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A fundamentação Oriental da Filosofa ocidental – Na Antiguidade ou em tempos mais recentes, muitos filósofos ocidentais contruíram seus sistemas de pensamento baseadis em ideias vidas do Oriente

A fundamentação Oriental da Filosofa
ocidental

Na Antiguidade ou em tempos mais
recentes, muitos filósofos ocidentais contruíram seus sistemas de
pensamento baseadis em ideias vidas do Oriente


Por Alexey Dodsworth


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Não é nada incomum – ao contrário, é extremamente
corriqueiro – que nos deparemos com o termo "filosofia" sendo
utilizado dentro de um sentido que foge completamente ao
acadêmico. Falamos em "filosofia de vida" como forma de referência
às nossas crenças particulares, às coisas que acreditamos como sendo
certas ou erradas. Dizemos frases tais quais "a minha filosofia de
vida", ou "segundo a filosofia da minha avó" e mal nos apercebemos do
fato de que, mesmo quando dizemos detestar as abstrações da Filosofia,
isso ainda assim é um tipo de pensamento filosófico. Olhando por este
lado, é natural considerar que a maioria dos seres humanos em várias
culturas pensa, reflete, pondera e chama a todos estes procedimentos
de "Filosofia".

Academicamente falando, a coisa é um tanto diferente. Em
primeiro lugar, ninguém se torna filósofo por se formar numa
faculdade, por mais bem reputada que ela seja e por melhores que sejam
as notas no histórico escolar. São raros os indivíduos que construíram
um pensamento criterioso e original e que podem ser reconhecidos
academicamente como sendo "filósofos". Ou seja: quando falamos em
"filosofia de vida", não estamos nos referindo ao pensar
criterioso que constitui o procedimento filosófico. Afinal, nem
sempre a tal "filosofia de vida" deriva de um pensamento criterioso,
podendo ser mera repetição de um hábito mental ou emocional que
nada tem de amor à verdade. Pode ser apenas um condicionamento
que nada tem de reflexivo.

Alexey Dodsworth
é bacharel em Filosofa pela USJT, graduando em
Astronomia pela USP e membro da MENSA

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Alexandre, o Grande, no templo de
Jerusalém. O rei da Macedônia teria enviado Pirro de Elias, pai do
ceticismo, à Índia para que estudasse com os sábios indianos e trouxesse
a doutrina destes para o Ocidente

Deste modo, há o emprego do termo num sentido coloquial e o
emprego do mesmo termo num sentido acadêmico.

Vemos também a palavra "filosofia" ser continuamente utilizada em
outro contexto, em que seria mais válido, stricto sensu,
falarmos em "Teosofia". Há uma substancial diferença entre uma coisa e
outra, muito embora não caiba aqui um juízo de valor que estabeleça a
Filosofia como sendo superior à Teosofia, ou vice-versa. Estabelecer a
diferença não envolve criar uma competição que vise a aferir o que é
melhor ou pior, vale salientar. Ao contrário: estabelecer a diferença é
uma forma de valorizar o que cada saber tem a oferecer.

FILOSOFIA E TEOSOFIA

Aristóteles, em sua Metafísica, afirma que Tales de
Mileto e seus discípulos foram os primeiros filósofos. Isso não
significa que antes de Tales ninguém refletisse ou ponderasse, e não
significa que não houvesse uma literatura rica em mensagens de sabedoria
antes dos gregos. Obras clássicas e muito mais antigas do que a Bíblia,
como os Vedas (livros sagrados da Índia) estão repletas de
mensagens de sabedoria às quais muitos se referem como sendo "Filosofia
oriental". Todavia, há uma imensa diferença entre as verdades reveladas à
nossa disposição oferecidas pela Bíblia, pelos Vedas ou pelo
Alcorão e a obra filosófica que nos foi legada por Platão, Espinosa,
Deleuze ou Kant. No caso dos ditos livros sagrados, o saber disponível
ali foi supostamente revelado por Deus, utilizando agentes humanos como
escribas, constituindo, portanto, obras teosóficas (do grego theos,
"Deus" e sophos, "sabedoria", ou "sabedoria divina").
Totalmente diferente é o legado do pensamento de Kant, ou de David Hume,
do próprio Aristóteles, etc. Nenhum desses homens alega ter recebido
uma visão divina. Seus escritos derivam de suas próprias mentes, das
reflexões que teceram a partir do confronto com o mundo circundante ou
mesmo do confronto com obras filosóficas passadas. A isso chamaríamos de
Filosofia: o pensar criterioso que surge como o resultado de um
trabalho da mente humana. E, por mais criterioso que seja este pensar
humano, ele se submete a contestações. O mesmo não se dá com o saber
proveniente da Teosofia, mesmo que ela seja milenar como a oferecida
pelos Vedas. Relacionar-se com os Vedas exige entrega
total, é um ato de fé em que não cabem questionamentos da mente humana,
considerada por demais falível. Seria preciso – segundo o pensamento
védico – um ato de total confiança e entrega para que Deus se revelasse
e, com ele, toda a Verdade com "V maiúsculo". Note-se que tal condição
não é nada diferente daquela preconizada por Santo Agostinho que, muito
depois dos Vedas, evoca a mesma entrega incondicional às
verdades bíblicas.


ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Krishna com Radha.São três os
principais deuses hindus: Vishnu, Shiva e Brahma. Krishna é considerado a
oitava encarnação de Vishnu, deus responsável pela manutenção do
universo

Assumindo tal distinção como válida, nota-se a incoerência de
chamar os Vedas de "obra capital da Filosofia hindu".
Referir-se aos Vedas como "Filosofia oriental" seria
diminuí-lo, já que ele se trata de uma suposta revelação divina. E se
considerarmos que tal revelação seja possível, como dizer que se trata
de mera Filosofia algo que foi revelado por Deus em pessoa? Mais
adequado seria se nos referíssemos aos Vedas como um livro
teosófico, por se tratar da sabedoria de Deus.

A Filosofia, ao contrário, pertence ao terreno da mera e bela
humanidade. Para alguns adeptos da crença em Deus, a Filosofia seria
efetivamente algo menor, consistiria no exercício mental de humanos
falíveis em busca da verdade. A Teosofia, em contrapartida,
pretende revelar uma verdade que já foi encontrada. Mas, para
um descrente, obras como os Vedas ou a Bíblia seriam
interessantes apenas a partir de um ponto de vista cultural, não
consistiriam a verdade revelada, mas tão somente uma interpretação
cultural da verdade, verticalmente estabelecida (ou seja, pelos
sacerdotes de uma época).

Ainda no terreno das diferenças entre a Filosofia e a Teosofia,
podemos dizer que Kant é perfeitamente passível de contestação. Não
faltam obras que contradizem Aristóteles. Não é nada difícil demonstrar
que Aristóteles estava VIDAerrado em pelo menos um dos seus pensamentos
ao achar que os planetas eram globos de éter. Mas como contestar a lei
da reencarnação, onipresente em toda obra tradicional da cultura do
Oriente? Se a lei da reencarnação surge como uma verdade revelada, tal
verdade é indemonstrável, não importa quanta retórica utilizemos para
sugerir que é "óbvio e evidente" que nossas almas transmigram de um
corpo para outro. Se Espinosa afirma em sua obra filosófica que "quanto
mais intenso é o amor, mais intenso será o ódio quando o amor acabar",
isso é passível de discussão, confirmação ou mesmo contestação com
exemplos. Espinosa não é Deus, nem pretende sê-lo.

"A crença forte só prova a sua força, não a verdade
daquilo em que se crê"
NIETZSCHE

Mas se assumirmos como verdadeira (e não como metáfora) a
afirmação presente no Vedanta Sutra (obra suplementar dos Vedas)
de que aquilo que vemos como sendo a Lua é apenas o aspecto ilusório de
um planeta habitado por semideuses da cultura indiana, cuja verdadeira
visão está obliterada aos olhos mortais, não há como discutir tal coisa.
Podemos apontar todos os telescópios da Terra para a Lua e
fotografarmos um deserto árido, e ainda assim nos depararemos com o
argumento do seguidor do Vedanta que nos dirá: o deserto é uma
ilusão. A Lua é um planeta habitado. A crença numa verdade revelada é
superior a toda e qualquer evidência. Entretanto, quem considerar isso
como uma tolice supersticiosa há de lembrar que o Ocidente também produz
suas (muitas) verdades reveladas: a maioria de nós crê piamente que um
determinado homem nasceu de uma mulher que não fez sexo, sendo ele
também capaz de metamorfosear a água em vinho, andar sobre as águas e
ressuscitar os mortos. Nenhuma dessas capacidades é demonstrável e,
assim, que diferença faz se uma cultura crê que existam deuses habitando
a Lua ou um deus que tenha caminhado entre nós?

