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A Razão entre o empirismo e o intelectualismo – Contrastando o empírico e o transcendental, Merleau-Ponty coloca em relevo uma visão alargada da razão.

Existência
A Razão entre o empirismo e o intelectualismo
Contrastando o empírico e o transcendental, Merleau-Ponty coloca em relevo uma visão alargada da razão.

Opomos muito facilmente razão e experiência, ou seja, o que vem do nosso espírito e o que vem do nosso encontro com o mundo: por um lado, a faculdade que temos de compreender e analisar, de forjar conceitos e de associá-los em raciocínios, faculdade a priori e, por outro, um conjunto de coisas que descobrimos a existência e as propriedades fora de nós, de modo a posteriori. Dito de outro modo, distinguimos muito rapidamente aquilo que supomos estar primitivamente em nós de modo inato e o que atribuímos ao exterior como algo adquirido. Ora, esta situação de antinomia – pares de conceitos que se auto-excluem e não têm nenhum terreno de comunicação – não é desprovida de fundamentação teórica na história da Filosofia.

René Descartes, por exemplo, no primeiro parágrafo do Discurso do método, nos diz que o “bom-senso” é a faculdade natural de distinguir o verdadeiro do falso. A palavra “senso” deve ser sinônima de razão ou faculdade de julgar. Ela está relacionada com a “luz natural” que corresponde àquela faculdade que discerne o verdadeiro do falso, tal qual recebemos de Deus, em sua forma mais pura e não adulterada. O termo “bomsenso” é também utilizado como Sabedoria.

O “bom-senso” é a potência em cada um de nós e tem a necessidade de uma direção para ser bem aplicado em um caminho certo e seguro; ele está vinculado a determinadas condições de aplicação que permitem ao espírito descobrir o verdadeiro. Ora, por si só o “bom-senso” não garante a identificação da verdade; somente se o conduzirmos por regras é que poderemos atingir a evidência da idéia verdadeira. Assim, para Descartes, há três tipos de idéias: em primeiro lugar, as idéias adventícias – vindas de fora –; em segundo, as idéias fictícias que criamos na fantasia e na imaginação quando compomos seres inexistentes com fragmentos das idéias adventícias existentes na memória; e, por último, as idéias inatas.

 
“Dois excessos: excluir a razão, admitir apenas a razão”PASCAL

 

Estas últimas não têm sua origem nos sentidos ou na fantasia, mas são racionais e nós já nascemos com elas, assim como, por exemplo, a idéia de um triângulo, que é verdadeira e imutável, e também as idéias de Deus e do cogito. As idéias inatas são assinaturas do criador e só podem ser conhecidas por intermédio da “luz natural”, além disto, elas correspondem perfeitamente às idéias que se referem. A propósito, a única maneira de distinguirmos o verdadeiro do falso ou simplesmente saber se uma idéia corresponde à realidade é recorrendo à razão e a algumas idéias inatas.

Já o argumento oposto de origem empirista, ensina que o conhecimento deve ser estabelecido a partir da experiência. É assim que, para John Locke, a noção de idéia inata deve ser considerada obscura e problemática. Para ele, todo o nosso conhecimento provém da nossa percepção do mundo externo (a sensação) ou do exame da atividade de nossa própria mente (a reflexão).

A Razão entre o empirismo e o intelectualismo
Contrastando o empírico e o transcendental, Merleau-Ponty coloca em relevo uma visão alargada da razão.

Nada está no intelecto que não tenha estado antes nos sentidos. A partir dos dados da sensibilidade, o entendimento produz as idéias por meio de um processo de abstração. As idéias simples que têm origem nas impressões sensíveis são associadas e combinadas para formarem as idéias complexas. Assim, quanto mais próxima a idéia estiver da impressão sensível, mais ela será verdadeira. Enquanto a experiência imprime em nosso espírito as idéias, a razão as associa, formando os pensamentos. O exemplo dado por Locke em seu Ensaio sobre o entendimento humano (Livro II, Capítulo I) é muito conhecido. Trata-se do exemplo do “papel em branco”: tudo se passa como se a mente fosse um papel em branco, vazio de todos os caracteres e sem nenhuma idéia. O papel em branco só é preenchido pela experiência.É nela que se baseia todo o nosso conhecimento, é dela que o conhecimento é derivado. Uma vez que a experiência se aplica tanto aos objetos externos quanto às operações internas de nossa mente, nossa observação sempre supre nosso conhecimento com todo o material do pensamento. Essas são, para Locke, as duas fontes de nosso conhecimento, e são delas que jorram todas as idéias que temos naturalmente.

