Don't Worry Be Happy!!!

A crise da sensibilidade – Negar as próprias limitações traz ao homem problemas como a depressão, o maior mal do século. Blaise Pascal torna-se atual na superação da crise da sensibilidade, pois foi o primeiro a buscar interação entre emoção e razão.

A crise da sensibilidade
Negar as próprias limitações traz ao homem problemas como a
depressão, o maior mal do século. Blaise Pascal torna-se atual na
superação da crise da sensibilidade, pois foi o primeiro a buscar
interação entre emoção e razão


Por
Rodrigo dos Santos Mazano



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Rodrigo dos Santos Manzano
é graduado em Filosofia pela UNIFAI, professor da rede
pública do Estado de São Paulo

De maneira geral, nossa época cultua a indiferença à Religião e
até mesmo o ateísmo, considerada como superstição e perda de tempo.
Porém, por trás da aversão à Religião, convencional, cultos a outros
deuses se desenvolvem sem serem percebidos. O culto ao ser humano é a
mais visível destas novas formas cultuais, traduzindo-se numa atuação
humana que acredita ter a resposta para todas as perguntas. A principal
consequência desta crença é a falta de ética que a atual organização
social vê emergir. A crença na chegada ao ápice do desenvolvimento
humano mascara, porém, o caos que a humanidade imerge. O ideal de
perfeição se vê negado por fatos que aterrorizam esta mesma humanidade.
Nunca, ironicamente, se desprezou tanto a questão afetiva e os grandes
problemas que atingem os homens vêm exatamente desta ordem. O mal de
nosso século, a depressão, é o exemplo mais claro disto.

Para os estoicos, há uma razão universal que governa todas as coisas e a
humanidade está inserida nesta ordem cósmica. Só guiando-se pela razão o
homem se torna livre e feliz. Ele não deve deixar-se escravizar pelas
paixões ou por fatores externos, diante dos quais deve se manter
imperturbável, insensível

Outros problemas, como a frieza, a
superficialidade nas relações interpessoais e o estresse, são sinais de
uma sociedade “doente emocionalmente”. Nosso tempo nutre a competição, a
disputa, a rivalidade entre os mais diversos grupos, sejam eles
torcidas de futebol, fãs deste ou daquele tipo de música, classes
sociais, raças, e até mesmo grupos religiosos. As pessoas, cada vez mais
se isolam, mas se sentem cada vez mais sozinhas. Este embrutecimento e
insensibilidade atuais geram uma rede que podemos definir como “rede da
insensibilidade”. Assim, o filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662)
torna-se atual com seu pensamento ao nos fazer refletir na grandeza do
ser humano como único ser capaz de ter consciência de sua existência, de
pensar sobre suas relações com os outros homens, com a natureza, e
também o único animal que sabe que irá morrer. E também sabe a miséria
deste mesmo ser humano, devido à sua imensa fragilidade. Cabe à nossa
era perceber que o ser humano ainda não chegou ao ápice de seu
desenvolvimento, para que assim, este mesmo homem possa reconhecer sua
limitação e repensar a sua existência, principalmente no nível social,
abrindo possibilidades para o desenvolvimento de uma verdadeira
sociedade solidária, algo muito distante da nossa realidade globalizada.
Assim, o questionamento do deus-Homem, servido e projetado por outros
“pequenos deuses” deve caber como uma proposta de reflexão para a
humanidade e seus problemas no século que ainda alvorece.

 

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Israelense orando no Muro das Lamentações,
em Jerusalém. A Religião tem perdido espaço para o culto ao próprio
homem cuja superioridade racional parece ter respostas para tudo

HUMANINADE PERFEITA?

