Em ambas as
perspectivas fundadoras existiria uma predileção a um mundo
extraterreno em detrimento do mundo terreno. No caso do cristianismo, a
esperança de redenção no reino de
deus teria provocado a negação da vida e do mundo terreno.

Para
Nietzsche, os fundamentos morais que têm norteado o ocidente foram
engendrados a partir de uma perspectiva negadora da vida e do mundo
terreno


AGÊNCIA BRASIL / WILSON DIAS
Moradores da periferia do Distrito
Federal aguardam atendimento médico. Existe a hipótese de o jeitinho
ter surgido como estratégia de sobrevivência a uma realidade dura
e de desamparo por parte do Estado. Seria um drible às adversidades

O platonismo, por sua vez, ao conceber o mundo das ideias como o
âmbito da verdade e da eternidade, teria considerado o mundo terreno
como aparente e transitório e, por essa razão, inferior. O procedimento
genealógico nos propõe uma forma de investigação filosófica que, além
de indagar pela procedência histórica dos valores morais, realiza
também um julgamento desses valores.

Colocando a vida como o critério avaliador, a
"genealogia" pergunta: qual o papel dos paradigmas morais vigentes?
Eles servem para conservar e engrandecer a vida? Ou promovem sua
decadência? Nesse sentido, se adotarmos o procedimento genealógico como
referência

metodológica, teremos que pensar o fenômeno da malandragem como
resultado de processos histórico-culturais. Indo além, poderíamos
questionar até que ponto ele tem sido favorável ao engrandecimento e
conservação da vida.

Nas Ciências Sociais há quem entenda o surgimento do jeitinho
e da malandragem como consequência da imposição de uma
cultura legal e formalista proveniente da monarquia portuguesa e da
igreja católica. Não sendo um resultado legítimo da construção popular,
as instituições ético-legais abririam espaço à transgressão. Por outro
lado, há também quem enxergue a raiz da "malemolência" brasileira no
nosso caráter cultural mestiço.

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Do embate entre a necessidade de vida e
a lei (ou valores morais) surge a malandragem. A venda de CDs piratas é
um exemplo. Apesar de ir contra a Ética formalizada, esse comércio é
disseminado e encontra muitas justificativas

HERANÇA DE TRADIÇÕES

Por sermos um amálgama de diversas tradições, não teríamos
conseguido fixar uma ética coesa. Além dessas teses, diversas outras
são apontadas como causa da malandragem tupiniquim: a colonização
voltada à exploração, a imposição do
formalismo legal como herança do direito latino e, até mesmo, a
miscigenação biológica. Apesar dessa heterogeneidade de hipóteses, um
elemento comum permeia boa parte dos estudos: a noção de que o jeitinho,
a malandragem e congêneres surgem como uma espécie de "mecanismo de
adaptação às situações perversas da sociedade brasileira", como
ressaltou a antropóloga Lívia Barbosa, em seu livro O jeitinho
brasileiro
.

Seguindo essa pista fornecida pelas Ciências Sociais, podemos
arriscar uma hipótese genealógica para essas "atitudes desviantes":
produto de uma combinação entre a árdua condição social e o histórico
desamparo do poder público, o jeitinho e a malandragem
constituiriam um instrumento de sobrevivência. Assim, essas
transgressões seriam uma espécie de infração aceitável socialmente que,
na maioria das vezes, justificar-se-ia, ou por uma facilidade em
relação aos trâmites burocráticos das instituições oficiais, ou por uma
necessidade resultante da
dura realidade socioeconômica brasileira. Em ambos os casos,
essas violações ético-legais seriam uma espécie de "drible" nas
adversidades da vida num país, historicamente, repleto de
desigualdades. Tomando esse raciocínio como premissa, podemos dizer
que, no Brasil, burlar as regras morais e legais foi algo que se impôs
como forma de adaptação ao "ambiente hostil". O brasileiro precisou ser
malandro para sobreviver numa sociedade cruel e de enorme
abandono do poder público. A origem e fundamento mais remoto da
malandragem foi a conservação da vida: a vida se impôs perante as leis e
os costumes éticos formalizados, fazendo as circunstâncias efetivas se
sobreporem à moral vigente.

O brasileiro
precisou ser malandro para sobreviver numa sociedade cruel e
de enorme abandono do poder público


AGÊNCIA BRASIL / WILSON DIAS

Há uma série de
teorias sobre o que deu origem ao jeitinho brasileiro. Uma
delas o atribui à nossa formação mestiça, com contribuições culturais
diversas, o que teria nos impedido de fixar uma Ética coesa

Fazer uma fotocópia "clandestina" de um livro – do ponto de
vista da Ética formalizada – seria algo reprovável e até mesmo ilegal,
porém esta prática é uma das mais comuns em muitas universidades
brasileiras. Apesar de se tratar de algo desviante de uma Ética
tradicionalmente instituída, essa atitude não é difícil de ser
justificada. No Brasil, onde o investimento em Educação é ainda
escasso, e acesso aos livros de qualidade é muito limitado, os
estudantes – em sua grande maioria com restrições econômicas – são
obrigados a recorrer a meios extraoficiais. Além desse exemplo,
poderíamos citar diversas outras situações em que as condições efetivas
da vida no Brasil se impõem ao "formalismo" ético.

A mãe que fura a fila do atendimento médico de um sistema de
saúde saturado para salvar o filho; o morador de uma comunidade carente
que faz uma "gambiarra" (ligação clandestina com a rede elétrica) por
não ter acesso econômico aos meios legais de distribuição de energia
elétrica; o motorista que avança o sinal vermelho à noite para não ser
assaltado; ou mesmo um saque de alimentos a um caminhão tombado na
estrada.

