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Futebol e Espiritualidade: entre o sagrado e o profano

 
 

Futebol e Espiritualidade: entre o sagrado e o profano

 

Ms. Luiz Fabiano Seabra Ferreira

 

Num primeiro momento refletir sobre espiritualidade e futebol parece ser um trabalho impossível, pois na atualidade podemos perceber uma dessacralização das nossas vivências. No senso comum espiritualidade se confunde com espiritualismo e religiosidade, no entanto, os temas podem apresentar convergências ou não, isso dependerá da forma como cada indivíduo vivencia e compreende sua existência, tanto no nível físico, como no espiritual.

Espiritualidade pode ser compreendida como uma qualidade que todos os seres humanos potencialmente apresentam, mas poucos desenvolvem, pois exige uma aguçada percepção de si mesmo (ações, comportamentos, pensamentos, valores, etc), dos outros, dos ambientes em que estamos inseridos e principalmente em relação a nossa dimensão “incorpórea” e invisível a toda percepção sensorial (a alma, o espírito). Nesse ponto é que podemos perceber um divisor de águas, pois as metafísicas podem nos confinar em dogmas limitados e limitantes e isso muitas vezes é a meta das religiões que procuram dominar o homem alienando-o de si mesmo e do meio no qual vivem. Além disso, podemos encontrar diversos sincretismos religiosos que surgem com grande intensidade na atualidade, pois a busca por espiritualidade é uma característica humana.

Alienação pode ser encontrada em diferentes situações e contextos. No futebol é possível encontrarmos diversos tipos de alienações, desde físicas, cognitivas e principalmente espirituais, pois muitos vivem enraizados num mundo profanizado, sendo o corpo percebido como uma máquina que deve ser treinada para se obter o máximo de performance em campo. Nesse sentido, esse corpo representa um meio para se atingir objetivos (vitórias) relacionados aos esportes. É impossível reduzir a existência a uma única dimensão, no entanto a dimensão física sobrepõe a cognitiva e a espiritual, fazendo com que as pessoas ajam de acordo com interesses materiais, imediatistas e egoístas empobrecendo suas possibilidades de expressões. No futebol isso é explicito devido ao desenvolvimento exacerbado dos desejos materiais (Egos). Muitos jogadores se transformam em vedetes, “garotos propaganda” e ícones de uma sociedade de consumo e descartabilidade, evidenciando a profanação do esporte e da vida como um todo. Nesse ambiente, o esporte torna-se apenas uma expressão grosseira de uma sociedade massificada, alienada e hedonista. Transcender essa percepção limitada e limitante é um exercício continuo e envolve o refinamento, a lapidação e a educação do Ser na sua totalidade, enfatizando as múltiplas relações entre as diversas dimensões (física, sensitiva, cognitiva e espiritual, entre outras) que compõem o humano. Dessa forma, o esporte é muito mais do que atividade física, seja ela amadora ou profissional, representando uma abertura para a transformação de si, do auto-conhecimento e o desenvolvimento de uma espiritualidade visando uma harmonia do Ser. Nesse contexto, o trabalho do técnico é imprescindível, pois ele é o dirigente do grupo (time).

O treinador “técnico” é o responsável pelos sujeitos “atletas” e diretamente incuti valores e atitudes nestes. Ilustrando isso podemos ressaltar o trabalho de Phil Jackson que durante anos foi técnico do time norte americano de basquete Chicago Bulls. Seu trabalho envolvia mais que técnica de jogo, ele ressaltava a dimensão metafísica (holística) levando para as quadras de basquete mais que atletas esportivos, incorporando um trabalho sutil “psicológico e espiritual” que possibilitou diferencia-lo dos demais treinadores. As vitórias em quadra são facilmente perceptíveis, no entanto, o mais difícil nesse trabalho é perceber outros resultados (transformações de comportamentos, refinamento da percepção e do caráter, entre outros), pois eles não são quantificáveis, nem passiveis de estatísticas, estão numa dimensão sutil, e muitas vezes invisíveis à percepção sensorial imediata. Nesse caso o técnico se tornou um “cuidador”, um sujeito envolvido com as pessoas que compõem seu time, constituindo uma simbiose, buscando ir além da dimensão física ou psicológica de cada indivíduo, ressaltando uma percepção e um trabalho holístico. O cuidador é um educador, aquele que visa o bem estar de seus parceiros (qualidade de vida), se situa muito além da performance física e dos resultados imediatos obtidos durante uma partida. Dessa forma, o trabalho do cuidador extrapola o ambiente de competição sendo perceptível muito além das linhas que definem os espaços de jogo.

O campo de futebol é o local no qual acontecem as expressões dos jogadores, dos técnicos, torcedores e demais participantes do evento esportivo. É o palco das atuações tanto no nível individual como coletivo, tornando-se um local de celebrações e contemplações. Representa o espaço de desafios, lutas e confraternizações e pode estar situado entre o sagrado e o profano, pois encontramos infinitas expressões humanas, desde as mais grosseiras (violências físicas e simbólicas) até as mais sublimes (êxtase, contemplação e devoção). As sacralidades dos espaços e dos jogos podem ser compreendidas, por exemplo, a partir do momento em que os jogadores entram em campo ou realizam o gol e se benzem fazendo o sinal da cruz. Essa expressão pode denotar a execução de um ritual no qual evocam forças “invisíveis” aos olhos nus, agradecendo ou desejando obter proteção, felicidade e resultados positivos. Podemos perceber também que muitos jogadores quando estão em êxtase (por conta da realização do gol) se ajoelham no gramado e agradecem pelo feito evidenciando um sinal de contemplação e devoção.

            Essas pequenas evidências apontam uma possibilidade, uma abertura para uma dimensão sutil do humano. Transformamos a vida numa grande profanação, pois vivemos intensamente enraizados nos sentidos corpóreos (hedonismo), no entanto, existem resquícios de espiritualidade que emergem em diferentes momentos e contextos com diversos significados.  Essas evidências demonstram que o Ser Humano não é apenas carne, sentidos e desejo (Ego), somos também dotados de uma sutiliza que nos permite evocar o invisível, o espiritual, transcendendo as limitações impostas tanto pelo corpo como pela mente, percebendo a totalidade e ressaltando que somos seres complexos e irredutíveis a uma única possibilidade de expressão. Nesse sentido, o sagrado e o profano estão presentes constantemente em nossas vidas e as escolhas que fazemos diariamente estão diretamente relacionadas em qual dimensão nos situamos.

 

Texto publicado no site cidade do futebol – http://www.cidadedofutebol.com.br/

 

  

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