A crença na possibilidade de uma humanidade perfeita é algo
muito antigo. Já Platão, com sua visão tripartite do homem, colocando o
racional como o mais elevado no homem e os que se deixavam guiar pela
reflexão como os superiores entre os humanos, abria o caminho para a
“supremacia da racionalidade”. Porém, nenhuma corrente de pensamento na
Antiguidade foi mais veemente na sua defesa da força do ser humano
diante das adversidades que o estoicismo. Tal corrente, que teve
diversas faces, desenvolvendo-se na Grécia e perpassando a cultura
romana, a tal ponto de um de seus imperadores, Marco Aurélio, ter sido
um dos maiores expoentes desta escola filosófica, baseava- se
praticamente em único ponto, louvavelmente sintetizado por seu criador,
Zenão de Cicio, (homologoúmenos tei physei zen – viver de acordo com a
natureza). Tal corrente pregava uma grande indiferença aos diversos
problemas que a vida podia trazer, elevando assim a grandiosidade do
homem, que uma vez pautado pelo seu lado racional, pode se sentir ileso a
qualquer problema da vida. Esta indiferença, no grego chamado ataraxia
(ausência de preocupações, impertubabilidade), teve grande repercussão
no mundo ocidental.

As ideias estoicas foram fortemente retomadas pela corrente
racionalista, principalmente na estruturação de uma ética pessoal. A
obra do filósofo René Descartes As paixões da alma faz uma forte
apologia à indiferença, na qual cada ser humano deve se adaptar às
vicissitudes que a vida propõe.

Podemos perceber essas tendências estoicas e cartesianas
presentes na mentalidade geral em situações como, por exemplo, escolhas
ou tomadas de decisão, nas quais as pessoas dizem: “preciso pôr a cabeça
no lugar”. Esta frase traz um forte sentido racionalista, e se acredita
que “esfriar a cabeça”, não deixar que emoções venham à tona em
momentos difíceis, é o melhor a ser feito para não haver arrependimentos
posteriores. Porém, tais fatos ainda não são propriamente negativos,
embora idealistas, pois as decisões nunca são tomadas sem influência do
emocional, mas sim carregadas de cunho afetivo. Os frutos mais complexos
do racionalismo herdado de Descartes e do estoicismo são dois: a crença
no superhomem e o desprezo pelas questões emocionais, gerando uma
grande insensibilidade na humanidade, algo que explode de maneira
alarmante em nosso tempo. Alguns exemplos gerais elucidam o exposto.
Cada dia, nossos noticiários e periódicos trazem índices de mortes
alarmantes, muitas vezes ocasionadas por motivos esdrúxulos e banais,
reduzindo vidas a estatísticas. Tais índices mostram como
desvalorizou-se a vida, tanto por aqueles que são agentes das notícias,
assassinos, como por aqueles que as recebem. Salvo casos raros, que nos
parecem muito bárbaros, e causam choque geral, o máximo que temos é uma
relativa comoção que em nada nos toca realmente.

A RIVALIDADE ENTRE GÊNIOS

Pascal foi um dos maiores gênios das ciências de sua época.
Aprendeu sozinho a Geometria e aos dezoito anos criou a primeira
calculadora da história. Tais dotes o opuseram a outro gênio
contemporâneo e colega de seu círculo de discussões, o pai do
racionalismo, René Descartes (1596- 1650). Os dois eram membros do
cenáculo científico do Padre Mersenne, em Paris, a futura Academia das
Ciências de Paris. Assim, a oposição evidente de seus sistemas
filosóficos, apesar de filhos de uma mesma época, também se fazia
perceptível na vida dos dois.

Em um dos trechos de sua obra máxima, o Pensées
(Pensamentos – obra póstuma de Pascal, que, na verdade, era a tentativa
de um discurso apologético ao cristianismo e que foi reunida e publicada
em 1669, sendo estruturada em aforismos), Pascal dizia sobre Descartes
“Escrever contra os que aprofundam demais as ciências. Descartes. Não
posso perdoar Descartes; bem quisera ele, em toda a sua filosofia,
passar sem Deus, mas não pôde evitar de fazê-lo dar um piparote para pôr
o mundo em movimento; depois do que, não precisa mais de Deus.
Descartes: inútil e incerto”.