Mas não se trata de justificar,aqui, uma transgressão
generalizada. Como foi dito anteriormente, essa posição assume a
"conservação da vida" como fundamento originário desse tipo de burla,
mas – é necessário ressaltar – isso não significa dizer que, ainda
hoje, a "vida" continue sendo o único referencial criador para toda
atitude de infração à legalidade e ao costume ético tradicional.

APOLOGIA À MALANDRAGEM

Com o desenrolar histórico, a própria transgressão teria se
transformado em uma espécie de modelo "ético". A antropóloga Lívia
Barbosa vai nessa
mesma direção: "de drama social do cotidiano [o jeitinho brasileiro]
passou a elemento da identidade social. (…) de simples mecanismo
adaptativo, reflexo de nossas condições de subdesenvolvimento, o jeitinho
se transformou em elemento paradigmático de nossa identidade
(…)".


ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Histórias
infantis são repletas de lições morais. Para Nietzsche, valores como
"bom" e "mau" não existem por si, foram criados historicamente. Ele
defende que cada um decida sua moral – um raciocínio que daria espaço à
malandragem

Se até o momento defendemos que a conservação da vida foi o
ponto de partida para o surgimento do jeitinho e da
malandragem, agora, além desse fundamento, um fator derivado – também
impulsionador e potencializador da transgressão – teria surgido no
desenrolar histórico-cultural do Brasil: a apologia da malandragem.

O que queremos dizer é que a exaltação do tipo esperto -
aquele que sempre se dá bem e leva vantagem em tudo – ou a
glorificação do malandro seria resultado de processos culturais. O tipo
esperto
teria passado a ser admirado como um vitorioso na luta
pela vida.

A partir disso, o malandro passa a ser visto como
exemplo a ser seguido, torna-se um referencial para o "dever ser" e se
transforma em um "paradigma ético paralelo". Assim, a malandragem -
que, de início, foi impulsionada pelas imposições de conservação da
vida – se converteu em referência para si mesma. Tornando-se uma
espécie de categoria ético-metafísica, ela se transformou em valor
moral e passou a ser norteada por si mesma. A malandragem se
transfigurou em modelo ético para a própria malandragem.

E ao tornar-se um valor, a malandragem passou a ser compreendida
como uma espécie de essência biológica. Ou seja, se transformou em
caráter inerente e distintivo de certos indivíduos. De um lado,
teríamos a "espécie" dos malandros e, do outro, a dos "manés" -
lembremos da clássica tautologia, tantas vezes cantada pelo sambista
Bezerra da Silva: "malandro é malandro e mané é mané".

 


ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Dom João VI e Carlota Joaquina.
Outra teoria sobre a origem do jeitinho brasileiro é de que
ele resultou da cultura legal e formalista vinda da monarquia
portuguesa e do catolicismo. É uma desarmonia entre as instituições
ético-legais e a vida prática

Conforme esse raciocínio, a "Filosofia ética da malandragem",
por incrível que pareça, teria suas raízes fincadas numa forma de
pensar essencialista, já que, na maioria das vezes, o senso comum
concebe o "tipo malandro" como sendo esperto de nascença, como por
exemplo, Macunaíma, personagem de Mário de Andrade e um dos
símbolos da malandragem na literatura brasileira. Há,

inclusive, no imaginário cultural do Brasil, a ideia de que o
"jogo de cintura", a "malemolência" e a "ginga" são componentes
essenciais do caráter do povo brasileiro. O agir

malandramente já seria fruto do modo de ser do "esperto
brasileiro". Nessa direção, recordemos a "lei de Gerson" – jogador da
seleção de 1970 – que proclamava que todo brasileiro – incluindo ele -
gostava de sempre levar vantagem em tudo.

Diante disso tudo se pode questionar: qual o valor da "ética da
malandragem"? Ela tem servido para conservar e engrandecer a vida? Tudo
leva a crer que, ao promovermos essa a apologia
da malandragem, perdemos o referencial originário, a saber, a
vida.

A malandragem gratuita, a da "lei de Gerson", a malandragem pela
malandragem está conduzindo ao caminho contrário da conservação e
engrandecimento da vida. Ao se conceber como um povo essencialmente
malandro, um povo pacífico e cordial – para usar o termo de Sérgio
Buarque de Holanda -, um povo que "resolve" seus problemas na base do jeitinho,
o brasileiro estaria se desviando de transformações sociais mais
significativas. "Ao funcionar como válvula de escape, ela [a
transgressão pelo jeitinho] impede o surgimento de uma pressão
social efetiva que leve a mudanças tão necessárias no nosso aparato
legal e administrativo" (Lívia Barbosa).

Ou seja, por ser constituída de técnicas individuais de
sobrevivência, a malandragem impediria estratégias mais
amplas de insurreição popular.



Além disso, apologia da malandragem e a compreensão
do povo brasileiro como essencialmente malandro
traz à tona o
perigo da justificação de uma corrupção generalizada e, por tabela, o
efeito colateral de todo um encadeamento de chagas sociais. Concebida
como característica natural, a corrupção passa a ser entendida como
algo inevitável no Brasil. Isso nos leva a uma licenciosidade
ético-legal justificada por uma espécie de determinação biológica. Essa
banalização e justificação
da corrupção trazem como consequência uma desestruturação social
que torna as condições de vida ainda mais precárias. Temos uma espécie
de movimento circular, em que os problemas sociais que engendraram a malandragem
são realimentados pelo "modelo ético" da própria malandragem.
Será que a necessidade de tanta malandragem não levará todos
nós a assumirmos o papel de "manés"?

