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Algo por nada: considerando a ética de cobrar pelo ensino de Yoga

 
Algo por nada: considerando a ética de cobrar pelo ensino de Yoga

Dan Charnas
 

No final dos anos 60 e início dos anos 70, quando Yogi Bhajan começou a ensinar Kundalini Yoga nos EUA, muitos de seus primeiros estudantes eram espíritos livres: hippies, desocupados e estudantes que abandonaram a escola. Estes jovens do movimento Power Flower,  não  possuíam muitas posses ou dinheiro para luxos como aulas de yoga. Mas Yogi Bhajan sempre cobrou por suas aulas. 

“De mãos vazias você chega, de mãos vazias você vai”, ele costumava dizer. 

Yogi Bhajan acreditava tanto nesta máxima que, antes das aulas, podia espalhar seus estudantes em um estacionamento para que pedissem um trocado, ao invés de deixá-los ir de graça. 

Isto reflete claramente o modo Kundalini de pensar sobre dinheiro e yoga: dinheiro não é uma coisa ruim. É apenas outra forma de energia. E energia deve ser permutada. Não é exigido aos estudantes e professores a renúncia do mundo material e que se tornem monges para poder aprender e ensinar. Pode-se ser uma dona de casa ou dono do próprio negócio e alcançar o yoga. De fato, como Yogi Bhajan disse uma vez, a prosperidade é nosso direito de nascença. 

Em contraste com a Kundalini Yoga, para o Ananda Marga Yoga, uma escola de pensamento yogiko mais ascético, o yoga é para o bem de todos, devendo ser gratuito. Ensinar yoga é seva, ou serviço sagrado, então os professores não deveriam cobrar pelos seus serviços. Uma transação com dinheiro poderia manchar  os ensinamentos de valor incalculável ao introduzir uma motivação lucrativa. 

Resumindo, há algumas pessoas que acreditam que o yoga deveria ser completamente gratuito, e outras que pensam que cobrar pelo ensino do yoga é essencial. 

A maioria dos professores posicionam-se no meio desta discussão. Somos o produto da ocidentalização e comercialização do yoga. Alguns dizem que, ao criar carreiras e negócios em desarmonia com o que se ensina, não se pode ensinar com pureza. Outros dizem que é a possibilidade de cobrar pelas aulas que permite que o yoga se espalhe pelo mundo. 

Então, quem está certo? Talvez todos estejam.

 

O Preço do Yoga

O Golden Bridge NYC é um novo centro de yoga em Manhattan, o estúdio irmão de Golden Bridge, uma escola de yoga bem sucedida em Los Angeles, de propriedade de Gurmukh Kaur Khalsa. Como um dos professores do novo centro, adquiri uma nova perspectiva sobre a relação entre yoga e dinheiro. 

A princípio, Shivanter, o criativo diretor do estúdio, distribuiu aulas gratuitas para professores e alunos. Durante semanas, a freqüência permaneceu escassa. 

Então, em uma reunião de professores, Shivanter e Hari Kaur Khalsa, o diretor de educação, anunciou uma nova orientação. Ao invés de distribuir aulas gratuitamente, o Golden Bridge NYC venderia passes livres de $40 para novos estudantes, permitindo que eles freqüentassem um ilimitado número de aulas durante um mês. 

Nos dias seguintes, o número de estudantes na escola explodiu. A energia do Golden Bridge NYC mudou totalmente. As minhas aulas passaram de duas ou três pessoas para quinze ou vinte. Quando divulguei as aulas gratuitas para meus amigos, nenhum veio. Quando ofereci aulas ao preço de $40, os amigos vieram regularmente. 

O que aconteceu? Eu perguntei a Hari Kaur, uma professora veterana com vinte anos de experiência e co-autora do A Woman´s Book of Yoga, sobre o que ela pensava deste fenômeno. 

“Eu penso que se refere a alegria da troca,” ela disse. “É o contentamento, a alegria, a dignidade da permuta. E é um acordo muito bom, para todos, porque quando se encontra um ensinamento ou um professor que se valoriza e não se deixa algum tipo de oferenda, pode-se se sentir em débito.” 

A possibilidade de cobrar por aulas pode deixar alguns professores com sentimento de culpa. Lalita Dunbar, uma professora de Hatha yoga independente em Nova York, nunca era paga quando ensinava yoga no centro Sivananda de Manhattan. Como muitos instrutores desta tradição, Dunbar considera o ensino como seva, um serviço abnegado. 

“Eu estava esgotando minha reservas financeiras para ensinar,” diz Dunbar. “Então, numa manhã, acordei e disse, ‘Espere um minuto. Estou tirando este dinheiro dos meus dois filhos e dando para outras pessoas que podem pagar pelas aulas.’ “  

Dunbar estabeleceu o preço das suas aulas perguntando a outros professores o quanto cobravam e levando em consideração suas necessidades financeiras. Estabeleceu o preço de $75 pela aula particular. Dunbar diz que levou um ano para se sentir confortável nesta situação e mais tempo ainda para aumentar o preço para mais de $100. 

