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Educação física, meditação e saúde: buscando um equilíbrio entre corpo e mente – PARTE I

Educação física, meditação e saúde: buscando um equilíbrio entre corpo e mente.

Pesquisa em Educação Física. v. 5. Jundiaí: Fontoura, 2007.

 

 

Luiz Fabiano Seabra Ferreira(1); Regina Borges Astone(2); Mariana Priscila Leme Pinheiro(3).

(1)UNIMÓDULO – Caraguatatuba – SP; (2)UNIMÓDULO – Caraguatatuba – SP; (3)UNIMÓDULO – Caraguatatuba – SP.

 

 PARTE I

 

Resumo

Na atualidade as pessoas têm buscado melhorar sua qualidade de vida realizando atividades físicas em beneficio da saúde. Há uma ênfase nos aspectos físicos e motores e um certo desprezo por outros aspectos (emocionais, afetivos, espirituais, entre outros). Qualidade de vida é um tema complexo, e exige equilíbrio e harmonia entre as diversas dimensões que compõem o ser humano na sua totalidade. Nesse sentido, investigamos as práticas de meditação como possibilidade de compreender as múltiplas interações advindas dessa complexidade que é o fenômeno humano. Foi realizada uma pesquisa qualitativa partindo de um referencial epistemológico holístico proposta por Crema (1999). Foi empregada a pesquisa participante (BRANDÃO, 1986; CHIZZOTTI, 1991) buscando adentrar, compartilhar e compreender o universo de significados relacionados ao tema enfocado. Os dados obtidos nesta pesquisa referem-se aos discursos de pessoas que praticam algum tipo de meditação. Para a coleta dos dados foi utilizada a entrevista semi-estruturada. Foi empregada a análise de conteúdo dos dados, proposta por Chizzotti (1991). Os resultados evidenciam que as práticas de meditação proporcionam uma melhora na qualidade de vida, pois amenizam o estresse, relaxando, acalmando a mente e disciplinando o corpo e os sentidos. Os benefícios são perceptíveis na medida que os praticantes adquirem o habito de realizar a meditação. No inicio há uma dificuldade em transcender as dicotomias e contradições inerentes aos processos mentais, no entanto com a prática constante os sujeitos adquirem uma melhor concentração e atenção e criam a possibilidade de perceber e acessar outras dimensões do humano). A educação física tem a possibilidade de explorar tais práticas de meditação, pois além de trabalhar com o corpo deve também enfatizar a mente e os sentidos com o objetivo de proporcionar uma melhor qualidade de vida para as pessoas.

 

Palavras-chave: Qualidade de Vida; Educação Física; Meditação.

 

Introdução

 

           Os estilos de vida que predominam na atualidade enfatizam os excessos da racionalidade técnico-científica, expressando determinados valores compartilhados em sociedade. Estilo de vida está intimamente relacionado com qualidade de vida, pois o que fazemos e a forma como fazemos, denotam o que somos.

De acordo Nahas (2001, p. 17) “as mudanças no estilo de vida não são fáceis de realizar e dependem da nossa vontade, do apoio de familiares e amigos e das informações e oportunidades que nos são oferecidas”.

Para expressar e compreender o que é qualidade de vida devemos ter em mente a complexidade que constitui este tema, pois senão correremos o risco de reducionismos que limitam nossa compreensão. Atualmente podemos perceber que muitas pessoas estão buscando práticas corporais objetivando uma melhora na qualidade de vida. A necessidade de movimentar o corpo é um conhecimento difundido até mesmo no senso comum. As mídias auxiliam a divulgação de uma variedade de tipos de informações relacionadas à manutenção da saúde, estilos de vida e qualidade de vida.

Para Nahas (op. cit. p. 5) qualidade de vida pode ser entendida como “a condição humana resultante de um conjunto de parâmetros individuais e sócio-ambientais, modificáveis ou não, que caracterizam as condições em que vive o ser humano”.