A compreensão do
povo brasileiro como essencialmente malandro traz à tona o perigo da
justificação de uma corrupção generalizada


REFERÊNCIAS

Sobre Nietzsche e o procedimento genealógico:

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da
moral
. Trad. Paulo César de Sousa. São Paulo: Companhia das
Letras, 2005
_________. Crepúsculo dos ídolos. Trad. Paulo
César de Sousa. São Paulo: Companhia das Letras, 2006 MARTON, Scarlett.
Nietzsche: a transvaloração dos valores. São Paulo: Moderna,
1993
PASCHOAL e FREZZATTI. Antônio Edmilson e Wilson (org). 120 anos
de "Para a genealogia da moral"
. Ijuí: Unijuí, 2008

Para entender a
Malandragem

ANDRADE, Mario de. Macunaíma: o herói
sem nenhum caráter
. Coleção Buriti 41. 23ª ed. Belo Hori­zonte:
Itatiaia, 1986

ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de
um sargento de milícias. São Paulo: Escala Educacional.

BARBOSA, Lívia. O jeitinho brasileiro.
Rio de Janeiro: Campus, 1992

DAMATTA, Roberto. Carnavais malandros e
heróis – para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro:
Zahar, 1979

CANDIDO, Antonio. "Dialética da
Malandragem". In: ____ O discurso e a cidade. São Paulo: Duas
Cida­des, 1993 www.unioeste.br/prppg/mestrados/letras/leitura/DIALETICA_MALANDRAGEM.rtf

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do
Brasil. 26ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio,1995

PRADO JR., Caio. Formação do Brasil
contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 2000

SCHWARCZ. Lilia Moritz. Complexo de Zé
Carioca. Notas sobre uma identidade mestiça e malandra. In: www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_29/rbcs29_03.
htm

João E. Neto é graduado e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE), doutorando em Filosofia pela Universidade de São
Paulo (USP), bacharel em Comunicação Social (Jornalismo) pela
Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e membro do Grupo de
Estudos Nietzsche (GEN)

Retirado de http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESFI/edicoes/37/artigo144493-1.asp


Reflexos do auto-amor em excesso – O narcisismo parece estar em alta nos consultórios. A obsessão pelo padrão ideal de beleza é apenas um dos indícios de que ele está a nossa volta; outro é a manifestação agressiva a fim de reforçar a auto-imagem

Reflexos do auto-amor em excesso
O narcisismo parece estar em alta nos consultórios. A
obsessão pelo padrão ideal de beleza é apenas um dos indícios de que ele
está a nossa volta; outro é a manifestação agressiva a fim de reforçar a
auto-imagem


Por Agência Notisa de
Jornalismo Científico


Culto ao
corpo, obsessão por magreza, consumismo. Práticas correntes na
contemporaneidade, mas, ao mesmo tempo, com um pé na Grécia Antiga, mais
precisamente no mito de Narciso – filho do deus-rio Cefiso e da ninfa
Liríope – que, fascinado pelo reflexo de sua imagem na lagoa de Eco,
permanece em sua margem admirando-se até definhar e morrer, nascendo ali
uma bela flor. Se na lenda, o personagem morre por alimentar-se apenas
de si mesmo, atualmente muitos continuam pecando pelos exageros e se
consomem de suas inquietudes e carências em torno da auto-estima. Para
lidar com o problema, uma das saídas é pedir auxílio aos profissionais
de saúde mental.

Na opinião de Maria de Fátima Vieira Severiano, professora do
Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará e autora do
livro Narcisismo e Publicidade: uma análise psicossocial dos ideais
do consumo na contemporaneidade
, estas compulsões estão intimamente
relacionadas ao comportamento narcisista. “Em todas as atividades
voltadas para a busca de um padrão de beleza, há sempre um apelo
psicológico, que diz respeito às carências humanas, às fontes de
sofrimento humanas estruturais concernentes aos sentimentos de
impotência diante da natureza, da decrepitude do corpo e do outro",
lembra a professora, recorrendo às idéias de Freud.

COMPRO, LOGO EXISTO

SHUTTERSTOCK
Consumo sem
fim: produtos, carregam consigo ilusão de poder, sensualidade,
reconhecimento social, segurança

Um dos exemplos mais claros deste apelo psicológico a que Maria
de Fátima se refere são as campanhas de publicidade que, segundo a
psicóloga, associam a compra do produto à mitigação dessas fontes de
sofrimento e incertezas. Para exemplificar seu parecer, a psicóloga cita
a infinidade de produtos cosméticos, dietas light e diet, além
das complexas cirurgias plásticas que visam retardar os efeitos da
velhice. "Essas novas tecnologias buscam auferir poder e onipotência ao
homem diante das forças da natureza. Há uma série de objetos e serviços
de consumo que são veiculados pela publicidade com o apelo de facilitar a
relação com o outro, promovendo aceitação social e reconhecimento",
afirma.

Segundo a especialista, ao associar atributos subjetivos ao
produto – tais como poder, sensualidade, reconhecimento social,
segurança e sentimento de pertença –, a publicidade passa ao consumidor a
idéia de que, ao adquiri-lo, ele comprará também esses atributos
subjetivos associados ao objeto. Levando esta idéia em consideração,
Maria de Fátima se refere à atual lógica do consumo como uma produtora
de subjetividades. "O produto não mais é veiculado em seu valor de uso
ou funcionalidade, mas preponderantemente em seu valor como signo, no
qual são enaltecidos os valores desejáveis que envolvem a mercadoria, e
não mais suas propriedades materiais".