DECARTES
VERSUS PASCAL

Pascal e Descartes são dois racionalistas, mas de vertentes
diferentes. Descartes, importante na formação do pensamento moderno e
da Ciência, para formular o racionalismo começa duvidando de tudo – como
dos sentidos, que são enganadores. Só não duvida de que duvida de tudo
e, assim, chega ao famoso “Cogito, ergo sum”. Ou seja, “Penso, logo
existo”, pois ao duvidar ele tinha a certeza de que era um ser que
pensava. A partir desse ponto inicial desenvolve todo um método, baseado
apenas na razão, para provar a existência do homem e do mundo exterior.
Já Pascal leva em conta tanto a racionalidade quanto a dimensão
afetiva. Ele afirma que o coração tem razões que a própria razão
desconhece, criticando o pensamento cartesiano, visto como muito
“geométrico”.

Marco Aurélio, imperador romano
que foi um dos expoentes do estoicismo. Essa corrente filosófica
defende que o homem deve agir de acordo com a razão e ser indiferente
aos problemas

A verdadeira compaixão e solidariedade, que deveria tocar os
seres humanos diante da morte de outros semelhantes, dão lugar a um mero
conformismo, que muitas vezes até justifica tais mortes dos mais
diversos modos. Parece que a indiferença defendida pelos estoicos chegou
ao seu ápice, ao ponto de se manifestar pela própria vida. Também vemos
tal dificuldade na relação interpessoal no crescimento dos índices de
“relacionamentos virtuais”. Uma das consequências do racionalismo foi o
mecanicismo, no qual os próprios seres humanos caíram. Vemos isso de
maneira plena na quantidade de pessoas que se relacionam com outras
através de uma máquina, o que pode ser visto como um avanço da
comunicação e da diminuição nas fronteiras do mundo, mas que distancia
as pessoas do contato verdadeiro, dando a impressão de que o orgânico
vai sendo substituído pelo mecânico. Estes casos exemplificam a
insensibilidade na qual vem se aprofundando o rol das relações humanas e
distanciando as pessoas reais, revelando o quanto o lado emocional é
relegado a segundo plano.

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Crianças famintas na Somália. O
culto à razão leva a humanidade a promover muitos avanços, mas relega o
homem real, admitindo mazelas sociais como a fome e a desigualdade

Por outro lado, nunca se acreditou tanto na superioridade do
homem. A razão humana chegou a um número de conquistas, principalmente
nos dois últimos séculos, até então nunca visto antes. Tal fato leva a
uma crença quase inquestionável no ser humano, na Ciência e na razão,
que acentua ainda mais a insensibilidade. Esta crença parece confirmar
Descartes e o estoicismo, elevando o racionalismo e mais uma vez criando
a ilusão de que as emoções não são importantes, são questões
secundárias no desenvolvimento da raça humana. Crê-se no Homem, uma
ideia de humanidade superioridade do homem. A razão humana chegou a um
número de conquistas, principalmente nos dois últimos séculos, até então
nunca visto antes. Tal fato leva a uma crença quase inquestionável no
ser humano, na Ciência e na razão, que acentua ainda mais a
insensibilidade. Esta crença parece confirmar Descartes e o estoicismo,
elevando o racionalismo e mais uma vez criando a ilusão de que as
emoções não são importantes, são questões secundárias no desenvolvimento
da raça humana. Crê- -se no Homem, uma ideia de humanidade, mas
deixa-se de lado os homens, seres humanos reais, que muitas vezes sequer
têm condições de desenvolver o mínimo de sua capacidade racional, pois
mesmo com tantos avanços, a humanidade ainda não superou problemas
básicos, como a fome, o analfabetismo, a distribuição desigual de renda
entre outros.