"Um grão de Filosofia dispõe ao ateísmo; muita Filosofia
reconduz à religião"
PLATÃO




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Alcorão, livro sagrado do islamismo.
O saber contido nos livros religiosos é supostamente uma revelação
divina, ao contrário do saber filosófico, produto do raciocínio humano

O fato é que, a despeito de alguns gostarem disso e outros nem
tanto, o pensamento mítico jamais nos abandonou nem no Oriente, nem no
"científico" Ocidente. Alguns filósofos, em especial, deram grande
atenção e valor ao pensamento mítico, considerado não como "inferior" ao
racional pensamento filosófico, mas como outra forma de pensar.
Destaquemos dois desses filósofos: Nietzsche e Schopenhauer. Este foi
especialmente dedicado a uma abordagem filosófica do que surge como
verdade revelada no pensamento indiano. Em verdade, podemos afirmar que
Schopenhauer foi o primeiro filósofo ocidental a revelar abertura em
relação às ideias da espiritualidade oriental, com espetacular atenção
dada ao Budismo e ao Hinduísmo. E tal abertura foi, muito provavelmente,
uma das razões para a falta de valorização em relação à sua obra, já
que o meio acadêmico ocidental sempre demonstrou certo preconceito em
relação aos conhecimentos do Oriente. De fato, Schopenhauer foi
ostracizado em vida por conta de suas afinidades orientalistas.

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Telescópio espacial Hubble. Verdades
reveladas fogem a qualquer contestação lógica. A Ciência, com
telescópios que investigam o céu e obtêm evidências, nada vale diante da
crença.

Sustentando a tese fenomenista, Schopenhauer argumenta que toda a
realidade em torno de nós não passa de representação mental, contudo,
tão convincente que cremos nela com toda força. Os Vedas – obra
que era do profundo conhecimento de Schopenhauer – dizem exatamente a
mesma coisa: o que chamamos de realidade nada mais é do que uma ilusão
da mente. Schopenhauer pergunta: "(…) existe um critério seguro para
distinguir sonho e realidade?". A esta questão, o próprio filósofo dá
sua resposta, alegando que de nada adianta aferirmos à realidade um grau
maior de vivacidade do que ao sonho, posto que quando sonhamos tudo
aquilo é extremamente real. Deste modo, para Schopenhauer seria
totalmente impossível afirmar com certeza que a realidade é tão real
quanto se diz. O verdadeiro aspecto das coisas estaria além do alcance
de nossa mente limitada. Em sua obra mais famosa, intitulada O mundo
como vontade e representação
, Schopenhauer denuncia: espaço, tempo
e os princípios da causa e efeito condicionam todo conhecimento e,
deste modo, jamais nenhum filósofo conhecerá a Verdade, mas tão somente
aspectos e representações desta.

RELEITURA DOS VEDAS

A tese de Schopenhauer se trata de uma releitura da tese
fundamental dos Vedas: tudo o que sabemos sobre o mundo e o
universo é apenas ilusão, fantasia. Todo e qualquer conhecimento é uma
construção mental que justifica a si mesma e, deste modo, até a Ciência
positivista seria apenas um sistema de crenças que só é mais persuasivo
por ser o sistema dominante e vencedor. Muitos anos depois, o filósofo
das Ciências Paul Feyerabend fez a mesma denúncia em sua obra capital Contra
o método
, ao afirmar que a Ciência é apenas uma interpretação
válida da realidade, e não a interpretação única. Todas as nossas mais
profundas convicções seriam sempre subjetivas e qualquer desejo de
objetividade seria pura pretensão autoilusória, até mesmo no campo
científico, ainda que tudo nos pareça muitíssimo real.

Vedas é o nome que
recebem os quatro textos escritos em sânscrito que formam a base do
extenso sistema de escrituras sagradas do hinduísmo.
Contêm, por exemplo, hinos, orações, mágicas e rituais. Como
mais antiga literatura de qualquer língua indo-europeia, é importante no
estudo dessa linguística e da história antiga indiana.