A psicóloga ressalta, entretanto, que esta promessa de completude
por meio da aquisição de um bem material nunca é cumprida. "Esse perfil
ideal apresentado pela mídia é inatingível, pois, de acordo com Freud, o
desejo nunca se realiza em sua totalidade. Além disso, a plenitude é
inalcançável na medida em que esses objetos são efêmeros, sempre
sujeitos a renovações e substituições", lembra.

Narcisismo: do conceito à clínica
Por Sergio Nick

O narcisismo pode ser
definido como o amor que se tem a si mesmo. Na Psicanálise, desde Freud,
refere-se aos investimentos no próprio Eu (ego) e se opõe aos
investimentos nos outros (objetos). Espera-se que todos possam ter um
balanço equilibrado de investimentos pulsionais no eu e nos objetos,
ensejando assim uma personalidade robusta, capaz de ter uma boa
auto-estima e um bom relacionamento com o mundo que o cerca.

SHUTTERSTOCK
Para
Freud, o indivíduo sairia do auto-erotismo por meio da diferença do eu
versus não-eu

Ovídio, na terceira parte de
Metamorfoses, conta a lenda de Narciso: "Filho do deus Céfiso, protetor
do rio Céfiso, e da ninfa Liríope, ele era de uma beleza ímpar, vindo a
despertar o amor de muitas ninfas. Eco, ao ver-se repelida por Narciso,
implorou à deusa Nêmesis que a vingasse. É então que Narciso, ao ver seu
rosto refletido numa poça de água, fica fascinado pela imagem de si
próprio, que supõe ser de outro. Paralisado, vê-se impedido de desviar
seu olhar daquela imagem maravilhosa. Arrebatado de paixão, ele tenta
abraçar essa imagem, que teima em desaparecer diante de seu gesto.
Diante da impossibilidade de realizar esse desejo, Narciso acaba por
entender que está apaixonado por si próprio. No afã de se separar de si
mesmo, empreende uma série de medidas para separar-se de sua própria
pessoa, culminando por se ferir até sangrar e morrer. Suas irmãs,
desoladas, ao levar seu corpo a uma pira, constatam que ele havia se
transformado em uma flor".

Muitos autores psicanalíticos
se debruçaram sobre o tema do narcisismo, dentre eles Sigmund Freud,
Jacques Lacan, Bela Grunberger, Heinz Kohut, Donald Winnicott, André
Green e, entre nós, recentemente, Jurandir Freire Costa.

Freud, nos Três ensaios sobre
a Teoria da Sexualidade descreve os invertidos como sujeitos que "tomam
a si mesmos como objetos sexuais" e, "partindo do narcisismo, procuram
rapazes semelhantes a sua própria pessoa, a quem querem amar tal como
sua mãe os amou".

Em Introdução ao Narcisismo,
Freud faz uma primeira tentativa de inscrever na sua metapsicologia os
achados clínicos de pacientes perversos e psicóticos. Ali, ele
desenvolve a Teoria das Pulsões, opondo as pulsões do Ego às pulsões
objetais. Para ele, o indivíduo sairia do auto-erotismo (em que a
satisfação adviria de si mesmo) por meio da percepção da diferença eu
versus não-eu. Ao perceber precocemente que há algo que não está sujeito
aos nossos mandos, o indivíduo teria, assim, a primeira percepção de um
outro. Dessa percepção, decorre a divisão mental entre Ego e objeto ou,
mais propriamente, entre eu e não-eu. Surge a noção de narcisismo, em
que as pulsões irão investir no próprio eu, em oposição às que
investirão no objeto.

Tal teoria foi muito útil à
Psicanálise, servindo para explicar, por exemplo, as melancolias. Nelas,
o sujeito enlutado por uma perda importante – além de fazer refluir
para o próprio eu as pulsões outrora investidas no objeto perdido –
passaria a se identificar com elas, impossibilitando a saída do luto por
meio do reinvestimento da libido em novos objetos e da identificação
com o objeto morto. Tal elaboração da teoria é fundamental para a
compreensão clínica dos chamados estados limites, ou dos pacientes
fronteiriços, uma vez que a compreensão do complexo de Édipo não era
suficiente para se acercar psicanaliticamente de tais patologias.

A percepção de que tais
pacientes sofriam de patologias narcísicas ajudou em muito a aproximação
clínica dos pacientes de nossos dias. A divisão do narcisismo em normal
e patológico ajuda a entender que o investimento no próprio eu vai
permitir ao indivíduo ter uma auto-estima que lhe permita enfrentar os
rigores da vida cotidiana. Green descreveu o narcisismo como "o próprio
coração do nosso Eu", ou como narcisismo de vida. Nele se ancora toda a
força do indivíduo, pois a possibilidade de reconhecer o sujeito como
outro, como diferente do si, depende do grau em que cada um é capaz de
tolerar a alteridade, isto é, da sua integridade narcísica. Falamos
então de um narcisismo patológico quando esse retraimento em direção ao
Eu toma as características de alheamento em relação ao outro, bem como
da busca de uma fusão com o objeto idealizado. Decorre daí que o
indivíduo desiste de buscar a satisfação, investindo muito mais na busca
do nada, do não-investimento, da simples redução da tensão
intrapsíquica. No dizer de Green, "a aproximação da morte psíquica" ou o
narcisismo de morte; em que o neutro substitui o prazer.

