Don't Worry Be Happy!!!

Reflexos do auto-amor em excesso – O narcisismo parece estar em alta nos consultórios. A obsessão pelo padrão ideal de beleza é apenas um dos indícios de que ele está a nossa volta; outro é a manifestação agressiva a fim de reforçar a auto-imagem

Reflexos do auto-amor em excesso
O narcisismo parece estar em alta nos consultórios. A
obsessão pelo padrão ideal de beleza é apenas um dos indícios de que ele
está a nossa volta; outro é a manifestação agressiva a fim de reforçar a
auto-imagem


Por Agência Notisa de
Jornalismo Científico


Culto ao
corpo, obsessão por magreza, consumismo. Práticas correntes na
contemporaneidade, mas, ao mesmo tempo, com um pé na Grécia Antiga, mais
precisamente no mito de Narciso – filho do deus-rio Cefiso e da ninfa
Liríope – que, fascinado pelo reflexo de sua imagem na lagoa de Eco,
permanece em sua margem admirando-se até definhar e morrer, nascendo ali
uma bela flor. Se na lenda, o personagem morre por alimentar-se apenas
de si mesmo, atualmente muitos continuam pecando pelos exageros e se
consomem de suas inquietudes e carências em torno da auto-estima. Para
lidar com o problema, uma das saídas é pedir auxílio aos profissionais
de saúde mental.

Na opinião de Maria de Fátima Vieira Severiano, professora do
Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará e autora do
livro Narcisismo e Publicidade: uma análise psicossocial dos ideais
do consumo na contemporaneidade
, estas compulsões estão intimamente
relacionadas ao comportamento narcisista. “Em todas as atividades
voltadas para a busca de um padrão de beleza, há sempre um apelo
psicológico, que diz respeito às carências humanas, às fontes de
sofrimento humanas estruturais concernentes aos sentimentos de
impotência diante da natureza, da decrepitude do corpo e do outro",
lembra a professora, recorrendo às idéias de Freud.

COMPRO, LOGO EXISTO

SHUTTERSTOCK
Consumo sem
fim: produtos, carregam consigo ilusão de poder, sensualidade,
reconhecimento social, segurança

Um dos exemplos mais claros deste apelo psicológico a que Maria
de Fátima se refere são as campanhas de publicidade que, segundo a
psicóloga, associam a compra do produto à mitigação dessas fontes de
sofrimento e incertezas. Para exemplificar seu parecer, a psicóloga cita
a infinidade de produtos cosméticos, dietas light e diet, além
das complexas cirurgias plásticas que visam retardar os efeitos da
velhice. "Essas novas tecnologias buscam auferir poder e onipotência ao
homem diante das forças da natureza. Há uma série de objetos e serviços
de consumo que são veiculados pela publicidade com o apelo de facilitar a
relação com o outro, promovendo aceitação social e reconhecimento",
afirma.

Segundo a especialista, ao associar atributos subjetivos ao
produto – tais como poder, sensualidade, reconhecimento social,
segurança e sentimento de pertença –, a publicidade passa ao consumidor a
idéia de que, ao adquiri-lo, ele comprará também esses atributos
subjetivos associados ao objeto. Levando esta idéia em consideração,
Maria de Fátima se refere à atual lógica do consumo como uma produtora
de subjetividades. "O produto não mais é veiculado em seu valor de uso
ou funcionalidade, mas preponderantemente em seu valor como signo, no
qual são enaltecidos os valores desejáveis que envolvem a mercadoria, e
não mais suas propriedades materiais".

A psicóloga ressalta, entretanto, que esta promessa de completude
por meio da aquisição de um bem material nunca é cumprida. "Esse perfil
ideal apresentado pela mídia é inatingível, pois, de acordo com Freud, o
desejo nunca se realiza em sua totalidade. Além disso, a plenitude é
inalcançável na medida em que esses objetos são efêmeros, sempre
sujeitos a renovações e substituições", lembra.

Narcisismo: do conceito à clínica
Por Sergio Nick

O narcisismo pode ser
definido como o amor que se tem a si mesmo. Na Psicanálise, desde Freud,
refere-se aos investimentos no próprio Eu (ego) e se opõe aos
investimentos nos outros (objetos). Espera-se que todos possam ter um
balanço equilibrado de investimentos pulsionais no eu e nos objetos,
ensejando assim uma personalidade robusta, capaz de ter uma boa
auto-estima e um bom relacionamento com o mundo que o cerca.