Diante do
número de informação e realizações com as quais o homem está obrigado a
conviver, torna-se um desafio refletir sobre a sua existência

Esses fatos ajudam a diagnosticar uma falta de rumo na existência
dos seres humanos. Diante do número de informações e de realizações com
as quais se está obrigada a conviver, qual o caminho a ser tomado, qual
rumo seguir? Assim, torna-se um desafio refletir sobre sua existência e
olhar para si de uma maneira holística, podendo realmente reconhecer
quais são seus anseios. Fatores tão característicos de nossa época, como
o consumismo e a globalização, geram maior confusão, e ao mesmo tempo
em que se prega o individualismo exacerbado, a tomada de decisões por
conta própria, cada vez mais as pessoas se veem uniformizadas pelas
redes da “ditadura da moda” e pelos padrões de beleza vigentes. Assim,
sem perceber, a pessoa se vê buscando aquilo que é de sua vontade, mas
não pára para refletir se aquilo realmente é de sua vontade interna ou
se esta vontade lhe é sugestionada, advinda dos diversos formadores de
opinião, na busca pela felicidade. Tal fato, não surpreendentemente,
leva o homem a um vazio, e este a problemas muito hodiernos, como a
depressão e estresse. O primeiro deles é tão grave que ganhou o status
de “mal do século XXI”, já que, segundo os índices da OMS, atinge cerca
de 121 milhões de pessoas em todo o mundo. Tais fatos, que nos parecem
tão atuais, já de alguma forma eram contemplados por um filósofo do
século XVII, contemporâneo e também rival de Descartes, Blaise Pascal.

DUALIDADE DE PASCAL

 

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“Dois excessos: excluir a
razão, admitir apenas a razão” PASCAL

A dualidade é uma das grandes marcas da Filosofia, e
principalmente a do século XVII. Pascal não escapou dela. Ele trabalha a
compreensão humana a partir de dois conceitos chaves: esprit de
geometrie (parte mais racional e especulativa, própria dos conhecimentos
científicos) e o esprit de finesse (algo parecido com a intuição, que
busca algo mais do que simplesmente os dados científicos, mas verdades
existenciais). Pascal não reduz a vida humana ao mero processo racional e
individualista, e principalmente ao mecanicismo, mas reconhece algo a
mais no homem, que são os sentimentos. Para o filósofo, deve haver um
equilíbrio entre estas duas faculdades para se obter uma melhor
compreensão da realidade e vivência.

“Num os princípios são palpáveis, mas afastados do uso comum; de
maneira que, por falta de hábito, custa-nos virar a cabeça para este
lado: por pouco, porém, que nos viremos, vemos em cheio os princípios; e
seria preciso ter o espírito inteiramente falso para raciocinar mal
sobre princípios tão grandes que é quase impossível nos escaparem. Mas,
no espírito de finura (esprit de finesse), os princípios são de uso
comum, aos olhos de todo mundo. Basta virar a cabeça, sem nenhum
esforço; trata-se somente de ter boa vista, mas que seja boa, pois os
princípios são tão sutis e em tão grande número que é quase impossível
não nos escaparem alguns. Ora, a omissão de um princípio leva ao erro;
assim, é preciso possuir a vista bem clara para ver todos os princípios e
também o espírito justo para não raciocinar erroneamente sobre
princípios conhecidos.”

A busca incessante por diversão e
prazer esconde um grande vazio. É um círculo vicioso que só distrai o
homem de si mesmo e o leva à mediocridade
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Segue ele dizendo que, sem o espírito de finura, os homens podem
se tornar insensíveis por não terem uma compreensão dos princípios
constituintes dos sentimentos. “Os que estão acostumados a julgar pelo
sentimento nada compreendem das coisas do raciocínio, pois querem logo
chegar a perceber com um golpe de vista e não têm o hábito de procurar
princípios. E os outros, pelo contrário, que estão habituados a
raciocinar por princípios, nada compreendem das coisas do sentimento,
procurando nelas princípios e não podendo vê-las de um golpe.”

Assim, podemos dizer que Pascal é o primeiro filósofo a buscar
uma integração entre as faculdades humanas para uma compreensão
holística em sua antropologia. O aparente choque entre razão e emoção,
que por anos foi destacado, parece encontrar uma via de solução nos
aforismos pascalianos.

O intuito de Pascal, em sua obra, era fazer uma apologia ao
cristianismo, uma vez que havia se tornado jansenista, uma seita
católica de influência agostiniana que fora declarada herética em meados
do século XVII. Ao trabalhar a situação do homem com relação à
possibilidade de crer, Pascal dá grande importância ao potencial
emocional humano. Dele que nasce a Ética, fruto da Religião, e a
capacidade de julgar, para Pascal inata, o que é certo e o que é errado.