Em se tratando de qualidade de vida no âmbito da educação física há um predomínio relacionado aos aspectos motores do corpo (as pessoas praticam esportes, fazem ginásticas preocupadas em manter a saúde física, mas poucos exibem cuidados com a mente e a consciência), e muitas vezes desprezam-se outras dimensões, tais como; o imaginário, o afetivo e até mesmo o cognitivo (intelectual-racional). Nesse sentido, percebemos que na atualidade há um desequilíbrio entre as diversas dimensões que compõem o humano. Há ênfase na fragmentação e predominam determinados aspectos em detrimentos de outros, trazendo graves conseqüências (manifestações de doenças psicossomáticas) para as pessoas.

O cuidado de si (qualidade de vida) exige muito mais do simples movimentos ginásticos, práticas esportivas e alimentação adequada, entre outros. O ser humano é dotado de uma complexidade que se manifesta de diversas formas, exigindo cuidados que satisfaçam todas as dimensões (afetivo, emocional, racional, imaginário, motor e espiritual entre outras) que compõem esta totalidade.

Buscando compreender e constituir uma harmonia entre essas dimensões é que propomos investigar as práticas de relaxamento e meditação. Podemos perceber que muitas pessoas têm procurado essas “práticas alternativas” como possibilidade de melhora de qualidade de vida. Recentemente o ministério da saúde baixou uma norma recomendando as práticas meditativas como tratamento complementar no SUS (Sistema Único de Saúde), isso demonstra a relevância do tema no âmbito da saúde.

 

Aspectos metodológicos

 

            Este é um projeto de pesquisa qualitativa de cunho Inter e transdisciplinar Adotou-se o que Crema (1989) chama de Paradigma Holístico (do grego Holos: totalidade).

O que se propõe aqui é um “pensamento criativo” que possa contribuir para a construção de novos caminhos para se fazer Ciência. Essa forma de pensar admite o movimento e a mutação no seu interior, não excluindo a possibilidade de construir uma compreensão a partir do que Morin & Le Moigne (2000) chama de princípio dialógico[1][1].

Neste estudo o que predomina é o diálogo entre áreas do conhecimento. Isto se faz necessário para transcender uma característica marcante instaurada na racionalidade moderna, que é o rompimento e a fragmentação dos saberes. Esse movimento de racionalização foi responsável pela especialização abstrata, e pela criação de locais específicos (disciplinas acadêmicas) para cada tipo de saber. Dentro desses “espaços”, instaurou-se a incompatibilidade comunicativa entre os pesquisadores e uma espécie de incoerência que mina toda e qualquer possibilidade de diálogo entre as diferentes áreas de conhecimento.

Foi empregada a pesquisa participante (BRANDÃO, 1986; CHIZZOTTI, 1991) buscando adentrar, compartilhar e compreender o universo de significados relacionados ao tema enfocado. A abordagem qualitativa se faz necessária, pois foi trabalhado

 

um nível de realidade que não pode ser quantificado; trabalhando com um universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis (MINAYO, 1994, p. 21).

 

            Esta pesquisa está inserida na área de saúde (Educação Física) enfocando a possibilidade de se construir uma compreensão sobre meditação, qualidade de vida e saúde.

Os dados obtidos nesta pesquisa referem-se aos discursos de pessoas que praticam algum tipo de meditação. Para a coleta dos dados foi utilizada a entrevista semi-estruturada registrada com o auxilio de um mini gravador. Foi empregada a análise de conteúdo dos dados, proposta por Chizzotti (1991, p. 98), cujo objetivo é “compreender criticamente o sentido das comunicações, seu conteúdo manifesto ou latente, as significações explicitas ou ocultas”.

            As entrevistas obtidas com os sujeitos possibilitaram construir uma descrição sobre os significados atribuídos ao tema investigado.

Foi privilegiada a discussão dos diálogos (entrevistas com os sujeitos) com a teoria fornecida pelos autores, “entrecruzando” suas idéias e conceitos, formando uma espiral e construindo-se uma totalidade, na qual não há cisão entre teoria e pesquisa de campo, mas sim um entrelaçamento constituindo uma teia, onde a compreensão dos significados está conectada.

