Don't Worry Be Happy!!!

Os afetos que nos afetam Da teoria dos humores gregos ao Prozac contemporâneo.


Os afetos que nos afetam



Da teoria dos humores gregos ao Prozac contemporâneo.


POR ANDERSON PEREIRA*


"Jesus chorou"
(João 11:35)

Sim, Jesus chorou. A Bíblia nos
diz que Ele chorou alto e com lágrimas em suas orações (Hebreus 5:7).
Ele chorou por causa de sua amada cidade, Jerusalém (Mateus 23:37). Um
de seus ensinamentos mais famosos e que nos mais nos revigora é
encontrado nas famosas Bem-Aventuranças: "Bem aventurados os que choram,
porque serão consolados" (Mateus 5:5).

A Teoria humoral
Também conhecida por teoria
humoral hipocrática ou galênica segundo as quais a vida seria mantida
pelo equilíbrio entre quatro humores: sangue, fleuma, bílis amarela e
bílis negra, procedentes, respectivamente, do coração, sistema
respiratório, fígado e baço. Cada um destes humores teria diferentes
qualidades: o sangue seria quente e úmido; a fleuma, fria e úmida; a
bílis amarela, quente e seca; e a bílis negra, fria e seca. Segundo o
predomínio natural de um desses humores na constituição dos indivíduos,
teríamos os diferentes tipos fisiológicos: o sanguíneo, o fleumático, o
bilioso ou colérico e o melancólico.

Após muitos séculos ainda sofremos dos mesmos "males" no plano
subjetivo, muitos sofrem das dúvidas do existir, outros das angústias
diante das escolhas, do medo, da saudade, arrependimento, ou de todos
juntos, mas enfim que ninguém diga que já encontrou a cura para a
saudade.

De muleta em muleta, em vão, junta-se esforços para "curar"
aquilo que é a mais sublime virtude do humano, a capacidade de sentir,
de ser afetado pelas situações, de aprender com esses sentimentos, a
oportunidade de entender e extrair seu próprio saber a partir dos afetos
que lhe afetam; assim da teoria dos humores gregos ao prozac
contemporâneo as fantasiosas ilusões que muitos adoram ter, muitas vezes
não resistem ao "real" do cotidiano. Se no princípio era o Verbo, na
atualidade é o mando, aquilo que se entende como discursos que legitimam
práticas de poder e de "arbitragem sobre os corpos", e cada vez menos
nos autorizamos a cultivar a dúvida como possibilidade existencial, é
comum desejar a certeza a qualquer custo. No plano das "interações
sociais", nota-se comumente que se prefere uma má explicação imediata a
uma dúvida momentânea.

A dúvida parece ser insuportável para nossa cultura, assim, nem
reflexivos, nem poéticos, muito menos filosóficos, nisso seguem muitos,
essas são algumas das características dos sujeitos dos nossos tempos;
Tempos de pragmatismo imediato, de exatidão, da justa medida, da justa
certeza, da justa palavra, do justo pensar, enfim, tempos da "justiça do
equívoco" ordinariamente sedutora porém de pouco valor. Vivemos em uma
época de produção de "verdades", de "certezas" ainda que essas se
mostrem tão incertas quanto frágeis, e aquilo que é frágil por si só se
quebra…

O que é o que é?? Clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma
tonelada, (…) e eu que me julguei forte, e eu que me senti, serei um
fraco, quando outras delas vir (…) borrou a letra triste do poeta,
(só) correu no rosto pardo do profeta. E até Jesus
chorou
. (Racionais Mc’s)

Uma pitada de Mito e Biopoder

A preocupação com a explicação da saúde e da doença sem ser em
bases sobrenaturais nasce pelo menos em termos de Ocidente com a
filosofia grega na sua busca em ter uma explicação da constituição da
natureza em bases aparentemente racionais para época. A
Teoria humoral
conhecida também como (quatro humores) fez parte
do principal arcabouço teórico de explicação racional da saúde e da
doença entre o século 4 a.C. e o século 17.

Hipócrates (460a.C.-377a.C.) Ele é o fundador da ciência médica,
traz o fim dos mitos que descrevia a medicina como uma manifestação
mágica e divina. Segundo Hipócrates, as doenças surgiriam pelo
desequilíbrio entre o sangue, a fleuma, a bílis e a atrabile. Esta é a
famosa teoria dos quatro humores corporais, que dependendo das
quantidades presentes no corpo, levariam a estados de equilíbrio ou de
doença e dor. Esta teoria veio a influenciar posteriormente Galeno, que
desenvolveu a teoria dos humores, que dominou o conhecimento até ao
século 18.

