Don't Worry Be Happy!!!

Viva a criança que existe em cada um de nós! Você já é grandinho o suficiente para saber que brincadeira é para a vida toda

 

Você já é grandinho o suficiente para saber que brincadeira é para a vida toda

 

texto Leandro Quintanilha

Boa parte das brincadeiras infantis são um ensaio para a vida adulta. Criança brinca de ser mãe, pai, cozinheiro, motorista, polícia, ladrão (e isso, você sabe, não implica nenhum tipo de propensão ao crime). E, ah, quando não há ninguém por perto, brinca de médico também. É uma forma de viver todas as vidas possíveis antes de fazer uma escolha ou descoberta. Talvez seja por isso que a gente pare de brincar aos poucos – como se tudo isso perdesse o sentido quando viramos adultos de verdade. E tudo agora é para valer. Mas será que parar de brincar é, de fato, uma decisão madura?

Atividades de recreação e lazer estimulam o imaginário e a criatividade, facilitam a socialização e nos ajudam a combater o estresse. Mas, se tudo isso for o objetivo, perde a graça, deixa de ser brincadeira. Vira mais uma atividade produtiva a cumprir na agenda. Você só brinca de verdade (ainda que de mentirinha) pelo prazer de brincar. E só. Como escreveu Rubem Alves, quem brinca não quer chegar a lugar nenhum – já chegou.

Jogo da vida

Na verdade, a gente nunca pára de brincar completamente. O humor, por exemplo, é herdeiro em primeiro grau da brincadeira. Outra forma corrente de brincar na vida adulta é no contato com crianças, com a justificativa de estimulá-las e entretê-las. São os adultos que repassam antigas brincadeiras adiante, como a amarelinha. Se não houver gente grande empenhada em preservar o patrimônio lúdico, ele vai se extinguir. Quem tem filhos, sobrinhos ou primos pequenos sabe o quanto isso pode ser divertido, ainda que se perca de propósito.

O poeta gaúcho Mário Quintana escreveu certa vez que nunca se deve tirar um brinquedo de uma criança – tenha ela 8 ou 80 anos. Nunca se é velho demais para jogar dominó, ludo, gamão. A fabricante Grow estima que cerca de 20% dos usuários desses jogos sejam adultos. Isso sem mencionar os jogos do tipo quiz, de cultura geral – ou “inútil”, veja que apropriado. Há outras formas de brincar na vida adulta – mas são estas, as que reproduzem momentos vividos na infância, as mais puras de objetivo. Brincadeiras que se bastam em si.

Um ditado inglês diz que a única diferença entre homens e meninos é o preço de seus brinquedos. Hoje, o consumo é uma forma de lazer largamente experimentada em todas as idades. E mesmo que um carro (de verdade) proporcione algum contato entre imaginário e matéria, característica fundamental da brincadeira, esse bem-estar pode ser comprometido por uma série de implicações associadas ao consumo – a competição social por status, a afirmação de uma autoestima fragilizada e a negação do envelhecimento.

Para a psicopedagoga Tânia Ramos Fortuna, coordenadora do projeto “Quem Quer Brincar?”, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o que causa mais cansaço e estresse no mundo dos adultos não é o excesso de trabalho, mas a falta de diversão. Ela cita o poeta Álvaro Moreyra: “Infância, juventude e velhice são aparências do corpo: a alma faz coleção”. O adulto que você é hoje pode ter muito mais de condicionamento social que de amadurecimento pessoal – pense sobre isso.

A brincadeira é, antes de tudo, uma forma de relação com o mundo. Brincando, o bebê aprende o que é o seu corpo – e o que é o do outro ou o que é coisa. “Só depois dos 4 ou 5 meses a criança compreende que ela não é também a fraldinha, a grade do berço, a mamãe”, diz Tânia. É nesse momento que o bebê experimenta uma espécie de depressão primária, como definiu a psicoterapeuta Melanie Klein. Descobre que é fisicamente limitado.

Mas é também brincando que ele transcende essa realidade (para lidar com ela), ao estabelecer uma conexão entre a matéria e o pensamento, a realidade e a imaginação. A criança que brinca vai além do que é. O adulto também. A arte, a espiritualidade e o sexo são brincadeiras de adulto – formas mais sofisticadas de transcendência. Um trabalho apaixonante também. Mas tudo isso pode estar impregnado de outros objetivos além da experiência do momento. Uma partida de jogo-da-velha, não.

Trabalho x lazer

Até a Revolução Industrial, a partir do século 18, a vida não era tão segmentada. Não havia momentos específicos para trabalho e lazer. Era tudo mais fluido. Crianças e adultos também não eram vistos como seres sociais claramente distintos – os pequenos também trabalhavam, é verdade; em contrapartida, os adultos brincavam mais. Na Europa, uma pessoa trabalhava em média 700 horas por ano – hoje são 2800.

