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Viva as mulheres e suas conquistas – Por que as garotas são melhores do que os garotos na escola?

 
 

Por que as garotas são melhores do que os garotos na escola?

 

Do Le Monde

Por que as garotas são mais bem-sucedidas do que os garotos na escola? Quer isso aconteça na Europa ou, de modo mais abrangente, nos 30 países da OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos), um número muito maior dentre elas consegue obter diplomas no ensino secundário e superior e, além de tudo, elas amargam muito menos fracassos escolares do que os rapazes.

A única ressalva que vem temperar este triunfo está no fato de elas obterem resultados um pouco inferiores aos dos rapazes no que diz respeito às notas de matemática, ao passo que elas se mostram nitidamente melhores do que eles no domínio e na compreensão da escrita. Isso também explica por que elas escolhem com menor freqüência seguirem carreiras científicas (matemática, ciências, e escolas de engenharia). Estas são algumas das conclusões da pesquisa internacional PISA (sigla em francês para Programa Internacional para o Acompanhamento da Assimilação dos Alunos).

Então, as garotas teriam mesmo predisposições inatas para o sucesso escolar? Ao ouvir esta pergunta, na certa, Paul Broca deve estar se revirando até agora dentro do seu túmulo. Em meados do século 19, este eminente cirurgião e antropólogo havia pressuposto que "o tamanho relativamente menor do cérebro da mulher (permitia explicar) ao mesmo tempo a sua inferioridade física e a sua inferioridade intelectual".

Desde então, gerações de neurologistas tentaram encontrar origens cerebrais para as diferenças entre os sexos. Catherine Vidal, uma neurobióloga e diretora de pesquisas no Instituto Pasteur de Paris, desmonta todas essas pesquisas num pequeno livro tão estimulante quanto divertido. Assim, a aptidão para a linguagem, que muitos apresentaram como sendo mais desenvolvida nas mulheres, havia sido atribuída, entre outros, a partir dos resultados de uma experiência realizada em 1995, ao fato de que elas mobilizavam os seus dois hemisférios cerebrais, enquanto os homens utilizavam apenas um deles. Contudo, outros estudos que foram realizados desde então infirmaram esta hipótese.

Outro exemplo: em 1982, alguns anatomistas haviam observado que o feixe das fibras que conectam entre si os dois hemisférios do cérebro era mais largo nas mulheres do que nos homens. Esta observação tampouco foi confirmada por estudos posteriores realizados em maior escala. "Os estudos evoluíram muito; hoje, os conhecimentos que nós temos em relação aos neurônios estão muito mais apurados e atualizados", explica a neurobióloga. "As capacidades biológicas cerebrais são idênticas para os dois sexos, e rapazes e garotas apresentam as mesmas aptidões. Para explicar as diferenças, é preciso referir-se aos estereótipos sócio-culturais e aos comportamentos que deles decorrem."

Análise dos estereótipos

Por ocasião do nascimento, apenas 10% dos neurônios estão conectados entre si, enquanto os 90% dos circuitos (sinapses) restantes irão se construírem posteriormente em função do meio-ambiente, social, cultural e familiar. "À medida que as suas capacidades mentais vão se desenvolvendo", prossegue Catherine Vidal, "a criança vai aprender a se identificar ao masculino e ao feminino."

Christian Baudelot e Roger Establet, dois sociólogos especialistas em educação, analisaram esses estereótipos. Logo no ano de 1992, eles começaram a defender a tese segundo a qual as formas tradicionais de socialização das garotas estavam mais em conformidade com aquilo que a escola pode vir a exigir dos alunos. "A educação das garotas está fundamentada ainda atualmente na noção de docilidade, no sentido etimológico de capacidade de receptividade, de escuta", assegura Christian Baudelot. "Ocorre que na escola, o que se espera em primeiro lugar dos alunos é que eles interiorizem as regras".

Além do mais, as garotas, numa proporção muito maior, seriam alvos, por parte dos seus pais, de uma "solicitude preocupada", ao passo que os rapazes, que costumam ser mais raramente submetidos a esta vigilância, construiriam o seu desenvolvimento, com freqüência muito maior, fora da escola e em função de valores masculinos muito diferentes. "A cultura que é oferecida aos rapazes dá uma ênfase muito maior para o heroísmo, a violência e a demonstração de força. Ora, esses são valores que em todos os casos os dotam de um arsenal anti-escolar", consideram os dois sociólogos. No que vem a ser um outro fator importante, uma vez que os docentes, na grande maioria dos casos, são mulheres, a identificação revela ser mais fácil para as garotas.

Cerca de quinze anos mais tarde, Baudelot e Establet enriqueceram esta análise propondo uma visão mais dinâmica. Segundo eles, as garotas não são apenas mais bem formatadas para os estudos, como "elas também se envolvem de maneira mais positiva com as suas escolhas em sua orientação escolar". A escola é o lugar onde elas adquirem muito cedo a experiência de que elas podem ser as iguais, e até mesmo melhores do que os rapazes. Muito mais do que eles, elas se interessam e se divertem com as atividades culturais tradicionais. Segundo os dados divulgados pela OCDE, 51% das garotas de 15 anos lêem pelo menos um livro por mês, contra 37% dos rapazes. Além do mais, as suas mães as incentivam com maior afinco do que no passado a se tornarem independentes.

Uma socialização familiar

"As garotas estão mais conscientes do fato de que os estudos constituem o principal vetor para a sua emancipação. E o seu sucesso escolar também representa uma conseqüência de uma dinâmica histórica e de uma evolução da sociedade", explica Catherine Marry, uma socióloga, diretora de pesquisas no CNRS (uma das principais entidades francesas dedicadas à pesquisa científica). "As expectativas dos pais são atualmente as mesmas em termos de nível de estudos para as crianças dos dois sexos, mas continuam sendo diferentes em termos de orientação".

No final, as garotas continuam até hoje sendo sub-representadas no que se refere às carreiras científicas. "Elas permanecem vítimas do imaginário social em relação às profissões", constata Catherine Marry, "e, com isso, elas tendem a se orientarem rumo a profissões que supostamente convêm melhor às qualidades das mulheres, tais como as que requerem uma maior atenção para com os outros".

Esta socióloga, que se dedicou a estudar mais especificamente os sucessos de mulheres em carreiras científicas, explica o percurso destas últimas como sendo o resultado de uma socialização familiar particular. "Essas garotas, em sua maioria, tinham mães mais voltadas para uma cultura científica, em muitos casos professoras de matemática", analisa Marry. "Elas também tinham sido objetos, em relação ao(s) seu(s) irmão(s), de uma transmissão de cultura igualitária, inclusive por parte do pai."

Martine Laronche

Tradução: Jean-Yves de Neufville

 

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