Pagar por yoga para se sentir honrado e completo na troca, é uma maneira de pensar sobre o valor espiritual de tal transação. Também há o princípio da dissonância cognitiva: quando obtenho algo gratuitamente, posso subconscientemente pensar que carece de valor. Quando pago, a tendência é dar mérito e valor, tanto fisicamente, quanto espiritualmente. 

Em outras palavras, oferenda é igual a presença.

 

A Dádiva do Yoga

Dada Rainjitananda, 46, natural do Brasil, é um monge que ensina yoga Ananda Marga em Corona, uma vizinhança de operários, no coração do Queens, em Nova York. 

Rainjitananda descreve o Ananda Marga como um meio voltado para a auto-realização e serviço a humanidade.  Um de seus princípios centrais é ensinar yoga gratuitamente. 

“Nosso objetivo é ensinar yoga”, Rainjitananda diz, “e não fazer do yoga um empreendimento comercial.” 

“A idéia é que o yoga deve estar disponível para todos. Sentimos que o  yoga é um direito básico do ser humano, e sendo um direito básico, ninguém deve ser privado do yoga porque não possui dinheiro”. 

Desde que desembarcou nos EUA, seis anos atras, Rainjitananda tem visto a incredulidade dos americanos sobre a possibilidade de receber alguma coisa de graça. 

“Tive uma experiência”, lembra, “quando uma pessoa telefonou para perguntar sobre yoga, ‘Quanto você cobra pelas aulas?’ Eu disse, “São gratuitas.’ Então a pessoa disse, ‘Obrigado’, e desligou o telefone. Eu penso que se as pessoas acham que, se algo é gratuito, deve haver outras coisas adicionadas.” 

O Ananda Marga, mesmo com sua filosofia de serviço voluntário, tem encarado a complexa realidade do dinheiro. Antes de Rainjitananda ir para os EUA, nunca havia cobrado por aulas de yoga. Agora, o centro Ananda Marga no Queens sugere doações para as aulas e aceita dinheiro daqueles com condições de pagar. 

“O pagamento é secundário,” diz Rainjitananda. “A idéia é ensinar para o máximo de pessoas.”

 

O Equilíbrio do Yoga

É a idéia de alcançar o máximo de pessoas com o máximo de integridade que une as abordagens da Kundalini e Ananda Marga yoga. 

“Dinheiro por si só não é nada,” pondera Hari Kaur  do Golden Bridge. “A questão  é se na relação entre os estudantes e os professores há integridade e dignidade.” 

Abaixo estão algumas idéias de como equilibrar o preço e a dádiva do yoga, tanto para professores quanto para estudantes. 

Seva e Permuta de Trabalho: Se o estudante não pode pagar pelas aulas, tente encontrar uma maneira de fazê-lo sentir-se honrado e completo. Em centros de yoga, a permuta de trabalho é uma maneira comum de fazer isto. Mas Hari Haur faz uma clara distinção entre permuta de trabalho e seva: “Seva vem espontaneamente do coração,” ela diz. “Não é o caso de se esperar algo em troca.” 

Aulas comunitárias: Para sobreviver, um centro de yoga deve ser gerenciado como um negócio sério. Mas muitos centros de yoga encaram com a mesma seriedade a questão dos estudantes com pouco dinheiro. Oferecer aulas comunitárias gratuitas ou com desconto, é um bom modo de trazer equilíbrio entre as questões karmicas do serviço versus o comércio. 

Avalie a Si Mesmo, Avalie os Ensinamentos: “Definir o preço,” diz Hari Kaur, “é umas das coisas mais difíceis para o professor de yoga.” O yoga possui valor infinito. Então, como definir o valor para algo cujo valor é inestimável? Não se pode. Lembre-se que os professores de yoga não estão “vendendo” yoga. Ao contrário, estamos respondendo a um chamado Divino. Alguns de nós, como Rainjitananda, são chamados para serem monges. Outros, como eu, trabalham dentro da economia de mercado. 

“Se eu vivesse em uma caverna no Himalaia, não precisaria cobrar por aulas de yoga,” diz Dunbar. “Mas vivo na cidade de Nova York.” 

O verdadeiro yoga, penso, pode ser encontrado nos dois chamados e nos dois locais. 



Dan Charnas tem ensinado Kundalini Yoga por mais de uma década. Estudou com Gurmukh e o falecido Yoga Bhajan. Ministra suas aulas no Golden Bridge NYC na cidade de Nova York. 
 


Traduzido pelo yogi Rogério Maniezi do original Something for Nothing, de autoria de Dan Charnas, disponível em www.yogajournal.com/for_teachers/2393 

retirado de http://www.yoga.pro.br/artigos.php?YogaId=312e7d57f5bb8626cd271b9e15c5e308&cod=730&secao=3046

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