SHUTTERSTOCK
Para
Freud, o indivíduo sairia do auto-erotismo por meio da diferença do eu
versus não-eu

Ovídio, na terceira parte de
Metamorfoses, conta a lenda de Narciso: "Filho do deus Céfiso, protetor
do rio Céfiso, e da ninfa Liríope, ele era de uma beleza ímpar, vindo a
despertar o amor de muitas ninfas. Eco, ao ver-se repelida por Narciso,
implorou à deusa Nêmesis que a vingasse. É então que Narciso, ao ver seu
rosto refletido numa poça de água, fica fascinado pela imagem de si
próprio, que supõe ser de outro. Paralisado, vê-se impedido de desviar
seu olhar daquela imagem maravilhosa. Arrebatado de paixão, ele tenta
abraçar essa imagem, que teima em desaparecer diante de seu gesto.
Diante da impossibilidade de realizar esse desejo, Narciso acaba por
entender que está apaixonado por si próprio. No afã de se separar de si
mesmo, empreende uma série de medidas para separar-se de sua própria
pessoa, culminando por se ferir até sangrar e morrer. Suas irmãs,
desoladas, ao levar seu corpo a uma pira, constatam que ele havia se
transformado em uma flor".

Muitos autores psicanalíticos
se debruçaram sobre o tema do narcisismo, dentre eles Sigmund Freud,
Jacques Lacan, Bela Grunberger, Heinz Kohut, Donald Winnicott, André
Green e, entre nós, recentemente, Jurandir Freire Costa.

Freud, nos Três ensaios sobre
a Teoria da Sexualidade descreve os invertidos como sujeitos que "tomam
a si mesmos como objetos sexuais" e, "partindo do narcisismo, procuram
rapazes semelhantes a sua própria pessoa, a quem querem amar tal como
sua mãe os amou".

Em Introdução ao Narcisismo,
Freud faz uma primeira tentativa de inscrever na sua metapsicologia os
achados clínicos de pacientes perversos e psicóticos. Ali, ele
desenvolve a Teoria das Pulsões, opondo as pulsões do Ego às pulsões
objetais. Para ele, o indivíduo sairia do auto-erotismo (em que a
satisfação adviria de si mesmo) por meio da percepção da diferença eu
versus não-eu. Ao perceber precocemente que há algo que não está sujeito
aos nossos mandos, o indivíduo teria, assim, a primeira percepção de um
outro. Dessa percepção, decorre a divisão mental entre Ego e objeto ou,
mais propriamente, entre eu e não-eu. Surge a noção de narcisismo, em
que as pulsões irão investir no próprio eu, em oposição às que
investirão no objeto.

Tal teoria foi muito útil à
Psicanálise, servindo para explicar, por exemplo, as melancolias. Nelas,
o sujeito enlutado por uma perda importante – além de fazer refluir
para o próprio eu as pulsões outrora investidas no objeto perdido –
passaria a se identificar com elas, impossibilitando a saída do luto por
meio do reinvestimento da libido em novos objetos e da identificação
com o objeto morto. Tal elaboração da teoria é fundamental para a
compreensão clínica dos chamados estados limites, ou dos pacientes
fronteiriços, uma vez que a compreensão do complexo de Édipo não era
suficiente para se acercar psicanaliticamente de tais patologias.

A percepção de que tais
pacientes sofriam de patologias narcísicas ajudou em muito a aproximação
clínica dos pacientes de nossos dias. A divisão do narcisismo em normal
e patológico ajuda a entender que o investimento no próprio eu vai
permitir ao indivíduo ter uma auto-estima que lhe permita enfrentar os
rigores da vida cotidiana. Green descreveu o narcisismo como "o próprio
coração do nosso Eu", ou como narcisismo de vida. Nele se ancora toda a
força do indivíduo, pois a possibilidade de reconhecer o sujeito como
outro, como diferente do si, depende do grau em que cada um é capaz de
tolerar a alteridade, isto é, da sua integridade narcísica. Falamos
então de um narcisismo patológico quando esse retraimento em direção ao
Eu toma as características de alheamento em relação ao outro, bem como
da busca de uma fusão com o objeto idealizado. Decorre daí que o
indivíduo desiste de buscar a satisfação, investindo muito mais na busca
do nada, do não-investimento, da simples redução da tensão
intrapsíquica. No dizer de Green, "a aproximação da morte psíquica" ou o
narcisismo de morte; em que o neutro substitui o prazer.