Galeno considerava que o corpo traz em si os elementos para a sua
própria recuperação. Nisso as doenças do corpo e da alma como chamavam a
psiquê, eram consequências de um desequilíbrio entre os humores, onde a
causa principal seria as alterações provocada pelos alimentos, os
quais, ao ser digeridos pelo organismo, sintetizariam os quatro humores.
Entre os alimentos, Hipócrates incluía a água e o ar. O papel curativo
da ciência até aí era ajudar a "physis" a seguir os seus mecanismos
normais, ajudando a expulsar o humor em excesso ou contrariando as suas
qualidades, restabelecendo-se então a saúde.

Alcméon de
Crotona

Alcmeão de Crotona
(Alcmeon) (VI a.C.) foi um filósofo pré-socrático, médico grego e um dos
mais importantes discípulos de Pitágoras. Segundo escritos da época foi
também o primeiro a relacionar o cérebro com as funções psíquicas, a
psyqué, ao descobrir, por dissecação, que certas vias sensoriais
terminavam no encéfalo e elaborou uma teoria da desarmonia como causa de
enfermidades. Desenvolveu uma teoria acerca da origem e dos processos
fisiológicos das sensações, sugerindo que os sentidos estariam ligados
ao cérebro.

Mas antes disso, um longo percurso se deu com Alcméon
de Crotona
(fl. 535 a.C.) baseando-se na ideia de Pitágoras
(560-480 a.C.) sobre o equilíbrio em proporções numéricas definidas, foi
o primeiro a caracterizar a saúde como um equilíbrio no corpo humano de
qualidades opostas, como o frio e o quente, o úmido e o seco, o doce e o
amargo. A partir disso, a doença seria também um desequilíbrio, uma
desproporção entre essas mesmas qualidades, assim no mesmo caminho
desenvolvendo as teorias de outros filósofos sobre a importância da água
ou do fogo como elementos base na constituição da matéria. Empédocles
(492-432 a.C.) definiu os quatro elementos, terra, água, ar e fogo e
como sendo os constituintes de todas as coisas, as quais variavam entre
si na proporção em que entrava cada um desses elementos. Para ele, a
doença era provocada por desequilíbrio entre esses elementos na
constituição do corpo humano. Assim, essas abordagens davam conta de
tentar explicar o "real" para as mentalidades da referida época.
Atualmente, a ciência ocupa paradoxalmente o lugar do mito, autorga- sea
autoridade de explicar o mundo sob sua ótica e, além disso, promete a
cura dos males que atormentam a humanidade desde a sua tenra existência
sobre a Terra.

Dessa forma, o que diria Hipocrates sobre, chamada por muitos
especialistas, a epidemia de depressão contemporânea, como no caso do
filme Geração
prozac
? E nisso como se colocará as futuras gerações? É
justamente isso que deixa claro o não "resolvido da existência", não
desenvolver sensibilidade para compreender todos os aspectos da vida; se
a alegria faz parte da vida, a tristeza também, numa visão mais crítica
a biopolítica lida com a população humana nisso. Foucault apresenta
como exemplos da nova atuação do Estado a criação das instituições
públicas para a medicalização da população, a higiene pública, o
controle das epidemias e a criação das instituições de assistência à
população. A cidade se torna o "locus" privilegiado da atuação
biopolítica.

No trabalho acadêmico "Em o Uso do Corpo", em 1923, com 31 anos, J.
B. S. Haldane, um dos fundadores da genética de populações, previu que
em menos de cinquenta anos já se criariam embriões e fetos inteiramente
fora do útero, seguida pela implantação do zigoto no útero. Atualmente a
medicina concentra muito poder fazendo transferência de genes atuando
em conjunto com a imensa indústria farmacêutica. Nesse cenário de
práticas cientificistas que visam a tudo responder e que sempre
ultrapassam em seu próprio anseio, os efeitos colaterais são mais
insuportáveis que o suposto incomodo inicial. Se antes o mito respondia
as questões da existência, hoje os medicamentos não atendem a demanda
posta.

Um pouco de existencialismo e ideal

Já ao nascer choramos ao invés de sorrirmos, talvez isso já seja o
prenúncio do estar nesse mundo, numa abordagem existencialista, a porta
de acesso à condição humana é a experiência da angústia. Nisto
concordam todos os existencialistas, e podemos então primariamente
considerar que o existencialismo é um voltar-se para a singularidade e
particularidade do indivíduo, na linguagem de Heidegger com o conceito
de "ser-nomundo" traça-se um caminho para o inesperado, uma espécie de
"elogio ao imprevisto", que já é um razoável ponto de partida para uma
maior lucidez no entendimento da sua própria condição no mundo, nisso o
ser humano sempre está aberto para tornarse algo novo, sempre está para
além da situação na qual se encontra.

