Don't Worry Be Happy!!!

Sobre o tempo – parte II

 

Sobre o tempo – parte II 

 

Mas podemos comprar as máquinas que controlam o tempo.

O tempo é dividido em segundos, minutos, horas, dias, meses, anos.

Ave Maria, como o tempo foi recortado e fragmentado.

Tem gente que organiza seu tempo numa agenda.

Divide tudo em compromissos inadiáveis.

Muitos humanos levam o tempo a sério.

Vivem em função do tempo.

Acordam cedo e passam um tempão trabalhando.

Justamente para não ter tempo de pensar na vida ou fazer coisas inúteis.

Pois, isso é perda de tempo, coisa de gente que não tem o que fazer.

“Gastar” o tempo com coisas inúteis soa como um crime hediondo.

Confesso certa indignação com o discurso que diz que temos que administrar nosso tempo.

Pois, só assim poderemos atingir um nível adequado de produtividade.

Essa é a “ciência” de gerenciar o tempo.

Se isso é tão importante deveria ser ensinado na escola.

Aí me pergunto: quanto tempo gastamos trabalhando?

Não vou fazer esse cálculo, mas acredito que pelo menos metade do nosso tempo de existência.

Existência essa que foi dominada pela crença de que devemos passar muito tempo trabalhando.

Trabalho, trabalho, trabalho.

Coisa de maluco viver nesse ritmo acelerado.

Lembro-me de um tempo da minha vida que era regido pela produtividade e era engraçado.

Foi um tempo que passou bem rápido, mas acabei descobrindo algo de interessante em mim.

Descobri que tenho algo de baiano, a indolência.

Além de tudo desenvolvi a “arte de procrastinar”.

Como é bom ser assim.

Passava um tempinho dormindo no trabalho.

Fugia para o banheiro e lá passava em tempo descansando, pois ninguém é de ferro.

E mesmo assim ainda dava tempo de fazer todo o trabalho do dia.

Aqui no Brasil deveria ser instituída a ciesta.

Muita gente iria adorar passar um tempinho cochilando após o almoço.

Gastamos quase um terço de nossas vidas dormindo.

Quem não gosta de dormir até mais tarde nos finais de semana?

É um tempo muito bem utilizado.

Porem, tem gente que prefere acelerar o coração ao invés de descansá-lo.

Olha só quanto tempo já gastei com a vida.

Por exemplo: beijar, comer, transar, chorar, estudar.

Já gastei muito tempo beijando na boca.

Mas hoje isso está se tornado raro.

Naquele tempo beijar na boca era um tempo muito bem gasto, delicioso.

Esse era um tempo bom que não volta mais, pois seguimos em frente e o viver se transforma.

Já passei muito tempo da vida chorando, faz parte e é necessário.

O melhor tempo gasto é quando fazemos coisas que produzem satisfações materiais e espirituais.

Ou, quando podemos fazer coisa alguma, simplesmente respiramos.

Adoro esse tempo que inutilizo.

Tem gente que diz que na vida tem tempo pra tudo.

Ser criança, adolescente, adulto e idoso ou velho se preferir.

O tempo envelhece as coisas, ou renova?

No fundo é um eterno ciclo de criação e destruição, finalização.

No entanto, acredito que o espírito nunca envelheça, pois é atemporal.

A gente se apega as coisas boas da vida, tudo besteira passageira.

Mas necessária para compreendermos a verdadeira essência do viver, a impermanência.

Hoje gasto muito tempo admirando os mistérios do viver e o quanto a vida é boa.

Pensar no viver é uma forma de utilizar o tempo e sempre colhemos frutos.

Isso ocorre apenas para aqueles que se permitem experimentar, libertar-se dos apegos.

Estou pensando em parar de pensar, pois cansa muito.

Também brinco o tempo inteiro.

Meu trabalho é uma brincadeira.

Brinco de ensinar as pessoas.

Gasto um tempão tentando faze-las compreender a necessidade de gastar o tempo com coisas inúteis.

Mas elas foram muito bem doutrinadas pela religião do trabalho.

Tem aqueles que são desencanados por natureza e esses eu não preciso ensinar, já nasceram sabendo.

Também gasto boa parte do meu tempo brincando com minha filha.

Essa sim sabe gastar seu tempo.

Brinca o tempo todo.

