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Fisgado na primeira tragada – Descobertas revelam que o cigarro vicia de forma surpreendentemente rápida. Pesquisas acenam com novos tratamentos para libertação do vício

 
Descobertas revelam que o cigarro vicia de forma surpreendentemente rápida. Pesquisas acenam com novos tratamentos para libertação do vício

por Joseph R. DiFranza

DAVID EMMITE

ADOLESCENTES podem se tornar dependentes de cigarro poucas semanas após começarem a fumar. Um estudo mostrou que, em média, os jovens fumavam apenas dois cigarros por semana quando os primeiros sintomas da dependência se manifestaram.

Durante minha especialização em medicina da família estudei a dependência de nicotina sob a óptica conservadora. Os médicos havia muito acreditavam que as pessoas fumam basicamente por prazer – e que, com o tempo, se tornam psicologicamente dependentes. A tolerância aos efeitos da nicotina estimula que se fume cada vez mais. A dependência física começa quando o hábito atinge uma freqüência preocupante – cerca de cinco cigarros por dia – e a nicotina passa a estar constantemente presente no sangue, em geral, depois de anos e milhares de cigarros fumados. Algumas horas após o último cigarro o fumante dependente passa a apresentar os sintomas da abstinência de nicotina: inquietação, irritabilidade e dificuldade de concentração, entre outros efeitos. Segundo esse conceito, as pessoas que fumam menos de cinco cigarros por dia não são dependentes.

Eu me valia desse princípio quando deparei com uma paciente daquelas que nunca leu um livro teórico. Durante uma consulta de rotina, uma adolescente contou sobre sua dificuldade para largar do cigarro, mesmo tendo começado a fumar havia apenas dois meses. Pensei que ela fosse um caso à parte, uma rara exceção à regra sobre o lento desenvolvimento da dependência, que levaria anos. Mas isso atiçou a minha curiosidade e decidi entrevistar estudantes de um colégio próximo sobre o hábito de fumar. Fiquei intrigado com uma garota de 14 anos que afirmou ter feito duas sérias tentativas frustradas para deixar o cigarro. E ela havia fumado somente uns poucos cigarros por semana, durante dois meses. A descrição de seus sintomas durante o perío-do em que ficou sem fumar lembrava o relato queixoso dos meus pacientes que fumam dois maços por dia. O rápido aparecimento desses sintomas contrapunha grande parte do que eu achava que sabia sobre nicotina. E, quando fui verificar essas informações em sua fonte, constatei que tudo o que havia aprendido não passava de especulação.

Patrocinado pelo Instituto Americano do Câncer e pelo Instituto Americano contra o Abuso de Drogas (Nida, na sigla em inglês), passei a década seguinte pesquisando o desenvolvimento da dependência de nicotina entre fumantes novatos. Sei que o modelo de dependência descrito no início do artigo é ficção. Minha pesquisa apóia uma nova hipótese para mostrar que a exposição mínima à nicotina – como um único cigarro – pode alterar o cérebro, modificando seus neurônios a ponto de estimular o desejo de fumar. Esse conceito, uma vez comprovado, pode vir a indicar novos caminhos promissores aos pesquisadores para o desenvolvimento de novas drogas e tratamentos que ajudem a deixar o hábito.

Perda de Autonomia

Em 1997, quando comecei essa pesquisa com meus colegas da faculdade de medicina da University of Massachusetts em Worcester, nosso primeiro desafio foi criar ferramentas confiáveis para detectar os primeiros sintomas da dependência, tão logo surgissem. Para mim a característica decisiva da dependência é a perda da autonomia, quando o fumante descobre que deixar o vício exige um esforço enorme ou provoca um grande desconforto. Para detectar essa perda, criei o Questionário de Avaliação “Fisgado pela Nicotina” (Honc, na sigla em inglês). Uma resposta positiva para qualquer uma das perguntas listadas indica que a dependência teve início. Atualmente, aplicado em 13 idiomas, esse questionário é o meio mais confiável para medir o grau de dependência de nicotina. (E as perguntas podem ser adaptadas facilmente ao estudo de outras drogas.)

Aplicamos o questionário repetidamente a centenas de adolescentes durante três anos. O resultado mostrou que o rápido aparecimento da dependência sobressaía. O mês seguinte ao primeiro cigarro era, de longe, o mais propenso ao início da dependência; todos os sintomas do questionário, incluindo o desejo incontrolado pelo cigarro e as tentativas frustradas para largá-lo, foram constatados durante as primeiras semanas do hábito. Em média, os adolescentes fumavam apenas dois cigarros por semana quando os sintomas apareceram. Os dados refutaram a crença popular e ofereceram informações valiosas sobre o início da dependência. Porém, quando divulguei essas descobertas, em fevereiro de 2000, alegando que alguns jovens apresentaram sinais de dependência depois de fumar um ou dois cigarros, fui considerado “o professor que não havia lido os livros com atenção”.