A clínica atual

SHUTTERSTOCK
Hoje, há
um deficit na relação mãe-filha, prejudicando a formação de um eu coeso
e estável

Foi com Kohut que se deu um
passo importantíssimo na compreensão clínica do narcisismo. Ao propor a
teoria dos self-objetos, Kohut trouxe à luz a compreensão do tipo de
transferência possível de ser analisada nos ditos pacientes narcísicos.
Para ele, esses pacientes tratavam o analista como parte de si mesmos, e
era como tal que deviam ser analisados. Ao compreender e aceitar que o
analista era visto e experimentado como parte do analisando, foi aberta
uma porta para uma futura relação objetal ao fim do processo de análise
da transferência narcísica. A compreensão da fúria narcísica, fenômeno
em que o paciente busca se livrar da dor decorrente da ferida narcísica
extravasando maciçamente seu ódio em direção a qualquer um que encontre
pela frente, deu aos analistas uma importante ferramenta para lidar com a
transferência negativa, permitindo que esses pacientes continuassem em
análise até que seu narcisismo fosse compreendido e elaborado.

Esses desenvolvimentos da
técnica psicanalítica vieram bem a calhar, uma vez que estávamos, àquela
época, enfrentando o despertar daquilo que Lasch descreveu como a
Cultura do Narcisismo. Sem querer entrar na análise do texto de Lasch,
devemos destacar que ainda hoje nos vemos às voltas com o problema, uma
vez que, conforme descreve Jurandir Freire, vivemos a era do espetáculo,
na qual a imagem parece importar mais do que a pessoa. Esta cultura
imagética tem forte influência na formação da personalidade dos nossos
tempos, uma vez que a ela se acrescem questões próprias do capitalismo
avançado: a compressão do espaço-tempo, a cultura do descartável, e a
fluidez das relações interpessoais (Bauman).

O enorme manancial de relatos
advindos da técnica da observação da relação mãe-bebê trouxe à luz
importantes contribuições à compreensão do narcisismo, uma vez que é no
início da vida que se dá o processo de inundação narcísica do sujeito.
No dizer de Lebovici, os pais transferem para os filhos o seu narcisismo
primário abandonado, o que foi traduzido pela sabedoria popular como
"Sua Majestade, o Bebê", ou, explicitando um pouco mais, a intensa
paixão amorosa transferida para os fi- lhos – fundamental para a
constituição de um sujeito com boa auto-estima. Hoje temos mães sem
tempo para ficar com seus filhos; ou, para ser mais claros, entendemos
que as relações fluidas de Bauman se estendem à própria relação das mães
com seus bebês. Como conseqüência, encontramos um crescente deficit
relacional justamente onde isso é capital para a formação de um eu
coeso, estável e contínuo ao longo da vida. Tal estado de coisas enseja a
formação de sujeitos com importantes deficits narcísicos e, portanto,
prontos para buscar as compensações próprias da contemporaneidade: uma
imagem que reflita a grandiosidade perdida do Eu. Daí, temos a
prevalência do Ter sobre o Ser, próprio da sociedade consumista.

Na clínica, encontramos
pacientes que se queixam de um vazio interior, vorazes na busca de quem
os ouça e lhes dê a importância e a atenção inencontrável nas relações
cotidianas. Ao sintoma das histéricas de Freud, correspondem hoje os
sintomas próprios das desordens narcísicas: sintomas psicossomáticos,
distúrbios da auto-imagem e da auto-estima, falta de coesão do Eu,
dentre outros.

Sérgio Nick é
psicanalista e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise
do Rio de Janeiro (SBPRJ) e Associação Brasileira de Psicanálise (ABP)

NARCISISMO NO CONSULTÓRIO

Como conseqüência desse consumo incessante de produtos e
subjetividades, o número de atendimentos a casos de narcisismo (leia
quadro Narcisismo: do conceito à clínica) tem aumentado dia
após dia. É nisto que acredita José Renato Avzaradel, membro efetivo da
Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Segundo o
psicanalista, o homem, na condição de parte do meio em que vive, é
influenciado pelo ambiente, e tem apresentado cada vez mais um
comportamento voltado para si. "As pessoas constituíram uma família, têm
uma atividade profissional, têm uma qualidade de vida financeira digna,
mas precisam malhar duas horas todos os dia. De repente, elas não sabem
bem por que se sentem desarrumadas e à beira de um caos", diz. É neste
momento de desarranjo que o sujeito procura a ajuda de um especialista.

