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Se você acredita que quem tenta enganar alguém sua frio e evita o olhar do interlocutor, surpreenda-se: esses estereótipos raramente são verdadeiros.

Para reconhecer mentiras

Se você
acredita que quem tenta enganar alguém sua frio e evita o olhar do
interlocutor, surpreenda-se: esses estereótipos raramente são
verdadeiros.

por Marc-André Reinhard

© roberto a sanchez/istockphoto

Como
podemos perceber se estamos sendo enganados? Existem sinais claros que
indicam uma mentira, algo que possa ser comparado à tão conhecida
metáfora ao nariz do Pinóquio que se tornava cada vez maior quando ele
ocultava a verdade? Infelizmente não. Durante muito tempo as pessoas
acreditaram que podiam identificar um mentiroso por comportamentos ou
sinais corporais – como coçar a cabeça com frequência; movimentar-se de
forma agitada ou ficar com as faces coradas. No entanto, um grupo de
pesquisadores coordenado pela psicóloga Bella M. DePaulo, da
Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, Estados Unidos, garante
que normalmente não é isso que acontece. Em 2003 ela já havia reunido e
analisado resultados de 120 estudos sobre os sintomas físicos que
acompanham mentiras. Conclusão: os estereótipos raramente são
verdadeiros; em geral, mentirosos não escorregam nervosos na cadeira,
nem evitam o contato visual de seu interlocutor.

Na verdade,
para a maioria das pessoas é realmente muito difícil discernir se uma
declaração é verdadeira ou falsa. Foi a essa conclusão a que chegaram
Bella e seu colega Charles F. Bond, da Universidade Cristã do Texas, em
2006, em, outro estudo sobre o tema. Para tanto, os dois pesquisadores
resumiram os resultados de 206 estudos sobre a cota de acertos em
julgamentos sobre credibilidade. No total, apenas 54 desses julgamentos
sobre a veracidade ou não de uma declaração estavam corretos, um valor
estatisticamente pouco significativo – que talvez pudesse ter sido
atingido também por meio de pura adivinhação. Mas convém levar em conta
que, na média, os sujeitos reconheceram mais frequentemente afirmações
verdadeiras do que mentiras. No entanto, há estratégias com as quais as
enganações podem ser descobertas com alguma margem de segurança.

Tomando
por base os estudos levantados por Bond e Bella, pesquisadores da mesma
equipe compararam diversos canais sensoriais. Ao analisar os resultados
dos exames, os estudiosos chegaram à conclusão de que sinais acústicos
ajudam mais a reconhecer engodos que visuais: nos experimentos, os
sujeitos podiam diferenciar de forma mais nítida as mentiras quando
ouviam a declaração duvidosa com atenção, em vez de observar o falante,
à procura de sinais reveladores.


© stester/shutterstock
Para
reconhecer engodos, sinais acústicos são mais eficazes que informações
visuais: as pessoas costumam diferenciar de forma mais nítida as
mentiras quando ouvem a declaração duvidosa com atenção, em vez de
observar o outro

Se
os participantes assistiam a um vídeo sem som, a cota de acertos eram
apenas aqueles 50%, obtidos também por adivinhação. Mas se durante a
exibição das imagens eram apresentadas as vozes correspondentes, a cota
de acerto de seus julgamentos aumentava para 54%. Mais uma vez, nada
assombroso, mas de qualquer forma, havia uma alteração estatística. O
que de fato surpreendeu os pesquisadores foi que o resultado não foi
pior quando somente o som foi apresentado sem imagem. Ou seja: quem se
concentra apenas no comportamento não verbal do outro reduz suas
chances de desmascarar um mentiroso. Aparentemente, nossos olhos se
deixam enganar mais facilmente e, no final das contas, contribuem pouco
para a descoberta de afirmações falsas.

Por isso, vale a pena
prestar atenção principalmente no que uma pessoa diz, ficando alerta,
por exemplo, para possíveis contradições. Especialistas afirmam que os
mentirosos contumazes são, em geral, pouco plausíveis e lógicos. Além
disso, raramente admitem que tenham de corrigir sua descrição ou que
não consigam se lembrar de algo – para “encobrir os brancos da memória”
eles simplesmente inventam informações. Se a pessoa ainda parece
nervosa e fala em tom mais alto do que o de costume, então devemos ter
cuidado: ela tem grandes possibilidades de estar mentido. Os estudos
avaliados por Bond e Bella também revelaram que vários participantes
conseguiram reconhecer as declarações falsas de forma mais clara quando
o mentiroso foi pego de surpresa e não teve tempo de planejar o que
diria. Por isso, cobrar explicações imediatas pode desmascarar um
potencial discípulo do Barão de Münchhausen.

Na opinião do
psicólogo Aldert Vrij, pesquisador da Universidade Britânica de
Portsmouth, uma boa estratégia é fazer a pessoa da qual desconfiamos
que esteja mentindo falar o máximo possível. Nesse momento ela precisa
pensar rapidamente e corre o risco de contradizer-se. E quanto mais ela
falar, mais difícil será para ela controlar tanto o conteúdo do que diz
quanto o próprio comportamento. Portanto, pedir para que repita trechos
do que foi dito também costuma ser eficaz para detectar brechas nos
discursos. “Essa técnica de interrogatório, muito conhecida de romances
e filmes policiais, revela-se, de fato, sensata”, observa Vrij.