 

A meditação e alguns significados

 

Atualmente fala-se muito em meditar, mas será que as pessoas sabem realmente o que é? Apesar da grande preocupação com a saúde e o bem-estar físico algumas pessoas têm se preocupado em bem-estar mental. De acordo com Carvalho (2000, p.5):

 

a vida moderna nos impõe grandes sacrifícios e nos submete a terríveis pressões, físicas e psicológicas, a ansiedade, a falta de trabalho corporal e os apegos à matéria são responsáveis pela dificuldade que os Ocidentais encontram ao tentar se concentrar. A maior parte das pessoas não consegue meditar, quando sentam algumas conseguem parar e relaxar por alguns minutos; outras conseguem desligar-se; poucas conseguem concentrar-se; e menos ainda conseguem meditar.

           

            Para Arora (2006, p.51) a meditação tem benefícios práticos na vida cotidiana aliviando o stress mental e emocional, proporcionando sono profundo, aumentando a imunidade e promovendo transformações internas melhorando relacionamentos intra e interpessoais.

            De acordo com Chaudhuri (1972) meditar pode ajudar a vencer os conflitos emocionais, as contradições interiores e as tensões psíquicas, é uma espécie de limpeza psicológica, que remove todas as obstruções inconscientes.

            No entanto, meditar pode ter inúmeros benefícios, utilizando técnicas específicas ou apenas seguindo determinadas religiões onde a prática é algo tradicional, a meditação vem sendo muito procurada por proporcionar bem-estar e qualidade de vida às diversas populações.

            Arora (2006, p. 51) expõe a meditação como “um processo que visa aquietar pensamentos dispersos e tranqüiliza emoções, além de criar condições físicas, mentais e emocionais que promovem vivências dos estados elevados da consciência”.

            McDonald (1984, p.129) explica que “meditação é uma atividade da consciência mental, que envolve uma parte da mente que observa, analisa e lida com o resto da mente”.

            Existem variados métodos praticados por diferentes culturas, relacionados ou não com religião, cada um tem sua própria visão e explicação para o ato de meditar. Às vezes contraditórios. Claret (1996, p. 2) compreende a meditação “como um estado de relaxamento total, ou estado de não-mente, onde o tráfego de pensamentos cessa e o silêncio mental permanece”.  Para McDonald (1984 p.129) “meditar é dominar a mente e trazê-la para o entendimento correto de realidade, é observar o que somos e trabalhar com isso de forma a nos tornarmos mais positivos e úteis, para nós e para os outros”.

            A meditação pode tomar muitas formas; compreendendo diversas técnicas, facilitando sua prática e tornando cada vez mais acessível para todos os tipos de pessoas. Citaremos a seguir alguns métodos e sua interpretação para o tema;

Chaudhuri (1972, p.36) defende o Yoga Integral como “a união equilibrada da meditação e da ação, e só através dessa união é que se pode obter a liberdade criadora”. O método utilizado para meditar é o da concentração, que consiste na focalização inteligente de um objeto ou símbolo espiritualmente importante.

Entende-se meditação transcendental o meio simples e direto para que a mente chegue até a fonte de sua própria atividade, a sua técnica define-se como a inversão da atenção voltando-a para dentro em direção aos níveis mais sutis de um pensamento até que a mente transcende a experiência do estado mais sutil do pensamento e chega até a fonte mesma do pensamento (MAHARISHI apud NEEDLEMAN, 1975, p. 56).

Segundo o Ramacháraca (1977, p.10) o Raja Yoga, conhecido como o Yoga da meditação;

É um sistema de educação oculto por meio da concentração mental para o desenvolvimento das faculdades superiores do homem e seus poderes latentes. Este sistema parte do mundo interior, para estudar a natureza interior e por seu intermédio dominar seus sentidos interno e externo.

 

            Esta Yoga defende a existência de um “eu” real interior que consiste na realidade distinta de seus instrumentos mentais. É o estado de consciência em que o perfeito conhecimento se torna parte do seu cotidiano, num estado em que a consciência conhecedora se torne à idéia predominante na sua mente, ao redor da qual girem todos os seus pensamentos.

            Para Ramacháraca (op. cit.) o “eu” real está dentro de cada um, que com a meditação faz despertar a mente deixando de lado as coisas meramente apêndices, afastando-se da matéria inclusive o corpo físico, suas necessidades e desejos, e os problemas do cotidiano vão ficando cada vez menores.