Muitos leigos me disseram, com base em suas experiências, que eu estava no caminho certo. Mas, ainda que muitos cientistas acreditassem em mim, não se mostravam dispostos a arriscar sua reputação e admitir publicamente seu apoio. O ceticismo foi geral. Como a dependência poderia começar tão rapidamente? Como explicar os sintomas da abstinência em fumantes que não apresentam níveis estáveis de nicotina no sangue? A confirmação viria depois, quando grupos de pesquisadores liderados por Jennifer O’Loughlin, da McGill University, Denise Kandel, da Columbia University, e Robert Scragg, da University of Auckland, na Nova Zelândia, replicaram todas as minhas descobertas. Até o momento, mais de uma dezena de pesquisas confirmam os efeitos da abstinência de nicotina entre fumantes novatos. Entre os que sofreram os sintomas da dependência, 10% os sentiram em até dois dias após o primeiro cigarro, e de 25% a 35%, no primeiro mês. Em uma extensa pesquisa com jovens neozelandeses, 25% manifestaram os sintomas depois de fumar de um a quatro cigarros. O aparecimento prematuro dos sintomas nos questionários respondidos indicava uma chance 200 vezes maior de os jovens passarem a fumar diariamente.

Esses resultados levaram ao questionamento de como a nicotina presente em um único cigarro seria suficiente para estimular o cérebro a permitir a dependência. Estudos recentes com animais de laboratório revelaram que a exposição a doses altas e crônicas de nicotina – o equivalente a um ou dois maços por dia – estimula o aumento no número de neurônios receptores com grande afinidade por nicotina. Autópsias de fumantes humanos revelaram aumento em 50% a 100% nesses receptores no lobo frontal do cérebro, no hipocampo e cerebelo. Convenci Theodore -Slotkin, da Duke University, a determinar a exposição mínima necessária à nicotina para provocar aumento nos receptores, a chamada regulação crescente (up-regulation). Nos dias subseqüentes sua equipe administrou pequenas quantidades de nicotina a ratos – o equivalente a um a dois cigarros – e constatou, no segundo dia, aumento de receptores no hipocampo – envolvido na memória de longo prazo. A seguir, Arthur Brody e seus colegas da University of California em Los Angeles descobriram que a nicotina de um cigarro é suficiente para ocupar 88% dos receptores de nicotina do cérebro. Embora desconheçamos o papel do aumento da regulação crescente de receptores na dependência, essas pesquisas tornam psicologicamente plausível que adolescentes desenvolvam sintomas da abstinência em apenas dois dias após seu primeiro cigarro.

Segundo estudiosos da dependência, os sintomas da abstinência resultam de adaptações homeostáticas induzidas pela droga – as tentativas do organismo para manter seu equilíbrio químico e funcional. Por exemplo, certas drogas que provocam dependência aumentam a produção de neurotransmissores – elementos químicos que transmitem sinais entre os neurônios – e, em resposta, o organismo desenvolve adaptações que inibem essas substâncias. Quando o usuário deixa de consumir a droga, no entanto, a inibição se torna excessiva e os sintomas da abstinência aparecem. Sabe-se que essas adaptações decorrentes de abstinência podem se desenvolver logo após o primeiro cigarro, pois outras drogas que provocam dependência, como a morfina, produzem mudanças semelhantes muito rapidamente.

Mas, se a maioria dos fumantes de longa data descobre que não consegue evitar um cigarro por mais de uma ou duas horas, antes de desejarem outro, os novatos conseguem ficar semanas sem fumar. Surpreen-dentemente, nos estágios iniciais da dependência, um simples cigarro pode suprimir os sintomas da abstinência por semanas, ainda que a nicotina seja eliminada do organismo em 24 horas.

A explicação para esse efeito notável é que as conseqüências de inundar o cérebro com nicotina se prolongam além do próprio ato. A nicotina estimula os circuitos cerebrais que usam compostos bioquímicos como a acetilcolina, a dopamina, o ácido gama-aminobutírico (Gaba, na sigla em inglês), o glutamato, a noradrenalina, os peptídeos opióides e a serotonina. Em ratos, uma única dose de nicotina aumenta a síntese de noradrenalina pelo hipocampo por pelo menos um mês, e os efeitos da nicotina em determinadas funções neurológicas e cognitivas também persistem por semanas. Embora não se saiba se alguns desses fenômenos estão mesmo relacionados com a abstinência, eles confirmam que a duração do impacto da nicotina ultrapassa em muito sua presença no cérebro.