“A ciência das coisas exteriores não me consolará da ignorância
da moral, em tempo de aflição; mas a ciência dos costumes me consolará
sempre da ignorância das ciências exteriores.

Não se ensina os homens a serem homens de bem, e tudo o mais se
lhes ensina; e de nada se jactam mais que de ser homens de bem. Só se
vangloriam de saber o que não aprenderam.”

DIVERTIMENTO

“Sobrecarregamos os homens, desde a infância, com o cuidado
de sua honra, de sua riqueza, de seus amigos, e ainda com o cuidado da
riqueza e da honra desses amigos. Fatigamos os homens com negócios, com o
estudo de línguas e exercícios, e fazemos-lhe sentir que não poderão
ser felizes sem que a sua saúde, honra e fortuna, e as de seus amigos
estejam em ordem, e que basta faltar-lhes uma destas coisas para se
tornarem infelizes. E damos- -lhe encargos e negócios que os atormentam
desde que desponta o dia. – Eis aí, direis, uma estranha maneira de
fazê-los felizes! Que se poderia fazer de melhor para torná-los
infelizes? – Como! Que se poderia fazer? Bastaria tirar-lhe todas essas
ocupações; então se veriam a si mesmos, pensariam no que são, donde vêm e
para onde vão. Nunca será demais, portanto, ocupá-los, nem jamais os
distrairemos demasiado. E é por isso que, depois de carregá-los de
negócios e lhes sobra tempo para descanso, nós os aconselhamos a
empregá-lo em divertimentos e no jogo, e a andarem sempre inteiramente
ocupados. Como é oco e cheio de baixeza o coração do homem. (…) O
homem é visivelmente feito para pensar; é toda a sua dignidade e todo o
seu mérito; e todo o seu dever consiste em pensar corretamente. Ora, a
ordem o pensamento é de começar por si, e pelo seu autor e sua
finalidade”.
Fragmento do texto Pensamentos,
de Blaise Pascal



O DIVERTISSEMENT



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O consumismo desenfreado é um sinal
de que o homem pouco refl ete sobre seus reais anseios e é impelido a
agir de acordo com os padrões vigentes

Para falar sobre a fuga do homem de si mesmo, o que para nós é
tão atual em tempos de correria e badalação, diz respeito ao
divertissement (divertimento). A busca desenfreada por ocupação, glória,
honra, diversão e prazer, para Pascal, só fazia o homem cair cada vez
mais em um vazio tremendo. Esses desvios e distrações dos seres humanos
são causas visíveis de sua queda na mediocridade, de sua
superficialidade. Embora seja necessário, o homem teme enfrentar-se a si
mesmo e, para tanto, busca a distração. Na abordagem do filósofo, estas
distrações afastam o homem de chegar a Deus, de se voltar ao Sumo Bem,
sendo-nos fácil aqui encontrar os ecos agostinianos. Porém, a abordagem
de Pascal hoje nos ajuda a compreender os problemas levantados no começo
deste artigo. A busca egoísta dos homens por prazer e diversão, por
glória e reconhecimento, gera as consequências citadas acima. E não raro
o problema da depressão, que colocamos aqui como um mal tão preocupante
no século vigente, é um fruto direto da fuga do ser humano de si mesmo.

A
depressão, mal do século, é fruto direto da fuga do ser humano de si
mesmo. Buscando fugir do tédio, o homem acaba fugindo dele próprio

E buscando fugir do tédio, o homem acaba fugindo
dele próprio. Para Pascal este é o fator essencial para o embrutecimento
humano, já que impede o desenvolvimento do esprit de finesse. “Tédio –
Nada é mais insuportável ao homem do que um repouso total, sem paixões,
sem negócios, sem distrações, sem atividade. Sente então seu nada, seu
abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio.
Incontinenti subirá do fundo de sua alma o tédio, o negrume, a
tristeza, a pena, o despeito, o desespero.”