            A meditação budista tibetana é composta de estágios iniciais, intermediários e finais. Baseada no ensinamento do método e sabedoria tem como um único propósito: disciplinar a mente com ética, obtendo ações virtuosas, identificando eliminando a negatividade e o sofrimento do corpo, da mente e da fala. (KAMALASHILA apud DALAI LAMA, 2001).

   De acordo com a pesquisa realizada com pessoas que utilizam práticas meditativas, pudermos observar que para cada uma dessas pessoas a meditação tem um contexto e um significado diferente, porém todas compreendem como um meio de se obter qualidade de vida, estendendo-se na relação que se tem consigo, com o modo de se compreender, e a maneira de se colocar no mundo.

            Minha relação com a meditação está vinculada com a perspectiva do Yoga, a qual consiste em uma prática, ou um exercício de contemplação, e com esta prática regular conseguimos estabelecer uma visão objetiva em torno de realidade, como uma ferramenta para se ganhar uma mente mais objetiva, uma mente tranqüila, que lhe permita ver as coisas do jeito que elas são. (Pedro).

  De acordo com Rodrigues (2003) na perspectiva do Yoga, o grande problema é que mantemos nossa mente constantemente ocupada com o cotidiano, não deixando tempo para o que é extraordinário. Identificamo-nos com os problemas, achando que a vida é só isso, e impedindo que sobre espaço para outros sentimentos que são naturais ao ser humano.

  Como agregamos valores habitualmente apenas à matéria, ignorando as demais dimensões do Ser, acabamos atrelados a sentimentos e emoções desequilibrados, nos apegando ainda mais aos problemas que a própria mente elabora. O real sentimento do ser humano está na busca da verdade, a qual se encontra dentro de cada um de nós, objetivando a evolução espiritual, ou seja, a transcendência de nós mesmos enquanto seres além-físico independente da religião ou credo praticados, por isso a necessidade dessas práticas.

          Eu pratico uma antiga técnica de meditação, o zen-budismo, que eu acho fantástico, é aquela que através da postura e da concentração na respiração, você consegue com muito exercício e prática domar a tua mente (Bárbara).

           Sobre o assunto, Needleman (1975, p.87) diz “no centro zen não se tenta suprimir o pensamento, o ensinamento que deveria ser mais profundo daquilo que a mente pensante pode alcançar, deve manifestar-se de uma forma que atinja uma mente pensante”.

            Podemos usar como analogia o exemplo de uma caixa com água, que tenha uma lâmpada acesa logo acima dela, quando a água está em movimento, às ondulações dificultam qualquer visualização clara do reflexo luminoso. Deste modo a água agitada é a nossa mente que não nos permite ver com clareza o reflexo da luz, até que seja aquietada.

            Meditar é silenciar a mente, abrandar os pensamentos, domando-os como que a um cavalo selvagem. A meditação faz com que consigamos entrar em um estado de paz mental, no momento em que não mais alimentamos nossos pensamentos, que não mais deixamos eles nos dominar, eles vão se diluindo, se dispersando (Bárbara).

   Ilustrando essas idéias, Rodrigues (2003, p.64) diz que a prática da meditação envolve um processo peculiar e especial de absorção da mente, no qual a atenção é fixada num único objeto, seu principio básico é o desenvolvimento de percepção interna.

  Meditação é algo que se consegue com treino, muitas pessoas quando se iniciam nas práticas meditativas desistem nos primeiros quatro meses, pois é algo que não se consegue do dia para a noite. Meditação é um momento de estar com Deus, é um culto, um treino, uma pesquisa continua. (Harbans).

           Concordando com esse discurso, Rodrigues (2003) enfatiza que as pessoas que vivem nas cidades grandes com uma infinidade de estímulos, solicitações emocionais e sustos durante o dia todo, sem contar as condições inadequadas de alimentos e descanso, são limitadas neste tipo de prática, atingindo apenas seus estágios iniciais, o que já é altamente benéfico.

Assim sendo, verificamos a importância de acalmar a mente, utilizando-se das práticas de relaxamento e de meditação.

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