A clínica atual

SHUTTERSTOCK
Hoje, há
um deficit na relação mãe-filha, prejudicando a formação de um eu coeso
e estável

Foi com Kohut que se deu um
passo importantíssimo na compreensão clínica do narcisismo. Ao propor a
teoria dos self-objetos, Kohut trouxe à luz a compreensão do tipo de
transferência possível de ser analisada nos ditos pacientes narcísicos.
Para ele, esses pacientes tratavam o analista como parte de si mesmos, e
era como tal que deviam ser analisados. Ao compreender e aceitar que o
analista era visto e experimentado como parte do analisando, foi aberta
uma porta para uma futura relação objetal ao fim do processo de análise
da transferência narcísica. A compreensão da fúria narcísica, fenômeno
em que o paciente busca se livrar da dor decorrente da ferida narcísica
extravasando maciçamente seu ódio em direção a qualquer um que encontre
pela frente, deu aos analistas uma importante ferramenta para lidar com a
transferência negativa, permitindo que esses pacientes continuassem em
análise até que seu narcisismo fosse compreendido e elaborado.

Esses desenvolvimentos da
técnica psicanalítica vieram bem a calhar, uma vez que estávamos, àquela
época, enfrentando o despertar daquilo que Lasch descreveu como a
Cultura do Narcisismo. Sem querer entrar na análise do texto de Lasch,
devemos destacar que ainda hoje nos vemos às voltas com o problema, uma
vez que, conforme descreve Jurandir Freire, vivemos a era do espetáculo,
na qual a imagem parece importar mais do que a pessoa. Esta cultura
imagética tem forte influência na formação da personalidade dos nossos
tempos, uma vez que a ela se acrescem questões próprias do capitalismo
avançado: a compressão do espaço-tempo, a cultura do descartável, e a
fluidez das relações interpessoais (Bauman).

O enorme manancial de relatos
advindos da técnica da observação da relação mãe-bebê trouxe à luz
importantes contribuições à compreensão do narcisismo, uma vez que é no
início da vida que se dá o processo de inundação narcísica do sujeito.
No dizer de Lebovici, os pais transferem para os filhos o seu narcisismo
primário abandonado, o que foi traduzido pela sabedoria popular como
"Sua Majestade, o Bebê", ou, explicitando um pouco mais, a intensa
paixão amorosa transferida para os fi- lhos – fundamental para a
constituição de um sujeito com boa auto-estima. Hoje temos mães sem
tempo para ficar com seus filhos; ou, para ser mais claros, entendemos
que as relações fluidas de Bauman se estendem à própria relação das mães
com seus bebês. Como conseqüência, encontramos um crescente deficit
relacional justamente onde isso é capital para a formação de um eu
coeso, estável e contínuo ao longo da vida. Tal estado de coisas enseja a
formação de sujeitos com importantes deficits narcísicos e, portanto,
prontos para buscar as compensações próprias da contemporaneidade: uma
imagem que reflita a grandiosidade perdida do Eu. Daí, temos a
prevalência do Ter sobre o Ser, próprio da sociedade consumista.

Na clínica, encontramos
pacientes que se queixam de um vazio interior, vorazes na busca de quem
os ouça e lhes dê a importância e a atenção inencontrável nas relações
cotidianas. Ao sintoma das histéricas de Freud, correspondem hoje os
sintomas próprios das desordens narcísicas: sintomas psicossomáticos,
distúrbios da auto-imagem e da auto-estima, falta de coesão do Eu,
dentre outros.

Sérgio Nick é
psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise
do Rio de Janeiro (SBPRJ) e Associação Brasileira de Psicanálise (ABP)

NARCISISMO NO CONSULTÓRIO

Como conseqüência desse consumo incessante de produtos e
subjetividades, o número de atendimentos a casos de narcisismo (leia
quadro Narcisismo: do conceito à clínica) tem aumentado dia
após dia. É nisto que acredita José Renato Avzaradel, membro efetivo da
Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Segundo o
psicanalista, o homem, na condição de parte do meio em que vive, é
influenciado pelo ambiente, e tem apresentado cada vez mais um
comportamento voltado para si. "As pessoas constituíram uma família, têm
uma atividade profissional, têm uma qualidade de vida financeira digna,
mas precisam malhar duas horas todos os dia. De repente, elas não sabem
bem por que se sentem desarrumadas e à beira de um caos", diz. É neste
momento de desarranjo que o sujeito procura a ajuda de um especialista.

Quereres

Este livro abre debate
interdisciplinar sobre as subjetividades contemporâneas, seus
determinantes e implicações psicossociais da atual exaltação de um
individualismo narcisista e do caráter eminentemente simbólico do
consumo, com uma análise teórica e empírica dos ideais veiculados pela
publicidade, suas formas de produção e consumo.

Narcisismo e publicidade

Por Maria de Fátima Vieira
Severiano Editora Annablume 377 páginas R$ 35,00

"O
HOMEM, COMO PARTE DO MEIO EM QUE VIVE, É INFLUENCIADO PELO AMBIENTE, E
TEM APRESENTADO CADA VEZ MAIS UM COMPORTAMENTO VOLTADO PARA SI"

De acordo com Avzaradel, há dois tipos freqüentes de narcisismo. O
primeiro diz respeito a pessoas que demonstram hipersensibilidade e se
sentem feridas com muita facilidade. "Elas se sentem o centro do mundo, e
os acontecimentos são sentidos de um jeito muito forte. As coisas que
as atingem tomam uma importância imensa, mesmo quando, na realidade, a
importância é mínima, ou nenhuma", explica. Segundo o psicanalista,
lidar com pacientes que apresentam este quadro acaba sendo um desafio
justamente por estes se sentirem agredidos com facilidade. "Quando estão
na consulta, estão voltados para si. Para eles, a outra pessoa pouco
existe", complementa.