Quereres

Este livro abre debate
interdisciplinar sobre as subjetividades contemporâneas, seus
determinantes e implicações psicossociais da atual exaltação de um
individualismo narcisista e do caráter eminentemente simbólico do
consumo, com uma análise teórica e empírica dos ideais veiculados pela
publicidade, suas formas de produção e consumo.

Narcisismo e publicidade

Por Maria de Fátima Vieira
Severiano Editora Annablume 377 páginas R$ 35,00

"O
HOMEM, COMO PARTE DO MEIO EM QUE VIVE, É INFLUENCIADO PELO AMBIENTE, E
TEM APRESENTADO CADA VEZ MAIS UM COMPORTAMENTO VOLTADO PARA SI"

De acordo com Avzaradel, há dois tipos freqüentes de narcisismo. O
primeiro diz respeito a pessoas que demonstram hipersensibilidade e se
sentem feridas com muita facilidade. "Elas se sentem o centro do mundo, e
os acontecimentos são sentidos de um jeito muito forte. As coisas que
as atingem tomam uma importância imensa, mesmo quando, na realidade, a
importância é mínima, ou nenhuma", explica. Segundo o psicanalista,
lidar com pacientes que apresentam este quadro acaba sendo um desafio
justamente por estes se sentirem agredidos com facilidade. "Quando estão
na consulta, estão voltados para si. Para eles, a outra pessoa pouco
existe", complementa.

Uma outra face do narcisismo seria praticamente o inverso:
pessoas que têm pouca sensibilidade diante dos fatos e do outro. "É como
se elas tivessem uma ‘capa’ que as impedisse de sentir as coisas.
Chegam ao consultório e falam como se estivessem conversando sobre outro
assunto, e não sobre elas. Aparentemente, o sentimento não é vivido",
comenta Avzaradel. Além da dificuldade para lidar com as próprias
emoções, estes pacientes, segundo o especialista, também não percebem
com facilidade os sentimentos das outras pessoas em relação a eles.

Ainda de acordo com Avzaradel, o principal objetivo do tratamento
de pacientes narcisistas é fazer com que eles encarem a realidade por
meio da análise. Em certas ocasiões, este enfrentamento chega a ser tão
difícil para estes indivíduos que eles acabam optando pelo fim do
tratamento. "Alguns sabem que ele acarreta o fim deste estágio de
superficialidade em relação aos sentimentos e por isso fogem pensando:
‘se eu perceber qual é a minha realidade, não vou suportá-la”’, afirma.

Para
Avzaradel, a doença pode, sim, ser tratada, mas o psicanalista não se
arrisca a delimitar um tempo médio para o tratamento. Segundo ele, o
processo costuma ser lento, cuidadoso e complexo por conta da
organização e rigidez do sistema de defesa que as pessoas narcisistas
desenvolvem. De acordo com o especialista, o tratamento tem mais chances
de dar certo quando os pacientes são atendidos mais de uma vez por
semana. “Se a deixarmos mergulharem rapidamente nessas percepções, elas
não suportarão; podem fugir do tratamento ou ter um ‘breakdown
psicótico’" (conselho: resumir o termo rapidamente entre colchetes, por
getileza), justifica.

VIOLÊNCIA

A violência é outro assunto extremamente presente em nossa
realidade que mantém uma relação com o narcisismo. Segundo José Renato
Avzaradel, o vínculo entre ambos é difícil de ser estabelecido, porém,
algumas posturas típicas de um indivíduo narcisista chamam atenção para
uma reflexão. O psicanalista explica que, à medida que uma pessoa se
desenvolve, ela refina sua “percepção do outro”, o que faz com que
experimente uma responsabilidade em relação a outros indivíduos e se
relacione com eles. “Ela tem consciência de que não pode fazer qualquer
coisa que machuque uma pessoa, pois, se o fizer, experimentará culpa,
remorso, arrependimento – sentimentos básicos para se relacionar com o
outro. Os narcisistas, porém, nem sempre conseguem experimentar esta
relação de cuidado com o outro”, explica.