Sorrir faz parte do seu dia-a-dia e ela só tem cinco dentes, mas não tem vergonha de mostrá-los.

No fundo ela faz questão de exibi-los, me lembro do sorriso do Tião Macalé.

Quem se lembra? Já faz tanto tempo desde sua morte.

Ela, quando não está brincando está descansando.

Comer é uma brincadeira, tomar banho é outra e engatinhar pela casa é fazer ginástica.

Trabalho nem pensar.

Ela nem liga de ficar sem fazer nada, pois não conta o tempo.

As pessoas adultas acham inútil gastar o tempo com brincadeiras.

Acham que é infantilidade, coisa de criança.

São tolas, pois levam a vida muito a sério.

Devem passar pouco tempo de suas vidas rindo a toa, sem motivos.

Muitas vivem de “caras fechadas” e estão sempre correndo de um lado para o outro atrás do que fazer.

Tem medo do tempo livre, se é que ele existe.

Tempo livre é uma ficção, pois como o tempo pode ser livre se ele é controlado pelo relógio?

É uma ilusão barata que os capitalistas inventaram para ludibriar os pobres mortais.

Tem gente que diz ter tempo livre e ainda por cima diz que gasta esse tempo com lazer.

Ir ao shopping fazer compras, ir ao cinema, nos parques temáticos, restaurantes, bares, boates, etc.

O barato disso tudo é o tempo que gastamos nas intermináveis filas para adentrar nesse mundo do entretenimento.

Fora isso tem a questão financeira, quem não tem dinheiro não têm direitos.

Eu mesmo já sofri discriminações de todo tipo.

Esse mundo capitalista é muito triste, pois sempre precisamos do dinheiro para fazer as coisas.

Deve ter sido o diabo quem inventou o dinheiro, pois vale tudo para adquiri-lo, mentir, enganar e até matar.

Esse mundo parece muito louco.

“Perdemos” tempo em infinitas situações.

Nas filas de banco, nos intermináveis engarrafamentos, na padaria para comprar pão, entre outros.

Mas vamos falar de coisas boas.

Penso na minha avó que já viveu um tempão, mais de um século de existência.

Uma pessoa que viveu tanto tempo tem muitas histórias para contar.

Hoje tive consciência de que o tempo é palco de diversas tramas.

Todo e qualquer momento estão inscritos no tempo.

Até parece que o tempo é um grande livro no qual a existência do mundo está inscrita.

A vida se desenrola diante do tempo.

E assim nascemos, vivemos e morremos.

E no tempo, na história, ficamos inscritos como uma breve passagem, como a luz de um relâmpago.

O tempo está além de tudo e de todos, é soberano.

Reina sobre os céus acima de todas as estrelas, no infinito.

O tempo deve ser Deus ou vice-versa?

Caberia aqui uma discussão metafísica, mas isso iria ocupar muito tempo para ser feito.

Estou aprendendo a dedicar um tempo da minha vida às plantas.

É muito bom conversar com elas, mas tem gente que olha e acha coisa de maluco.

Lá na roça o pessoal tem um jeito muito peculiar de lidar com as plantas.

Alguns conhecem muito bem suas particularidades, mas outros nem imaginam.

Geralmente os moradores que tem mais tempo de existência sabem mais.

Não é uma regra, pois tem gente que aprendeu muitas coisas inúteis.

Daquelas que inutilizam outros seres, não inúteis de improdutivas.

São inúteis porque servem à causa da destruição, principalmente das árvores.

Nunca havia imaginado me apaixonar por plantas.

Mas confesso que tenho grande admiração por elas.

Assisti outro dia na TV que tem gente transando com as plantas.

Isso me faz pensar que hoje os tempos são outros.

A vida exige mudanças o tempo todo.

Isso é necessário devido às novas idéias que surgem com o passar do tempo.

Se isso não acontecer podemos ficar presos no tempo, tornando-nos hipócritas e preconceituosos.

Agora estou com pouco tempo para escrever, pois a Ariadne ocupa boa parte dele.

Vivo ocupado brincando e cuidando dela.

É uma ocupação boa, prazerosa, pois ser criança é um tempo muito feliz.

E temos a obrigação de cuidar e educar nossas crianças.

Para mim é como produzir uma obra de arte, única, singular, expressão da criatividade.

 

Escrito em 2005

 

Om Namah Shivaia!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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