Uma outra face do narcisismo seria praticamente o inverso:
pessoas que têm pouca sensibilidade diante dos fatos e do outro. "É como
se elas tivessem uma ‘capa’ que as impedisse de sentir as coisas.
Chegam ao consultório e falam como se estivessem conversando sobre outro
assunto, e não sobre elas. Aparentemente, o sentimento não é vivido",
comenta Avzaradel. Além da dificuldade para lidar com as próprias
emoções, estes pacientes, segundo o especialista, também não percebem
com facilidade os sentimentos das outras pessoas em relação a eles.

Ainda de acordo com Avzaradel, o principal objetivo do tratamento
de pacientes narcisistas é fazer com que eles encarem a realidade por
meio da análise. Em certas ocasiões, este enfrentamento chega a ser tão
difícil para estes indivíduos que eles acabam optando pelo fim do
tratamento. "Alguns sabem que ele acarreta o fim deste estágio de
superficialidade em relação aos sentimentos e por isso fogem pensando:
‘se eu perceber qual é a minha realidade, não vou suportá-la”’, afirma.

Para
Avzaradel, a doença pode, sim, ser tratada, mas o psicanalista não se
arrisca a delimitar um tempo médio para o tratamento. Segundo ele, o
processo costuma ser lento, cuidadoso e complexo por conta da
organização e rigidez do sistema de defesa que as pessoas narcisistas
desenvolvem. De acordo com o especialista, o tratamento tem mais chances
de dar certo quando os pacientes são atendidos mais de uma vez por
semana. “Se a deixarmos mergulharem rapidamente nessas percepções, elas
não suportarão; podem fugir do tratamento ou ter um ‘breakdown
psicótico’" (conselho: resumir o termo rapidamente entre colchetes, por
getileza), justifica.

VIOLÊNCIA

A violência é outro assunto extremamente presente em nossa
realidade que mantém uma relação com o narcisismo. Segundo José Renato
Avzaradel, o vínculo entre ambos é difícil de ser estabelecido, porém,
algumas posturas típicas de um indivíduo narcisista chamam atenção para
uma reflexão. O psicanalista explica que, à medida que uma pessoa se
desenvolve, ela refina sua “percepção do outro”, o que faz com que
experimente uma responsabilidade em relação a outros indivíduos e se
relacione com eles. “Ela tem consciência de que não pode fazer qualquer
coisa que machuque uma pessoa, pois, se o fizer, experimentará culpa,
remorso, arrependimento – sentimentos básicos para se relacionar com o
outro. Os narcisistas, porém, nem sempre conseguem experimentar esta
relação de cuidado com o outro”, explica.

"OS NARCISISTAS NEM SEMPRE
CONSEGUEM DESENVOLVER SUA PERCEPÇÃO DO OUTRO E EXPERIMENTAR UMA RELAÇÃO
DE CUIDADO"

SHUTTERSTOCK
Onipotência é
uma das marcas daqueles que sempre buscam nas tecnologias formas de
retardar o envelhecimento

Esta curiosa relação entre narcisismo e agressividade foi tema do
artigo Características narcisistas em jovens adolescentes: relações
com agressão e sintomas de internalização, publicado em 2004, pelo
Journal of Youth and Adolescence.
No texto, Jason Washburn, Susan
McMahon, Cheryl King, Mark Reinecke e Carrie Silver relatam
procedimentos de estudo que analisou o comportamento de 233 estudantes
do Ensino Fundamental II (antigas 5ª a 8ª séries), entre 10 e 15 anos,
procurando fazer uma análise fatorial do Inventário de Personalidade
Narcisista (NPI, na sigla em inglês), amparada em três fatores:
narcisismo adaptativo (nível de auto-estima elevado e formas mais
ajustadas de sensibilidade interpessoal); exibicionismo; e habilidade de
explorar ou manipular pessoas. Análises de regressão foram utilizadas
para predizer a associação entre esses traços, os sintomas
internalizados reportados pelos participantes e a agressão reportada
pelos jovens, professores e amigos.

Um vício, desde o início

A origem da palavra Narciso,
em grego Narkissos, vem de narkes, que significa entorpecimento, torpor,
inconsciência. A palavra narcótica é sua derivada e indica qualquer
substância que altera os sentidos, produzindo narcose. Numa metáfora
lingüística, Narciso ficou entorpecido de si mesmo, tamanha era sua
auto-admiração.

Para nortear a análise, os estudiosos recorreram à Teoria do Ego
Ameaçado, de Baumeister, segundo a qual atitudes agressivas são mais
comuns entre pessoas com auto-estima excepcionalmente mais elevada –
especialmente quando enfrentam uma ameaça com relação à visão
exageradamente positiva que têm de si mesmas – e entre as que possuem
auto-estima frágil e instável, como ocorre com os narcisistas. Outra
referência teórica utilizada foi o Modelo Auto-regulatório de Morf e
Rhodewalt, que sugere que pessoas narcisistas estão constantemente
preocupadas e motivadas em manter a auto-estima, sendo inclusive capazes
de utilizar a agressão como mecanismo para punir uma fonte de ameaça ao
ego.