Saber disso nos ajuda a viver? Algumas pessoas, a partir de tais
reflexões, podem afundar no mais crônico niilismo, tornando-se
indiferentes à vida, uma vez que ela não passaria de ilusão. Muitas
outras mergulham em profunda religiosidade, partindo do pressuposto de
que se a Filosofia não passa de uma criadora de representações
ilusórias, os livros tradicionais das religiões antigas (a Teosofia)
contêm a verdade revelada que só pode ser alcançada a partir do caminho
devocional – a fé em sua acepção mais pura. E para tantas outras, ainda
que tudo seja ilusório, devemos viver a partir dos limites legítimos de
nossa compreensão, e um "salto de fé" não garante absolutamente nada,
podendo ser tão ilusório quanto qualquer coisa. E, assim sendo, ainda
que a Ciência seja limitada, ela pelo menos é algo que temos como
"nosso". Cada um de nós se identificará com uma trilha mais do que
outra, e talvez até mesmo com outras não aventadas neste parágrafo.


ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Schopenhauer
(1788-1860), filósofo alemão, encontrou afinidades com a espiritualidade
oriental, promovendo ideias presentes nas Vedas, textos
sagrados do hinduísmo

A INFLUÊNCIA ORIENTAL

Schopenhauer foi o primeiro filósofo ocidental a admitir
abertamente ter bebido da fonte da sabedoria oriental. Mas terá sido um
caso único? Ao que tudo indica, não.

Embora o conjunto das mais famosas correntes orientais do
pensamento tenda realmente para as verdades reveladas próprias da
Teosofia, diversos estudiosos defendem que a Filosofia grega bebeu
diretamente da fonte do pensamento oriental. Esta ideia ganhou
intensidade no século XIX, e dois dos principais entusiastas da suposta
interação entre estas duas culturas foram Karl Wilhelm Friedrich von
Schlegel (1772-1829) e Georg Friedrich Creuzer (1771-1858). Ambos
identificaram tamanho número de coincidências entre as sabedorias
oriental e ocidental que não havia como deixar de pensar numa provável
influência principalmente de chineses e indianos em alguns dos mais
famosos filósofos da história – o próprio Platão estaria entre os
"influenciados".

É preciso, neste ponto, que assumamos uma postura crítica e
prudente. O excesso de empolgação e de simpatia pela cultura oriental
faz muitas pessoas verem ligações que não existem, forçando
interligações onde simplesmente não há. Em contrapartida, uma postura
preconceituosa e xenofóbica em relação às culturas orientais, tidas
erroneamente como "supersticiosas" também não conduz a um melhor
entendimento dos fatos. Ambas as posturas, por serem extremas, se
equivocam. Os gregos não foram simples copistas da sabedoria oriental,
mas também não há como negar completamente a influência direta da Índia,
por exemplo, sobre algumas correntes filosóficas ocidentais.

Tomemos o caso do ceticismo pirrônico como exemplo ilustrativo. A
influência direta de pensadores indianos sobre Pirro de Elis, pai do
ceticismo, é amplamente documentada, trata-se de fato notório. Pirro não
inventou nada de novo. Ele, na verdade, transportou para o Ocidente um
sistema filosófico que estudou por dez anos quando morou na Índia, a
pedido do próprio Alexandre Magno. Este fato histórico tende a soar
chocante para aqueles que, por puro desconhecimento da história da
Índia, pensam naquele país como sendo um lugar atrasado e supersticioso.
Imaginar que justo o ceticismo nasceu na Índia pode parecer obra de
ficção – mas não é. Para melhor compreendermos como isso se deu, é
importante explicar alguns pontos fundamentais da cultura indiana, assim
como aspectos da sua história.

CONCEITOS
DO CETICISMO PIRRÔNICO

Um dos conceitos mais apregoados no ceticismo
pirrônico é o da acatalepsia, ou seja, a impossibilidade humana para o
conhecimento da real natureza das coisas. Uma vez que toda e qualquer
verdade pode ser contradita por outra verdade de igual força
argumentativa, seria necessário cultivar uma atitude de suspensão
intelectual, chamada epoché.