A rica análise antropológica feita por Pascal, tirando todo
idealismo vigente sobre o homem na época, coloca-o diante de sua
limitação e mesmo da necessidade do próximo. Não à toa, Pascal não poupa
críticas aos estoicos. “Estóicos – concluem que podemos sempre o que
podemos às vezes, e que, como o desejo da glória leva os que domina a
bem fazer alguma coisa, os outros poderão igualmente. São movimentos
febris que a saúde não pode imitar. (…) Esses grandes esforços de
espírito, que a alma às vezes atinge, são coisas em que ela não
permanece. Atinge-os somente, não como se atinge um trono, para sempre,
mas por instante apenas. (…) O que os estóicos propõem é tão difícil e
vão! Os estóicos afirmam: todos os que se acham em um alto nível de
sabedoria são igualmente loucos e viciados, como os que se encontram
dois dedos dentro da água.”

A Antropologia Pascaliana, olhando superficialmente, parece
pessimista, e facilmente descartável. Porém, sua vantagem está no olhar
mais realista do homem. Suas percepções incomodam a qualquer um e
provocam a reflexão. Prova que o encontro consigo mesmo ainda é relegado
a segundo plano e mostra- -nos o quanto seu pensamento se faz atual e
plausível. Assim o mito do super- -homem, cultuado por nossa sociedade,
cai por terra.

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“O último esforço da razão é
reconhecer que existe uma infinidade de coisas que a ultrapassam” PASCAL

 

Glorificando a razão e desprezando a
afetividade, a humanidade instaura uma ordem que gera problemas como a
depressão, o mal do nosso século

RAZÕES DO CORAÇÃO

“O coração tem suas razões, que a razão não conhece” Não poderia
terminar esse artigo sem trazer um dos axiomas mais famosos de Pascal.
Ele nos revela a essência do pensamento pascaliano e nos abre a
perspectiva da necessidade do desenvolvimento da sensibilidade. Pascal
nos coloca diante da faculdade emocional em uma era tão marcada pela
supervalorização do racionalismo – como fora o século XVII –
principalmente no cientificismo e na veneração da tecnologia, que
inclusive transformam até mesmo as relações, demonstrando o grau de
insensibilidade de nosso tempo. O apelo de Pascal nos lança o desafio de
reavaliarmo-nos diante da sensibilidade e da emoção para uma
reestruturação das relações humanas. Cabe ao homem contemporâneo buscar
pautar as relações a partir deste olhar. Da questão levantada por
Pascal, da visão holística e realista do homem, surgem outras
perspectivas, e a principal, para a nossa época é o olhar para o outro
como um igual a mim. Pascal continua atual por revelar a constante busca
do homem pelo divertissement, proporcional à sua constante fuga de si.
Fechando-se a si mesmo, a humanidade acredita ser mais fácil suportar a
dificuldade de nossa era. É uma forma de estoicismo, que apresenta sua
crise nos já enumerados sintomas diagnosticados. Urge, de todo esse
cenário assustador, embora velado, a necessidade de uma ética, desejo
último de Pascal em sua Filosofia. Refletir iluminados por Pascal é
colocar o homem no seu devido lugar, de ser limitado, que nada em sua
constituição é perfeito. Há a necessidade da abertura à sensibilidade,
uma sensibilidade generalizada, um verdadeiro esprit de finesse. A
“ética da sensibilidade generalizada” é um apelo, talvez não tão novo,
mas urgente e indispensável para a nossa época. Blaise Pascal abre esta
perspectiva. Olhar o ser humano na sua totalidade é o desafio e a
solução para as futuras gerações e para buscar a autocompreensão e a via
de solução de problemas tão humanos.

A aposta na razão e na indiferença
estoica em detrimento da sensibilidade, leva a um desprezo pelas
relações interpessoais. Mesmo dividindo um mesmo espaço, há um
distanciamento do contato verdadeiro

 Retirado de http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/45/artigo167718-1.asp

Uma resposta

  1. Maria Luiza da

    Parabens pelo teu blog.Muito oportuno neste momento em que a humanidade atravessa crises existenciais graves.

    junho 5, 2010 às 12:55 am

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