EXTREMOS PROBLEMÁTICOS
Ao colocar as teses de Descartes e Locke em contraste, percebemos que entre elas não há possibilidade de comum acordo no que diz respeito à origem das idéias. Mas onde estariam os problemas destas correntes aparentemente opostas e o que elas pressupõem? O empirismo, levado ao extremo, nos apresenta um problema insolúvel: se a razão não passa do hábito de associar idéias – hábitos subjetivos – como atribuir objetividade aos conhecimentos? Aqui, o conhecimento não passa de uma ilusão, já que a realidade objetiva não pode ser conhecida pela razão. Não haveria como garantirmos o conhecimento da realidade se o que é próprio da existência é ser individual, particular e subjetivo. Seria preciso reconhecer a incapacidade de conhecer a realidade e renunciar à verdade.

Já em relação ao inatismo, basta lembrar, em primeiro lugar, que os princípios e as idéias da razão mudam. Em segundo, que princípios e idéias considerados verdadeiros podem ser falsos, concluindo que as idéias e a razão não poderiam ser inatas ou intemporais.

PERCEPÇÃO EM FOCO
Maurice Merleau-Ponty, por sua vez, vai detectar um prejuízo comum tanto ao intelectualismo quanto ao empirismo, a saber, o prejuízo do mundo objetivo ou do ser determinado, o qual terá como correlato um modo de pensamento específico, o pensamento objetivo. Por “ser determinado” devemos entender algo que o sujeito pode, idealmente, dominar a totalidade dos atributos sem nenhum resíduo. Por “pensamento objetivo” é preciso entender aquele tipo de pensamento que opera a determinação.

Quanto a Merleau-Ponty, após ter passado pela escola da Psicologia contemporânea e da Filosofia fenomenológica, ele nos diz, em sua Fenomenologia da percepção, que “as percepções de fato mais simples que conhecemos, em animais como o macaco e a galinha, versam sobre relações e não sobre termos absolutos. […] Quando a Gestalttheorie nos diz que uma figura sobre um fundo é o dado sensível mais simples que podemos obter, […] tratase daquilo sem o que um fenômeno não pode ser chamado de percepção”. Ora, a conseqüência filosófica a ser tirada desta constatação consiste em que as idéias de associação e de juízo introduzidas pelo empirismo e pelo intelectualismo são acrescentadas às sensações para que se possa ser produzida a percepção. Ou seja, quando se trata de perguntar pelo sentido que estes pretensos rivais atribuem ao sensível, descobrimos que tal sentido é inteiramente exterior ao próprio sensível. Na verdade, tal sentido foi conferido pela associação e pelo juízo, logo, eles pressupõem o que estão negando, a saber, um sentido imanente ao próprio mundo sensível. Vem daí que a crítica a ser feita ao intelectualismo e ao empirismo é a mesma: eles se encontram sob um mesmo terreno. “Um e outro tomam por objeto de análise o mundo objetivo, que não é primeiro nem segundo o tempo, nem segundo seu sentido; um e outro são incapazes de exprimir a maneira particular pela qual a consciência perceptiva constitui seu objeto. Ambas guardam distância a respeito da percepção, em lugar de aderir a ela”.3

A questão filosófica de fundo que se encontra na crítica ao intelectualismo se resume assim: ao analisá-lo, sou forçado a reconhecer o que ele tacitamente supunha – a existência de um sentido imanente ao sensível. Há uma significação intrínseca aos signos que é o próprio fenômeno da percepção verdadeira: a razão está enraizada na natureza. Quando aderimos à percepção nos damos conta de que “o objeto percebido se dá como um todo e como unidade antes que nós tenhamos apreendido sua lei inteligível”.4 Já o empirista, faz que o mundo cultural e o mundo natural se tornem incompreensíveis.