ADOLESCENTES

Os resultados sustentam a hipótese de que características
narcisistas – em especial a habilidade de manipulação do outro – estão
positivamente associadas a agressões pró-ativas em jovens adolescentes.
No entanto, tais achados se referem ao narcisismo adaptativo como um
fator de risco para agressão quando agregado à baixa auto-estima.
Segundo o artigo, "adolescentes jovens manipuladores estão mais
propensos a utilizar agressão instrumentalmente, possivelmente na
tentativa de reforçar suas grandiosas auto-imagens".

Outra pesquisa focada na relação entre narcisismo e agressividade
foi feita por Christopher Barry, Paul Frick, Kristy Adler e Sarah
Grafeman e noticiada no Journal of Child and Family Studies, em
2006, no artigo A utilidade preditiva do narcisismo entre crianças e
adolescentes: evidência para uma distinção entre narcisismo adaptativo e
mal-adaptativo
. Um dos propósitos do estudo foi verificar se
características narcisistas estão associadas a diferentes conseqüências
comportamentais e como o narcisismo contribui para a predição de
problemas comportamentais de crianças e adolescentes.

Second Life, um vasto campo de
investigação

Alerta: no
mundo virtual, as pessoas constroém o mundo que desejam

A sociedade cada vez mais
oferece soluções para que as pessoas não precisem se deparar com a
própria realidade. Uma delas é o Second Life, um jogo de computador em
que os usuários criam personagens intitulados "avatares" e constroem uma
"segunda vida".

Na opinião de Avzaradel, o jogo tornou- se um
grande campo de investigação e mistério para a Psicanálise, pois permite
que o indivíduo não precise mais resolver os seus dramas, não
estabeleça mais relação afetiva genuína com alguém, sentindo- se o
centro do mundo. "Ele entra em uma segunda vida, em que passa a definir
os outros. Se no mundo real, eles querem tentar fazer com que o outro se
enquadre a sua maneira de ser, no mundo virtual não precisa disso. Ele
constrói o outro e, conseqüentemente, o mundo que deseja",

Os impactos do jogo ainda são desconhecidos para a
Psicanálise, porém Avzaradel já propõe alguns questionamentos
relacionados ao software. Até agora, o que mais chamou sua atenção foi o
tempo gasto pelas pessoas “vivendo” através de seus bonecos. Segundo
ele, cerca de 30% dos usuários passam quase 33 horas por semana no jogo.
"Se um homem passa 12 horas do dia sonhando no Second Life, e 12 horas
acordado no ‘Real Life’, qual é a vida real dessa pessoa? Quem é ela?
Ela pode ser qualquer coisa que constrói", cogita.

Citando pesquisas consultadas recentemente, o
psicanalista afirma que são estimadas, para 2011, 1,6 bilhão de pessoas
no Second Life. Para ele, o crescimento do número de adeptos ao jogo é
praticamente inevitável. "Ele é extremamente sedutor. A pessoa não
precisa passar pela dificuldade de buscar um relacionamento, bem como
tentar se encontrar", diz. E complementa: "O Second Life é um exemplo de
como a sociedade está facilitando muito o caminho para que o narcisismo
se expanda cada vez mais", preocupa-se.


Na cultura do
descartável e da fluidez das relações, as pessoas tentam buscar
compensações para o Ego perdido e manipulável

A pesquisa contou com a participação de 98 crianças, com idade
entre 9 e 15 anos, todas elas submetidas a vários testes, como
inventário de personalidade narcisista para crianças (NPIC, na sigla em
inglês), escala de auto-relato de delinqüência ( em inglês, Self Report
of Delinquency Scale) e o questionário sobre pais de Alabama (Alabama
Parenting Questionnaire
). Durante a análise, os pesquisadores se
detiveram no prognóstico de comportamentos recentes severos e
anti-sociais, além de três anos de controle de avaliação acompanhada e
outros prognósticos de problemas de conduta.

Os resultados do levantamento de dados indicam que o auto-relato
da juventude acerca dos aspectos não-adaptativos do narcisismo –
exibicionismo, poder de manipulação e promoção pessoal – é um
significativo aspecto de natureza intrapessoal e contextual. Segundo os
especialistas, o narcisismo não-adaptativo continua sendo capaz de
predizer como comportamentos delinqüentes tardios são reportados por
jovens e seus pais, apesar de não ter sido positivamente relacionado à
impulsividade, problemas de condução e aspectos negativos dos pais.

Outro
destaque do estudo foi a ligação parental e as dimensões teóricas do
narcisismo. O de caráter não-adaptativo foi significativamente
relacionado a práticas negativas dos pais, enquanto o adaptativo esteve
ligado a atitudes positivas, porém em uma proporção menos significativa.
Os estudiosos também apontam como “intrigante” a conexão entre o uso de
disciplina dura ou inconsistente por parte dos pais e a perda de
monitoramento e relatos de crianças sobre narcisismo não-adaptativo. No
entanto, os especialistas afirmam que a maneira como esta relação se
desenvolve ainda não pode ser determinada, e ressaltam a necessidade de
analisar este ponto de forma cautelosa. "Estes resultados sugerem que
práticas parentais e o narcisismo não-adaptativo poderiam ser
relacionados, talvez de uma forma transacional. Além disso, há mais
alguma indicação, apesar de não particularmente convincente, de que o
narcisismo adaptativo pode estar relacionado à paternidade positiva",
informa o artigo.

Avzaradel acredita que são necessários mais estudos para
esclarecer esta ainda nebulosa relação entre narcisismo e agressividade.
"Na nossa sociedade, temos visto um nível de violência estarrecedor.
Uma pessoa acha natural que um indivíduo seja morto para que ela não
seja assaltada. E QUANTO AO FATO DE A PESSOA SER ASSALTADA E MORTA PELO
ASSALTANTE? Há uma ausência da percepção de que ali existe gente. O tipo
de crime em que a violência nos estarrece deixou de ser exceção. Mas
fazer uma ligação entre narcisismo e essa violência é muito complicado,
pois muitas outras questões podem estar envolvidas", adverte.