"OS NARCISISTAS NEM SEMPRE
CONSEGUEM DESENVOLVER SUA PERCEPÇÃO DO OUTRO E EXPERIMENTAR UMA RELAÇÃO
DE CUIDADO"

SHUTTERSTOCK
Onipotência é
uma das marcas daqueles que sempre buscam nas tecnologias formas de
retardar o envelhecimento

Esta curiosa relação entre narcisismo e agressividade foi tema do
artigo Características narcisistas em jovens adolescentes: relações
com agressão e sintomas de internalização, publicado em 2004, pelo
Journal of Youth and Adolescence.
No texto, Jason Washburn, Susan
McMahon, Cheryl King, Mark Reinecke e Carrie Silver relatam
procedimentos de estudo que analisou o comportamento de 233 estudantes
do Ensino Fundamental II (antigas 5ª a 8ª séries), entre 10 e 15 anos,
procurando fazer uma análise fatorial do Inventário de Personalidade
Narcisista (NPI, na sigla em inglês), amparada em três fatores:
narcisismo adaptativo (nível de auto-estima elevado e formas mais
ajustadas de sensibilidade interpessoal); exibicionismo; e habilidade de
explorar ou manipular pessoas. Análises de regressão foram utilizadas
para predizer a associação entre esses traços, os sintomas
internalizados reportados pelos participantes e a agressão reportada
pelos jovens, professores e amigos.

Um vício, desde o início

A origem da palavra Narciso,
em grego Narkissos, vem de narkes, que significa entorpecimento, torpor,
inconsciência. A palavra narcótica é sua derivada e indica qualquer
substância que altera os sentidos, produzindo narcose. Numa metáfora
lingüística, Narciso ficou entorpecido de si mesmo, tamanha era sua
auto-admiração.

Para nortear a análise, os estudiosos recorreram à Teoria do Ego
Ameaçado, de Baumeister, segundo a qual atitudes agressivas são mais
comuns entre pessoas com auto-estima excepcionalmente mais elevada –
especialmente quando enfrentam uma ameaça com relação à visão
exageradamente positiva que têm de si mesmas – e entre as que possuem
auto-estima frágil e instável, como ocorre com os narcisistas. Outra
referência teórica utilizada foi o Modelo Auto-regulatório de Morf e
Rhodewalt, que sugere que pessoas narcisistas estão constantemente
preocupadas e motivadas em manter a auto-estima, sendo inclusive capazes
de utilizar a agressão como mecanismo para punir uma fonte de ameaça ao
ego.

ADOLESCENTES

Os resultados sustentam a hipótese de que características
narcisistas – em especial a habilidade de manipulação do outro – estão
positivamente associadas a agressões pró-ativas em jovens adolescentes.
No entanto, tais achados se referem ao narcisismo adaptativo como um
fator de risco para agressão quando agregado à baixa auto-estima.
Segundo o artigo, "adolescentes jovens manipuladores estão mais
propensos a utilizar agressão instrumentalmente, possivelmente na
tentativa de reforçar suas grandiosas auto-imagens".

Outra pesquisa focada na relação entre narcisismo e agressividade
foi feita por Christopher Barry, Paul Frick, Kristy Adler e Sarah
Grafeman e noticiada no Journal of Child and Family Studies, em
2006, no artigo A utilidade preditiva do narcisismo entre crianças e
adolescentes: evidência para uma distinção entre narcisismo adaptativo e
mal-adaptativo
. Um dos propósitos do estudo foi verificar se
características narcisistas estão associadas a diferentes conseqüências
comportamentais e como o narcisismo contribui para a predição de
problemas comportamentais de crianças e adolescentes.

Second Life, um vasto campo de
investigação

Alerta: no
mundo virtual, as pessoas constroém o mundo que desejam

A sociedade cada vez mais
oferece soluções para que as pessoas não precisem se deparar com a
própria realidade. Uma delas é o Second Life, um jogo de computador em
que os usuários criam personagens intitulados "avatares" e constroem uma
"segunda vida".

Na opinião de Avzaradel, o jogo tornou- se um
grande campo de investigação e mistério para a Psicanálise, pois permite
que o indivíduo não precise mais resolver os seus dramas, não
estabeleça mais relação afetiva genuína com alguém, sentindo- se o
centro do mundo. "Ele entra em uma segunda vida, em que passa a definir
os outros. Se no mundo real, eles querem tentar fazer com que o outro se
enquadre a sua maneira de ser, no mundo virtual não precisa disso. Ele
constrói o outro e, conseqüentemente, o mundo que deseja",

Os impactos do jogo ainda são desconhecidos para a
Psicanálise, porém Avzaradel já propõe alguns questionamentos
relacionados ao software. Até agora, o que mais chamou sua atenção foi o
tempo gasto pelas pessoas “vivendo” através de seus bonecos. Segundo
ele, cerca de 30% dos usuários passam quase 33 horas por semana no jogo.
"Se um homem passa 12 horas do dia sonhando no Second Life, e 12 horas
acordado no ‘Real Life’, qual é a vida real dessa pessoa? Quem é ela?
Ela pode ser qualquer coisa que constrói", cogita.