O intervalo assintomático entre o último cigarro e o início da síndrome de abstinência é conhecido como latência da abstinência. Para os fumantes novatos esse período é longo, e um cigarro a cada poucas semanas mantém a abstinência sob controle. Com o uso repetido, porém, desenvolve-se a tolerância e o impacto de cada cigarro diminui, a latência é encurtada e os cigarros são espaçados a intervalos menores para driblar a abstinência. Esse fenômeno da diminuição da latência é conhecido como tolerância decorrente da dependência. Comparada a adaptações decorrentes da abstinência, que podem surgir da noite para o dia, a tolerância decorrente da dependência costuma se desenvolver a passos lentos. Pode levar anos para que a latência diminua o bastante para exigir que alguém fume cinco cigarros por dia. Na verdade, então, os sintomas da abstinência são decorrentes do uso freqüente e prolongado, e não o contrário, como se achava anteriormente.

É Hora de uma Nova Teoria

Sempre encarei com ceticismo a crença de que fumantes são dependentes do prazer de fumar, pois alguns de meus pacientes com grau de dependência mais elevado odeiam o hábito. Se o conceito tradicional estivesse correto, os fumantes com maior grau de dependência não seriam os que mais apreciariam o ato de fumar? Eric Moolchan, do Nida, demonstrou que, embora os adolescentes apresentassem com o tempo níveis mais altos de dependência, relatavam uma diminuição do prazer de fumar. Foi preciso uma nova teoria para explicar essas descobertas.

Enquanto me esforçava para compreender o rápido aparecimento da dependência de nicotina, deparei com um paradoxo. A única ação da nicotina visível para um observador casual é que ela garante a supressão temporária do desejo por si só, embora ele só se manifeste em pessoas previamente exposta à nicotina. Como seria possível uma mesma droga criar e suprimir o desejo? Passei a especular, então, que a ação imediata direta da nicotina é suprimir o desejo e que essa ação pode ser ampliada a um extremo, já que doses consecutivas de nicotina provocam respostas maiores que a da primeira. (Esse fenômeno, comum a todas as drogas que provocam dependência, é conhecido como sensibilização.) O cérebro pode então desenvolver rapidamente as adaptações decorrentes da abstinência para se contrapor à ação da nicotina, restaurando assim o equilíbrio homeostático. Mas, quando a ação da nicotina se dissipa, essas adaptações estimulam o desejo por outro cigarro.

Segundo essa teoria de sensibilização-homeostase, a nicotina provoca dependência não porque dá prazer, mas puramente porque elimina o desejo. Como a nicotina estimula os neurônios, imaginei que ela poderia ativar as células nervosas de um mecanismo de supressão do desejo no cérebro. A ativação hipotética desse mecanismo então suprimiria a atividade de um mecanismo suplementar para produzir desejo. A função natural do mecanismo produtor de desejo seria receber indicações sensoriais – como visões e odores –, compará-las a lembranças de recompensas – como alimentos – e produzir o desejo para motivar e conduzir o comportamento tentador – como comer. A função do mecanismo de supressão de desejo seria uma indicação de satisfação para que o animal interrompa o comportamento tentador no momento certo.

Como o organismo tenta manter esses dois mecanismos equilibrados, a supressão induzida pela nicotina do mecanismo de estimulação de desejo poderia desencadear o desenvolvimento de adaptações decorrentes da abstinência que estimulariam a atividade do mecanismo. Durante o período de abstinência, quando o efeito inibidor da nicotina passa, o mecanismo de estimulação de desejo seria deixado em um estado de excitação que levaria à compulsão por outro cigarro. Essas mudanças na atividade cerebral se dão através de rápidas alterações nas configurações dos receptores de neurônios, o que explicaria por que os adolescentes podem desenvolver a compulsão por cigarros depois de ter fumado uma única vez. (CONTINUA – VEJA REPORTAGEM COMPLETA NO SITE ABAIXO)

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Joseph R. DiFranza é clínico geral da faculdade de medicina da University of Massachusetts, nos Estados Unidos. Ávido opositor da indústria do tabaco, há 25 anos DiFranza vem empreendendo esforços para impedir que os produtos dessas companhias sejam vendidos para crianças; e sua pesquisa e seu apelo à Comissão da Câmara de Comércio Federal Americana resultaram na proibição da veiculação de propagandas com o mascote dos cigarros Camel. DiFranza recebeu patrocínio da Pfizer para apurar se a teoria da dependência do cigarro justifica a eficácia dos medicamentos para deixar de fumar.

 

VEJA A REPORTAGEM COMPLETA NO SITE ABAIXO

 

retirado de http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/fisgado_na_primeira_tragada.html

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