Geração prozac
(Prozac Nation, EUA/
Alemanha,2001) Elizabeth é uma típica personagem da pós-modernidade, em
busca do sucesso profissional, se sobrecarrega na produção de seus
artigos para revistas, estudando em uma Universidade que exige grande
dedicação de tempo e esforços. Sofre com os problemas da mãe que
trabalha também cada vez mais para suprir os gastos dela, principalmente
com o pagamento da terapia, e acaba cada vez mais ansiosa, sendo isso
percebido pelo excesso no fumo e os gritos histéricos em que diz que não
aguenta mais viver e acaba rendendo-se a medicalização. Não se sente
capaz de controlar sua vida, não consegue seguir o que lhe impõe o poder
de controle tão evidente dentro da Universidade, onde cada um deveria
se vigiar e se conter.

Schopenhauer
Postulou que o mundo não é
mais que Representação, foi o filósofo que introduziu o Budismo e o
pensamento indiano na metafísica alemã. Ficou conhecido por seu
pessimismo e tem contato com o Budismo como uma confirmação dessa visão.
Assim a suprema felicidade somente pode ser conseguida pela anulação da
vontade.

Como um certo "gerúndio prolongado" que se estende por algumas
décadas, ou ainda um eterno rascunho, projeto ou esboço, um ser
inacabado, devir para existencialista, essa condição posta do ser
humano, esse encontrando-se numa situação, num círculo de afetos e
interesses no qual o homem se acha sempre imerso, porém, nunca preso a
ele estando na condição então de "devenire encarnado" se reinventando a
cada passo, como Sartre em uma das suas máximas em o que mais vale e o
que homem faz do que fizeram dele.

Ser ou não ser, eis a questão. Somos a própria essência oculta em
nós, enigma em si. O filósofo alemão Martin Heidegger disse: "O homem é
um ser que está para além da sua própria situação". Sören Kierkegaard
considerava que ao escolher deixava-se de lado outras opções sem ter
certeza de que a escolha foi a melhor ou será bem-sucedida. Eis que aí
está o desespero do homem na relação do "Eu" consigo mesmo, não há
escolha sem angústia. Para Kierkegaard, o existir autêntico afirma-se no
compromisso ao risco das escolhas da vida cotidiana, que busca-se em
uma verdade vivenciada e não teorizada. Esta vai expressar-se no
comportamento do dia a dia frente as demandas próprias do "estar neste
mundo". Por isto, a verdade é fruto da ação e não de um pensamento
teórico, daí a angústia porque ninguém pode fugir a este sentimento que
acompanha toda escolha. Cada escolha é um ato de optar por um sentido
existencial. Quando escolho sou eu quem me escolhe, eu que me fabrico,
pois toda opção é feita em função de uma opção interior, pela qual eu
julgo que irei me realizar. A escolha muitas vezes é uma aposta de
satisfação.

Friedrich Nietzsche colocava em seu Ecce Homo que "a mentira do
ideal seria a maldição da realidade por muitos séculos" Então eis que
emerge a questão. Viver buscando a perfeição? Ou viver consciente de que
a vida perfeita é impossível? Diante desse dilema subjetivo como
decidir? Nesses termos a vida ideal seria uma espécie de "utopia
trágica" com a única função de provocar frustração e uma sensação de
dever não cumprido, o que geralmente desencadeia sentimentos de fracasso
e a desintegração de uma autoimagem positiva.

Os afetos que nos afetam têm função de provocar reflexão de como
ainda depois de muitos séculos, em muitos aspectos, sofremos dos mesmos
males, angústias, medos, ansiedades e incertezas. Esses são apenas
alguns dos muitos fantasmas que atormentam a humanidade há séculos, e ao
que tudo indica parecem ser constitutivos do existir humano, como se
não houvesse humano onde não houvesse angústia ou algum tipo de
desconforto no existir. Seria então a vida uma experiência de
manifestação do inesperado?

Trazendo a reflexão para o campo do cotidiano na sua contra
posição questionaríamos como iremos nos manter sóbrios sem tornarmo-nos
medíocres e ainda livres das "Muletas química"? Se temos que receitar
algo, que tal receitar uma dose diária de Arte? Schopenhauer
admitia que a arte representaria um paliativo para o sofrimento humano,
podemos entender que a arte tem o poder de defrontar o humano com suas
emoções mais íntimas e sutis, então para não sofrermos muito pelos
ideais não atingidos, a título de sugestão, mais Arte e Filosofia e
menos Prozac.

*Anderson Pereira é psicólogo e palestrante – pereira@portalnese.com

Retirado de http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/22/artigo163515-2.asp

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