Citando pesquisas consultadas recentemente, o
psicanalista afirma que são estimadas, para 2011, 1,6 bilhão de pessoas
no Second Life. Para ele, o crescimento do número de adeptos ao jogo é
praticamente inevitável. "Ele é extremamente sedutor. A pessoa não
precisa passar pela dificuldade de buscar um relacionamento, bem como
tentar se encontrar", diz. E complementa: "O Second Life é um exemplo de
como a sociedade está facilitando muito o caminho para que o narcisismo
se expanda cada vez mais", preocupa-se.


Na cultura do
descartável e da fluidez das relações, as pessoas tentam buscar
compensações para o Ego perdido e manipulável

A pesquisa contou com a participação de 98 crianças, com idade
entre 9 e 15 anos, todas elas submetidas a vários testes, como
inventário de personalidade narcisista para crianças (NPIC, na sigla em
inglês), escala de auto-relato de delinqüência ( em inglês, Self Report
of Delinquency Scale) e o questionário sobre pais de Alabama (Alabama
Parenting Questionnaire
). Durante a análise, os pesquisadores se
detiveram no prognóstico de comportamentos recentes severos e
anti-sociais, além de três anos de controle de avaliação acompanhada e
outros prognósticos de problemas de conduta.

Os resultados do levantamento de dados indicam que o auto-relato
da juventude acerca dos aspectos não-adaptativos do narcisismo –
exibicionismo, poder de manipulação e promoção pessoal – é um
significativo aspecto de natureza intrapessoal e contextual. Segundo os
especialistas, o narcisismo não-adaptativo continua sendo capaz de
predizer como comportamentos delinqüentes tardios são reportados por
jovens e seus pais, apesar de não ter sido positivamente relacionado à
impulsividade, problemas de condução e aspectos negativos dos pais.

Outro
destaque do estudo foi a ligação parental e as dimensões teóricas do
narcisismo. O de caráter não-adaptativo foi significativamente
relacionado a práticas negativas dos pais, enquanto o adaptativo esteve
ligado a atitudes positivas, porém em uma proporção menos significativa.
Os estudiosos também apontam como “intrigante” a conexão entre o uso de
disciplina dura ou inconsistente por parte dos pais e a perda de
monitoramento e relatos de crianças sobre narcisismo não-adaptativo. No
entanto, os especialistas afirmam que a maneira como esta relação se
desenvolve ainda não pode ser determinada, e ressaltam a necessidade de
analisar este ponto de forma cautelosa. "Estes resultados sugerem que
práticas parentais e o narcisismo não-adaptativo poderiam ser
relacionados, talvez de uma forma transacional. Além disso, há mais
alguma indicação, apesar de não particularmente convincente, de que o
narcisismo adaptativo pode estar relacionado à paternidade positiva",
informa o artigo.

Avzaradel acredita que são necessários mais estudos para
esclarecer esta ainda nebulosa relação entre narcisismo e agressividade.
"Na nossa sociedade, temos visto um nível de violência estarrecedor.
Uma pessoa acha natural que um indivíduo seja morto para que ela não
seja assaltada. E QUANTO AO FATO DE A PESSOA SER ASSALTADA E MORTA PELO
ASSALTANTE? Há uma ausência da percepção de que ali existe gente. O tipo
de crime em que a violência nos estarrece deixou de ser exceção. Mas
fazer uma ligação entre narcisismo e essa violência é muito complicado,
pois muitas outras questões podem estar envolvidas", adverte.

REFERÊNCIAS :

FREUD, S. Sobre o
narcisismo: uma introdução [1914]. In: Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago,
1974. v.14, p.89-119.
GREEN, A. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Escuta,
1988. 311p.
KOHUT, H. Análise do self. Rio de Janeiro: Imago, 1988. 304p.
LACAN, J. O estádio do espelho como formador da função do eu, tal como
nos é revelada na experiência psicanalítica. (1949). In ESCRITOS
(Paris, 1966), Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, 96-103.
LASCH, C. A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de
esperanças em declínio. Rio de Janeiro: Imago, 1983. 320p.

Retirado de http://portalcienciaevida.uol.com.br/esps/Edicoes/25/artigo73599-1.asp

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