REFERÊNCIAS :

FREUD, S. Sobre o
narcisismo: uma introdução [1914]. In: Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago,
1974. v.14, p.89-119.
GREEN, A. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Escuta,
1988. 311p.
KOHUT, H. Análise do self. Rio de Janeiro: Imago, 1988. 304p.
LACAN, J. O estádio do espelho como formador da função do eu, tal como
nos é revelada na experiência psicanalítica. (1949). In ESCRITOS
(Paris, 1966), Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, 96-103.
LASCH, C. A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de
esperanças em declínio. Rio de Janeiro: Imago, 1983. 320p.

Retirado de http://portalcienciaevida.uol.com.br/esps/Edicoes/25/artigo73599-1.asp


Pais tomam atitudes equivocadas na educação dos filhos – Pesquisa mostra que pais de filhos adolescentes não conciliam discurso de boa educação com suas intervenções

Educação
Pais
tomam atitudes equivocadas na educação dos filhos

Pesquisa mostra que pais de filhos
adolescentes não conciliam discurso de boa educação com suas
intervenções


Agência USP

Pesquisa feita com 860 pais evidencia a diferença entre as
concepções educativas e as intervenções concretas deles sobre seus
filhos adolescentes. "Apesar de os pais valorizarem o diálogo, 69,7%
deles afirmaram que concordam em punir fisicamente o seu filho caso ele
faça algo muito errado", revela Luciana Maria Caetano, professora do
curso de pedagogia da Universidade São Francisco e responsável pela
pesquisa.

O trabalho de Luciana faz parte de sua tese de doutorado defendida no
Instituto de Psicologia (IP) da USP e mostra, por meio das respostas
dos pais a questionários, as contradições na forma que eles educam seus
filhos: "No discurso, eles (os pais) se preocupam em ensinar o respeito
mútuo, a importância do diálogo, a arcar com as conseqüências.
Entretanto, nas atitudes concretas aparecem as dificuldades."

No caso de bater nos filhos, Luciana lembra que os pais,  com essa
atitude, estão ferindo a integridade física e psicológica dos jovens.
Ela comenta que esse tipo de punição ensina aos adolescentes uma justiça
retributiva.  "Por esse conceito de
justiça, os pais passam um modelo de resolução de conflitos fundamentado
na violência ou troca, ou seja, os filhos pagam por aquilo que fazem.
Bateu no irmão? Então será punido da mesma forma. Essa atitude se vê,
por exemplo, no trânsito, quando um motorista é fechado por outro e
tenta compensar tentando passá-lo depois."

Segundo Luciana, o modelo ideal de justiça é a distributiva, que
considera as condições de cada filho, com suas necessidades, suas
características e suas dificuldades.

Autonomia
Além de justiça, a pesquisa analisou o
que os pais pensam da obediência, respeito e autonomia na relação com os
filhos. Sobre autonomia, o questionário mediu o grau de importância que
os pais dão a essa concepção na educação e a participação deles na
construção da autonomia moral dos filhos na adolescência.

Mais uma vez, os pais deram respostas contraditórias. Por um lado,
eles consideram importante que o filho seja autônomo e apoiam questões
como dar oportunidade de escolhas aos filhos, incentivar que estes
tenham suas opiniões e que arquem com as consequências de seus atos. Em
contrapartida, ao julgarem o ideal de como devem ser as relações de
respeito com os seus filhos, 84% concordam que um pai nunca deve confiar
no filho e 57,9% concordam que os pais devem dar palpite em tudo o que o
filho faz.

Outro aspecto enfatizado por Luciana é a utilização da barganha pelos
pais para que seus filhos os obedeçam. O recurso serve como uma espécie
de troca entre pai e filho. "Podemos citar como
exemplo o caso de um filho que não quer fazer lição e os pais fazem uma
troca, cortando o acesso dele à internet. O problema é que o jovem não
aprenderá porquê ele deve fazer a lição e se adequará as oportunidades
da barganha. Adolescentes que só fazem coisas por trocas futuramente não
compreenderão as razões e princípios das regras."

Luciana ainda ressalta a importância de se construir uma
reciprocidade moral nas relações familiares, o que implica em relações
de respeito mútuo, cooperação e confiança. "Para isso, os pais precisam
ser fonte de boas regras e exemplo para os filhos. Obedecer à autoridade
por medo ou por culpa não favorece a construção da autonomia. O
autônomo é aquele que age bem com liberdade de escolhas", conclui.

Amostra
A pesquisa abordou pais (20,6%) e mães
(79,4%) de adolescentes com idades entre 12 e 20 anos. Havia
participantes de cada uma das cinco regiões do País (42,8% do Sudeste,
20,2% do Nordeste, 16,5% do Centro-Oeste, 11% do Norte, e 9,3% do Sul).

A amostra com os pais foi realizada no ambiente escolar (54,8% na
escola pública e 45% na privada), de diferentes condições econômicas.

Na pesquisa, os participantes tinham de responder a um questionário
em que atribuíram notas de 1 a 7, as quais variavam de opções com as
quais eles discordaram totalmente e aquelas com as quais eles
concordaram totalmente.

Retirado de http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/0/pais-tomam-atitudes-equivocadas-na-educacao-dos-filhos-175607-1.asp


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