Ele perde a configuração própria à experiência efetiva, pois deforma a experiência ao fazer dela uma ilusão. Em suma, os pretensos rivais encontram seus limites quando têm de pensar o mundo efetivo. Para o primeiro, o sentido do mundo é inteiramente exterior ao próprio mundo, pois ele supõe uma consciência que toma o mundo por signo e os interpreta. Para o segundo, o mundo não tem nenhum sentido e a consciência é uma coisa entre outras.

A solução proposta por Merleau-Pon-ty consiste em voltar-se ao mundo percebido onde “a experiência da percepção nos põe em presença do momento em que se constituem para nós as coisas, as verdades, os bens; que a percepção nos dá um logos em estado nascente, que ela nos ensina, fora de todo dogmatismo, as verdadeiras condições da própria objetividade; que ela nos recorda as tarefas do conhecimento e da ação. […] O primado da percepção – o reconhecimento, no próprio coração da experiência mais individual, de uma contradição fecunda que a submete ao olhar do outro – é o remédio para o ceticismo e o pessimismo”.5

A contradição fecunda de que fala Merleau-Ponty é uma ambigüidade inscrita no coração do mundo vivido aquém do mundo objetivo. A volta ao mundo vivido é o primeiro ato filosófico, e isto, porque no mundo da experiência perceptiva o objeto nunca é um ser determinado. É neste contexto que deve ser compreendida a “ilusão de Müller-Lyer”.

“Quando percebo, não penso o mundo, ele se organiza diante de mim”MERLEAU-PONTY

Dadas as duas retas, são feitas as seguintes perguntas: elas são iguais ou desiguais? Os dois segmentos de retas, na experiência ou na ilusão, em questão não são nem iguais nem desiguais, pois somente no mundo objetivo é que esta alternativa se impõe. Se considerarmos que o campo visual é o meio singular no qual as noções contraditórias se entrecruzam, compreenderemos que as retas não estão postas ali no terreno do ser determinado onde uma comparação seria possível. Na verdade, cada reta é apreendida no seu contexto particular, e isto, como se não pertencessem ao mesmo universo.

Perguntar se as retas são iguais ou desiguais não faz nenhum sentido quando estamos no plano da experiência perceptiva. Aqui, elas são simplesmente outras, pois nesta região da experiência não há adequação ao universo das noções alternativas.
O mundo é ambíguo porque encontramos nele um indeterminado positivo que deve ser reconhecido como um fenômeno positivo. Como a percepção não é uma soma de sensações parciais e como cada sensação não depende somente dos estímulos que as coisas produzem em nossos órgãos dos sentidos, não vemos as duas retas como sendo do mesmo tamanho.

As percebemos diferentes porque a experiência nos mostra que as percebemos como formas, totalidades diferentes ou conjuntos significativos. Não devemos sujeitar o universo fenomenal às categorias que só são exigidas no universo da Ciência. Portanto, o que é próprio ao percebido é a admissão de uma ambigüidade, além disto, ter de decidir se elas são iguais ou desiguais equivale a situarse em uma percepção analítica que não é natural. Daí a diferença entre o que é objetivo e o que é dado. O mundo da percepção nunca é o mundo mensurável. A diferença está no meio perceptivo ou no reconhecimento de uma ambigüidade que advém da modelagem que o contexto imprime aos objetos.