De acordo com Timon, discípulo de Pirro, a epoché
seria uma condição na qual nada pode ser afirmado ou negado
absolutamente. Deste modo, a única atitude adequada diante da vida seria
a ataraxia, ou tranquilidade absoluta passível de ser atingida apenas
por aquele que, em profunda meditação, torna-se refratário às ilusões
dos sentidos.





ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Lázaro sai de
sua tumba
, por Juan de Flandes.Milagres bíblicos
são exemplos de verdades reveladas. Elas estão ligadas a crenças e não
carecem de demonstração de possibilidade

Mesmo na época de Pirro, a população indiana se dividia em cinco
grupos: os brâmanes, pertencentes a uma classe elevada, tidos
como os sábios; os kchatryas, ou guerreiros; os vaisyas,
comerciantes; os sudras, ou servos; e havia também os dalits,
o grupo dos intocáveis, impuros ou párias, na verdade nascidos sem
casta alguma e a quem se reservavam os trabalhos ditos "imundos", como
coletar lixo e cuidar de cadáveres. Ainda hoje existem dalits
na Índia, alguns inclusive vêm ao Brasil tentar vida nova e encontram
grande dificuldade de adaptação, por não estarem acostumados a serem
tratados como iguais por outros seres humanos.

Mas eis que alguns brâmanes se rebelaram contra este
sistema de castas – fato deveras interessante, uma vez que num dos raros
momentos da história da humanidade quem se rebela não são os
inferiores, e sim os pertencentes a uma classe tida como "superior",
rejeitando este tipo de divisão entre as pessoas. Rompendo com este
paradigma sociológico, alguns dos venerados sábios hindus abdicaram de
todo o luxo e adoração que recebiam para vagar pela Índia como ascetas,
vivendo como mendigos e meditando totalmente nus ao relento, sob frio e
calor intensos. Ao conhecê-los, Alexandre Magno chamou-os de
gimnosofistas, termo que em grego significa "sábios do corpo".
Discordando totalmente da ideia de predestinação e de que os homens
nasceram para viver em castas preestabelecidas, os gimnosofistas também
consideravam os deuses hindus como oriundos da imaginação humana, e não
como entes reais.

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Brahma, uma das principais
divindades do hinduísmo. Seus quatro filhos teriam originado as quatro
castas sociais indianas

Entre os gimnosofistas, merece especial destaque aquele que se
tornou o mais famoso de todos: Siddhartha Gautama, mais conhecido como
"Buda", no século VI a.C.. Gautama era um príncipe, filho do rei
Suddhodana. Ao vislumbrar a miséria que havia fora do palácio, por volta
dos 29 anos de idade, Gautama abdicou da vida principesca e se uniu aos
gimnosofistas, a fim de buscar a sabedoria. Durante seis anos, Gautama
viveu como um gimnosofista: seminu, jejuando e meditando, aplicando ao
máximo a extrema disciplina que caracterizava este grupo de ex-brâmanes.
Certo dia, porém, Gautama disse ter encontrado a iluminação ao meditar
debaixo de uma figueira e passou a ser chamado de "Buda" (do sânscrito
"o iluminado"). Tornando-se um poderoso e influente guia espiritual,
Gautama abandonou os gimnosofistas e em torno dele foi criada uma das
mais tradicionais religiões do mundo. Note-se que, ao dizer ter
descoberto a verdade, Gautama rompeu não apenas fisicamente com os
gimnosofistas, mas também se desligou da proposta do grupo. A ideia de
uma verdade universal estava totalmente em desacordo com a linha de
pensamento dos ex-brâmanes, céticos que eram. Em verdade, não havia um
grupo homogêneo que pudéssemos chamar de "gimnosofistas". O que havia
era uma série de tribos específicas que possuíam traços similares – eram
ex-brâmanes, não veneravam deuses, etc. Entre esses grupos, alguns se
destacam como sendo muitíssimo similares às correntes filosóficas gregas
que surgiram depois: os purana kashyapa, por exemplo,
defendiam que a matéria era composta por partículas muito pequenas e
sustentavam a existência do vácuo, muito antes de Demócrito. Os lokayata
eram assumidamente ateus, e negavam veementemente a existência de
deuses. E os amaravikhepika são justamente a fonte de onde
muito provavelmente Pirro bebeu para criar seu famoso ceticismo. Para os
amaravikhepika, não é possível afirmar nem negar absolutamente
nada, pois a verdade não pode ser conhecida, nem mesmo pelo uso dos
nossos sentidos, que são enganadores. Por sermos escravos de nossas
crenças, o ato de duvidar seria libertador. A dúvida contínua e
sistemática seria a única forma honesta de vivermos. Imperturbáveis, os amaravikhepika
estavam tão convencidos de que a realidade era uma ilusão que não se
rendiam à dor, ao frio ou ao calor, tampouco à fome ou à sede. Os
faquires até hoje se valem de técnicas e de uma disciplina que vêm desta
herança metodológico-meditativa criada pelos gimnosofistas.