No entanto, os
defensores da lei não são fundamentalmente melhores em detectar
mentirosos. Juízes e psiquiatras, aos quais é comum atribuirmos,
intuitivamente, uma capacidade de detecção de mentiras acima da média,
tampouco obtiveram melhores cotas de acerto nos testes, segundo Bond e
Bella. Da mesma forma, não há diferença entre homens
e mulheres,
descobriu o psicólogo Mike Aamodt da Universidade Radford, estado da
Virgínia, Estados Unidos, ao realizar outra análise, em 2006. Além
disso, a idade e o grau de instrução de uma pessoa pouco influenciam
sua capacidade como detector humano de mentiras.

VANTAGEM DA INSEGURANÇA
Junto
com o psicólogo Patrick Müller, da Universidade de Utrecht, na Holanda,
investiguei em 2008 outra hipótese, elaborada com base em pesquisas
antigas: como a insegurança emocional leva as pessoas a ficar mais
atentas ao outro e a prestar mais atenção ao conteúdo de suas
afirmações, ela poderia ajudar a diferenciar mentiras e verdades. Com a
ajuda de um questionário, inicialmente registramos o grau de
insegurança emocional individual de 600 voluntários. Em seguida, cada
um assistiu a um vídeo com oito relatos de pessoas que descreviam como
tinha sido para elas enfrentar a prova para obtenção da habilitação
como motorista. Mas havia um porém: apenas a metade dos relatos era
verdadeira, as outras pessoas ainda não tinham carteira de habilitação
nem vivido a experiência de passar pela prova.

Realmente, quanto
mais inseguros emocionalmente os participantes se sentiam, melhor
puderam reconhecer os falsos relatos. A fim de demonstrar que a
insegurança era mesmo o motivo dessa capacidade, e não apenas um efeito
colateral, realizamos um segundo experimento, no qual elevamos a
insegurança artificialmente. Para isso, pedimos a uma parte dos
sujeitos de nossa pesquisa que respondesse a duas questões: “Você é
acometido de que emoções quando pensa em assistir televisão? Como você
se sente fisicamente quando assiste à televisão?”. Essas perguntas não
têm nenhuma relação com insegurança e, portanto, não poderiam
influenciá-los. O verdadeiro grupo-teste foi objetivamente manipulado:
“Você é acometido por quais emoções quando se sente inseguro? Como você
se sente fisicamente quanto está inseguro?”. Um questionário aplicado
em seguida aos participantes do experimento comprovava: depois de
responder a essas duas perguntas – que evocavam determinadas emoções –,
os sujeitos se sentiam, em geral, mais inseguros que os membros do
grupo de controle.

Em seguida, todos
os participantes assistiram a duas sequências de vídeo, nas quais as
pessoas falavam sobre filmes que apreciavam muito ou que não gostaram
nem um pouco. Os sujeitos do grupo manipulado – ou seja, os que estavam
mais inseguros – diferenciaram melhor entre relatos verdadeiros e
falsos: eles classificaram corretamente, em média, 58% dos depoimentos.
Os integrantes do grupo de controle, por sua vez, tiveram uma cota de
acerto de apenas 50% – mais uma vez idêntica à esperada ao acaso.

Portanto,
convém evitar o excesso de confiança quando tentar desmascarar um
mentiroso. Afinal, não é novidade que quem acredita já saber uma
resposta procura apenas por indícios que a comprovem –
independentemente de sua veracidade. E, por fim: se tiver de admitir
que foi enganado por alguém, não fique muito chateado. Talvez seja um
consolo saber que outras pessoas também passam por isso, como mostrou
outro estudo publicado pelos psicólogos Bond e DePaulo em 2008. Segundo
eles, os indivíduos pouco se diferenciam em sua habilidade de
reconhecer invencionices – a maioria de nós é um verdadeiro fracasso
como detector de mentira. Já a amplitude da capacidade individual de
contar inverdades é maior, de forma inversamente proporcional. O
espectro vai do perfeito enganador até o Pinóquio humano, no qual se
percebe uma mentira mesmo a 10 metros de distância. Conclusão: para
desmascarar alguém, dependemos menos de nossa própria capacidade – e
quase exclusivamente da habilidade do outro de esconder a verdade.


As incríveis histórias do Barão de Münchhausen

barão münchhausen voando com os patos, litografia, c. 1896, gottfried franz

Os
relatos das aventuras do militar e proprietário de terras Karl
Friedrich Hieronymus von Münchhausen (1720-1797), serviram de base para
a série As Aventuras do Barão de Münchhausen, histórias fantásticas e
exageradas, voltadas para o público infanto-juvenil, compiladas por
Rudolph Erich Raspe e publicadas em Londres em 1785. Nascido em
Bodenwerder, Alemanha, o barão futuro foi pajem de Anthony Ulrich II,
Duque de Brunswick-Lüneburg, e mais tarde entrou para o exército russo.
Serviu até 1750, participando de duas campanhas contra os turcos. Ao
retornar para casa, começou a espalhar várias histórias sobre suas
aventuras. Os feitos incríveis incluíam viagens em bolas de canhão,
jornadas para a Lua e a fuga de um pântano ao puxar a si mesmo pelos
próprios cabelos (ou pelo cadarço das botas, dependendo da versão).
Suas peripécias, que confundem mito e realidade, inspiraram inúmeros
autores e preencheram o imaginário de gerações ao longo de mais de dois
séculos. (Da redação)

Marc-André Reinhard é doutor em psicologia social e pesquisador da Universidade de Mannheim, na Alemanha.

retirado de http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/para_reconhecer_mentiras_5.html

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