Don't Worry Be Happy!!!

Memórias!!!

Meu avô por parte de mãe viveu até os 91 anos.

Pouco antes de morrer ela já não tinha mais memórias, pois ele foi afetado pela esclerose múltipla.

Sabia seu nome e descascava uma laranja perfeitamente, sem machucá-la.

Nunca vi tanta perfeição numa pessoa que não sabia fazer mais nada além disso, descascar laranja.

Morreu feliz, pois não havia nem presente, passado ou futuro na sua mente.

A noção de tempo se foi, e a memória partiu junto, morreu vazio!

Para muitos familiares foi sofrimento conviver com aquela condição.

Até concordo, pois em certos momentos ele deu tanto trabalho quanto um bebê.

Perdeu a autonomia e se tornou totalmente dependente, tal como “o curioso caso de Benjamim Button”!

Aprendi muito com ele, pois seu processo foi degenerativo.

Ainda “lembro” de alguns momentos compartilhados, ouvindo suas histórias.

Talvez eu esteja trilhando o mesmo caminho que ele, o esquecimento total, esclerose múltipla.

Eu, quando criança, brincava de esquecer aquilo que me incomodava.

Um exercício profícuo objetivando manter-me ausente das próprias recordações, repetições.

Sem saber o que estava fazendo criava a possibilidade de evitar o sofrimento e os apegos.

Hoje, felizmente percebo que evitar entulhar a mente foi uma escolha necessária.

Necessária para permanecer sempre que possível incondicionado.

Brincando de esquecer fui minimizando o efeito daquilo que carregamos inutilmente, muitas recordações.

Apegos de todos os tipos que geramos no decorrer de nossas experiências, vivências.

Se eu não tivesse aprendido a “esvaziar a lixeira” poderia ter sucumbido nos próprios pensamentos.

Escolho viver ao invés de ficar pensando em como viver.

Mas nem por isso estou isento das limitações, pelo contrário, carrego diversas delas.

Sofri e ainda sofro uma série de preconceitos alheios, pois sou esquecido.

Isso é imperdoável numa sociedade que valoriza a atividade em excesso.

Os agendamentos, e a vida regrada conforme o calendário e o tic-tac do relógio.

Formigas que trafegam incessantemente tipo correição!

Desse ponto de vista sou um excluído, ou melhor, improdutivo segundo algumas pessoas.

Um estranho objeto ocupando um espaço no mundo!

Para mim, sentir, perceber, intuir é muito mais interessante do que agendar o viver.

O pensamento por vezes me isola, me coloca diante de ficções criadas pela mente inquieta.

Portanto, quando me esqueço, possibilito que minha mente tranquilize.

Pois com memória reduzida minimizo os pensamentos e vivo o presente.

Tal como um presente que é o presente vivido.

Presente esse que só pode ser vivido no instante, aqui e agora, nunca antes ou depois.

Prefiro o estranhamento sobre o presente do que as memórias do passado.

O estranhamento diz que estou diante de algo inédito, uma experiência singular.

Se vivesse na memória perceberia o viver como algo repetitivo ou até monótono.

Muitas pessoas vivem assim, incrustadas na monotonia, repetitivas, totalmente condicionadas.

Infelizes pela condição assumida, escolhida.

Prefiro o presente e suas peculiaridades, sutilezas momentâneas.

Om Gam Ganapataye Namaha!!!

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