"Há
muitas razões para duvidar e uma só para crer"
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE





ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Um faquir em
Benares
, foto de Herbert Ponting (1907). Gimnosofistas,
sábios hindus que se rebelaram contra as castas, formaram grupos, entre
eles, os amaravikhepika, que consideravam a realidade uma
ilusão – foi de onde Pirro provavelmente tirou subsídios para criar o
ceticismo. Eles não se abalavam com dor, frio ou fome e suas técnicas
são utilizadas até hoje pelos faquires

A documentação histórica da influência oriental na construção do
ceticismo pirrônico é feita por Diógenes Laércio, ao reportar que Pirro
de Elis estudou por dez anos com os sábios indianos enquanto viajava
pela Índia com Alexandre Magno. Ao retornar à Grécia, Pirro passou a ter
um estilo de vida condizente com o de seus mestres gimnosofistas, e era
tido como tão sábio e disciplinado que conquistou o amor dos
atenienses, assim como deles recebeu uma oferta de cidadania. Note-se
que, em profunda afinidade com os hábitos dos gimnosofistas, Pirro nada
escreveu – a palavra escrita era considerada apenas uma forma de criar
novos livros carregados de "pretensão da verdade". Deste modo, a
doutrina cético-pirrônica é conhecida pelos escritos de um pupilo de
Pirro, chamado "Timon, o silógrafo".

Esses sábios indianos tinham comportamento iconoclástico e não se
impressionavam com autoridade alguma. Conta-se que Alexandre Magno,
impressionado com a sabedoria desses gimnosofistas, lhes propôs uma vida
cheia de regalias na Grécia. Totalmente desinteressados, os
gimnosofistas chegaram a ser ameaçados por Alexandre, e demonstraram
absoluto desprezo diante da possibilidade da morte, chegando a escrever
como resposta: "(…) tu, chamado Alexandre, podes remover nossos corpos
de um lugar para outro, mas não podes forçar nossas mentes a fazer o
que não estão dispostas a fazer, não mais do que podes tu fazer falar às
pedras e às árvores. Um grande incêndio causa dor ardente em corpos
vivos e os destrói; nós, porém, estamos acima disso, pois somos
queimados vivos e não ligamos. Nenhum rei ou príncipe pode nos
chantagear a fazer o que não nos determinamos a fazer. Tampouco somos
como os filósofos da Grécia, que estudaram palavras em vez de atitudes, a
fim de angariarem para si nome e reputação. (…) Gozamos de uma
bem-aventurada liberdade na virtude." Restou a Alexandre, enfim,
concordar com a utilização de Pirro de Elis como aprendiz dos
gimnosofistas como forma de transportar a doutrina desses homens para o
Ocidente. Terá sido este um caso único? Muitos pesquisadores apostam
numa influência oriental sobre Sócrates e Platão, mas nada foi tão bem
documentado e descrito como o caso do ceticismo de Pirro de Elis. O
resto é apenas especulação. E embora muito se especule –
fantasiosamente, em grande parte das vezes – para a maioria dos
estudiosos da cultura oriental é fato incontestável que a Filosofia deve
muito de seu saber às fontes misteriosas, míticas e notáveis do Oriente
antigo.

ART RENEWALL INTERNATIONAL
O sonho de Elijahs,
de Philippe De Champaigne. Schopenhauer, assim como os Vedas
(textos sagrados do hinduísmo), afirma que a realidade é uma ilusão, uma
representação criada pela mente. A realidade não teria maior vivacidade
do que o sonho

Para Radha Vitória, que escolheu o caminho da fé e da
devoção, com gratidão pelos conhecimentos generosamente partilhados e
contidos neste artigo.

Retirado de http://portalcienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/39/artigo152430-1.asp

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