Para Locke, com os dados sensoriais, o entendimento produz as idéias por abstração. As idéias simples, originadas das impressões sensíveis, associam-se e formam as idéias complexas

Para compreendermos qual o novo tipo de relação entre a razão e a experiência que o primado da percepção nos sugere, Merleau-Ponty nos diz que seria preciso formar uma nova idéia de razão, a qual não é uma razão desencarnada e fora de toda situação de fato. Ela é, sim, uma razão alargada. Para apreendêla é preciso abandonar o solo de universalidade que caracteriza a tradição científica e filosófica. Contra o universal de sobrevôo de um método estritamente objetivo, Merleau-Ponty vai propor uma “segunda via em direção ao universal”, que será, agora, um “universal lateral”, oblíquo ou concreto. Alargar a razão é “torná-la capaz de compreender o que em nós e nos outros precede e excede a razão”.7 Aliás, isto nos conduz a uma espécie de experiência que nunca é definitiva, a qual nos coloca em contato com algo que é mais velho do que nós. A razão alargada de que fala MerleauPonty deve andar junta com a própria experiência, ou melhor, é preciso fazer o universal com que existe de mais particular, ou ainda, seria o caso de investigar uma razão imanente à desrazão, ou uma liberdade que só se torna o que ela é dando-se liames com o mundo.

Assim, não se trata de abrir mão da razão em detrimento da experiência, muito menos de sacrificar a experiência em prol da razão. Não se trata de ter de fazer uma opção no interior desta alternativa, quando, na verdade, é a própria escolha que foi banida. Razão e experiência são, agora, vizinhas. Desde então, a única saída consiste em considerar “o mundo como berço das significações”, ou ainda, “sentido de todos os sentidos e solo de todos os pensamentos”; somente assim é que “descobrimos o meio de ultrapassar a alternativa entre o realismo e o idealismo, acaso e razão absoluta, nãosentido e sentido”.

Portanto, é porque fazemos a experiência do mundo que temos a idéia do ser determinado, e não o contrário. É graças a esta experiência do mundo que a racionalidade e aquilo que consideramos o mundo real recebem o seu sentido.Quanto à reflexão, ela nunca poderá ser transparente para si mesma, pois ela se dá em uma experiência. Se quisermos conhecer o sujeito da percepção, as outras pessoas e o próprio mundo, teremos de reconhecer a experiência como fonte e a última instância de nossos conhecimentos.

Experiência e racionalidade são indissociáveis para Merleau-Ponty. Para tornar-se clara a si mesma, a razão precisa ser vivenciada e depende da experiência do real. A racionalidade e o real ganham sentido pela experiência

É por aí que a razão se esclarece a si mesma, se retifica, prossegue seu diálogo consigo mesma e com outrem, diálogo que só se elucida na experiência. Se entendermos por experiência a comunicação de um sujeito finito com um ser opaco do qual ele emerge, mas no qual permanece engajado, o dilema desaparece. O filósofo deve, enfim, acompanhar a explicação causal, dar precisão ao seu sentido e colocá-la no seu lugar no conjunto da verdade. Vislumbra-se, então, a direção geral do projeto de MerleauPonty: fundir o empírico e o transcendental, experiência e razão.

 

Maurice MerleauPonty (19081961), filósofo fenomenologista francês, também abordou questões políticas, publicando ensaios marxistas. Sua teoria sobre o conhecimento tem por base o comportamento corporal e a percepção

A noção de determinação é de origem kantiana e significa subsumir uma coisa a um dos membros dos pares contraditórios, por exemplo, X pode ser ou vermelho ou não-vermelho: cada conteúdo da experiência tem de ser ou A ou não-A. Determinação é a postulação de um predicado que exclui seu oposto (cf. Crítica da razão pura, § 599). 2 Merleau-Ponty, M. Fenomenologia da percepção, trad. Carlos Alberto Ribeiro de Moura, São Paulo, Martins Fontes, 1996.

O primado da percepção e suas conseqüências filosóficas, trad., Constança M. César, São Paulo, Papirus, 1990, p.63-65. 6 Cf. Idem, Fenomenologia da percepção, op. cit., p.27-33.

“De Mauss à Claude Lévi-Strauss”, in Os pensadores, trad. Marilena Chaui, São Paulo, Abril Cultural, 1980, p.203.

retirado de http://portalcienciaevida.uol.com.br/esfi/Edicoes/31/artigo125272-3.asp

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