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Assimilação dos complexos – C. G. Jung

Segundo Jung: Assimilação dos complexos.

Um passo dos mais importantes para o conhecimento de si próprio, bem como para o tratamento das neuroses, será trazer à consciência os complexos inconscientes.
Mas convém não esquecer que a tomada de consciência do complexo apenas no plano intelectual muito pouco modificará sua influência nociva. Há neuróticos que seriam até capazes de escrever excelentes monografias sobre seus conflitos mas que continuam quase tão doentes quanto antes. Para que se dê a assimilação de um complexo será necessário, junto à sua compreensão em termos intelectuais, que os afetos nele condensados sejam abreagidos. isto é, exteriorizem-se através de descargas emocionais. Os primitivos davam expressão a choques e traumas emocionais por meio de danças e cantos repetidos inúmeras vezes até que se sentissem purgados desses afetos.
Nós pretendemos funcionar só com a cabeça. Por isso discorremos inteligentemente sobre nos sos complexos, mas eles continuam bem encravados na textura inconsciente-corpo, produzindo sintomas somáticos e psíquicos totalmente irracionais.

Todos os fenômenos psíquicos são de natureza energética. Os complexos são nós de energia.

Jung vê a psique em incessante dinamismo. Correntes de energia cruzam-se continuadamente. Tensões diferentes, pólos opostos, correntes em progressão e em regressão entretêm movimentos constantes.

Numa visão de conjunto da energética psíquica, Jung postula a existência de dois pólos fundamentais que se defrontam. De uma parte estão as forças que alimentam o insaciável apetite dos instintos e, de outra parte, as forças que se opõem às primeiras, que restringem a impetuosidade instintiva. A inter-relação dessas forças antagonistas promove a auto regulação do equilíbrio psíquico.
O combate entre esses dois opostos tem sido vivenciado pelo homem em todos tempos e comumente é designado pela oposição natureza-espírito. Espírito não é entendido  aqui como  algo transcendente. Para Jung, as forças que se opõem à instintividade são tão naturais quanto os próprios instintos e, tanto quanto estes, são poderosas. “Rigorosamente falando, o principio espiritual não entra em colisão com o instinto, mas com a instintividade cega na qual se manifesta predominância injustificada da natureza instintiva em relação ao espiritual. O espiritual também se apresenta na vida psíquica como um instinto, mesmo como uma paixão ou, segundo disse Nietzsche, “como um fogo devorador”. Não se deriva de qualquer outro. instinto, mas é um principio sui generis, uma forma especifica e necessária da força instintiva.
Do jogo entre tensões opostas resulta a liberação de relativos excedentes de energia e o natural estabelecimento de declives por onde se escoe esta energia livre. Com efeito, a história da humanidade demonstra que já o homem primitivo conseguia dispor de cotas de energia para aplicação utilitária no mundo exterior e para operações transformadoras internas, que se realizavam por intermédio da formação de símbolos religiosos, de rituais e de atos mágicos. Não está todavia no poder do homem canalizar os excedentes energéticos para objetos escolhidos racionalmente.

O processo de individuação é descrito em imagens nos contos de fada, mitos, no opus alquímico, nos sonhos, nas diferentes produções do inconsciente. Sobretudo através dos sonhos será possível acompanhá-lo ao vivo nos progressos, interrupções, regressões e interferências várias que perturbem seu desenvolvimento.

A preliminar será o desvestimento das falsas roupagens da persona. Para estabelecer contatos com o mundo exterior, para adaptar-se às exigências do meio onde vive, o homem assume uma aparência que geralmente não corresponde ao seu modo de ser autêntico. Apresenta-se mais como os outros esperam que ele seja ou ele desejaria ser, do que realmente como é. A esta aparência artificial, Jung chama persona, designação muito adequada, pois os antigos empregavam esse nome para denominar a máscara que o ator usava segundo o papel que ia representar. O professor, o médico, o militar, por exemplo, de ordinário mantêm uma fachada de acordo com as convenções coletivas, quer no vestir, no falar ou nos gestos. Os moldes da persona são recortes tirados da psique coletiva.
Se, numa certa medida, a persona representa um sistema útil de defesa, poderá suceder que seja tão excessivamente valorizada a ponto do ego consciente identificar-se com ela. O individuo funde-se então aos seus cargos e títulos, ficando reduzido a uma
impermeável casca de revestimento. Por dentro não passa de lamentável farrapo, que facilmente será estraçalhado se soprarem lufadas fortes vindas do inconsciente.

Nenhum exemplo ilustrará melhor o que seja a persona, que o conto de Machado de Assis – O Espelho. Neste conto, Machado apresenta a teoria de que o homem tem duas almas: “uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”. (… ) “Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc.” E narra o caso de um jovem que, sendo nomeado alferes da guarda nacional, tanto se identificou com a patente que “o alferes eliminou o homem”. Quando, por circunstancias especiais, ele foi obrigada a ficar sozinho numa casa de campo onde não havia ninguém para prestar as louvações e marcas de respeito devidas ao alferes, sentiu-se completamente vazio. Até sua imagem no espelho, ele via esfumada, sem contorno nítido. Este fenômeno estranho levou-o ao pânico. Desesperado, lembrou-se de vestir a farda de alferes. “O vidro reproduziu então a figura integral, nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior”.

Quanto mais a persona aderir á pele’ do ator, tanto mais dolorosa será a operação psicológica para despi-la. Quando é retirada a máscara que o ator usa nas suas relações com o mundo, aparece uma face desconhecida. Olhar-se em espelho, que reflita cruamente esta face, é decerto ato de coragem. Será visto nosso lado escuro onde moram todas as coisas que nos desagradam en nós, ou
mesmo que nos assustam. 8 nossa sombra. Os primitivos acreditavam que a sombra projetada por seus corpos, ou sua imagem refletida n’água, fosse uma parte viva deles próprios. E, com efeito, a sombra (em sentido psicológico) faz parte da personalidade
total. As coisas que não aceitamos em nós, que nos repugnam, e por isso as reprimimos, nós as projetamos sobre o outro, seja ele o nosso vizinho, o nosso inimigo político, ou uma figura símbolo como o demônio. E assim permanecemos inconscientes de que as
abrigamos dentro de nós. Lançar luz sobre os recantos escuros tem como resultado o alargamento da consciência. Já não é o outro quem está sempre errado. Descobrimos que freqüentemente “a trave” está em nosso próprio olho.
Quanto mais a sombra for reprimida mais se torna espessa e negra.

Valerá a pena o árduo trabalho da individuação? Aqueles que não se diferenciam permanecem obscuramente envolvidos numa trama de projeções, confundem-se, fusionam-se com outros e deste modo são levados a agir em desacordo consigo, com o plano básico inato de seu próprio ser. E é este “desacordo consigo mesmo que constitui fundamentalmente o estado neurótico”. Prossegue Jung: “A libertação deste estado só sobreviverá quando se pode existir e agir de conformidade com aquilo que é sentido como sendo a própria verdadeira natureza”. Este sentimento será de início nebuloso e incerto mas, à medida que evolui o processo de individuação, fortalece-se e afirma-se claramente. Então o homem poderá dizer, ainda que em meio a dificuldades externas e internas, ainda reconhecendo que nenhuma carga é tão pesada quanto suportar a si mesmo: “Tal como sou assim eu ajo”.

Retirado de JUNG VIDA E OBRA – NISE DA SILVEIRA

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