E, sem saudosismo, mesmo as crianças não brincam como antes. “Queremos manter a brincadeira sob controle, com lugar e hora determinados, e pior: intervir na brincadeira, para lhe dar serventia”, diz Tânia. As brincadeiras educativas, ainda que bem-intencionadas, expressam nossa servidão ao valor de uso. Mas um dos principais valores de brincar é não ter nenhuma utilidade prática. E, quando tiver, que seja apenas um efeito colateral positivo.

Ao descer pelo escorregador, a criança vivencia seu equilíbrio dinâmico sob a força da gravidade,mas o importante mesmo para ela é o fato de que é muito gostoso escorregar. Ao mesmo tempo, como explica a psicopedagoga Neusa Sá Karlan, mestre em educação e professora da rede municipal de ensino de Porto Alegre, brincadeira não é lazer simplesmente. É lazer com envolvimento.

Ver tevê ou assistir a uma partida de futebol são formas passivas de lazer. São atividades que podem ajudá-lo a relaxar e esquecer os problemas do trabalho, por exemplo. Mas brincar, além de aliviar tensões, dá vazão a sua vida interior. A tradutora Flávia Souto Maior, de 27 anos, nunca deixou de brincar. Além das travessuras no tapete da sala com sua cachorra Lechuga (“alface” em espanhol), ela até hoje se reúne com os colegas da faculdade para divertidas sessões de baralho e jogos de tabuleiro. Semana sim, semana não, com pizza e cerveja, “para desestressar”. No correr dos anos, namorados e agregados aderiram à brincadeira. Os quizes de conhecimentos gerais são seus favoritos. ”Adoro cultura inútil”, diz. Inutilidade é mesmo a essência da brincadeira. Outro membro do grupo é o busólogo (sim: estudioso de ônibus) Francisco Angelo, de 29 anos. O Chico foi além das brincadeiras quinzenais e decidiu, há alguns me-ses, trabalhar brincando. É sério. Desde criança, ele sempre adorou ônibus de transporte urbano. De classe média, dizia para os pais e os amiguinhos que seria motorista quando crescesse. Adulto, descobriu outras pessoas que compartilhavam a mesma paixão e participa de encontros temáticos há cinco anos. A brincadeira tomou tanta importância que ele decidiu abandonar a carreira de jornalista e prestar um concurso público no setor dos transportes. Foi aprovado e aguarda convocação. Vai trabalhar com planejamento e controle de itinerários.

Conhecimento

Faz sentido: brincadeira é uma forma de autoconhecimento. “É uma investigação leve e espontânea sobre o que faz você feliz”, afirma a psicopedagoga Neusa. E tudo bem se você não se sentir confortável com todo tipo de brincadeira. Mesmo na infância a gente sempre prefere um determinado tipo de jogo ou atividade. Se baralho ou gamão não fazem seu gênero, procure outra turminha. Você pode brincar até conversando. Hoje, é possível encontrar em livrarias uma espécie de baralho de bate-papo. Cada carta tem um tema ou uma pergunta para dar um rumo mais criativo (ou inusitado) à conversa.

A Associação Viva e Deixa Viver é uma organização civil de interesse público criada para estimular a leitura e a brincadeira em hospitais. A instituição acaba de lançar o jogo Eu Conto, parecido com os baralhos de bate-papo, mas voltado para a contação de histórias. Cada carta tirada do monte é um desafio para o contador, com uma palavra a ser incluída de improviso na história. “Pesquisas mostram que os pacientes que brincam tendem a aderir melhor ao tratamento e a se recuperar mais rápido”, afirma a voluntária Mariana Pianelli.

A advogada Maria Carolina Marzagão Jimenez, de 33 anos, organiza sessões de “jogatina” em casa, com os amigos. “São jogos de todas as partes do mundo”, diz. “Desde o clássico ‘pega-varetas’, que marcou minha infância, até os mais modernos.” Maria Carolina não brinca só no fim de semana. Ela se entretém sozinha também, em dias comuns. “Sempre procuro transformar atividades enfadonhas em algum tipo de diversão.” Quando precisa estudar uma matéria chata relacionada ao trabalho, por exemplo, ela inventa paródias para fixar o tema.

Às vezes, a brincadeira está na transgressão do sentido de uma situação racional, “sensata”. Na verdade, como explica Neusa Karlan, a brincadeira depende mais de sua atitude que do brinquedo ou da atividade em si. “Se você abraça um travesseiro pensando em alguém, é uma brincadeira.” Porque você já nasce equipado – o melhor brinquedo é a sua imaginação.

LIVROS Homo Ludens, Johann Huizinga, Perspectiva

 

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